Um artigo publicado no Jornal Nordeste, referente à desclassificação por parte do IGESPAR (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico), do pelourinho de Santa Comba, chamou a minha atenção. Desde que me desloquei pela primeira vez a Santa Comba, no ano passado, que me interessei pelos seus cruzeiros (e na altura pelourinho). Quando tentei aprofundar o assunto com algumas leituras pude verificar que este não era pacífico, oscilando as opiniões entre cruzeiro e pelourinho. Devo dizer que alguns pelourinhos do concelho não tiveram sempre uma “existência” fácil, como o caso do de Vila Flor de que poderei falar noutra oportunidade.Uma consulta no site do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, permite-nos saber que o registo PT010410120002 é o “Pelourinho de Santa Comba de Vilariça / Cruzeiro de Santa Comba de Vilariça”, situado no entroncamento das ruas Manuel José e São Pedro. Diz também que “O cruzeiro assenta num soco recente de dois degraus de planta quadrangular. A coluna na sua base é de feição quadrada passando depois à sua forma oitavada. Duas das faces mostram inscrições ilegíveis. Um cilindro faz as vezes de capitel que suporta uma cruz latina com os topos dos braços boleados.” Na tipologia, diz tratar-se de um cruzeiro de caminho e nas observações consta a participação de alguém que afirma categoricamente “O Pelourinho de Santa Comba de Vilariça não existe.
O que existe são três cruzeiros, tendo um deles estrutura muito semelhante ao de um pelourinho e que se situa no cruzamento das Ruas de Manuel José e de São Pedro. Deve ser proposta a desclassificação. É verdade que ele é classificado em 1933 e referenciado em Pelourinhos, Lisboa, 1935. No entanto não esqueçamos que Luís Chaves não o menciona em Os Pelourinhos Portugueses, Lisboa, 1930. Do mesmo modo, Alberto de Sousa não o pintou em 1937 ( veja-se Pelourinhos do Distrito de Bragança, Bragança, 1982 ). Também F. Perfeito de Magalhães não o inclui nas suas aguarelas realizadas entre 1935 e 1957 ( Cf. F. Perfeito de Magalhães, Pelourinhos Portugueses, Lisboa, 1991 ).”Sobre as inscrições que se diz serem ilegíveis encontrei uma referência no livro “Património Artístico da Região Duriense” de Correia de Azevedo, que diz a certo momento "A inscrição que existe no fuste do primeiro (cruzeiro), parece querer dizer: Esta cruz mandou fazer José Esteves e seu filho António Roiz. Tem mais a seguinte inscrição: Mudado em MDCCXI. A inscrição do segundo parece dizer. Esta obra fez Afonso Lopes e seu filho."
Da próxima vez que me deslocar a Santa Comba, estarei atento sobre a qual dos cruzeiros o autor se refere quando diz “o primeiro” e qual é o “segundo”. Sobre o “terceiro”, “à entrada da povoação”, diz que é muito recente.

Se desde há muitos anos é ponto assente que não existe pelourinho mas só cruzeiros, porque razão se deu agora a desclassificação? Parece-me que se deve a mais um equívoco. Além da confusão pelourinho-cruzeiro, há outra no que toca a qual dos cruzeiros era o pelourinho. O mais vistoso parece-me ser o que está no final da avenida Lucinda de Oliveira e é também o mais fotogénico. Basta ver este site para verificarmos que a confusão era grande. Acontece que perto deste cruzeiro está em construção uma vivenda daquelas que metem inveja. Alguém incomodado fez uma queixa ao Património. Foi a gota de água que despoletou a desclassificação. Afinal o cruzeiro/pelourinho em causa até nem era aquele, mas o verdadeiro acabou por ser arrastado na polémica sendo despromovido de todo o prestígio que mantinha há décadas.
Não é nada do outro mundo. Trata-se de repor algo que já muitos haviam afirmado. Por um lado, a aldeia perde. Parece-me que ter um monumento classificado como imóvel de interesse público só ficava bem a Santa Comba. Por outro lado, certas forças locais vêm facilitada a hipótese de construção e modificações em redor, sem a burocracia a que certos organismos ligados ao património obrigam.
Voltando ao início da questão, e para não alongar muito a leitura. O artigo do Jornal Nordeste justifica a existência dos três cruzeiros com um Foral Religioso concedido pelos Frades Franciscanos. ora, quem se estabeleceu em Santa Comba da Vilariça foi a Ordem de Sister. A Abadia de Santa Comba da Vilariça, que se estendeu a Benlhevai, estava directamente ligada ao Mosteiro de Santa Maria do Bouro.
Não deixem de visitar os bonitos cruzeiros de Santa Comba da Vilariça. Mesmo despromovidos, continuam com toda a sua beleza, à espera de serem admirados.

























