13 outubro 2007

Na Capela de N.ª S.ª da Esperança, em Benlhevai


No dia 18 de Setembro, já muito próximo do final da tarde levou-me a curiosidade até Benlhevai. Nas minhas anteriores visitas à aldeia nunca tive tempo para me deslocar à Capela de Nossa Senhora da Esperança. Numa conversa que tive com alguns habitantes, confessaram-me terem casado na capela e dela guardarem muitas recordações. Vista da aldeia, não é mais de que uma parede em ruínas cheia de silvas e outra vegetação que a vai devorando pouco a pouco. Coroa uma pequena elevação, rodeada por oliveiras, ali, vigilante, entre a aldeia espaiada ao sol e o vasto Vale da Vilariça, lá ao fundo. Prometi visitá-la e estava a cumprir o prometido.
Desloquei-me a Benlhevai de carro, que deixei próximo da Rua do Poço Andrez. Por instinto, segui pelo caminho certo. Depois da última casa, havia algumas hortas com couves viçosas, tomates e cércias. As vespas banqueteavam-se com o néctar dos figos maduros que se ofereciam por cima do caminho e com bagos de uvas que pendiam das videiras que envolvem uma antiga nora. Por cima, um galo de chapa, mais parecendo um cata-vento no alto de uma igreja, vigiava a tranquilidade do local, não fosse algo perturbar a paz do ambiente rural que se respirava.

Um pouco mais à frente encontrei umas alminhas em azulejo azul e branco. Mais uma vez se enganaram a colar os azulejos. Num total de 6, 4 estão fora do seu lugar, mas, pelas marcas, já aí estão há muito tempo.
Quase sem dar conte cheguei à pequena capela. Não sei mesmo se a designação de capela está correcta, possivelmente terá sido a igreja primitiva. Consagrada a Nossa Senhora da Esperança, apresenta uma planta constituída por nave e capela-mor sem qualquer elemento decorativo. O arco da fachada da porta principal e o que divide os dois espaços são românicos. Na fachada, do lado direito junto ao pórtico, a cerca de meio metro de altura está gravada e bem visível uma cruz de Malta.
Com cuidado entrei no interior completamente invadido de mato. Algumas árvores mais possantes, como carvalhos, vão engrossando as raízes, pondo em risco o pouco que resta. As paredes, que resistiram impávidas à passagem do tempo, ficam fragilizadas, porque a água das chuvas lhe penetra nas entranhas, arrastando-lhe o barro.

Tal como imaginava, do local tem-se uma óptima vista sobre a aldeia. Aproveitei para fazer uma série de fotografias, que fui repetindo conforme a luz do sol ia escasseando. Rodeei a capela. Também em direcção ao Vale a vista é digna de ser admirada. Alguns passos em busca do ângulo certo fizeram-me tropeçar em pedaços de cerâmica. Por momentos pensei que fosse uma tendência minha para encontrar vestígios de outros tempos, em todos os locais, mas, com uma busca mais apurada, encontrei mesmo alguns pedaços de cerâmica negra, decorada e que nada devem ter a ver com a cobertura de telha que a capela tinha. Embora a maioria da cerâmica que se encontra seja recente, a quantidade, variedade existentes e a área que abrange, a Sudoeste da capela, são pelo menos suficientes para levantar a dúvida da existência de alguma estrutura habitacional. A prová-lo está também o facto de ali terem sido encontrados dois machados de pedra polidos e um fragmento de mó manual.
Na minha prospecção do terreno esbarrei com uma haste florida de branco. Mais adiante havia mais algumas. Sentei-me no chão procurando captar a fragilidade das suas flores à medida que o sol se foi sumindo, semeando as sombras e o silêncio.

Quando o Sol se escondeu por detrás do Maragato, abandonei o local, não fossem os habitantes de Benlhevai atribuir os disparos do flash a alguma causa do além, ou a alguns ser extraterrestre que visitava as ruínas da Capela de Nossa Senhora da Esperança ao crepúsculo.

11 outubro 2007

A Menina das Cravelinas e Bem-Me-Queres

"Ela é gaiata, morena, dentinho de cal, cabelos escuros, aroma de madressilva no colo de rosas brancas, menina do meu agrado, sempre jovem, com jóias ricas de família nos dedos afusados, adereços romanos, góticos, árabes, judaicos...
A serra, molosso de xisto e terra escura deitado entre o Facho e as Portas do Sol, abrigam-na do norte, expõe-a abertamente às soalheiras do sul, tendo-a no regaço, como desvelada mãe.
Quem, há vinte anos subisse às capelinhas, dispostas mesmo no alto, pela tenaz dedicação dum grande vilaflorense, que tem o nome indelevelmente ligado às graciosas ermidas - Manuel Álvares Pereira de Aragão - via o povoado, lá do fundo, começar na Santa Luzia, na «máquina» - nome consagrado da fábrica de moagem inaugurada pelo gigante João de Matos, na minha saudade de criança - na Rapadoira e por ali abaixo até à Portela.
Hoje, o passeante, quer se sente nos degrau da velha capela de N.ª S.ª da Lapa, fachada alvíssima, ponteaguda, seu portelo de mina à esquerda, encavada em ciclopes de rocha bronzeada; quer se encoste às capelas de Santo Antão e São Bernardino, de cúpula em pirâmide; quer se instale nos miradoiros do santuário hexagonal da Senhora dos Remédios, depois de refazer-se do esforço da ascensão, com um lenço que lhe enxugue a testa ou uma aba de chapéu que lhe desencalme o rosto congestionado, tem o grato prazer de verificar quanto a vilazinha subiu, como casas novas nasceram, num populante renovar de gerações, vindo a fazer guarda de honra ao formoso edifício da «Domus Municipalis», padrão senhorial do concelho e da comarca, de costas no peito dos olivais da serra. A menina aconchegou-se melhor ao regaço da serra mãe, como gata mimalha que se levanta para se acomodar mais consoladinha ao sol da graça. A menina enfeitou-se. Deitou fora os candeeiros mal cheirosos e fumarentos do seu «bondoir» e meteu electricidade; instalou lindas torneiras onde jorra água pura da serrania; tem um lindo telefone de plástico rosado e translúcido, sobre a mesa de cabeceira; e vem à janela admirar o recorte moderno das avenidas e pracetas recém-nadas, seus balaústres, suas copas redondinhas como hortêsias, seus canteiros de relva fresca, rampas, escadarias, globos de candeeiros, aqui e ali, num conjunto de apoteose surpreendente, embora um fundo suspiro lhe sacuda o peito, saudoso da sua praça velha, que era a mais bela iluminura do seu pergaminho, que era o seu coração, o seu carácter, agora fendida, imolada a um desalmado critério de urbanização!
E a menina aparece no limiar da janelinha, mirando as lavadeiras nos seus tanques novos, entre olivedos e amendoais, onde cantam melros e rouxinóis, enfeitada com um ramalhete de cravelinas e bem-me-queres entre os seios macios de adolescente. "

Excerto do livro Paisagens do Norte, escrito por Cabral Adão e publicado em 1954. Este livro teve uma segunda edição pela Câmara Municipal de Vila Flor em 1998 (Minerva Trasmontana, Vila Real). Pode ser encontrado no Museu Berta Cabral, na sala dedicada a Vila Flor.

Nota:O original da fotografia a preto e branco encontra-se no museu Berta Cabral. A apresentada foi retocada digitalmente para lhe apagar imperfeições resultantes do manuseamento. Não consegui data-la com exactidão. Talvez seja de 1936.

09 outubro 2007

À volta de Roios

Depois de uma subida transpirada ao alto do Facho, voltei atrás, desci a serra em direcção à Lixeira Municipal. Curiosamente alguém aproveitou a lixeira para fazer um circuito para todo o terreno! Achei caricato os gostos, mas admirei o aproveitamento do espaço. Segui durante pouco tempo pela N214, em direcção à Trindade, mas, pouco depois, cortei pela pequena estrada que liga a Roios. Nunca tinha percorrido esta estrada de bicicleta e, com o clima tão instável, não me apetecia ir muito longe.
A descida é muito rápida, mas fiz algumas paragens para saborear o Outono. Algumas vinhas ainda tinham uvas. Na bordadura das mesmas havia árvores carregadas de frutos coloridos. Os castanheiros começam a dobrar-se com o peso dos ouriços que ameaçam estourar a qualquer momento.
Num lameiro seco pelo Verão, já despertaram as tão belas quanto mortíferas flores duma planta do género Colchicum. Não sei bem se se trata da Colchicum lusitanum Brot ou da Colchicum autumnale, parentes muito próximas, ambas da família das Colchicaceae. A luz era pouca para me dedicar à macrofotografia, mas, encostei a bicicleta e deitei-me no lameiro à procura de um ângulo favorável desta beldade, também conhecida como dama-nua. Não confundir esta planta com o açafrão (Crocus sativus).
Continuei até Roios. É sempre agradável passear nesta pequena aldeia. Em muitos recantos há vasos com plantas suspensos emprestando um ar colorido e romântico. Depois de um curto passeio por algumas ruas, decidi continuar a descer em direcção a Lodões. O objectivo era subir por um antigo caminho entre a Quinta do Vale da Cal e a Quinta do Israel, que vem apanhar a estrada de Roios já bem próximo de Vila Flor. Esta parte do percurso ia ser uma verdadeira descoberta. Nunca por aí tinha passado, não fazia a mínima ideia de onde me ia meter.
Antes de chegar à Quinta do Prado de Baixo, pelos 300 metros de altitude, virei à direita. Há um caminho que segue para o Cabeço do Pereiro, por onde já passei e outro que curva para Poente em direcção à Ribeira de Roios. O caminho é bom, devia ser uma via importante há alguns anos atrás. Logo depois da ponte sobre a ribeira, há algumas ruínas. Deviam ser antigas azenhas. Há muitas silvas, é impossível explorar o local. Encontrava-me eu a rodear as construções, quando começou a chover. Aproveitei a ombreira da porta para me proteger da chuva. Passados poucos minutos pude continuar. O caminho que conduz à Quinta de Vale da Cal atravessa uma ribeira que desce desde o Alto da Caroça. É um local paradisíaco, com frondosas árvores, gigantescas, mas que não consegui identificar com exactidão. Uma pareceu-me um plátano mas há outra que merece atenção, pode ser um exemplar digno de referência no concelho e na região.

A partir deste ponto, o caminho sobe muito. Mesmo com um clima instável, a paisagem é fantástica. Em vários pontos, abandonei o caminho, para olhar com mais atenção a ribeira que passa por Vila Flor e desce ao encontro da Ribeira de Roios, saltando de pedra em pedra, em pequenas cascatas, em locais escarpados de difícil acesso. A beleza da ribeira, à distância, pode ser maior. Pelo que conheço deste curso de água, perto da Quinta de S. João, junto a Vila Flor, a água espalha um cheiro muito desagradável. Não sei até que ponto a ETAR de Vila Flor está a realizar um bom trabalho. Felizmente ao longo do curso da ribeira, a água vai oxigenando e recuperando alguma vida.
A Quinta do Israel está completamente votada ao abandono. Muitos hectares de olival reclamam cuidados e as casas, mesmo vistas à distância, ameaçam cair. Quando passo por locais como este, gosto de fazer viagens no tempo, tentando adivinhar como seria a vida nestes locais, há algumas décadas atrás. A subida é longa, deu-me tempo para viajar, saborear o silêncio, fotografar pormenores, expurgar o stress e limpar os poros abertos por enxurradas de suor.
Quando cheguei à estrada N608-1, segui em direcção a Roios durante algum tempo para ver os trabalhos de recuperação da via. Por fim, já com os últimos raios de Sol a passarem pela Porta do Sol, regressei a casa. Além da viagem dos quilómetros, 19 ao todo, houve outra viagem: de observação, sensação e introspecção. Mais do que as palavras, as fotografias mostram essas viagens.
Quilómetros do percurso: 19
Total de quilómetros em bicicleta: 1525

08 outubro 2007

De volta ao Facho


Faz hoje exactamente um ano que subi pela primeira vez ao ponto mais alto da Serra do Facho. Nessa altura, na companhia dos meus dois filhos, não tinha ainda uma ideia bem definida de até onde me levaria esta onda de descoberta. Fiquei curioso com a quantidade de pedras soltas existentes, que me pareceram restos de alguma estrutura bastante antiga. Voltei ao mesmo local mais algumas vezes, a última no dia 30 de Setembro. De novo o dia estava cinzento, ameaçando chover, mas quando cheguei ao topo, asseguro que não tinha frio. Explorei o lugar com mais cuidado, fazendo um círculo completo, acompanhando troços de rochas caídas que indicam inequivocamente a existência de paredes mais ou menos estruturadas. Desta vez tinha na memória a descrição do local feita pelo Instituto Português de Arqueologia que passo a transcrever:
"Designação: Facho
Tipo de Sítio: Atalaia
Período: Idade Média
Atalaia fortificada, localizada no ponto mais elevado da grande crista quartzítica que domina Vila Flor. É um ponto dominante na paisagem, tendo controlo visual a toda a volta, sobre as passagens para o vale da Vilariça, o vale do Tua e a depressão de Mirandela, o planalto de Carrazeda e a serra de Bornes. Deverá por isso tratar-se da mais importante das várias atalaias conhecidas na área do concelho de Vila Flor. Localiza-se no topo de um cabeço arredondado e rochoso. O topo do cabeço é rodeado por um anel de derrube, correspondendo a uma presumível linha de muralha, provavelmente pouco espessa, e que aproveita os afloramentos existentes, nomeadamente do lado Sul. Forma um recinto aproximadamente circular, com uns 30/40 metros de diâmetro. A entrada poderá ficar do lado Sudeste, onde o anel de muralha está desencontrado, e se une por uma linha perpendicular de muralha, com cerca de 10 metros de comprimento, que fecha um espaço entre afloramentos. Do lado de dentro de um destes afloramentos encontra-se o derrube de uma estrutura. No topo e no centro do cabeço, ao lado do marco geodésico, encontra-se um outro derrube, de uma estrutura de forma indecifrável, que poderá ser a torre de atalaia. Não se encontraram materiais de superfície, mas tudo indica que se deverá tratar de uma atalaia fortificada da Idade Média."

É pena que o caminho que conduz ao Facho não tenha continuidade. Tive que voltar atrás e continuei por Trás-da-Serra, numa descoberta que descreverei noutro dia.

01 outubro 2007

Freguesia Mistério 8


A fotografia colocada online no dia 01 de Setembro, representando a Fotografia Mistério n.º7, teve 24 votos. A distribuição foi a seguinte:
Candoso (2) 8%
Nabo (1) 4%
Roios (1) 4%
Santa Comba de Vilariça (1) 4%
Vale Frechoso (2) 8%
Vila Flor (10) 42%
Vilarinho das Azenhas (1) 4%
Vilas Boas (4) 17%
A maioria achou que a imagens em questão se encontrava em Vila Flor, seguindo-se-lhe a opção Vilas Boas. Na realidade, a imagem encontra-se à vista de toda a gente na fachada da Igreja Matriz de Vale Frechoso. Esta opção apenas teve dois votos (um dos quais meu!). Aconselho todos a fazerem um passeio a Vale Frechoso.
A Freguesia Mistério n.º8 é representada por uma grade em madeira pintada a azul e uma placa que indica a Rua do Forno. É possível que exista a Rua do Forno em várias aldeias de Vila Flor, pelo que é necessário conjugar o nome da rua com a placa e varanda azul. Quero ver esses palpites.

A votação faz-se na margem direita do Blog.

30 setembro 2007

Melhores acessos a Roios

Hoje fiz um pequeno passeio, passando por Roios. Verifiquei com satisfação que na estrada entre Vila Flor e Roios está a ser colocada uma nova camada de asfalto. Já tinha falado dessa estrada aqui no Blog. Era uma vergonha existir uma estrada no estado em que aquela se encontrava.
Os meus parabéns também à Junta de Freguesia de Roios pela sua preocupação em manter a aldeia com bom aspecto, repleta de pequenos vasos com flores, a par dos recipientes para o lixo. Algumas freguesias maiores deviam aprender com estes bons exemplos.

28 setembro 2007

Estar aqui


Não é simples estar aqui
querendo mostrar
não sei o quê do que senti

Que o senti de triste vo-lo digo
é que chorar não sei
para orar não pequei
se é que se possa pecar
ou por isso me valha rezar

Pelo umbigo
sou prisioneiro desta verdade
sou o desejo de umas rasas
ou mesmo que sejam umas quartas de felicidade

É comigo
eu sei
desde que sou ser de umbigo
sem penas
sem asas
com penas
com asas

com dezenas e dúzias
de alqueires de gorgulho e trigo
com penas e veios
e gorgulho

É comigo
eu sei
sei só
triste sei
escrever o que não digo
e dizer que sinto ainda
a dor com que nasci


Poema de Manuel M. Escovar Triggo, natural do Vieiro, do livro "Acidentais", publicado em 1987 em Coimbra.

Fotografia tirada dia 22 de Setembro de 2007, a caminho de Freixiel.

26 setembro 2007

Maravilhamento


Eis-nos no sítio exacto do prodígio.
A Divindade afaga-nos as faces.
Despem as oliveiras seus disfarces.
Move-se um anjo sem deixar vestígio.

E a Flor não fenece no litígio
Da forma e ser, (que nada a ultrapasse!).
Não há régua e compasso com que trace
Os confins rigorosos do prestígio.

Do Facho ao Frade, o céu pousa na serra.
E tudo o que é simples, pedra e terra,
Ascende à grimpa estelar dum templo.

Só eu me enredo em tudo quanto abraço.
Percorro o infinito, e sobra espaço.
Habito a eternidade, e resta tempo.

Poema de João de Sá. "Flores para Vila Flor", 1996.
A fotografia foi tirada dia 18 de Setembro de 2007, perto do Barracão, Vila Flor.

22 setembro 2007

Em Freixiel, entre uvas e vestígios arqueológicos


Hoje desci até Freixiel. Já não visitava esta simpática aldeia, cheia de razões arqueológicas e naturais para ser visitada, há bastante tempo. Uma das razões que hoje orientou a bicicleta pelos caminhos de Freixiel foi a época das vindimas. A cooperativa já começou a produzir vinho, e, sendo hoje Sábado, muita gente aproveitaria para vindimar.
Decidi descer de novo o caminho de Samões a Freixiel. Passei por aqui no dia 18 de Maio, com a paisagem repleta de cores e as ribeiras cheias de água. Hoje iria ser diferente.
Deixei, Samões para trás. Os lameiros estão secos, só os freixos e algumas giestas emprestam alguma frescura. A descida até à Ribeira das Olgas (completamente seca) foi rápida. A partir daqui o caminho parecia muito pouco utilizado, compreendi porquê: há muita areia, muita terra, por vezes tão fina que parece cinza, espalhada pelo caminho. Nalguns pontos é muito difícil (e perigoso) andar de bicicleta. Encontrei uma ou outra vinha já vindimada, mas a grande maioria ainda estava por vindimar. Fui surpreendido pela grande quantidade de uvas que têm as videiras. Brancas, negras, de bagos gordos e apetitosos, provocando a uma pausa.
Até chegar à igreja de Freixiel, as vinhas intercalam com sobreiros e algumas oliveiras. Fui descendo calmamente. A Ribeira do Pelão também está completamente seca, por isso só me restavam as uvas para fotografar. Foi o que fiz.
Entrei na aldeia por detrás da igreja e dirigi-me ao Largo do Pelourinho, pela Rua do Conde. O meu objectivo “arqueológico” era a Necrópole do Salgueiral. Segui pela bonita e recente rua que encontra a estrada de Folgares junto às alminhas. Parecia-me que teria acesso ao Salgueiral pela estrada de Folgares, mas estava enganado. Valeu-me um grupo de vindimadores que me deu uma localização mais precisa. Voltei à aldeia, passei a Ponte do Vieiro e virei à esquerda. Segui o caminho até chegar de novo à ribeira, num pontão recente. Deixei aí a bicicleta e comecei a subir pelo leito da ribeira que está completamente seca. Na frescura das margens florescem algumas plantas e as borboletas aproveitam, o seu ciclo está a chegar ao fim. Achei que já tinha passado o local, por isso subi a ribeira até encontrar uma elevação de rochas perto da margem. Devia ser ali próximo. Procurei, procurei, mas nem sinal de sepulturas escavadas na rocha.

Na minha busca pelas sepulturas fui encontrando algumas rochas no mínimo curiosas. Existem neste local muitas rochas graníticas de forma côncava. Por momentos pensei encontrar vestígios de coberturas de várias sepulturas, mas devem ser formações naturais. O mais curioso, foi encontrar enormes rochas, com forma de menir, que estariam envolvidos por essas rochas côncavas. Encontrei também uma rocha que me intrigou, com pelo menos seis covinhas escavadas. O tempo passava e não conseguia encontrar as ditas sepulturas. Procurei um agricultor ali perto. Mesmo com a ajuda da sua idosa mãe, não conseguiram dar-me nenhuma indicação. Mais a Norte andava um grupo de vindimadores, fui ao seu encontro. Pelo menos dois deles (um bastante jovem) conheciam a localização exacta das mesmas. Desci de novo para perto da ribeira e, com as indicações preciosas dadas, consegui encontrar duas sepulturas escavadas no granito. Cristiano Morais situa as sepulturas no séc. V d.C. e fala em três, não em duas. Também a última localização feita pela Extensão do IPA - Macedo de Cavaleiros apenas conseguiu localizar duas descrevendo-as desta forma: “São ambas muito semelhantes, rectangulares, de lados abaulados, com orientação Norte-Sul. A primeira fica no princípio e no ponto mais elevado do afloramento, enquanto a segunda fica a meio do afloramento, cerca de 10 metros a Sul da primeira.”
O Sol já estava baixo, não me permitiu grande margem de manobra nas fotografias. Saí do Salgueiral e “corri” até à aldeia. Pretendia acompanhar a entrada das uvas no lagar. Cheguei ligeiramente atrasado, mas ainda pude testemunhar um grupo de pessoas pisando as uvas com os pés, como nos velhos tempos.


Já era tarde. Parti em direcção a Vila Flor, seguindo a estrada e olhando muitas vezes para trás. É sempre bonito o pôr-do-sol, enquanto se sobe a estrada N314.
Quilómetros do percurso: 25
Total de quilómetros em bicicleta: 1506

21 setembro 2007

Alto do Maragato, em Roios


No dia 10 de Setembro fiz mais uma visita ao monte a Norte de Roios conhecido por Maragato. Na primeira vez que lá estive, a 24 de Fevereiro de 2007, estava um dia assustador: frio, vento, nuvens e alguma chuva. Desta vez o tempo estava excelente, mas, acabei por chegar um pouco mais tarde, assistindo ao pôr-do-sol. A escolha do percurso teve em atenção o mau tempo da primeira visita, a proximidade, pois necessitava pouco tempo, a minha curiosidade pelo local e a beleza da paisagem que se avista.
Este local, a 655 metros de altitude, fica na separação das freguesias de Roios e Vale Frechoso. Na minha primeira visita, detectei sinais da presença humana, há muitos anos atrás. Agora, depois de mais alguma experiência e leitura, compreendo que o local não tem as condições ideais para a instalação de castro, mas não tenho a mínima dúvida que ali existiu uma estrutura. Possivelmente terá sido uma atalaia, da Idade Média. Estas atalaias, tinham por missão vigiar uma grande extensão de terreno em redor e integravam-se numa organização de vigia mais complexa, recorrendo à comunicação através de sinais para uma estrutura mais segura, por exemplo um castelo.

Neste local há uma plataforma elevada com dois afloramentos quartzíticos, não muito extensa, insuficiente para um povoado. Nos pontos de acesso é visível uma grande quantidade de pedras soltas que resultaram do derrube da estrutura defensiva da atalaia.
Apesar de atento a potenciais pormenores arqueológicos, não fiquei indiferente à paisagem, à vegetação e ao pôr-do-sol. Há uma urze rasteira que está agora a florir. Encontrei a mesma variedade de planta florida que tinha encontrado alguns dias antes em Samões!
Os momentos que antecedem o recolher do sol são mágicos. Os sons propagam-se de forma diferente, tudo ganha uma nova dimensão. O marco geodésico foi-se pintando de laranja, entendendo-se um manto escuro do Facho, passando pelo Serra do Reboredo até à Serra de Figueira, perto de Mogadouro. A Serra de Bornes, altiva, conservou durante mais uns minutos os últimos raios de sol. Por fim, rendeu-se. Deixou-se invadir pela melancolia das sombras.
Ver a reportagem da 1.ª visita

19 setembro 2007

Quadros de Setembro

10-09-2007 - O Verão deixou-nos os tons pastel da terra, cheia de restolho, desejando a chuva. Ao fim da tarde respira-se calma, enquanto não chega a azáfama da vindima e o cheiro a mosto.
Algures, a caminho de Vale Frechoso, olhei em direcção ao Norte. Exposto estava um dos quadros que mais admiro e fotografo. Desta vez, as cores lavadas e frias do horizonte, contrastavam com a cor da palha aquecida pelos últimos raios de Sol.
Era a hora de introspecção. Era o local certo.

18 setembro 2007

De Samões a Vilas Boas


Neste início de ano lectivo, tenho vivido um pouco na expectativa. Numa família em que os dois cônjuges são professores e os dois filhos são alunos, a escola é importante nas nossas vidas e fonte dos nossos problemas. Infelizmente, tem sido um centro muito sujeito a monções de mau tempo, muita turbulência, que provoca muitas incertezas.
No dia 17 de Setembro reiniciei a minha actividade lectiva na EB2,3/S de Vila Flor. O horário que me foi distribuído não é tão propício para "a descoberta" como o que tive o ano passado, mas, sempre arranjarei uns espaços temporais para continuar nesta aventura de descobrir e conhecer cantos e recantos deste pequeno concelho.

Neste compasso de espera e de incerteza que antecedeu o início do ano escolar fiz alguns passeios à volta de Vila Flor dos quais ainda não falei.
No dia 5 de Setembro, decidi alongar o passeio que tinha feito no dia 4. Saí em direcção à Barragem; segui em direcção a Samões; virei à esquerda em direcção a Carvalho de Egas mas rapidamente cortei por uma caminho à direita, pelo Carvalhal, que depois desce em direcção a Freixiel. Passei belos momentos por aqui, na altura das amendoeiras em flor!
Antes de chegar à Ribeira do Vimieiro, cortei à direita e subi um pouco. As uvas, por aqui estão quase maduras. Há também por aqui algumas colmeias. Não perdi muito tempo, porque o meu objectivo era ir até Vilas Boas. Em pouco tempo alcancei a estrada de Freixiel. Aqui encontrei, como noutras vezes, o jovem ciclista Hélder Magalhães em mais uma sessão de treino, numa cadência acelerada, não fosse ele um bom trepador. Trocámos algumas palavras e depois procurei um caminho que me permitisse chegar a Vilas Boas. A facilidade apontada por um pastor, pouco por cima da pedreira, não se veio a verificar no terreno e tive alguns contratempos. Depois de saltar algumas paredes e de encher os pneus de picos de silva, consegui encontrar a Quinta do Reboredo, onde se pratica agroturismo. A partir daqui já foi mais fácil. Cheguei a Vilas Boas com os últimos raios de Sol.

Passei por algumas ruas onde nunca tinha estado. Encontrei à entrada da aldeia uma fonte, com água canalizada e já dentro dela um cruzeiro em granito, com aspecto de ser bastante antigo. Não tive tempo de muitas demoras, a subida é grande e em breve seria noite.

Quilómetros do percurso: 24
Total de quilómetros em bicicleta: 1481