26 novembro 2007

Perdido, em Candoso

O passeio do dia 24 de Novembro levou-me até Candoso! Nada estava estudado. O Outono causou alguns danos na minha “máquina” ao nível do sistema respiratório e bicicleta ainda não recuperou dos maus tratos que sofreu no Passeio de S. Martinho, em Carrazeda de Ansiães.
Saí sem destino, pelo trilho que liga Vila Flor ao santuário de S. Cecília. O sol estava quente mas o ar frio! Bastava olhar em direcção a Bragança para descobrir porquê. Lá longe no horizonte, já em terras de nuestros hermanos, os cumes das montanhas estavam cobertos de neve! O céu estava como eu gosto, de um azul vibrante salpicado por longas nuvens, penduradas de onde em onde.
Uma paragem aqui, outra paragem ali, fui aproveitando a folhagem outonal que os castanheiros e os carvalhos proporcionam. Toda a zona de Carvalho de Egas, Valtorno, Mourão, Alagoa e Candoso estão nestes dias vestidos de Outono, com cores alaranjadas esperando ser fotografadas.
As “máquinas” estavam a portar-se bem, cheguei rapidamente ao santuário. Procurei um ponto alto. Veio-me à memória a prosa de Cabral Adão: "os seus olhos pousaram naqueles montes ásperos, eriçados de penedias graníticas, carcomidas de líquenes seculares, donde brotam carrasqueiras secas, zimbreiros, troviscos, giestas e mato bravio. Povoações raras, como o Gavião, com duas dezenas de fogos, alguma curriça de gado, diluída no tom cinzento da paisagem; e ao longe, como cortina verde parda, a serra do Reboredo, Moncorvo poisada a meio, tal ninho de peneireiros cheio de ovos brancos”.

Aproveitando o pouco tempo de sol que ainda restava, segui para Carvalho de Egas, e daí para Candoso. A Fraga do Ovo é um símbolo do concelho. Rodeei-a à procura de um ângulo fotogénico menos gasto. Tenho fotografado inúmeras rochas deste género por quase toda a área granítica do concelho! Obras da natureza, no mínimo, bizarras.
Não perdi mais tempo. Comecei a descer para o centro de Candoso. Quando levanto os olhos, avisto no cimo da colina a singela capela de Nossa Senhora da Assunção, já pincelada dos tons laranja do fim da tarde. Estive ali no dia 29 de Janeiro, numa tarde fria. Subi de novo ao santuário. As sombras já se estendiam pelos pontos mais baixos em redor. Mesmo assim, a paisagem estava bonita. Mais à frente estendia-se o Vale Covo, que já conheço melhor, até ao Mogo de Malta. Mais próximo, ainda reflectindo os raios do sol, estava o marco geodésico do Pelão, vigiando uma vasta área em redor. Centrei a minha a tenção mais longe, nas serras próximas de Mirandela. Pouco a pouco cobriam-se com mantas de nuvens tecidas da mais fina lã, com cintilações douradas, misturando os tons quentes com os ares frios.
O tempo escoava-se, tinha que voltar para casa. Num ímpeto, desci à aldeia, que atravessei sem parar, continuando em direcção a Norte, à procura de um caminho desconhecido. Quando me encontrava a pouco mais de um quilómetro da aldeia, de novo num ponto elevado, a vegetação cobriu-se integralmente em tons de vermelho e ouro.

Enfeitiçado, parei e olhei para trás. Uma bola de fogo cobria o cume do Pelão, espalhando fumo e lava por toda a imensidão do céu e da terra. Todas as coisas mudaram de cor! Só se via negro, amarelo, dourado, vermelho, tudo isto contra um céu que teimava em se manter de azul. Das casas de Candoso saíam finas espirais de fumo que se espalhavam pelos telhados e invadiam as ruas. Em choque com tanta beleza, qual estátua de sal, fui registando cada segundo do precioso instante. No pequeno ecrã da câmara digital todo o horizonte resultava num cone vulcânico despejando fumo e fogo, pelo céu e pelo chão, criando um cenário irreal, assustador, belo e silencioso.
Despertei atordoado, como que de um sonho, pelo ar ainda mais fresco da noite que me ameaçava. Tinha que sair daí imediatamente. Entre voltar para trás, de novo para Candoso e continuar pelo caminho desconhecido que seguía, decidi pelo mais arriscado, continuar em frente. A lua já se mostrava por sobre o Facho e foi ganhando brilho à medida que o sol morria. Via Samões bem próximo mas, entre mim e a aldeia, estendia-se um longo e profundo vale onde corria a Ribeira do Vimieiro. Seguindo já com algum nervosismo, encontrei um bonito pomar de macieiras literalmente plantando no meio das rochas. O caminho terminava ali! Voltei para trás, apressadamente e tomei outro caminho, mostrando menos utilização, mas que parecia dirigir-se pela encosta do vale. Senti que a noite chegava rapidamente e eu estava a ser castigado qual mulher de Ló, pelo tempo que passei olhando para trás, enfeitiçado pela beleza dos tons dourados. Quando alguns cães me ladraram, reconheci o local onde me encontrava.
Estava no local das Olgas, onde há algumas cortes para as cabras. Respirei fundo, dali já me orientava bem. Segui por um trilho que me levou à estrada de Freixiel, perto da Redonda. O ar estava fresco, sentia-me bem fisicamente e estava no caminho certo. Encontrei a cadência adequada e deixei-me levar, estrada fora, revivendo a aventura, recordando as cores, “rabiscando” esta história. Só o meu corpo ia sobre a bicicleta, o meu espírito voava, satisfeito.
Quilómetros do percurso em BTT: 26
Total de quilómetros em bicicleta: 1660

5 comentários:

Esmeralda disse...

Olá
...e eu a falar de bruxas. Quais bruxas, qual carapuça... Encantamento! Admiração! Beleza!
Abraço
Esmeralda

Anónimo disse...

Olá,

Muito obrigada pela Beleza, Poesia,Sensibilidade, Generosidade...
Beijinhos de uma transmontana maravilhada.

Li Malheiro disse...

Olá.
Dás cor ao Reino Maravilhoso de descoberto por Miguel Torga e as Viagens pela Nossa Terra ficam muito mais rica com a tua prosa e interessantes e nós, simples mortais, vivemos assim suspensos destas pérolas com que nos brindas.
Abraço.
Li Malheiro

Esmeralda disse...

Olá
Já li uma quantas vezes (e não me canso)!Esta "visão" do real em surreal também motivou grande impacto de escrita. Tens aqui passagens maravilhosas! As fotos são de encantar! Parabéns! Obrigada!

Xo_oX disse...

Obrigado, por todos os comentários.
Acontece que, à noite quando escrevo, com 200 ou 300 fotografias à frente, entro numa espécie de transe. Não sei se é mais "saborosa" a viagem se a escrita. Fico contente quando verifico que alguém lê.
Cumprimentos