
No dia 1, à tarde, parti sem objectivo definido em direcção ao Barracão. Demorei algum tempo a carregar as baterias e acabei por sair um pouco tarde. Para descer à Ribeirinha ou Vilarinho, ia faltar-me tempo.
Quando seguia pela Avenida Vasco da Gama decidi cortar para o
Lugar do Marco. Não fazia ideia onde esse caminho me levava, mas a aventura é mesmo assim.
A primeira ideia era fazer uma fotografia
panorâmica de Vila Flor, depois, logo se veria. Passei por alguns troços de caminho com bastante água e lama, não ia desistir logo ali no início! Avistei as primeiras
amendoeiras em flor e o entusiasmo começou a subir. Também se avista um enorme depósito de água, numa elevação, de onde se tem uma boa panorâmica de parte de Vila Flor.

Rodando para a esquerda já via
Samões, ali abaixo, muito próxima. Hesitei em descer à aldeia, mas optei por continuar a seguir o caminho. Cheguei ao campo de futebol de Samões, cortei a estrada que vai para a barragem e segui em frente. Aqui o espectáculo é fraco. Há por aqui lixo, muito lixo.
Encontrei um amendoal fantástico. O céu emproou-se, vestiu-se de azul e engalanou-se com algumas nuvens bastante brancas. Estava preparado o cenário ideal. Fiquei sem reparar no tempo, esquecido da bicicleta que me olhava de soslaio, enciumada. As pequenas amendoeiras pareciam talhadas e
vestidas para a fotografia. Algumas pareciam vergar-se com o peso das flores imitando chorões! Alternavam flores rosa e brancas mas todas muito abertas, provocadoras.


Avistei uma pequena elevação mais à frente, com rochas curiosas. Larguei de novo a bicicleta e subi, na esperança de talvez avistar o complexo da
Barragem do Peneireiro. Avista-se Vila Flor, as serras de Vilas Boas, mas mais uma vez a minha atenção centrou-se numa vinha invadida pelo
florido das amendoeiras. Também a meus pés havia
pequenas flores amarelas que se elevavam a uns míseros dois centímetros do solo. Fotografá-las foi difícil. Isolá-las do chão é um problema técnico bastante comploicado agravado pelo vento que se fazia sentir, abanando mesmo essas frágeis estruturas coladas ao solo.
Passei pela Serra de Candoso (e este nome, aqui?!) e já ouvia a alegre música do relógio da pequena igreja de Carvalho de Egas! É verdade. Uma das igrejas mais pequenas do concelho, tem a mais bonita (no mínimo) música para marcar o ritmo do tempo!

Foi mesmo junto à igreja que entrei na aldeia. Desci à estrada nacional que logo abandonei, seguindo pela Rua do Centro, pela Rua dos Bons Caminhos até à Rua da Estalagem Nova. Subi em direcção ao Santuário de Santa Cecília. Pareceu-me cedo para encetar o regresso, antes de chegar ao santuário, cortei à direita, em direcção a
Valtorno. Há um caminho bastante agradável, que segue pelo cume de um monte e que vai terminar mesmo em Valtorno. Segui por ele e só parei quando me encontrava a poucos metros da aldeia, quase na estrada que sobe para o
Mourão. Decidi voltar para trás. O sol espreitava-me de frente, mesmo por cima de Valtorno e o céu apresentava já alguns tons laranja. Segui o mesmo caminho, forçando um pouco a pedalada.
A certa altura, quando passei debaixo de uma
linha de alta tensão, cortei à direita em direcção ao Seixo de Manhoses. Foi então que vi, com espanto,
dois homens pendurados no alto de um daqueles enormes postes metálicos. Procurei fotografá-los, sem alterar a minha rota.

O céu largou o laranja e
vestiu-se de vermelho na altura que em que deixei o Seixo para trás. Pedalei com toda a força para chegar à barragem, não queria perder aquele espectáculo. Cheguei ofegante, mas mesmo a tempo de tirar a mochila e fotografar os reflexos do
céu vermelho nas águas já negras. Foi a cereja em cima do bolo, que mais eu podia pedir? Segui calmamente em direcção a Vila Flor, já com os fantasmas a tomarem conta dos caminhos.
Deixei a estrada e cortei em direcção à
Quinta de S. Domingos que fotografei de perfil já com noite completa.


Ainda tive vontade de experimentar uma nova
técnica fotográfica: coloquei a máquina num ramo de amendoeira, virada para Vila Flor, com o obturador aberto (é a posição Bulb ou B); com a lâmpada de presença da bicicleta “pincelei” alguns ramos floridos da amendoeira, como se estivesse a “pintar” com aguarelas. Achei graça a esta experiência. Recuei mais de 20 anos atrás, em Coimbra, quando uni duas objectivas com fita-cola para fotografar miosótis.
O telemóvel tocou, já estavam preocupados comigo. - Estou mesmo aqui na Rua da Pereira! Respondi.

Quilómetros percorridos neste percurso: 21
Mapa do percursoTotal de quilómetros de bicicleta: 622
Total de fotografias: 11720