08 dezembro 2010

Conto - Aninhas

Hoje, dia de Nossa Senhora da Conceição, dia santo, foi uma boa oportunidade de sair à Descoberta de mais algum recanto do concelho. Mas, tal não aconteceu. Os dias têm estado cinzentos, frios e chuvosos. Juntamente com as luzes que piscam nas ruas e nas janelas das casas, vem a saudade do calor da lareira, recordações longínquas da matança do porco, das brincadeiras de criança, de histórias contadas (e nunca escritas) de mouras encantadas, amores que partiam para a guerra e ... príncipes e princesas.
Hoje também é um dia especial para uma assídua visitante do Blogue. Por isso decidi brindá-la com um conto. Não é um conto qualquer, mas sim um conto que, tenho a certeza, representará muito. Na impossibilidade de lhe poder oferecer flores, brindo-a também com alguma das pequenas maravilhas que captei, em momentos de primavera, tal como o conto, em volta do local onde vivo, algumas na borda dos passeios.
É um pouco de Primavera, antes que o Inverno chegue.
Em tempos remotos, numa casa modesta e afastada do grande rumor da aldeia próxima, vivia uma esbelta rapariga com sua mãe viúva.
Era bela. Fascinava. Dezoito anos. Tranças pendentes sobre os ombros, de um cabelo negro e ondulado. Face morena, mas mimosa. Olhos castanhos, bem feitos, sobrepostos por cerradas sobrancelhas. Sedutores contornos do corpo, magro e bastante alto.
Frequentes vezes foi assaltada pelo amor de um conde, além de outros amores ardentes que lhe caldeavam o coração. No entanto, o apetite matrimonial era fraco, sendo bem mais intenso o desejo de sua Mãe, empenhada, dia a dia, em dá-la ao conde, que amorosamente a procurava. Apesar de este se prender fortemente a ela, Aninhas continuava fria, em assunto de semelhante espécie. Mas «água mole em pedra dura, tanto dá até que a fura»...
O Conde via, passados meses poderem transformar-se em reais os seus sonhos dourados. Uma fresca manhã ao dealbar da aurora, aparece a bater à porta do casebre. Pedia esmola, feito mendigo. Todo roto. Grossa bengala na mão esquerda. Olhos fechados, a fingir-se cego. Tronco dobrado, a fazer-se velho. Cabeça coberta por enorme chapéu cinzento, todo esburacado, com um remendo branco pregado a linhas pretas numa das abas.
Bate e começa a pedir, cantando em voz suave. Aninhas acorda, estremunhada, e sente-se atraída por aquele canto. Escuta. Parece conhecer a voz. A Mãe, sabia de tudo, pois fora ela que combinara com o conde vir ali, daquela forma.
A chama crepitante do amor vai-se acendendo. E, tocada de repente por vagos pensamentos diz para a mãe:
- Levante-se, minha Mãe,
Desse leve dormir,
Se quer ouvir o cego,
A cantar e a pedir.
Replica a Mãe, em resposta:
- Se canta e pede,
Dá-lhe pão e vinho,
E o ttriste cego
Lá vai a caminho.
Diz o falso mendigo, em tom de pedinte:
- Não quero seu pão,
Nem quero seu vinho.
Só quero que a Aninhas
Me ensine o caminho.
O Sol, imenso disco refulgente, surge, pouco a pouco, por entre a vasta cordilheira de montes aguçados. A capoeira começa de pôr-se alvoroçada. A aurora vai desabrochando lentamente, prometendo um sossegado dia azul de Maio.
A Mãe volta a dialogar com a filha, apontando o que havia de fazer:
- Anda, anda, Aninhas,
Veste a saia branca,
Carrega a roca de linho.
Ensina o caminho
Ao triste ceguinho...
A filha levanta-se. Cumpre as ordens maternas. E, beijada a mãe, parte, acompanhando o pobre. Parecia uma tenra açucena encostada a um tronco velho e podre.
Os melros assobiavam, deliciosamente. A rola começava a gemer nos ninhos. O rouxinol entoava melodias encantadoras. A água cristalina ciciava , na verde relva que cobria os campos. Bandos de pombas entrecortavam o espaço. Andorinhas deslizavam, velozes, no céu. Tudo era manso e belo, naquela madrugada.
Calcorreados longos caminhos, os pés quase esfalfados, Aninhas acaba por dizer.
- Aacabou-se-me a roca,
Esfiou-se-me o linho.
Adiante, ó cego,
Lá vai o caminho.

- Anda, anda, Aninhas,
Mais um pouquinho.
Sou curto da vista,
Não vejo o caminho.

Vislumbra-se o lugar onde são esperados pela família do conde e fidalguia amiga. Pelo que vê, ao longe, julgando tratar-se dalguma festa, canta a donzela:
Valha-me Deus
Ea Virgem Maria.
Quanta gente passa
Para a romaria.

- Anda, anda, Aninhas,
Mete-te debaixo desta capinha.
Quanta gente vai
Para a romaria!
Ela, pensando um momento, julga ter de unir-se, irremediavelmente ao companheiro. Então principia de lamentar os tempos de outrora. Podia ter casado, feliz, com um conde e, agora, vê-se junto de um velho, pobre, sem coisa alguma:
- De duques e condes
Eu era pretendida.
Agora dum triste cego
Me vejo rendida.
Chegou o momento asado do conde se revelar. Abraça a jovem pesarosa e canta:
Eu nunca fui cego
Nem Deus tal permita.
Sou um destes condes
Que lucrar-te queria.
Perante os olhares perscrutadores de Aninhas, atira com os farrapos para longe. Abre os olhos e sorri para ela, que o reconhece.
Julgam-se felizes. A família recebe-os carinhosamente. A nobreza saúda-os. O cortejo principia a desfilar. Um cavalo novo, sela e freios dourados, transporta-os direcção à morada.
O conde louco de amor, sente-se feliz como nunca. Uma alegria imensa invade-lhe o espírito. Já possui a riqueza tão suspirada.
Aninhas, coração mais sensível vendo-se deste modo presa para sempre àquele que lhe conquistou o coração, profere o seu adeus. Sentimentos sinceros. Saudades.
- Adeus, minhas casas,
Adeus pedra de montar.
Enquanto o mundo for mundo,
Pedra me há-de alembrar.

Adeus, minhas casas,
Meus lindos arredores.
Adeus, meus irmãos,
Meus belos amores...

Adeus, minhas casas,
Adeus aias minhas.
Adeus, minha mãe,
Que tão mal me querias.

Adeus, minhas casas,
Minhas lindas janelas.
Adeus, minha Mãe,
Que tão falsa me eras...
O tempo passa e Aninhas recolhe à doçura abençoada do seu lar. Naquele instante, uma campainha retiniu nove badaladas, dentro do castelo.
O conde sorriu para ela, tomando-a nos braços.

Conto recolhido no Nabo, publicado por J. N. Fonseca no jornal Mensageiro de Bragança, a 2 de Junho de 1961.

8 comentários:

Transmontana disse...

Bom dia, Aníbal:

Desconhecia, em absoluto, a existência deste conto.
Comecei a lê-lo, muito interessada, porque o achava lindo! Não sabia quem era o autor porque não tenho o hábito de descer primeiro o texto... mas continuei, cada vez mais interessada na história!!!
É lindo!!! E tão bem ilustrado, com belas flores que eu recebo como se fossem reais, sim, porque eu acho que a pessoa a quem são destinadas, sou eu, humilde visitante, diária, do seu blogue!!!
O Aníbal estraga-me com mimos!!! Eu não mereço tantas alegrias que me tem dado!!!
Muito e muito obrigada por me brindar com esta prenda no dia consagrado à minha madrinha, a Imaculada Conceição!!!
A sua pessoa e toda a família estarão no meu coração para toda a vida!!!
Falta-me o "engenho e a arte" para dizer, por escrito, tudo o que me vai na alma...
Que Deus vos abençoe a todos!!!
Não sei como o seu coração cabe no seu corpo, de tal maneira ele é grande!!!
Um abraço amigo, extensivo a toda a família!!!
Anita

Anónimo disse...

lindo este conto, professor!!!
parabéns e parabéns também ao/à aniversariante. também a minha mãe faz anos neste lindo dia de nossa Senhora.
cumprimentos
fátima de freixiel

Ponto+ disse...

Parabéns às duas aniversariantes de tão bonito dia, o dia da Imaculada Conceição.
Que tenham muita saúde e muita paz. Aproveito para lhes desejar também um santo e feliz Natal extensivo às respectivas famílias.
Eulália

Transmontana disse...

Olá, Eulália!
Obrigada pelos cumprimentos e desejos de bom Natal, mas tenho qe fazer uma rectificação: Eu não faço anos em 8 de Dezembro, mas, sim, a 22 de Janeiro. Este ano recebi as prendas antecipadas, mas , o que conta é a intenção, e essa foi genuína, disso tenho a certeza!!!
O que me liga a 8 de Dezembro é o facto de Nossa Senhora da Conceição ser a minha madrinha.
Beijinhos para si e todos os seus!
Anita

Anónimo disse...

TRASMONTANO EM FRANCA.
Bom dia S.ANIBAL.Apos seis semanas ausente que venho de passar em PORTUGAL,voltei de novo visitar o seu blog que me da tanto pazer.Acabo de ler os lindos versos do nosso amigo e inesquecivel P.FONSECA.Penso e imagino a grande emoçao da D.ANITA a quem eu envio se me permite um GRANDE GRANDE ABRACO.Do amigo GULHERME aqui novamente por terras de FRANCA.Para voçes todos UM SANTO NATAL....

GUILHERME SOUSA....SENS...FRANCA

Transmontana disse...

Olá, Guilherme!
Usando e abusando da boa vontade do prof. Aníbal, aproveito para agradecer e retribuir o abraço e desejar-lhe um Feliz e Santo Natal, na companhia dos que lhe são queridos!

Um dia temos que nos encontrar...

Anita

Anónimo disse...

é verdade d.eulália...
é um lindo dia para nascer,este, de Nossa Senhora!!!
pena é, que lhe tenham tirado a comemoração do dia da mãe,ficava tão bem nesta dia!
bem haja, em nome da minha mãe.
tudo de bom para todos.
um Santo Natal,com saúde e muita paz para todos os visitantes deste blog,muuuito em especial para vocês.
beijinhos
fátima de freixiel

at ento disse...

OLÁ.
VIEMOS DAR AS BOAS FESTAS E DESEJAR QUE O PRÓXIMO ANO, APESAR DA CRISE COM QUE NOS ASSUSTAM, OS DIAS CONTINUEM A TER 24 HORAS E O SOL SE LEVANTE PELA MANHÃ E SE PONHA, COMO É DE BOM TOM, AO FIM DA TARDE, E A AMIZADE PREVALEÇA POIS O MUNDO MERECE E NÓS ACREDITAMOS.
BOM NATAL PARA TODOS. OS NOSSOS VOTOS, VERDE MUSGO, COM AMIZADE.
AT ENTO