12 janeiro 2009

e de repente é noite (XXVII)

XXVII
O sol atravessado pelas sombras
de todos os lugares que habitámos
e onde nada se cumpriu.
Entre desdobráveis planícies
o fantasma de uma vela navega horas
de sermos praias de inexistente
oceano.
Um coágulo de lembranças
suspenso à beira do telhado.
Um inverno tão distante.
Tanto frio.
XXVIII
Vou pelo assombramento de quartos e salas,
inventariando móveis, invadindo gavetas
que derramam no sobrado uma infância
de pinheiros de natal desfilando
em eclipses de comboios de corda.
Os fungos à superfície dos espelhos
denotam os múltiplos semblantes
que, ao reflectirem-se,
neles se descobriram imagens divididas
entre o exílio efectivo e o reino imaginário.
As conchas onde ouvíamos um cicio de mar,
da forma de um nada que podia ser tudo.
O relógio de pesos parado, a poeira do tempo
sobre a engrenagem, sarcasmo do acaso
ao anseio de exactidão dos ponteiros.
E as indomáveis mãos na glacial desmemória
de anónimas, tolerantes faces,
plasmam-se ao alheamento dos ícones
e inundam de água de sombra o ácido das vozes.

Poemas de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografias na monte do Facho, durante a noite.

2 comentários:

aa disse...

Olá, boa tarde!
Muito bem escolhidos estes dois poemas de João de Sá...
As fotos são qualquer coisa de extraordinário... então a primeira... faz-me lembrar a larva de um vulcão... está uma foto espectacular... Parabéns!
Cumprimentos,

AA

aa disse...

larva não... lava...