Meireles tem sido nos meus passeios um dos locais mais inacessíveis do concelho. Eu sei que parece estranho, uma aldeia situada no coração de um vale revelar-se pouco acessível, mas de facto assim é.

Nas minhas andanças, de BTT, a pé ou de carro, procuro quase sempre caminhos alternativos. A estrada asfaltada não é o lugar certo para quem quer andar devagar.
Das várias vezes que me desloquei a Meireles, sempre tive imensas dificuldades, porque procurei sempre uma abordagem pelo
nascente, ou seja por terrenos de
Vale Frechoso. O vale tem muitos acessos pelo poente, embora também haja zonas bastante rochosos, como o Faro. Hora, estou em crer que estas duas localidades não se devem dar muito bem, porque nunca procuraram abrir uma via de comunicação entre elas.

A minha mais recente tentativa de encontrar um caminho aconteceu no dia 20 de Dezembro. Fui de carro até cerca de 1,5 km do cruzamento da estrada de
Vale Frechoso com a N214.

Do lado esquerdo da estrada há uma zona de giestal onde foram abertas muitos corta fogos numa área ainda pertencente a
Vale Frechoso que penso chamar-se
Feiteira e
Carvalhinho.
À minha esquerda via ao longe a
Fonte do Seixo e o
Cabeço dos Gaviões, onde adoro subir. À minha direita via recortado no horizonte o marco geodésico da
Rosa, onde também já estive algumas vezes. À frente, entre mim e Meireles, adivinhava (mas não via) alguns
cabeços rochosos, incluindo a
Fraga Amarela.

Mal me
afastei um pouco do caminho cheguei (de novo) à conclusão de que não é fácil andar por aqui. O mato é composto por giestas, estevas, carquejas, urzes e silvas. Atinge mais de um metro de altura e rasga tudo onde se espeta, seja tecido, seja carne. Encontrei dois bandos de perdizes, pelo menos elas gostam de andar nestes locais.
Procurei um ponto alto para me localizar. Os afloramentos rochosos atraíram-me e tentei romper por entre o mato para os alcançar. Desisti de procurar um caminho!

Quando me aproximei dos rochedos, uma ave de rapina que neles
vigiava a paisagem, levantou voo. No meio da vegetação descobri algumas pedras ainda cobertas de geada. Há muitos amontoados de pedras soltas por todo o lado, estes terrenos devem outrora ter sido utilizados para a cultura de cereal. Pareceu-me que estes
amontoados tinham uma configuração intencional, em
curva, como que protegendo um pequena zona plana junto às rochas.

Aqui pode ter existido um castro! Há em redor muitos locais com evidências semelhantes, quase todas elas em pontos altos, com uma enorme protecção natural. São exemplos o
Cabeço, o
Faro, o
Maragoto, o
Facho, só para citar alguns. O lugar onde me encontrada estava naturalmente protegido num raio de mais de 180º, bastava uma pequena muralha para proteger quem quer aqui se quisesse proteger. Em termos de subsistência, o
vale fértil, um pouco mais abaixo, a menos 200 metros de altitude não faltam bons terrenos e água, onde até rolavam moinhos. Pode ser imaginação minha, mas também pode não ser.

Em direcção ao aterro sanitário intermunicipal elevava-se uma escarpa rochosa que parecia intransponível. Impelido pela adrenalina das alturas, dirigi-me para ela. Havia várias
grutas naturais escavadas nas rochas.

Devem ter sido usadas durante séculos por pastores e caçadores, e sabe-se lá por quem mais. Numa delas havia uma c
uriosa construção de pedras soltas, estava ali a mão do homem. Noutra, muito maior, que tinha até uma abertura no tecto, adivinhava-se o desenho de algumas paredes rústicas já desaparecidas. Senti-me um verdadeiro homem das cavernas. O cenário ajudava a transportar-me para o época das cavernas, com a
luz leitosa a tentar rasgar o nevoeiro do vale que, pouco a pouco, se sumiu num cachão do
Tua, no
Cachão. A luz, o frio e o silencia era tudo o que ali chegava. Sentei-me nas rochas sorvendo a paisagem, até que o sol se abeirou do
Cabeço.

Quando o sol se
escondeu, senti frio. De regresso à estrada surpreendi algumas codornizes que se preparavam para passagem a noite no restolho. Os últimos raios de sol pintavam de mosto o cume de
Bornes.
Mais uma vez não descobri um caminho para
Meireles, mas, e depois? É olhar que permite os mais belos passeios, mesmo quando os nossos passos não nos permitem atravessar todos os vales.