15 dezembro 2007

Nossa Senhora da Lapa


Nos últimos tempos tenho subido bastantes vezes ao Santuário de Nossa Senhora da Lapa. Se a vista sobre a vila é privilegiada, aquela que estende até onde o olhar alcança, é estonteante. Os poucos visitantes (e namorados apreciadores da paisagem), sobem até ao ponto mais alto, onde se situa o miradouro. Mas, encaixada nas rochas da encosta, um pouco mais abaixo, encontra-se a ermida da Senhora da Lapa, que dá o nome a todo o conjunto das capelinhas.
Porquê Senhora da Lapa? O culto a Nossa Senhora da Lapa é muito antigo e está espalhado por Portugal, Espanha e por todas as ex-colónias, principalmente Brasil. Parece ter nascido na Serra da Lapa, concelho de Sernancelhe, distrito de Viseu. A primeira capela que lhe foi dedicada, foi construída no século XV. Nesta serra, uma menina encontrou escondida nas rochas uma imagem de Nossa Senhora, que levou para casa. A mãe, não dando importância, lançou-a na fogueira. A criança, muda desde a nascença, falou pela primeira vez, pedindo à mãe para não queimar a imagem.
A pequena ermida de Nossa Senhora da Lapa, em Vila Flor, encontra-se parcialmente encaixada numa pequena gruta (também designada por lapa), escavada no xisto da encosta. A tradição fala que aí apareceu Nossa Senhora. Há quem a olhe e veja uma pobre capela, mas, também há quem olhe e sinta de outra forma:
“Em noites escuras, sejam calmas ou tempestuosas, bilha sempre uma luzinha mortiça no alto da serra do Facho. Vê-se de longe, a tremeluzir, como pequenina estrela que se tivesse desprendido da cúpula e ali viesse poisar, entre pinheiros e fraguedos. Essa luz tem alguma coisa de mística, porque é votiva: é da lamparina duma ermida rústica, erguida à Senhora da Lapa pelo povo da vila, que se estende a seus pés.
Está, o pavio, mesmo por trás do vidro da única porta da capela, como um olho luminoso a velar pelas almas que habitam ao fundo - vigilância e bênção.


Merece atenção, a capelinha da Senhora da Lapa. É pequenina, sempre caiada de novo, encastoada numa mole de xistos eriçados em atitudes ciclópicas, escoltada por pinheiros de tronco direito e alto, com as comas sadias e cor e viço, onde o vento fere gemidos doces e fragrâncias resinosas. De roda, vegeta um mato plebeu, urzes, carquejas, arçãs, mentrastos, bordejando tocas onde a caça se esconde. Um único carreiro nos leva até ao alto, numa inclinação de grande esforço, e carreiro pouco pisado.
A capelania é dos pastores que por ali apascentam gados, nos baldios da serra. São eles que se revezam no azeitar da lamparina, solícita e ininterruptamente, para que nunca falte a chama devota a iluminar os longes da veiga e o interior da capela.
Este interior também é curioso. As duas paredes laterais, fortes como muralhas, e o tecto, entroncam na inclinação escavada dum rochedo, duma lapa enorme que, assim, forma a fundo do reduzido recinto, e nicho, amplo e natural, à imagem de Nossa Senhora, assente numa peanha que sobressai do tampo dum altar vulgar. Tudo muito branco, camadas de cal sobrepostas por caiações sucessivas, lajedo de granito já puído pelo desgaste talvez de séculos, caldeira de água benta num armarinho furado numa das paredes, a lâmpada já falada e algumas velinhas de cera penduradas a um lado, de promessas feitas - aquele ambiente é um recantozinho de regiões místicas, onde a gente se sente melhor, menos profana, mais tocada por influências do Céu...”

A esta descrição, feita em 1955 por Cabral Adão, acrescento a presença de uma caveira, à direita do altar, que sustenta uma curiosa lenda, contada na vila e que guardarei para outra altura.

2 comentários:

José Carlos disse...

Bom dia Sr. Professor!
Gostei da lição!
Ainda é o que vai valendo, por este país adentro, haver gente voluntariosa e disponível como o Aníbal. Hoje apeteceu-me "viajar" e saber a lenda de N. Senhora da Lapa e encontro este "explicador cicerone". Parabéns e obrigado.
Um abraço.
José Carlos

Fernando Ramos disse...

Obrigado Sr. Professor, Aníbal pela explicação. Contudo, gostaria de saber o ano ou o século de construção da capela da Senhora da Lapa, e. VILA FLOR.
Obrigado.
Fernando Ramos