15 novembro 2007

Sumagre (Rhus Coriaria L.)

A minha curiosidade sobre o arbusto com folhas coloridas de vermelho levaram-me a investigar um pouco sobre esta planta. Nas primeiras perguntas que fiz, soube o nome "Sumagre", mas também que tem frutos com um sabor muito azedo. As flores são bonitas e aromáticas, sendo muitas vezes usada para decorar as cascatas dos santos populares. A floração acontece em Maio-Junho. Numa busca mais cuidada na Internet consegui reunir mais informação.
Esta planta Sumagre (Rhus Coriaria L.), pertence à família das Anacardiaceae. É usada nas mais diversas áreas da actividade humana! Os romanos já usavam na culinária um pó vermelho e ácido extraído dos seus frutos, um pouco como se usa hoje o sumo de limão, como tempero. A cultura desta planta teve alguma importância na ilha da Madeira, sendo plantada como a vinha ou como as roseiras. As folhas e a casca eram utilizadas no curtimento de couros e peles. A planta era cortada rente ao chão e rebentava posteriormente, podendo ser cortada de novo no ano seguinte. As folhas eram secas ao sol e depois moídas. Também na zona de Vila Nova de Foz Côa foi uma cultura com alguma importância.
O sumagre também era usado no tingimento de lãs nas fábricas da Covilhã, graças aos taninos da suas folhas e caules.
Para além de todas estas utilizações é de salientar ainda o seu poder medicinal (alivia a febre e é diurética) .
A existência de algumas extensões consideráveis da planta, aqui bem próximo da vila, pode indicar que ela possa mesmo ter sido cultivada para as suas variadas utilizações. Actualmente é quase unicamente utilizada como arbusto decorativo.

13 novembro 2007

Vestida de Outono II


Este Outono que anunciou uma boa produção de cogumelos, tem decorrido bastante seco não proporcionando as condições ideais para a proliferação dessa iguaria. Foram já duas as vezes que saí (dia 8 e dia 10), em direcção à Barragem do Peneireiro com intenção de procurar os cogumelos da época, mas nada encontrei. Não dei o tempo como perdido. Aqui mesmo, bem próximo da vila, a natureza vestiu-se de cores fantásticas. Eu já me interroguei como é que eu não reparei em tanta beleza no Outono passado!
No dia 8, saí de manhã. O céu estava limpo e o dia sossegado. Quando descia a rua junto da Quinta da Pereira, já via algumas dezenas de cerejeiras, vestidas a preceito, desafiando a minha habilidade fotográfica. Deixei a bicicleta no caminho e segui a pé, tentando enquadrar o Outono com a vila ao fundo. A par das cerejeiras, também as videiras apresentam folhas com cores outonais, embora menos vistosas.
De volta ao caminho atraiu-me um arbusto que cresce ao longo dos caminhos. O vermelho da suas folhas rivaliza com o das cerejeiras e é só comparável ao do Acer, pouco frequente em Vila Flor. Conforme a exposição ao sol, as folhas surgem pintadas do verde ao vermelho carregado, passando por muitos tons laranja e dourados. De longe o vermelho domina. Parece que alguém andou a espalhar estas pinceladas de vermelho na paisagem só para me desafiar.

Embrenhei-me por caminhos que desconhecia, em direcção à Quinta de S. Domingos. A cada passo, o Outono bafejava-me com brisas de encanto: as folhas de castanheiro de amarelo vivo; os frutos vermelhos de um medronheiro que cresce num muro; um diospireiro carregado de frutos; um ramo de belos crisântemos que cresce no meios das silvas… um melro que foge assustado do seu esconderijo. Lembrei-me dos cogumelos! Parti a toda a pressa em direcção a um pinhal junto da barragem. Procurei durante algum tempo, mas não encontrei nada. Voltei a casa, estava quase na hora de almoço.
No dia 10 fiz o mesmo percurso, mas acompanhado do meu filho mais velho. Levei a melhor objectiva, um zoom de 80-200 mm. Não é muito prático (nem seguro) andar com este equipamento na bicicleta, mas queria tentar outros efeitos. Percorremos os mesmos caminhos, desta vez com o sol em posição contrária, já ao meio da tarde. O meu acompanhante não se entusiasmou muito com os tons de vermelho, mas lá foi tentando alguns disparos. Não se saiu nada mal!
Partimos em direcção à barragem. Procurámos cogumelos num pinhal, já depois da albufeira, na estreita estrada que conduz a Seixo de Manhoses. Encontrámos alguns que não identificámos como comestíveis, mas, o que havia mais era lixo.
A noite chega cedo e às 17 horas já o sol havia desaparecido. Só o fumo de alguns aviões a jacto brilhava no céu, reflectindo-se nas calmas águas da barragem. Com o ar fresco da quase noite a bater-nos na cara, pedalámos com toda a energia até casa.
Quilómetros do percurso do dia 8, em BTT: 10
Total de quilómetros em bicicleta: 1621
Quilómetros do percurso do dia 10, em BTT: 13
Total de quilómetros em bicicleta: 1634

09 novembro 2007

Vestida de Outono


A Vila,"A Menina das Cravelinas e Bem-Me-Queres" vestiu-se de Outono. Ontem pela manhã, num breve passeio, fiquei fascinado com as tonalidades quentes e vivas que encontrei! Entusiasmei-me de tal forma, que só parei quando a máquina fotográfica me indicou que precisava de uma nova bateria.
Para já, deixo apenas uma fotografia. Cheia de cor, vibrante, com a "menina" com a borda da saia debruada de vermelho, deitada ao sol, apanhando os raios quente nas pernas semi-descobertas.

07 novembro 2007

Cogumelos - Rocos (Macrolepiota procera)

Está prestes a fazer um mês que encontrei os primeiros cogumelos, aqui perto, no Barracão. Tratava-se de um conjunto de 3 belíssimos exemplares de Macrolepiota procera, conhecidos localmente por Rocos (também no concelho de Carrazeda de Ansiães), mas que também são conhecidos por púcara, frades, marifusas, entre outros. Parecia que ia ser um Outono de abundância em espécies micológicas mas, devido à ausência de chuvas, tal não se tem verificado. A classificação cientifica deste cogumelo é: Reino: Fungi, Filo: Basidiomycota, Classe: Basidiomycetes, Ordem: Agaricales, Família: Agaricaceae, Genero: Macrolepiota, Espécie: Macrolepiota procera. É um dos cogumelos mais recolhidos em Portugal e por essa Europa fora. Isso deve-se à sua abundância mas também à facilidade no seu reconhecimento, o que faz com que muitas pessoas, menos conhecedoras ou mais desconfiadas, se fiquem pela recolha desta única espécie. Todo o cuidado é pouco, muitas famílias têm morrido no Nordeste, vitimas de alguns erros na recolha de cogumelos! Em caso de insegurança, o melhor, é não arriscar.
Esta espécie pode atingir grandes dimensões, mais de 30 cm de diâmetro. O meu amigo Atento que me desculpe, mas não resisto a colocar aqui, uma ligação a uma fotografia de um Roco, apanhado no ano passado, na freguesia de Parambos (Carrazeda de Ansiães).
São facilmente encontrados nas giestas, estevas, nas bordas dos pinhais, nos lameiros, nos soutos, ou mesmo na berma dos caminhos e estradas.
Embora possam ser cozinhados de várias formas, uma das mais usuais é mesmo grelhados nas brasas depois de temperados com umas gotas de azeite e algumas areias de sal.
PAra quem quiser saber mais sobre este assunto, pode encontrar neste site, uma extensa lista dos cogumelos comestíveis, em Portugal (lista em PDF).

06 novembro 2007

Museu - Aparelhos de arrancar dentes

"Mestre-barbas foi a uma gaveta, tirou de lá uma espécie de saca-rolhas, destes de braços de pau, com um arganel na ponta, lavou-o com uma amostra de água do jarro e meteu-o na boca do homenzinho, tentando presa no dente cariado. Os assistentes formaram roda, a gozar do espectáculo, com mímicas de quem tem dó. O homem, de cabeça bem levantada, encostava-se para trás nos braços retesados. Na frente dele, o barbeiro, escanchado e curvo, tinha ares de magarefe a esquartejar uma rês. A semelhança foi mais evidente daí a nada, porque o homem berrava como um vitelo. E com meia dúzia de sacalões na cabeça dorida, o dente era escarolado entre postas de sangue e caía do saca-rolhas na bacia de loiça - tlac - enquanto o barbeiro se erguia e perfilava, limpando o suor vitorioso:
- Estava custoso, estava custoso!"
Depois de ter lido esta preciosa narração do livro Paisagens do Norte, de Cabral Adão, foi com mais entusiasmo que voltei ao Museu Municipal de Vila Flor. A descrição, se não é verdadeira, está muito próxima da realidade. Um destes aparelhos, pertenceu a João Alves (conhecido como João Requeiro), filho de Manuel "Requeiro", também barbeiro (e dentista) como o filho. É o pai que é retratado na descrição.
João Alves nasceu em 1882 e morreu a 17-03-1955 .
O aparelho foi oferecido ao museu em 28-05-1977, por Laura Fernandes Calijão de Sá Morais, sobrinha de João Alves.

05 novembro 2007

À procura de vestígios arqueológicos no Cabeço

Depois da minha tentativa falhada para encontrar vestígios arqueológicos no Santuário de Nossa Senhora da Assunção, no dia 23 de Abril de 2007, voltei ao local no dia 27 de Outubro. Segui as indicações que me foram dadas e, logo depois da Rotunda dos Evangelistas, cortei à direita seguindo por um caminho que rodeia todo o Santuário. A nascente, estacionei a bicicleta e inicia a minha prospecção no terreno. A ideia era tirar algum partido do facto desta área ter ardido no dia 25 de Agosto de 2007, sendo muito mais fácil progredir no terreno.

A quantidade de rochas soltas é grande. Amontoam-se, formam paredes, socalcos mas não consegui ver nenhuma intenção no seu arranjo. Subi a um pequeno cabeço rochoso, à direita do caminho. Via uma grande área em redor. Optei por descer a encosta, nessa direcção havia maior quantidade de rochas, devia haver por ali vestígios de habitações. O desânimo já começava a tomar conta de mim quando encontrei alguns pedaços de cerâmica. Começo a ter já alguma prática, eram uma espécie de tégulas. Foi o primeiro sinal. Procurei mais afincadamente. A certa altura encontrei muros com cerca de um metro de altura, encostados a um rochedo. Era um bom indício, podiam ser mesmo vestígios de alguma casa medieval. Procurei em volta mas não encontrei mais indícios. Perto encontrei as ruínas de uma grande construção. Nela existem alguns blocos de granito aparelhados, não deve ser uma construção antiga, mas sim alguma corte para animais.
Desanimado comecei a subir a encosta de encontro ao caminho, junto aos parques de estacionamento do santuário. À medida que me aproximava aumentava a quantidade de pedaços de cerâmica espalhados. No caminho descobri a razão: alguém despejou entulho na encosta.
Olhei para o alto. Daquele lugar é onde o santuário parece mais inacessível, suspenso no topo dos rochedos, mais perecendo um daqueles castelos medievais que vemos nos filmes. Segui em direcção aos rochedos, queria escalá-los até à capela. Nos buracos do rochedo há muito lixo. Tudo o que era combustível ardeu, mas ainda há muito vidro, ferros, restos de azulejos, telhas, tijolos, etc. Está bom de ver, quando procederam a obras no topo do santuário, o entulho era atirado para os rochedos, espalhando-se por uma grande extensão. Não foi difícil chegar às traseiras da Casa dos Milagres. Já aqui tinha estado. Busquei vestígios do muralha de protecção do cabeço, que dizem existir nesta zona. Esta referenciada a existência de duas fiadas de pedras de xisto que são os únicos vestígios de uma muralha que protegia a acrópole. Há sim vestígios de paredes mas não sei precisar se são os tais vestígios ou se são de alguma antiga estrutura do santuário.
Junto da capela gozava-se aquele ar tranquilo de fim de tarde que eu tanto aprecio neste local. É uma sensação de comunhão com toda a terra que nos rodeia e com o ar, com o céu talvez. Aqui estamos mais próximos e o silêncio ajuda. Curiosamente não senti frio, mas, de manhã, tenho a certeza que o nevoeiro se estendia do Cachão até Mirandela, criando um daqueles cenários que fazem suster a respiração.
Encontrei o guarda do santuário e sentá-mo-nos um pouco ao sol do fim da tarde. Ele lamentando-se do silêncio, da lentidão das horas, da falta de visitantes; eu, elogiando a paisagem, valorizando o silêncio, perguntando sobre as obras de recuperação da capela, após o incêndio.
Acabámos por falar do castro. O pai do zelador tinha uma terra exactamente onde se situa o castro. Recordava-se de, em jovem, encontrarem potes de barro, que partiam por não lhe encontrarem valor nenhum. Foi nessa zona que encontraram o Berrão em granito, peça importante que pode ser admirada no Museu de Vila Flor. Falou-me de que toda aquela zona era cultivada. Algumas áreas com animais, outras, com a força dos braços, à enxada. Vinham pessoas do Seixo, ganhar a jeira para a Quinta da Veiguinha, cavando.

Com o tempo, muitos agricultores foram doando as terras ao santuário, outras foram compradas pelo mesmo, permitindo o alargamento, quer do Santuário propriamente dito, quer dos extensos parques de estacionamento. Foi este crescimento desenfreado que destruiu quase por completo todos os vestígios do povoado fortificado da Idade do Ferro que terá existido no local, bem como os vestígios de romanização que o mesmo sofreu.
Com o sol a ofuscar a vista em direcção a Vilas Boas, chegou a hora de descer do cabeço até à bicicleta, que ficou lá baixo, no parque de estacionamento.
Desci pelo mesmo local, saltando de rochedo em rochedo, com cuidado. Foi uma sorte ter voltado pelo mesmo caminho. Juntamente com os restos de telhas e azulejos azuis de obras recentes comecei a encontrar pedaços de cerâmica que me levava mais longe, ao passado distante. Aquilo que eu tinha andado a procurar mais abaixo, depois dos parques de estacionamento, estava mesmo ali, entre o parque de estacionamento e os rochedos que suportam a capela. Infelizmente tudo parece revolvido por máquinas, destruindo as estruturas até à raiz.
O entusiasmo voltou, mas já era noite. Encontrei algumas rochas interessantes (uma mó?). Não podia ficar mais tempo, estava a escurecer. Pedalei até casa convencido de que é necessário voltar, talvez nem tudo tenha sido destruído.
Quilómetros do percurso, em BTT: 14
Total de quilómetros em bicicleta: 1611

04 novembro 2007

Freguesia Mistério 9

A fotografia da Freguesia Mistério número oito teve 25 votantes. Acertaram na resposta 40% dos votantes. Não me surpreende visto que há um bom grupo de pessoas naturais do Nabo a visitar o Blog. A distribuição dos votos foi a seguinte:
Candoso (3) 12%
Carvalho de Egas (0) 0%
Freixiel (1) 4%
Lodões (1) 4%
Nabo (10) 40%
Roios (1) 4%
Seixos de Manhoses (1) 4%
Trindade (1) 4%
Valtorno (1) 4%
Vila Flor (6) 24%
Para que não restem dúvidas de que a Freguesia é mesmo o Nabo, podem ver a mesma varanda, à direita, nesta fotografia. A nova Freguesia Mistério (n.º9) está representa com a fotografia uma mó de um moinho "incrustada" na parede de uma casa. Parece-me um desafio bastante fácil porque chama realmente à atenção. Também nada se perde se o palpite estiver errado!... Por isso vamos lá a dar palpites.
Em que freguesia poderemos encontrar a casa que tem esta mó na parede?
A votação é na margem direita do Blog. Basta escolher a freguesia e depois clicar no botão Votar.

31 outubro 2007

Cabral Adão - Síntese Biográfica

Terminei ontem de ler o livro "Paisagens do Norte" de Cabral Adão, escrito em 1954. Não sou muito dado a leituras e ainda menos daquelas de pegar num livro e lê-lo da primeira à última página. Surpreendeu-me o gosto e o prazer que senti ao ler este livro! Por vezes, senti-me a percorrer os caminhos, a falar com as pessoas, a sentir os sons e cheiros de Vila Flor há bastantes décadas atrás. Foi a minha identificação com a escrita, com a forma de sentir as coisas, que me cativou.
Já fui apresentando, aos poucos, alguns excertos. Tenho ainda alguns na "manga", mas aconselho vivamente a leitura do livro na integra. Aqueles que se recordam da Vila Flor doutras décadas, 30, 40, reviverão muita coisa. Os que, como eu, não viveram essas épocas (nem em Vila Flor, nem em outros locais), descobrirão numa escrita simples, apaixonada, de quem presenciou e viveu (e amou) intensamente Vila Flor, pessoas, paisagens, formas de vida, de um a sociedade com outros valores.
Transcrevo a seguir uma Síntese Biográfica, retirada do livro Paisagens do Norte, editado pela Câmara Municipal de Vila Flor, em 1998. A primeira edição foi em 1954.

Luís Cabral Adão nasceu em Vila Flor, Trás-os-Montes, no dia 24 de Junho de 1910, tendo falecido em Almada a 6 de Agosto de 1992. Os restos mortais foram sepultados no cemitério da terra natal, assim se concretizando um anseio que expressamente havia manifestado.
Licenciou-se pela Faculdade de Medicina do Porto, vindo a especializar-se em Estomatologia, múnus que exerceu com aprumo, saber e eficiência em Setúbal, Alcácer do Sal e Almada.
Bem cedo revelou invulgares aptidões para o exercício da literatura de carácter regionalista, sendo de salientar os textos que publicou regularmente, durante muitos anos, no "Jornal de Notícias" do Porto.
Tendo cultivado e engrandecido esse pendor jornalístico, são enumeráveis os escritos que vieram a lume na imprensa regional, evidenciando Cabral Adão raros dons naturais para recriar situações e ambiências numa prosa concisa, límpida e desartificiosa. Muitos destes trabalhos constituíram as linhas de força dos livros entretanto publicados.
Foi um dos fundadores da Arcádia da Fonte do Anjo, a que presidiu e onde se salientou como principal impulsionador dessa agremiação literária que havia de disseminar a sublimidade do fenómeno poético entre as gentes do espaço circundante da "Cidade do Rio Azul".

Bibliografia:
Flores do Rio Azul - Prosa - 1953
Paisagens do Norte - Prosa - 1954
As Flores do Arrozal - Opúsculo - 1955
Meu Liceu, Minha Saudade - Versos - 1948 e 1978
Gineceu - Versos - 1958
Panorâmica, Setúbal - Versos - 1958
Vila Flor - Versos - 1966
Plectro a Jesus - Versos - 1971
O Homem da Terra - Prosa - 1986

Nota: a fotografia foi tirada a 24 de Maio de 1986, quando Luís Cabral Adão se preparava para discursar, nas cerimónias da comemoração do 7.º Centenário do Foral de Vila Flor concedido por D. Dinis em 24 de Maio de 1286.

Referências a Cabral Adão já publicadas no Blogue:
A Menina das Cravelinas e Bem-Me-Queres
Trovoada
Carícia Real

28 outubro 2007

Uma tarde junto ao Rio Tua


Hoje, não foi um dia qualquer… Além de ser um dia com 25 horas foi também aproveitado para um descansado passeio, em família, ao Vilarinho das Azenhas. Tinha curiosidade em ver o Outono à beira rio.
O dia estava bastante cinzento e algo frio. Quando descíamos em direcção a Vilarinho das Azenhas, toda a paisagem estava pintada de tons cinza, muito pouco animadores. Descemos pelo interior da aldeia mas só parámos mesmo junto à ponte, sobre o rio. Havia no local 3 ou 4 pescadores, mas segundo a sua opinião, o dia não estava bom para a pesca.
Descemos até junto da água. Aproveitei para fazer alguns disparos encorajando o meu filho António que também tem algum gosto em “dar ao gatilho”.
Com o céu pardacento, centrei a minha atenção nas folhagens e na água do rio. A folhagem não está ainda com as melhores cores outonais, talvez daqui a uma semana. As nuvens escuras com algumas abertas ganhavam cores dramáticas quando reflectidas na água. Das fotografias saem ambientes carregados de magia.

Voltámos de carro à entrada da aldeia. Estacionámos junto à estrada que segue para o Cachão e voltámos ao rio. Neste local há outra açude que proporciona bons ângulos fotográficos. É pena que haja uns fios eléctricos mesmo por cima do rio.
Enquanto passeávamos junto ao rio, ocorreu-me a ideia de que este pode ser o último Outono do Tua. Pelo menos do Tua como o conhecemos. Não sei qual será a transformação que ocorrerá no leito do rio depois de construída a barragem prevista. Certo é que a cota da barragem dificilmente poderá afectar muito o leito, neste local. As últimas indicações davam conta de que a linha do Tua poderia manter-se em funcionamento. Sabendo os políticos e a comunicação social que temos, devemos ter cautela em acreditar em tudo o que se ouve.

Gosto muito de visitar o Rio Tua, tal como o Sabor. As fotografias de hoje mostram uma forma própria de o olhar, um momento, um flash que nunca mais se repete. Gosto tanto delas, que, possivelmente, utilizarei outras, das mais de duas centenas que hoje fiz. Escolhi 3, espero que apreciem a minha escolha.

27 outubro 2007

Visita a S. Sampainho


No dia 8 de Setembro, fiz uma visita que não reportei aqui no Blog. Foi um passeio a S. Sampainho, na freguesia de Mourão. Esta aldeia abandonada estava nos planos de visitas quase desde início, há um ano atrás, quando fui ao Gavião. Embora já tenha passado muitas vezes próximo, nas minhas deslocações à Alagoa e ao Mourão, nunca me tinha aventurado um pouco mais longe, seguindo a estrada de Vilarinho da Castanheira.
Pouco depois de deixar o Cruzeiro da Sentinela (diz a tradição que assinala o local de encontro entre tropas miguelistas e liberais), basta andar algumas centenas de metros na estrada que conduz a Vilarinho da Castanheira para se ver por sobre o colorido das vinhas, a Capela de S. Plácido, localizada na aldeia abandonada de S. Sampainho. Caminhei ao seu encontro, por entre vinhas de uvas quase maduras (na altura), numa bonita tarde de sol. A capela de S. Plácido está completamente recuperada. É simples, de granito, com as juntas rebocadas e pintadas a branco. A porta é de metálica pintada de verde com alguma decoração de ferro, pintada de branco. A parte superior é de vido, permitindo observar o interior.
Por sobre a porta estão cravadas letras metálicas, douradas, que rezam – S. Plácido. Estou em crer que o mesmo se encontrava inscrito na pedra, embora não de forma tão cintilante! De cada lado da porta espreitam-nos duas carrancas antropomórficas. São os principais motivos de interesse nesta construção singela, uma vez que não há campanário, nem torre, apenas uma cruz sobre a empena do frontispício. A carranca que está melhor conservada é a que está a Norte da porta. É possível distinguir facilmente, os olhos, em baixo relevo, o nariz, a boca, as orelhas e o cabelo. A que está a Sul da porta, está mais danificada pela erosão e foi partida. São visíveis os olhos e a boca.

O interior da capela, está cuidado, limpo e com algumas plantas verdes. Não há qualquer altar, apenas uma cruz e, ao centro, a imagem de S. Plácido.
O espaço que envolve a capela, também está cuidado, com jardim e um agradável cheiro a rosas e alecrim. No cunhal SE. um silhar apresenta decoração constituída por chanfra na aresta com dois rosetões em alto relevo. Não deixa de ser curioso este pormenor decorativo (quinhentista?), completamente desintegrado, levando-me a pensar que terá vindo de um outro lugar (mas de onde?).
Passei de seguida a percorrer o espaço envolvente. Não há grandes sinais de uma aldeia. As duas construções existentes formam um conjunto que poderá ter sido uma quinta ou uma albergaria. O caminho que passa mesmo ao lado, hoje praticamente abandonado, seria uma via de comunicação com algum significado, se pensarmos na importância de Valtorno (e a sua Igreja), e de Vilarinho da Castanheira, que foi sede de concelho.
Uma das construções apenas tem as paredes, de boa construção, feitas de granito. Uma outra construção, ainda com telhado de duas águas, tem um pequeno alpendre com uma porta de entrada e apresenta duas pequenas janelas a Sul. As portas das duas construções conduzem a uma área rectangular, vedada por um murete. Imaginei o espaço cheio de galinhas correndo do galo atrevido, uma burrica presa a uma ferradura cravada na parede e uma velhota sentada ao sol manobrando com mestria um fuso que lançava ao ar arrepelando alvos fios que pendiam da roca. Sentado no chão, a um canto, uma criança de faces vermelhas e surrentas, acariciando um cão magro, submisso, de olhos doces e pelagem da cor dos fetos no fim do Verão. Um carro de bois passava pelo caminho, chiando dos eixos, escorrendo água das rodas que escorria prazenteira encarreirada na beira do caminho. Acordei! Água? Aqui? Nesta altura do ano? A água corria mesmo pelo caminho abaixo, procurei a farta nascente que assim brotava no final de um escaldante Verão. Encontrei um poço, cheio de água, ali perto. As rãs olharam para mim espantadas, mas não as perturbei por muito tempo. Aproveitei para provar uma uva branca que estava mesmo ali, a provocar-me.
Sentei-me numa parede, comendo a uva, com S. Sampainho à minha frente. Nada perturbava o silêncio, nem mesmo as rãs! Adivinhava o Mourão, ali à frente. Na encosta a Poente via algumas casas de Alagoa e o Santuário de Nossa Senhora de Fátima. Também vislumbrava uma capela, lá longe, por cima do Vilarinho da Castanheira. Sem pressas, deixei-me ficar. Longe do mundo, longe da confusão.

23 outubro 2007

Jacinto - Scilla autumnalis L.

Nos primeiros passeios de Setembro, encontrei várias vezes esta pequena planta florida. Se já a tinha visto antes, nunca me chamou a atenção, o que acho difícil, devido à sua singela beleza. Trata-se de um jacinto (Scilla autumnalis L.), conhecido em Portugal também pelo nome de cila-de-Outubro. Não sei o nome vulgar por que é conhecida em Vila Flor. Reparei nela no dia 4 de Setembro, em Samões, mas também já a encontrei nos montes de Roios e no alto da Serra de Bornes.
A inflorescência (racimo) eleva-se a poucos centímetros do chão, sem folhas visíveis, suportando flores em forma de estrela com 6 pétalas (mais correctamente 3 pétala e 3 sépalas que são idênticas). Curiosamente, não sei se tem algo a ver com o terreno, a coloração das pétalas não me parece igual, indo de tons mais magenta, ao azul da alfazema. A floração acontece gradualmente, de baixo para cima. As folhas aparecem aquando da abertura das últimas flores.
Pertence à família das Lileaceas. Como tal, possui um pequeno bolbo, que no fim do Verão se manifesta, florindo durante os meses de Agosto, Setembro e Outubro. O sinal é dado com a queda das primeiras chuvas. Desenvolve-se em matos, terrenos incultos e encostas pedregosas, sendo possível encontrá-la em todo o país e quase toda a Europa e Sul da Grã Bertanha.

22 outubro 2007

No Vale da Vilariça


"A Rosária já tinha posto na mesa de castanho, preto de velho, os figuitos e a aguardente do mata-bicho e começava a apanhar no Cabanal alguns guiços bem sequinhos para ir adiantando o almoço que, por volta das onze horas, devia levar ao seu homem; e até o Zé, raparigo dos seus sete anos, filho do casal, dava os últimos amanhos às costelas e pescoceiras, untando de cuspo as tranquetas dos sedenhos daqueles e experimentando as molas destas, e verificando se as formigas de ala estavam bem presas e vivas nas grileiras das armadilhas, cevadas de véspera, pois esperava fazer uma boa colheita de tralhões, rabitas, piscos e folecras. E lá vai ele com o pai, que já desce a ladeira, burricos à frente com angarelas, sacos e apetrechos vários sobre as albardas.
As margens do vale são alinhadas e bastante abruptas. Quer dos lados de Vila Flor, quer dos lados de Alfandega da Fé ou Moncorvo, desce-se muito para lá chegar. Segue ao longo da Ribeira, desde os cerros de Bornes até ao rio Douro, onde estronca em esquadria.
...
Aquelas terras são de uma fertilidade extraordinária!
E este ano, especialmente, que houve «rebofa»!
Quem conheceria aquela extensa planura cobertinha de água que transborda, vale acima, do endemoinhado Douro, muito subido pelas chuvas torrenciais de muitos dias?
Aquela água toda, com um rico nateiro de naturais e fortes adubos, dava à Vilariça o grandioso aspecto de um lago, como outrora dizem que foi, e a ubérrima seiva que vicejará nos seus belos e afamados frutos."

Excerto do livro Paisagens do Norte, escrito por Cabral Adão e publicado em 1954.
Fotografia tirada no dia 9 de Outubro, no Marco Geodésico do Navalheiro.