10 janeiro 2008

Pelourinho de Santa Comba perde classificação

Um artigo publicado no Jornal Nordeste, referente à desclassificação por parte do IGESPAR (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico), do pelourinho de Santa Comba, chamou a minha atenção. Desde que me desloquei pela primeira vez a Santa Comba, no ano passado, que me interessei pelos seus cruzeiros (e na altura pelourinho). Quando tentei aprofundar o assunto com algumas leituras pude verificar que este não era pacífico, oscilando as opiniões entre cruzeiro e pelourinho. Devo dizer que alguns pelourinhos do concelho não tiveram sempre uma “existência” fácil, como o caso do de Vila Flor de que poderei falar noutra oportunidade.
Uma consulta no site do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, permite-nos saber que o registo PT010410120002 é o “Pelourinho de Santa Comba de Vilariça / Cruzeiro de Santa Comba de Vilariça”, situado no entroncamento das ruas Manuel José e São Pedro. Diz também que “O cruzeiro assenta num soco recente de dois degraus de planta quadrangular. A coluna na sua base é de feição quadrada passando depois à sua forma oitavada. Duas das faces mostram inscrições ilegíveis. Um cilindro faz as vezes de capitel que suporta uma cruz latina com os topos dos braços boleados.” Na tipologia, diz tratar-se de um cruzeiro de caminho e nas observações consta a participação de alguém que afirma categoricamente “O Pelourinho de Santa Comba de Vilariça não existe. O que existe são três cruzeiros, tendo um deles estrutura muito semelhante ao de um pelourinho e que se situa no cruzamento das Ruas de Manuel José e de São Pedro. Deve ser proposta a desclassificação. É verdade que ele é classificado em 1933 e referenciado em Pelourinhos, Lisboa, 1935. No entanto não esqueçamos que Luís Chaves não o menciona em Os Pelourinhos Portugueses, Lisboa, 1930. Do mesmo modo, Alberto de Sousa não o pintou em 1937 ( veja-se Pelourinhos do Distrito de Bragança, Bragança, 1982 ). Também F. Perfeito de Magalhães não o inclui nas suas aguarelas realizadas entre 1935 e 1957 ( Cf. F. Perfeito de Magalhães, Pelourinhos Portugueses, Lisboa, 1991 ).
Sobre as inscrições que se diz serem ilegíveis encontrei uma referência no livro “Património Artístico da Região Duriense” de Correia de Azevedo, que diz a certo momento "A inscrição que existe no fuste do primeiro (cruzeiro), parece querer dizer: Esta cruz mandou fazer José Esteves e seu filho António Roiz. Tem mais a seguinte inscrição: Mudado em MDCCXI. A inscrição do segundo parece dizer. Esta obra fez Afonso Lopes e seu filho."
Da próxima vez que me deslocar a Santa Comba, estarei atento sobre a qual dos cruzeiros o autor se refere quando diz “o primeiro” e qual é o “segundo”. Sobre o “terceiro”, “à entrada da povoação”, diz que é muito recente.

Se desde há muitos anos é ponto assente que não existe pelourinho mas só cruzeiros, porque razão se deu agora a desclassificação? Parece-me que se deve a mais um equívoco. Além da confusão pelourinho-cruzeiro, há outra no que toca a qual dos cruzeiros era o pelourinho. O mais vistoso parece-me ser o que está no final da avenida Lucinda de Oliveira e é também o mais fotogénico. Basta ver este site para verificarmos que a confusão era grande. Acontece que perto deste cruzeiro está em construção uma vivenda daquelas que metem inveja. Alguém incomodado fez uma queixa ao Património. Foi a gota de água que despoletou a desclassificação. Afinal o cruzeiro/pelourinho em causa até nem era aquele, mas o verdadeiro acabou por ser arrastado na polémica sendo despromovido de todo o prestígio que mantinha há décadas.
Não é nada do outro mundo. Trata-se de repor algo que já muitos haviam afirmado. Por um lado, a aldeia perde. Parece-me que ter um monumento classificado como imóvel de interesse público só ficava bem a Santa Comba. Por outro lado, certas forças locais vêm facilitada a hipótese de construção e modificações em redor, sem a burocracia a que certos organismos ligados ao património obrigam.
Voltando ao início da questão, e para não alongar muito a leitura. O artigo do Jornal Nordeste justifica a existência dos três cruzeiros com um Foral Religioso concedido pelos Frades Franciscanos. ora, quem se estabeleceu em Santa Comba da Vilariça foi a Ordem de Sister. A Abadia de Santa Comba da Vilariça, que se estendeu a Benlhevai, estava directamente ligada ao Mosteiro de Santa Maria do Bouro.
Não deixem de visitar os bonitos cruzeiros de Santa Comba da Vilariça. Mesmo despromovidos, continuam com toda a sua beleza, à espera de serem admirados.

7 comentários:

EnglishCourse-Estig disse...

Permita-me que faça uma pequena correcção linguística: Foi a gota de água que espoletou a desclassificação.
"despoletar" significa desarmar, pôr fim a. Não me parece que seja este o sentido. "espoletar" será o termo correcto.

Quanto ao assunto do texto, é comum ver, pelas nossas paragens, o interesse individual sobrepor-se ao interesse cultural, arquitectónico e histórico.

Aproveito, também, para o felicitar pelo excelente blog que mantém.
Um fim-de-semana,
Joana

Xo_oX disse...

Obrigado Joana pela correcção. No entanto, a questão espoletar/despoletar é pelo menos tão complicada como a de cruzeiro/pelourinho. Procurei nos dicionários mas não fiquei completamente esclarecido. Um artigo no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa que está neste endereço,
http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias.php?rid=887
ainda me baralhou mais.
Vou continuar à procura. Ninguém é dono da verdade.

EnglishCourse-Estig disse...

Olá novamente.
Pois parece "despoletar" tem duas acepções contraditórias, uma militar e outra "civil" :)
Não era meu objectivo ofendê-lo, até porque acho que escreve mesmo muito bem, mas durante a minha formação sempre ouvi "despoletar" como sinónimo de "desarmar" "pôr fim a". Acabei de verificar do mui nobre dicionário da Academia das Ciências e a entrada para o verbo despoletar tem de facto mais que uma acepção, enquanto que espoletar não surge como entrada... Questão dúbia, de facto.

Anónimo disse...

Pelourinhos à parte, se bem que esta questão do pelourinho seja mais uma das questões já habituais e típicas em que a sobreposição dos interesses privados ultrapassam o domínio do interesse público, vou incidir sobre a questão da utilização do termo "despoletar". Tal como é referido no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa despoletar significa (entre outros) "fazer surgir ou surgir repentina e violentamente". Ora no caso presente temos o contexto em que a utilização do termo pretende apenas fazer uma referência do tipo "fazer surgir...", o que nos remete inequivocamente para o termo "despoletar". Também o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa nos diz que "despoletar" significa (entre outros) "retirar obstáculos para ensejar acções" ou "dar ocasião a, desencadear (acção, reacção, movimento)", o que no contexto nos remete novamente para a utilização inequívoca do termo "despoletar". Ora, além desta utilização contextual, corroborada por estes exemplos, há também a utilização habitual do termo "despoletar" que, popularmente pretende fazer uma referência ao desencadear da algo, no sentido de trazer a público um facto, uma notícia, um acto, etc. Fica mais esta "achega", tal como fica o desafio aos linguistas, filólogos e outros especialistas desta área...

monge disse...

Olá Anibal

Pelo que vejo continuas com grande pedalada e sempre atento aos pormenores. Aprecio muito o teu interesse pela nossa história local, assim como pelo teu excelente olho para captar o momento, principalmente os nossos céus.
Também li o artigo no Expresso (um resumo do Nordeste, presumo) mas nem liguei grande importância porque a referência aos frades franciscanos, enorme incorrecção, lembrou outras tantas que por ai pairam. Ainda assim, gostaria de ter acesso ao artigo integral do Jornal Nordeste, o qual agradecia que me envisses, caso seja possível. Se não, agradeço a data da sua edição.
Quanto aos cruzeiros, não me parece que (dos dois que estão na imagem, porque o outro é muito mais recente)nenhum deles tivesse tido a função de pelourinho, por motivos já apontados e por outros.
No entanto, não me parece que qualquer coisa seja desclassificada e que a aldeia perca alguma coisa, isto porque, os eruditos de Lisboa talvez o tenham feito, lá sentados nos seus gabinetes e com base em alguma fotografia aqui da net, sem nunca terem tido o privilégio de os ter visto e tocado como nós.
Abraço para ti e continuação de boas caminhadas ai pelas nossas terras.

Manuel Vilares
(manuel.vilares@clix.pt)

Obs.:Ordem de Cister

Xo_oX disse...

Olá monge (vilares)
Devo ter uma cópia do artigo, algures por aí em PDF que te enviarei logo que a localize.
Ouvi falar de alguns "escritos" de um certo "monge",coisa de bastante valor, sobre Santa Comba. Quando é que será que esses escritos vão aparecer?

Um abraço

Silva disse...

Olá Sr. Aníbal.
Já dizia uma figura pública "que falem mal ou bem, o importante é falarem de nós".Ora esta expressão encaixa na perfeição, esta desclassificação serviu, para além do outro assunto sem qualquer interesse, para publicitar/divulgar, mais uma vez, a nossa maravilhosa aldeia que tem sido menosprezada por alguns...
Como disse, e muito bem,"o Prof.Vilares",a desclassificação nada acarreta de negativo para a nossa freguesia, esta perdura e perdurará com o mesmo valor de sempre, que para os «Santacombenses» é gigantesco.
Aproveito para enviar um cumprimento especial ao "Prof. Vilares", meu conterrâneo, numa altura que, após o sucedido, necessita de muita força... (infelizmente também já passei pelo mesmo, embora com outra idade).
Sr. Aníbal, continue com a mesma dedicação de sempre, o seu trabalho tem sido excelente, tenho divulgado pela nossa freguesia,dentro das minhas possibilidades, toda a sua dedicação,prova disso é que já chegou a ser comentado em Assembleia de Freguesia.

Cumprimentos,
Artur Silva
(ajlagesil@sapo.pt)