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23 janeiro 2012

e de repente é noite (IV)

Por onde caminhamos é o dia.
Na cabeça, a fala das coisas,
sem sabermos dos fios que a ligam
à sonolência da alma.
Rasga-se um postigo no infinito, e, de lá, a paz da tarde
contempla-nos no dócil ensombro
do esquecimento das avencas
no fundo da mina.
Adestramo-nos no manual das nuvens,
para uma hipótese de salvação.
E molda-se-nos à concha das mãos
tudo o que transbordou da corola das horas
por excesso de luz ou de sentido.

Poemas de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Vila Flor (21-01-2012)

11 janeiro 2012

Vira da azeitona


A azeitona cai no tolde varejada
Vai encher o galeão
Ela é preta redondinha
Dá saltinhos pelo chão

Vai de roda vai de roda
Cada qual com o seu amor
Não há vira mais bonito
Que o vira de Vila Flor

Haja azeite com fartura
Nós pedimos ao Senhor
Para nunca ser esquecido
O azeite de Vila Flor

Vai de roda vai de roda
Cada qual com o seu amor
Não há vira mais bonito
Que o vira de Vila Flor

Nesta feira de sabores
Mantém-se a tradição
Mostrando os bons produtos
Desta nossa região

Vai de roda vai de roda
Cada qual com o seu amor
Não há vira mais bonito
Que o vira de Vila Flor

Esta canção é cantada e dançada pelo Grupo de Danças e Cantares de Vila Flor (esta versão foi adaptada para ser cantada na TerraFlor, feira de Produtos e Sabores).
A fotografias  foi tirada em Samões.

22 dezembro 2011

e de repente é noite (XXVIII)

Vou pelo assombramento de quartos e salas,
inventariando móveis, invadindo gavetas
que derramam no sobrado uma infância
de pinheiros de natal desfilando
em eclipses de comboios de corda.
Os fungos à superfície dos espelhos
denotam os múltiplos semblantes
que, ao reflectirem-se,
neles se descobriram imagens divididas
entre o exílio efectivo e o reino imaginário.
As conchas onde ouvíamos um cicio de mar,
da forma de um nada que podia ser tudo.
O relógio de pesos parado, a poeira do tempo
sobre a engrenagem, sarcasmo do acaso
ao anseio de exactidão dos ponteiros.
E as indomáveis mãos na glacial desmemória
de anónimas, tolerantes faces,
plasmam-se ao alheamento dos ícones
e inundam de água de sombra o ácido das vozes.


Poemas do Dr. João de Sá,  retirada do livro "E de repente é noite". Edição do autor; 2008.
Fotografia: Castanheiro em Vale Frechoso.

05 dezembro 2011

Vila Flor (canção)

Terra sagrada,
Botão de Rosa,
Ó terra amada
Sempre saudosa!

Coro
Ó meu amor, ó Vila Flor que tanto brilhas,
Meu pátrio lar tão cheio de maravilhas!
Pela Manhã, se te beija o sol d'aurora,
Tu és a terra mais linda e encantadora!

Terra formosa
E cativante
Tão carinhosa
É ao visitante.

Ó Vila Flor
És a flor das vilas,
De rsplendor
Até cintilas.

A natureza,
Não fez outr'igual,
Pois em beleza
Não tens rival.

Ninho de amores,
Hospitaleiro,
"Vila das Flores"
Tão lindo Canteiro!

Flor perfumada,
Sempre viçosa,
Por Deus fadada
Para ser ditosa.

Seus horizontes,
Mesmo de pasmar,
Ouvem-se as fontes
Sempre a cantar.

Lar tão risonho,
Cheio de alegria,
Feito de sonho,
Luz e magia!

Vila Flor, 1942
Letra: Fausto Couto
Música: Fernando Amaral

Fotografias: Praça da República e Rossio

30 novembro 2011

Minha Terra é Vila Flor


I
Minha Terra é Vila Flor
Terra da minha paixão
Vá p'ra onde for
Levo-a sempre no coração.

II
És uma vila muito bela
O teu nome o indica
Chamo-te Vila Flor
O nome que bem te fica.

III
Continuas esquecida
Nesta beleza natural
És a vila mais bonita
És a vila mais bonita
Das vilas de Portugal.

Canção da autoria  mestre da Banda de Vila Flor, de nome Ribeiro, residente em Mirandela (Agosto de 1985).
Fotografia: Vila Flor 26-11-2011

29 novembro 2011

No Jardim da Saudade (1/2)

Já rolam os ventos brandos do Outono pela Natureza sonolenta além. Descem aos vales, perseguindo os ribeirinhos, brincando com os salpicos irisados de
pequenas cachoeiras, penetrando as frinchas das azenhas, que recomeçaram o trabalho de moer pão e de bucolizar os quadros campestres no chiar mansinho dos rodízios; e abanam as copas desfalcadas dos choupos das margens desprendendo-lhes as folhas, agora uma, logo outra, mais outra, e mais... e mais... que vão caindo, esmaecidas, mortas, nas ondulações da corrente, como lágrimas num rosto, a deslizar suavemente; ou poisando em espasmos nos tapetes relvados, esboços dos novos prados para os cordeirinhos pastarem plas tardinhas.
Correm as encostas como um sopro fugidio, arejando a terra revolvida pelas charruas do lavrador, que a prepararam para a sementeira do centeio, seguidas por bandos de contentes alvéloas, que empinam o rabo ao vento, enquanto debicam os vermezitos que a relha traz à tona.
Embalam os sinos das igrejinhas modestas, dispersas pelos povoados das quebradas, tomando-lhes as badaladas plangentes, escoadas nos crespúculos pelas veigas fora, até aos ouvidos dos trabalhadores da terra, que se descobrem, se inclinam e se edificam na oração das Ave-Marias.

Texto: Excerto do livro Paisagens do Norte, de Cabral Adão.
Fotografia: Por Traz da Serra (Roios)

23 novembro 2011

e de repente é noite (XLIV)

Ergue as palmas de um saber feito
de resíduos de inimagináveis séculos
a este séquito de dúvidas.
Mas continua atenta aos queixumes dos choupos,
sinais da tragédia da água
a querer tornar-se seiva.
Sustenta nossas ténues certezas
com os fios do êxtase das rosas.
Não pertencemos àqueles a quem mais damos,
como os frutos silvestres.
Medem-se as oferendas pelos segredos
que revestem, não pelo que, aos sentidos,
em nudez entregam.
Cada coisa tem uma medida que completa,
perto ou longe,
o seu invisível contrário.

Poemas do Dr. João de Sá,  retirada do livro "E de repente é noite". Edição do autor; 2008.
Fotografia: frutos silvestres em carvalhos; Roios.

23 agosto 2011

e de repente é noite (XXXII)


Já ninguém lembra o que sobrou de nós.
E tanto foi, do tamanho dos sonhos.
Já poucos sabem onde ficava a casa.
Os que ainda a recordam, hoje,
chamam-lhe campo-santo ou terra de ninguém.
O sol passa de longe, e mais aviva
as arestas do grito sitiado.
O peso dos destroços avalia-se
com a balança do silêncio.
Resta-nos, em segredo, instalar
o nosso desespero. Dar a sua cor
às aéreas paredes.
A alegria exige múltiplas palavras.
E a nós já nem nos resta um nome completo.

Poemas de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: algures, no Alto da Caroça em Vila Flor. 

10 agosto 2011

e de repente é noite (XVII)


Onde estavas tu no início desse verão?
Não vieste inclinar-te na semi-obscuridade
do poema, e não se cumpriu
esse perigoso ofício de acrobata
de transferências e ressurreições inacabadas.
Contigo estavam as metáforas mais raras.
Tua fala fixava o inefável de todos os instantes.
Percorria-me um tremor de raiva, a tua ausência.
Despertava para o infinito dos dias
e tudo era um disco negro
no fundo de uma espiral de ouro.
Então, só, eu era eu e as minhas imagens,
mais do que eu e a minha circunstância.
Com elas existia no vozear das esplanadas.
O tu não estares cobria-me de esquecimento
dos nomes das ruas e das pontes
e iluminava-me da discreta melancolia
dos deuses omitidos.
E ficava a ver como quem dorme, paisagens
Suspensas do clamor agudo dos corvos.
E sempre um excesso de brilho
emoldurando a mais profunda noite.

Poemas de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: algures, em Candoso.

22 julho 2011

Poemas de Amor Para Vila Flor

Foi lançado no dia 17 deste mês o livro Poemas de Amor Para Vila Flor, da autoria de Abílio Aires. O autor é natural da freguesia do Castedo, em Torre de Moncorvo, mas tem uma estreita ligação, afetiva, e não só a Vila Flor, onde atualmente vive. Lançou, recentemente, outro livro de poemas - À vila das flores Vila Flor Capital do Mundo.
Não compareci no lançamento do primeiro livro, mas estive no do segundo, que decorreu no pequeno auditório do Centro Cultural. Estiverem presentes muito poucas pessoas, não imagino qual seja a razão. Penso que todas as formas de arte devem ser incentivadas e acarinhadas. No caso da escrita, ela só existe para ser lida.
Desconhecia completamente a poesia do senhor Abílio Aires e, desde o dia do lançamento, que tenho andado a ler alguns dos seus poemas. Trata-se de um livro de poesia que fala sobretudo do amor, da adoração da mulher. Também há alguns poemas dedicados a Vila Flor, mas são uma minoria. Como comprei também o primeiro livro verificarei, mais tarde, se nesse a Capital do Mundo é mesmo o enredo central.
Dos poemas que já li, deixo um dos que mais gostei.

Mas colhi seu coração

Trinta e três degraus desci
Para te poder falar
Os mesmos degraus subi
Não a consegui encontrar.

Era uma pena ao descer
Pesado fardo ao subir
Eu fui ali para a ver
Não podia desistir.

Ao bater àquela porta
Porta que não veio abrir
Ela tinha ido à horta
Ver as plantas a florir.

O aroma o perfume
Do cravo da hortelã
Era o mesmo do costume
Naquela linda manhã.

Esperei ao cimo das escadas
Estava ali para a ver
Dizer-lhe duas palavras
Quando a visse descer.

Bela a vi aparecer
Trazia rosas na mão
Rosas que não fui colher
Mas colhi seu coração.

Primeira fotografia: Ameixoeira-dos-jardins (Prunus cerasifera) na Av. Dr. Francisco Guerra, em Vila Flor.
Segunda fotografia: Abílio Aires, autor do livro Poemas de Amor Para Vila Flor no dia do lançamento.

07 junho 2011

Voz dos sinos

Como pastor atento dum rebanho
De mansas ovelhinhas, bom pastor,
Ergue-se a igreja matriz, dum tamanho
Que sobrepuja tudo ao seu redor,

Ali, na pia baptismal, um banho
Tomou a nossa alma, redentor;
E no sacrário brilha o Santo Lenho
E a Eucaristia, a dar-Se por amor.

Torres bem altas, azulejos finos,
Coruchéus e pilar's monumentais,
O templo é sentinela e oração

A tansmitir a'Deus pla voz dos sinos,
No repique festivo ou nos sinais,
As vibrações o nosso coração.

Soneto retirado do livro “Versos – Vila Flor”, impresso em Novembro de 1966, da autoria do Dr. Luís Manuel Cabral Adão.
Ouros poemas de Cabral Adão: Árvore em flor, Trovoada, Carícia real e Modelação

01 junho 2011

Às crianças da minha terra

Todas as vezes que vos vejo
E me espelho em vós
Sinto cá dentro o desejo
De vos estreitar a sós!

Sinto saudades imensas
Apertar-se-me o coração
Dos tempos de inocências
E doutros que já lá vão!

Sinto lágrimas bailarem-me
De tantos dias felizes
Os embargos a sufocarem-me
Nestes meigos deslizes!

Vós sois na inocência
Madrigais em flor
Eu já sou a plangência
Cantando no Mundo a dor!

Há bem pouco, eu era então,
Miudinho como vós
Sentindo já no coração
Pesares, carpires e dós!...

Era assim criança imbele
Não sei bem... como dizer
Uma pombinha sem fel
Caída do Céu ao nascer!

Era assim gentil criança
Como vós o sois ainda
Uma saudade na lembrança
Dessa idade tão linda!


Brincava como vós brincais
Em doce paz e harmonia
Sem jamais soltar ais
Do romper ao fim do dia!

Ressaltava e pulava
Nesta Terra sem igual
Eu ainda mal falava...
Tinha o tamanho dum pardal!...

Era assim como vós
Uma florinha d'açucena
Um fiozinho de retrós
A bordar esta cena!...

Vinha p'la mão de meus Pais
A caminho da escola
Soltando longos ais
Ou brincando com a bola!...

As vezes p'la tardinha,
De penumbra doce ou fria
Seguia com minha Mãezinha
Rezar a Jesus e a Maria!

E depois, na brincadeira.
Como vós ainda brincais
A vida era tão fagueira
Como não encontrei mais!...

Poema do vilaflorense Cristiano de Morais, do livro Riquezas e Encantos de Trás-os-Montes, publicado em 1950.
As fotografias foram tiradas no dia 01-06-2009, na Escola EB2,3/S de Vila Flor.

24 maio 2011

Cantos da Montanha ( VI -10 )


Um dia,
talvez nos encontremos
num espaço sem caminhos.
Terá de ser longe,
onde não chegue a chuva nem o vento,
mas onde se ouça o canto de uma fonte
em que bebamos, juntos,
e nossos lábios se unam
para sempre
na música reverberante da água.

Poema do livro do Dr. João de Sá, Cantos da Montanha (Canto VI, 10).
Fotografia: no alto do monte do Facho, em Vila Flor.

20 maio 2011

Coração na fala

Qualquer relevo ao sol é um altar.
Toda a curva de serra é um regaço.
O que nos vê tem júbilo de abraço.
Tempos e modos de alma, o verbo amar!

Ressuma ausência o acto de chegar.
Somos o centro e queremos mais espaço:
Acaso um outro mês antes de Março,
A fim de a Primavera antecipar.

Meu zénite de anjos verdadeiros,
Minha Vila Flor, alvares primeiros
De uma alba quase comungada!

Quero dizer-te mais, e fico mudo.
Não te descrevo, sinto-te - e é tudo.
Não te amo, adoro-te - mais nada!

Soneto de João de Sá, do livro Vila À Flor dos Montes (2008).
Fotografia: Pinheiros; próximo de Roios.

21 abril 2011

Prece


Ergue bem alto a Tua Mão direita,
A que perdoa, afaga e anuncia.
A que apartou as trevas e o dia,
Com o gesto breve duma luz perfeita.
Não a suspendas sobre a fronte estreita.

O Infinito nunca se adia.
Venha meu espaço a ser, se espaço havia,
O fecho de capela imperfeita.
Senhor, na hora exacta o golpe certo!

E não pressinta nem perceba o fim
No raio, oculto, cada vez mais perto.

Que o pano desça a encerrar o drama.
E Tua Voz se faça ouvir em mim
E ao dizer o meu nome, apague a chama!

Poema de João de Sá do livro Vila À Flor dos Montes (2008).
Fotografias: Celebrações da Semana Santa 2011, em Vila Flor.

04 março 2011

Olha Vila Flor

Olha Vila Flor
Que bonita vai
Olha o meu amor
Que daqui não sai

Olha Vila Flor
Que bonita está
No seu esplendor
Mais linda não há

O queijo e o requeijão
Vão sempre à nossa mesa
O chouriço e o salpicão
Produtos à portuguesa

Do mel que saboreei
E dos figos que comi
Outros sabores eu provei
Para não me esquecer de ti

Deixei o vinho a correr
Enquanto o mel fui tirar
Tinha amêndoas para comer
E azeite para apaladar

A alheira tradicional
Aqui tem mais sabor
È feita em especial
Por gentes de Vila Flor

No cesto trago saudade
No coração trago amor
Muita paz e felicidade
São votos de Vila Flor

Foi entre as amendoeiras
Vinhas e Olivais
Tantas raparigas solteiras
Ali deixaram seus ais

Olha Vila Flor
Que bonita vai
Olha o meu amor
Que daqui não sai

Olha vila flor
Que bonita está
No seu esplendor
Mais linda não há

Poema de Fernando Silva.
Fotografias tiradas em Samões.

10 fevereiro 2011

Vento da minha terra

Ai que tristeza me traz
O vento da minha terra!
Tear que faz e desfaz
Um palmo de céu e serra,
Ora com frios de paz...
Ora com tramos de guerra...

Traz-me notícias de amigos
Que no caminho ficaram,
Deixando já de se ver!
E de outros que vão morrendo,
Definhando, esmorecendo,
Na ilusão de crescer,
Só porque nunca sonharam!

Dos mortos fica a saudade,
Mágoa dos desaparecidos
Aos que ainda têm idade
Mas que de si mesmo esquecidos,
Lembremos, por lealdade,
Que os sonhos desmedidos
São a única verdade.

Ai vento de Vila Flor,
Traz-me novas de alegria,
Bem preciso de calor,
Que a noite vai longa e fria.
Não me fales mais de dor,
Mas da manhã que anuncia
Um novo espaço de amor.

Já o vento sossegou,
E minha terra magoada
Foi uma luz que esfriou
Mal chegou a madrugada.
Há quem a queira esquecida.
Há quem a queira negada.
Querem-na outros erguida,
Divulgada, engrandecida,
Como mulher recatada
Mas por todos possuída!

Poema de João de Sá do livro Vila À Flor dos Montes (2008).
Fotografias: Capelinhas e Cerejeiras junto à Quinta da Pereira, em Vila Flor.

27 janeiro 2011

Esfinge

Andam horas à procura
de um número que as faça
um dia
Enlevo de doçura
que por traição enlaça
cores desfeitas a fazerem nastros
de cor sem cor
folhas bailando, muitas... muitas... em redor,
luzes a acender e a apagar e lembram
astros.
- olhos fechados
caindo, correndo, fulgindo
mas sempre presos num lugar sem ponto.
Raio de sol
não venhas queimar
a barca do destino...
Esperança de luz
que surjas matutino
e quede anos à procura de um só dia
no
pêndulo sem lei
da eternidade...

Nascimento Fonseca (Notícias de Mirandela, 02/03/1969)

22 janeiro 2011

Inverno


Desenha-se a manhã corda de lira
Soando-me cá dentro, neste misto
De foto de álbum e rota de imprevisto,
Prova que, hora a hora, o tempo expira...

No escano, um livro que eu nunca abrira.
E o fumo esboça o que não avisto
Ou se entremostra e foge, e não desisto,
Antes que a bruma me atinja e fira.

Vagos, ouvem-se os sinos de Samões...
Vai chover mais. Já atingiu Lodões
A rebofa. No Vale, há já miséria.

E, ao lar, do lume a face calma
Oferece-me a percepção da alma
E o justo sentido da matéria.

Poema do Dr. João de Sá, do livro "Flores para Vila Flor", 1996.
Fotografia: montagem representando a zona envolvente à Barragem do Peneireiro, em Vila Flor.
Com uma saudação especial para a Transmontana, que hoje está de parabéns.

27 dezembro 2010

Cantos da Montanha ( VI -1 )


Não sei se só existe na minha lembrança
o monte de Faro, nula juventude renovada
com simulacros de árvore de cartolina verde.
De qualquer modo é na curvatura da distância
que está pousado em seus premonitórios fulgores
a acender os castiçais mortiços da manhã.

Que este breve instante
de evocação de magnas raízes
me traga as asas dos milhafres refractando o sol
de setembros flagrantes de mosto.
E de novo vá buscar pequenos pinheiros
de sagrar natais perdidos nos olhos
cegos de tanto se fecharem
no contemplar da sua inexistência.

Poema do mais recente livro do Dr. João de Sá, Cantos da Montanha (Canto VI, 1).
Fotografia: montes entre Vilas Boas e Vilarinho das Azenhas.