09 outubro 2007

À volta de Roios

Depois de uma subida transpirada ao alto do Facho, voltei atrás, desci a serra em direcção à Lixeira Municipal. Curiosamente alguém aproveitou a lixeira para fazer um circuito para todo o terreno! Achei caricato os gostos, mas admirei o aproveitamento do espaço. Segui durante pouco tempo pela N214, em direcção à Trindade, mas, pouco depois, cortei pela pequena estrada que liga a Roios. Nunca tinha percorrido esta estrada de bicicleta e, com o clima tão instável, não me apetecia ir muito longe.
A descida é muito rápida, mas fiz algumas paragens para saborear o Outono. Algumas vinhas ainda tinham uvas. Na bordadura das mesmas havia árvores carregadas de frutos coloridos. Os castanheiros começam a dobrar-se com o peso dos ouriços que ameaçam estourar a qualquer momento.
Num lameiro seco pelo Verão, já despertaram as tão belas quanto mortíferas flores duma planta do género Colchicum. Não sei bem se se trata da Colchicum lusitanum Brot ou da Colchicum autumnale, parentes muito próximas, ambas da família das Colchicaceae. A luz era pouca para me dedicar à macrofotografia, mas, encostei a bicicleta e deitei-me no lameiro à procura de um ângulo favorável desta beldade, também conhecida como dama-nua. Não confundir esta planta com o açafrão (Crocus sativus).
Continuei até Roios. É sempre agradável passear nesta pequena aldeia. Em muitos recantos há vasos com plantas suspensos emprestando um ar colorido e romântico. Depois de um curto passeio por algumas ruas, decidi continuar a descer em direcção a Lodões. O objectivo era subir por um antigo caminho entre a Quinta do Vale da Cal e a Quinta do Israel, que vem apanhar a estrada de Roios já bem próximo de Vila Flor. Esta parte do percurso ia ser uma verdadeira descoberta. Nunca por aí tinha passado, não fazia a mínima ideia de onde me ia meter.
Antes de chegar à Quinta do Prado de Baixo, pelos 300 metros de altitude, virei à direita. Há um caminho que segue para o Cabeço do Pereiro, por onde já passei e outro que curva para Poente em direcção à Ribeira de Roios. O caminho é bom, devia ser uma via importante há alguns anos atrás. Logo depois da ponte sobre a ribeira, há algumas ruínas. Deviam ser antigas azenhas. Há muitas silvas, é impossível explorar o local. Encontrava-me eu a rodear as construções, quando começou a chover. Aproveitei a ombreira da porta para me proteger da chuva. Passados poucos minutos pude continuar. O caminho que conduz à Quinta de Vale da Cal atravessa uma ribeira que desce desde o Alto da Caroça. É um local paradisíaco, com frondosas árvores, gigantescas, mas que não consegui identificar com exactidão. Uma pareceu-me um plátano mas há outra que merece atenção, pode ser um exemplar digno de referência no concelho e na região.

A partir deste ponto, o caminho sobe muito. Mesmo com um clima instável, a paisagem é fantástica. Em vários pontos, abandonei o caminho, para olhar com mais atenção a ribeira que passa por Vila Flor e desce ao encontro da Ribeira de Roios, saltando de pedra em pedra, em pequenas cascatas, em locais escarpados de difícil acesso. A beleza da ribeira, à distância, pode ser maior. Pelo que conheço deste curso de água, perto da Quinta de S. João, junto a Vila Flor, a água espalha um cheiro muito desagradável. Não sei até que ponto a ETAR de Vila Flor está a realizar um bom trabalho. Felizmente ao longo do curso da ribeira, a água vai oxigenando e recuperando alguma vida.
A Quinta do Israel está completamente votada ao abandono. Muitos hectares de olival reclamam cuidados e as casas, mesmo vistas à distância, ameaçam cair. Quando passo por locais como este, gosto de fazer viagens no tempo, tentando adivinhar como seria a vida nestes locais, há algumas décadas atrás. A subida é longa, deu-me tempo para viajar, saborear o silêncio, fotografar pormenores, expurgar o stress e limpar os poros abertos por enxurradas de suor.
Quando cheguei à estrada N608-1, segui em direcção a Roios durante algum tempo para ver os trabalhos de recuperação da via. Por fim, já com os últimos raios de Sol a passarem pela Porta do Sol, regressei a casa. Além da viagem dos quilómetros, 19 ao todo, houve outra viagem: de observação, sensação e introspecção. Mais do que as palavras, as fotografias mostram essas viagens.
Quilómetros do percurso: 19
Total de quilómetros em bicicleta: 1525

08 outubro 2007

De volta ao Facho


Faz hoje exactamente um ano que subi pela primeira vez ao ponto mais alto da Serra do Facho. Nessa altura, na companhia dos meus dois filhos, não tinha ainda uma ideia bem definida de até onde me levaria esta onda de descoberta. Fiquei curioso com a quantidade de pedras soltas existentes, que me pareceram restos de alguma estrutura bastante antiga. Voltei ao mesmo local mais algumas vezes, a última no dia 30 de Setembro. De novo o dia estava cinzento, ameaçando chover, mas quando cheguei ao topo, asseguro que não tinha frio. Explorei o lugar com mais cuidado, fazendo um círculo completo, acompanhando troços de rochas caídas que indicam inequivocamente a existência de paredes mais ou menos estruturadas. Desta vez tinha na memória a descrição do local feita pelo Instituto Português de Arqueologia que passo a transcrever:
"Designação: Facho
Tipo de Sítio: Atalaia
Período: Idade Média
Atalaia fortificada, localizada no ponto mais elevado da grande crista quartzítica que domina Vila Flor. É um ponto dominante na paisagem, tendo controlo visual a toda a volta, sobre as passagens para o vale da Vilariça, o vale do Tua e a depressão de Mirandela, o planalto de Carrazeda e a serra de Bornes. Deverá por isso tratar-se da mais importante das várias atalaias conhecidas na área do concelho de Vila Flor. Localiza-se no topo de um cabeço arredondado e rochoso. O topo do cabeço é rodeado por um anel de derrube, correspondendo a uma presumível linha de muralha, provavelmente pouco espessa, e que aproveita os afloramentos existentes, nomeadamente do lado Sul. Forma um recinto aproximadamente circular, com uns 30/40 metros de diâmetro. A entrada poderá ficar do lado Sudeste, onde o anel de muralha está desencontrado, e se une por uma linha perpendicular de muralha, com cerca de 10 metros de comprimento, que fecha um espaço entre afloramentos. Do lado de dentro de um destes afloramentos encontra-se o derrube de uma estrutura. No topo e no centro do cabeço, ao lado do marco geodésico, encontra-se um outro derrube, de uma estrutura de forma indecifrável, que poderá ser a torre de atalaia. Não se encontraram materiais de superfície, mas tudo indica que se deverá tratar de uma atalaia fortificada da Idade Média."

É pena que o caminho que conduz ao Facho não tenha continuidade. Tive que voltar atrás e continuei por Trás-da-Serra, numa descoberta que descreverei noutro dia.

01 outubro 2007

Freguesia Mistério 8


A fotografia colocada online no dia 01 de Setembro, representando a Fotografia Mistério n.º7, teve 24 votos. A distribuição foi a seguinte:
Candoso (2) 8%
Nabo (1) 4%
Roios (1) 4%
Santa Comba de Vilariça (1) 4%
Vale Frechoso (2) 8%
Vila Flor (10) 42%
Vilarinho das Azenhas (1) 4%
Vilas Boas (4) 17%
A maioria achou que a imagens em questão se encontrava em Vila Flor, seguindo-se-lhe a opção Vilas Boas. Na realidade, a imagem encontra-se à vista de toda a gente na fachada da Igreja Matriz de Vale Frechoso. Esta opção apenas teve dois votos (um dos quais meu!). Aconselho todos a fazerem um passeio a Vale Frechoso.
A Freguesia Mistério n.º8 é representada por uma grade em madeira pintada a azul e uma placa que indica a Rua do Forno. É possível que exista a Rua do Forno em várias aldeias de Vila Flor, pelo que é necessário conjugar o nome da rua com a placa e varanda azul. Quero ver esses palpites.

A votação faz-se na margem direita do Blog.

30 setembro 2007

Melhores acessos a Roios

Hoje fiz um pequeno passeio, passando por Roios. Verifiquei com satisfação que na estrada entre Vila Flor e Roios está a ser colocada uma nova camada de asfalto. Já tinha falado dessa estrada aqui no Blog. Era uma vergonha existir uma estrada no estado em que aquela se encontrava.
Os meus parabéns também à Junta de Freguesia de Roios pela sua preocupação em manter a aldeia com bom aspecto, repleta de pequenos vasos com flores, a par dos recipientes para o lixo. Algumas freguesias maiores deviam aprender com estes bons exemplos.

28 setembro 2007

Estar aqui


Não é simples estar aqui
querendo mostrar
não sei o quê do que senti

Que o senti de triste vo-lo digo
é que chorar não sei
para orar não pequei
se é que se possa pecar
ou por isso me valha rezar

Pelo umbigo
sou prisioneiro desta verdade
sou o desejo de umas rasas
ou mesmo que sejam umas quartas de felicidade

É comigo
eu sei
desde que sou ser de umbigo
sem penas
sem asas
com penas
com asas

com dezenas e dúzias
de alqueires de gorgulho e trigo
com penas e veios
e gorgulho

É comigo
eu sei
sei só
triste sei
escrever o que não digo
e dizer que sinto ainda
a dor com que nasci


Poema de Manuel M. Escovar Triggo, natural do Vieiro, do livro "Acidentais", publicado em 1987 em Coimbra.

Fotografia tirada dia 22 de Setembro de 2007, a caminho de Freixiel.

26 setembro 2007

Maravilhamento


Eis-nos no sítio exacto do prodígio.
A Divindade afaga-nos as faces.
Despem as oliveiras seus disfarces.
Move-se um anjo sem deixar vestígio.

E a Flor não fenece no litígio
Da forma e ser, (que nada a ultrapasse!).
Não há régua e compasso com que trace
Os confins rigorosos do prestígio.

Do Facho ao Frade, o céu pousa na serra.
E tudo o que é simples, pedra e terra,
Ascende à grimpa estelar dum templo.

Só eu me enredo em tudo quanto abraço.
Percorro o infinito, e sobra espaço.
Habito a eternidade, e resta tempo.

Poema de João de Sá. "Flores para Vila Flor", 1996.
A fotografia foi tirada dia 18 de Setembro de 2007, perto do Barracão, Vila Flor.

22 setembro 2007

Em Freixiel, entre uvas e vestígios arqueológicos


Hoje desci até Freixiel. Já não visitava esta simpática aldeia, cheia de razões arqueológicas e naturais para ser visitada, há bastante tempo. Uma das razões que hoje orientou a bicicleta pelos caminhos de Freixiel foi a época das vindimas. A cooperativa já começou a produzir vinho, e, sendo hoje Sábado, muita gente aproveitaria para vindimar.
Decidi descer de novo o caminho de Samões a Freixiel. Passei por aqui no dia 18 de Maio, com a paisagem repleta de cores e as ribeiras cheias de água. Hoje iria ser diferente.
Deixei, Samões para trás. Os lameiros estão secos, só os freixos e algumas giestas emprestam alguma frescura. A descida até à Ribeira das Olgas (completamente seca) foi rápida. A partir daqui o caminho parecia muito pouco utilizado, compreendi porquê: há muita areia, muita terra, por vezes tão fina que parece cinza, espalhada pelo caminho. Nalguns pontos é muito difícil (e perigoso) andar de bicicleta. Encontrei uma ou outra vinha já vindimada, mas a grande maioria ainda estava por vindimar. Fui surpreendido pela grande quantidade de uvas que têm as videiras. Brancas, negras, de bagos gordos e apetitosos, provocando a uma pausa.
Até chegar à igreja de Freixiel, as vinhas intercalam com sobreiros e algumas oliveiras. Fui descendo calmamente. A Ribeira do Pelão também está completamente seca, por isso só me restavam as uvas para fotografar. Foi o que fiz.
Entrei na aldeia por detrás da igreja e dirigi-me ao Largo do Pelourinho, pela Rua do Conde. O meu objectivo “arqueológico” era a Necrópole do Salgueiral. Segui pela bonita e recente rua que encontra a estrada de Folgares junto às alminhas. Parecia-me que teria acesso ao Salgueiral pela estrada de Folgares, mas estava enganado. Valeu-me um grupo de vindimadores que me deu uma localização mais precisa. Voltei à aldeia, passei a Ponte do Vieiro e virei à esquerda. Segui o caminho até chegar de novo à ribeira, num pontão recente. Deixei aí a bicicleta e comecei a subir pelo leito da ribeira que está completamente seca. Na frescura das margens florescem algumas plantas e as borboletas aproveitam, o seu ciclo está a chegar ao fim. Achei que já tinha passado o local, por isso subi a ribeira até encontrar uma elevação de rochas perto da margem. Devia ser ali próximo. Procurei, procurei, mas nem sinal de sepulturas escavadas na rocha.

Na minha busca pelas sepulturas fui encontrando algumas rochas no mínimo curiosas. Existem neste local muitas rochas graníticas de forma côncava. Por momentos pensei encontrar vestígios de coberturas de várias sepulturas, mas devem ser formações naturais. O mais curioso, foi encontrar enormes rochas, com forma de menir, que estariam envolvidos por essas rochas côncavas. Encontrei também uma rocha que me intrigou, com pelo menos seis covinhas escavadas. O tempo passava e não conseguia encontrar as ditas sepulturas. Procurei um agricultor ali perto. Mesmo com a ajuda da sua idosa mãe, não conseguiram dar-me nenhuma indicação. Mais a Norte andava um grupo de vindimadores, fui ao seu encontro. Pelo menos dois deles (um bastante jovem) conheciam a localização exacta das mesmas. Desci de novo para perto da ribeira e, com as indicações preciosas dadas, consegui encontrar duas sepulturas escavadas no granito. Cristiano Morais situa as sepulturas no séc. V d.C. e fala em três, não em duas. Também a última localização feita pela Extensão do IPA - Macedo de Cavaleiros apenas conseguiu localizar duas descrevendo-as desta forma: “São ambas muito semelhantes, rectangulares, de lados abaulados, com orientação Norte-Sul. A primeira fica no princípio e no ponto mais elevado do afloramento, enquanto a segunda fica a meio do afloramento, cerca de 10 metros a Sul da primeira.”
O Sol já estava baixo, não me permitiu grande margem de manobra nas fotografias. Saí do Salgueiral e “corri” até à aldeia. Pretendia acompanhar a entrada das uvas no lagar. Cheguei ligeiramente atrasado, mas ainda pude testemunhar um grupo de pessoas pisando as uvas com os pés, como nos velhos tempos.


Já era tarde. Parti em direcção a Vila Flor, seguindo a estrada e olhando muitas vezes para trás. É sempre bonito o pôr-do-sol, enquanto se sobe a estrada N314.
Quilómetros do percurso: 25
Total de quilómetros em bicicleta: 1506

21 setembro 2007

Alto do Maragato, em Roios


No dia 10 de Setembro fiz mais uma visita ao monte a Norte de Roios conhecido por Maragato. Na primeira vez que lá estive, a 24 de Fevereiro de 2007, estava um dia assustador: frio, vento, nuvens e alguma chuva. Desta vez o tempo estava excelente, mas, acabei por chegar um pouco mais tarde, assistindo ao pôr-do-sol. A escolha do percurso teve em atenção o mau tempo da primeira visita, a proximidade, pois necessitava pouco tempo, a minha curiosidade pelo local e a beleza da paisagem que se avista.
Este local, a 655 metros de altitude, fica na separação das freguesias de Roios e Vale Frechoso. Na minha primeira visita, detectei sinais da presença humana, há muitos anos atrás. Agora, depois de mais alguma experiência e leitura, compreendo que o local não tem as condições ideais para a instalação de castro, mas não tenho a mínima dúvida que ali existiu uma estrutura. Possivelmente terá sido uma atalaia, da Idade Média. Estas atalaias, tinham por missão vigiar uma grande extensão de terreno em redor e integravam-se numa organização de vigia mais complexa, recorrendo à comunicação através de sinais para uma estrutura mais segura, por exemplo um castelo.

Neste local há uma plataforma elevada com dois afloramentos quartzíticos, não muito extensa, insuficiente para um povoado. Nos pontos de acesso é visível uma grande quantidade de pedras soltas que resultaram do derrube da estrutura defensiva da atalaia.
Apesar de atento a potenciais pormenores arqueológicos, não fiquei indiferente à paisagem, à vegetação e ao pôr-do-sol. Há uma urze rasteira que está agora a florir. Encontrei a mesma variedade de planta florida que tinha encontrado alguns dias antes em Samões!
Os momentos que antecedem o recolher do sol são mágicos. Os sons propagam-se de forma diferente, tudo ganha uma nova dimensão. O marco geodésico foi-se pintando de laranja, entendendo-se um manto escuro do Facho, passando pelo Serra do Reboredo até à Serra de Figueira, perto de Mogadouro. A Serra de Bornes, altiva, conservou durante mais uns minutos os últimos raios de sol. Por fim, rendeu-se. Deixou-se invadir pela melancolia das sombras.
Ver a reportagem da 1.ª visita

19 setembro 2007

Quadros de Setembro

10-09-2007 - O Verão deixou-nos os tons pastel da terra, cheia de restolho, desejando a chuva. Ao fim da tarde respira-se calma, enquanto não chega a azáfama da vindima e o cheiro a mosto.
Algures, a caminho de Vale Frechoso, olhei em direcção ao Norte. Exposto estava um dos quadros que mais admiro e fotografo. Desta vez, as cores lavadas e frias do horizonte, contrastavam com a cor da palha aquecida pelos últimos raios de Sol.
Era a hora de introspecção. Era o local certo.

18 setembro 2007

De Samões a Vilas Boas


Neste início de ano lectivo, tenho vivido um pouco na expectativa. Numa família em que os dois cônjuges são professores e os dois filhos são alunos, a escola é importante nas nossas vidas e fonte dos nossos problemas. Infelizmente, tem sido um centro muito sujeito a monções de mau tempo, muita turbulência, que provoca muitas incertezas.
No dia 17 de Setembro reiniciei a minha actividade lectiva na EB2,3/S de Vila Flor. O horário que me foi distribuído não é tão propício para "a descoberta" como o que tive o ano passado, mas, sempre arranjarei uns espaços temporais para continuar nesta aventura de descobrir e conhecer cantos e recantos deste pequeno concelho.

Neste compasso de espera e de incerteza que antecedeu o início do ano escolar fiz alguns passeios à volta de Vila Flor dos quais ainda não falei.
No dia 5 de Setembro, decidi alongar o passeio que tinha feito no dia 4. Saí em direcção à Barragem; segui em direcção a Samões; virei à esquerda em direcção a Carvalho de Egas mas rapidamente cortei por uma caminho à direita, pelo Carvalhal, que depois desce em direcção a Freixiel. Passei belos momentos por aqui, na altura das amendoeiras em flor!
Antes de chegar à Ribeira do Vimieiro, cortei à direita e subi um pouco. As uvas, por aqui estão quase maduras. Há também por aqui algumas colmeias. Não perdi muito tempo, porque o meu objectivo era ir até Vilas Boas. Em pouco tempo alcancei a estrada de Freixiel. Aqui encontrei, como noutras vezes, o jovem ciclista Hélder Magalhães em mais uma sessão de treino, numa cadência acelerada, não fosse ele um bom trepador. Trocámos algumas palavras e depois procurei um caminho que me permitisse chegar a Vilas Boas. A facilidade apontada por um pastor, pouco por cima da pedreira, não se veio a verificar no terreno e tive alguns contratempos. Depois de saltar algumas paredes e de encher os pneus de picos de silva, consegui encontrar a Quinta do Reboredo, onde se pratica agroturismo. A partir daqui já foi mais fácil. Cheguei a Vilas Boas com os últimos raios de Sol.

Passei por algumas ruas onde nunca tinha estado. Encontrei à entrada da aldeia uma fonte, com água canalizada e já dentro dela um cruzeiro em granito, com aspecto de ser bastante antigo. Não tive tempo de muitas demoras, a subida é grande e em breve seria noite.

Quilómetros do percurso: 24
Total de quilómetros em bicicleta: 1481

16 setembro 2007

Um dia morreu


Maravilha por uns dias
é triste
magoa chamar-lhe destino
ter de dize-lo a cada criança
deixar-lhe verter uma lágrima que lave a sua esperança

A natureza Terra mãe criou-a bela
fê-la sedução
deu-lhe um coração
e tão pouco tempo para ser amada
Deu-lhe uns dias poucos
insuficientes para espalhar a sua ternura
para acariciar todas as flores
para ouvir falar de amores
para desejar fosse sonho
fosse loucura

Em redopio
vive a borboleta
vive o tempo - todo seu
o que sobra das gentes - um dia morreu

Poema de Manuel M. Escovar Triggo, natural do Vieiro, do livro "Acidentais", publicado em 1987 em Coimbra.
Fotografia tirada no Santuário de Nossa Senhora da Lapa a 02-09-2007.

14 setembro 2007

Depois aquele homem vem para a rua...


Toca o burro pela rédea. Chega-o ao tanque (mal acabado e duas torneiras amarelas com pouca água).
Encosta-se à pedra grande, abre as pernas, monta.
O jerico preto tem o pelo liso. Dá-lhe às pernas (é preciso saber...) e pica-o com a vara curta. Já ele mexe as patas e dá ao rabo. Não lhe ficam mal os atafais.
Chega do campo. Mete um copo, parte uma côdea, vem para o largo a comer o resto.
Descalço, o dia foi quente. As calças arregaçadas e os pés tresandam.
Que importa. O ar é comum, não acham?
Senta-se à esquina onde se apagou o ti Zé Borregas, sentado na cadeira, a rir-se como um perdido.
Os grilos cantam. A Lua vem vermelha. Grande. Grande... Hoje não dorme.
Tem que se levantar logo... É tempo de muita luta, é um moiro a trabalhar.

José Nascimento Fonseca*
Publicado no jornal ENIÉ, a 30-07-1975

*José do Nascimento Fonseca nasceu no Nabo a 22-12-1940 e faleceu a 27-07-1983.

Fotografia tirada no Nabo, a 01-09-2007.