03 outubro 2010

Peregrinações - Nossa Senhora do Castanheiro (Valtorno)


A caminhada do dia 26 de Setembro de 2010, integrada na série “Peregrinações” levou-nos por terras de Carvalho de Egas , Valtorno e Seixo de Manhoses. O destino final foi a igreja de Nossa Senhora do Castanheiro, em Valtorno.
A manhã mostrou-se fresca e com uma luminosidade notável, logo à partida de Vila Flor. O caminho seguido foi sensivelmente o mesmo na caminhada ao Santuário de Santa Cecília. Com as obras da nova estrada, é cada vez mais difícil passar em certos locais, mas, como ao fim-de-semana não há máquinas em movimento, não tem havido grandes problemas.
Na barragem Camilo Mendonça havia já algumas pessoas a fazerem a sua ginástica matinal, sobre o olhar atento de uma garça-real, que procurava o seu pequeno-almoço. Fizemos um passeio pelo mini-zoo que se apresenta bastante povoado, pelo menos no que toca a aves. Pode ser que, um dia destes, aqui mostre um pouco do que aí pode ser visto.
Depois de passarmos o Concieiro, continuámos na mesma direcção entre as freguesias de Valtorno e Seixo de Manhoses. Este caminho vai terminar junto à igreja que pretendíamos visitar, mas não íamos segui-lo até ao fim.
Deixámos a crista da montanha a 700 metros de altitude e descemos em direcção a uma das curiosidades mais destacáveis de Valtorno, a fonte arcada conhecida pelo curioso nome de Paijoana. É uma fonte medieval, em arco, de que já fiz eco em várias anteriores visitas a Valtorno. Esta fonte inspira uma das mais curiosas lendas do concelho, como quase sempre, à volta de uma moura encantada. Estou sempre à espera da noite de S. João para visitar a fonte. Quem sabe não me toca a mim a manta de ouro que a dita moura tece num tear de marfim! Mas quando chega o dia de S. João, esqueço-me.
A localização desta fonte não é alheia à existência, logo atrás dela, de vestígios de um povoamento bastante antigo, de certeza mais antigo do que a fonte. Numa extensão bastante grande há vestígios de muralhas e de habitações. É o Cabeço Murado, ou como o povo diz, Cabeça Murada.
Quando nos dirigíamos para a Capela N.ª Senhora da Luz, no centro da aldeia passámos junto a uma estrutura da freguesia bastante interessante. Trata-se de um parque infantil, tendo ao lado uma área para assadores, mesas e casas de banho, que permitem a realização de convívios e confraternizações. Tudo numa zona muito aprazível e vedada. São espaços assim que são bem-vindos em qualquer freguesia.
A visita à capela de Nossa Senhora da Luz deixou o meu companheiro de viagem bastante chocado. Não compreendia como se pode chegar a tal abandono, quando o património histórico e religioso das nossas aldeias nem é assim tão abundante. Sentimentos semelhantes senti eu, na primeira vez que a visitei.
Descemos em direcção à capela do Santíssimo, onde se celebrava a Eucaristia. Teria sido interessante visitar o seu interior, mas será uma tarefa a realizar no futuro. Já poucos metros nos separavam da igreja de nossa Senhora do Castanheiro, que se ergue num outeiro a sudoeste da povoação.
A designação da igreja, Nossa Senhora do Castanheiro, deriva de mais uma lenda que dá contada da aparição de Nossa Senhora entre as pernadas de um velho e enorme castanheiro que, completamente desgastado pelo tempo, se apresenta ainda imponente, mesmo sem qualquer sinal de vida. A morte total é recente, uma vez que me recordo de ainda lhe ver algumas folhas verdes. A seu lado cresce um novo castanheiro, que, com o tempo se tornará grande e continuará a ser aquele onde apareceu nossa senhora, por mais alguns séculos.
A igreja também é digna de referência. Construída a algumas centenas de metros do povoado, deve ter sofrido ampliações e alterações ao longo dos séculos. Talvez a sua origem esteja numa capela românica do séc. XIII mas o o grosso do que a constitui actualmente é atribuído ao séc. XVIII. O seu portal românico é, sem dúvida, o elemento arquitectónico de maior valor e que mais chama a atenção, com um arco de volta inteira. Não foi possível entrar no seu interior, mas já aí estive por várias vezes.
Depois de atingido o objectivo, podíamos regressar por um caminho bastante rápido, passando novamente pelo Concieiro, mas, para tornar a caminhada mais agradável, seguimos pelo caminho dos moinhos que desce em direcção à Barragem de Valtorno-Mourão. Embora o época do ano não seja a mais propícia, este percurso é muito agradável. Mais agradável se tornaria se houvesse tempo para explorar as ruínas dos diferentes moinhos que vão aparecendo ao longo do ribeiro.
A certa altura começa a ver-se a barragem. Ganha uma tonalidade de azul interessante, vista do alto. Aos Domingos, e ao final das tardes, há sempre alguns pescadores a tentarem a sua sorte.
Quando chegámos ao cruzeiro, lugar onde se encontram muitos caminhos, seguimos aquele que nos levaria mais rapidamente ao Seixo, onde chegámos perto da uma da tarde. Satisfeitos com o percurso feito e para não chegarmos muito tarde a casa, telefonámos para nos irem buscar. Percorremos perto de 15 quilómetros a pé; o percurso foi muito interessante; já merecíamos o almoço.

Percurso realizado:
GPSies - VilaFlor_Valtorno_VilaFlor

02 outubro 2010

Freguesia Mistério 40

O regresso da Freguesia Mistério parece ter despertado a vontade de participar uma vez que teve uma boa adesão (se compararmos com as anteriores).
Desde cedo o voto se inclinou par a resposta certa, mas, no final, esta não chegou a atingir os 50%. Este bonito cruzeiro existe na freguesia (em que há mais cruzeiros) e que é Valtorno. ainda na semana passada o visitei e está tão bonito como a fotografia ilustra. Está sempre muito bem cuidado, cheio de flores e com lamparina acesas. Está implantado num dos pontos mais elevados da aldeia, onde se encontra a Rua da Máquina com a Rua do Freixinho. Em breve publicarei outras fotografias deste cruzeiro.
Foram validados 23 votos, que ficaram distribuídos da seguinte forma:
Benlhevai (1) 4%
Freixiel (1) 4%
Lodões (1) 4%
Mourão (1) 4%
Nabo (4) 17%
Samões (1) 4%
Santa Comba de Vilariça (1) 4%
Valtorno (11)  48%
Vila Flor (1) 4%
Vilarinho das Azenhas (1) 4%

O novo desafio é outro cruzeiro. Situado no coração de uma aldeia do concelho, dá nome ao largo.
Em que freguesia podemos encontrar este cruzeiro?



Freguesia Mistério 40

Em que freguesia podemos encontrar este cruzeiro?





30 setembro 2010

Cantos da Montanha

Foi já há algum tempo, mas como não pude estar presente, não poderia, mesmo assim, deixar de divulgar este acontecimento, que foi o lançamento do livro do Dr. João de Sá, Cantos da Montanha. Até porque o autor teve a amabilidade de me enviar, por correio, um exemplar! A apresentação pública do livro aconteceu a 22 de Agosto de 2010 e pode ser revista no pequeno vídeo feito pela Localvisão.
Trata-se de um livro de poesia, bem mais saboroso e colorido do que alguns editados anteriormente. Neste livro, os versos não cantam unicamente Vila Flor, nele podemos encontrar poemas dedicados a Freixo de Espada à Cinta, Barca de Alva, Rio Sabor, etc. ou mesmo a algumas personalidades marcantes da região.

É um livro que merece ser lido. São viagens, de corpo e alma, que nos despregam da terra e nos elevam a outra dimensão do ser.A linguagem utilizada pelo autor, nem sempre fácil de acompanhar, é de uma beleza estonteante, neste livro, parece-me um pouco mais acessível. Por vezes é bom esquecermos a confusão do mundo que nos rodeia, a crise, para olharmos para dentro e descobrirmos que muito do que procuramos está bem perto.

Adivinho a manhã na água dos teus olhos.
Tão transparente, tão límpida
a luz rompendo entre os limoeiros.
O canto de uma cotovia eleva-a
para além da árvore.
Rumores de corolas a entreabrirem
num fugidio reflexo de fonte.
Vagos odores de alfazema
dilatados no voo inconsistente
de uma borboleta.
Tímida brisa a insistir
dar o teu nome às rosas.

Cantos da Montanha, Canto I - 5.

Fotografia: montagem tendo por base uma fotografia da zona industrial de Vila Flor.

25 setembro 2010

Peregrinações - Senhora da Assunção (Candoso)

A terceira caminha das “Peregrinações” aconteceu no dia 19 de Setembro. O destino era um santuário aqui bem próximo, mas, dada a falta de comparência dos meus acompanhantes da semana anterior decidi, no último instante, fazer uma caminhada um pouco mais ambiciosa, ao Santuário de Nossa Senhora da Assunção, em Candoso.
Saí de Vila Flor um pouco mais tarde do que o desejado, porque estive algum tempo indeciso se teria companhia ou não. Mesmo assim, fui caminhando lentamente em direcção ao Barracão, ao longo da estrada nacional 215. Quando me convenci que seguiria mesmo sozinho, junto da Quinta da Nora, segui por um caminho (que nunca tinha percorrido), que me levou a Samões. É diferente chegar às localidades aos Domingos ainda cedo. Parecem aldeias fantasma, onde não habita ninguém. Em Samões aconteceu isso mesmo.
Desci ao fundo da aldeia junto da capela Nossa Senhora do Rosário. Por baixo da fonte sai o caminho que pretendia tomar. O trajecto que pretendia seguir não é nem de longe o mais fácil, nem o mais rápido, é sim aquele que percorre os caminhos mais remotos, praticamente só utilizados por pastores e caçadores. São caminhos que bem conheço de caminhadas anteriores ou passeios de BTT.
Depois das primeiras chuvas de Setembro, é mais fácil circular pelos caminhos. Há menos pó e a vegetação rasteira, ainda que toda seca, apresenta mais hipóteses fotográficas e formam bonitas imagens em contraluz. No caminho que sai de Samões em direcção ao ribeiro do Vimieiro, no lugar das Olgas, destaca-se na vegetação os espinheiros e o sumagre, isto para além das amendoeiras, vinha, oliveiras e figueiras, que são abundantes.
A luz da manhã é inspiradora e percorrer estes caminhos sem qualquer preocupação é uma terapia que muitos deviam praticar. O sol brilhante que passa através das folhas dos sobreiros, freixos e salgueiros cria efeitos alucinantes.
O caminho que escolhi percorre a encosta em direcção a Sul e levou-me muito próximo das habitações de Carvalho de Egas. Depois, foi só subir o Barreiro e, logo depois, avistam-se ao longe as casas de Candoso, com a capela sobranceira, velando pelos humanos. Passava já das onze horas, quando cheguei junto da velha capela que já retratei em visitas anteriores.
Em Candoso, num horário mais adiantado, encontrei várias pessoas, algumas minhas conhecidas, com quem conversei. O pai de uma ex-aluna minha mostrou-me a sua criação e canários, aves que também adoro. Ficámos ainda bastante tempo a conversar sobre canários, verdelhões, pintassilgos, etc. As aves são uma das minhas paixões, que acho que nasceu comigo. Nunca consegui controlar o ímpeto de procurar ninhos, nem me consigo abstrair do canto das aves e da tentativa de interpretar os seus significados.
Era meio dia quando cheguei ao alto do cabeço, junto da capela. A pessoa que me devia ter facultado a chave, não o fez. Disse que não a tinha. Compreendo que não tenha querido dar a chave da capela a uma pessoa que ela não conhece de lado nenhum, e a ainda para piorar as coisas com mau aspecto. Imagina qual será o pensamento de algumas pessoas quando me vêem passar, de mochila às costas, todo transpirado e de olhar curioso a bisbilhotar em todos os becos, fontes e capelas. Independentemente daquilo que as pessoas pensam, a sensação é boa. É como já disse uma terapia fantástica. Não se dá pela passagem do tempo e não se sente fome. As coisas aparentemente banais como as rochas, as árvores, as casas ou os caminhos, ganham contornos, formas reflectem a luz e observo-os como versos de um poema, que escrevo enquanto caminho.
Depois de chegar ao meu objectivo, havia que regressar a casa. Uma das vantagens de caminhar sozinho é a possibilidade de tomar egoisticamente todas as decisões. Decidi voltar a casa, a pé, por outro caminho ainda mais longo do que o seguido para chegar a Candoso.
Apesar do caminho de regresso ser mais longo, foi feito muito mais rapidamente. Já não havia a luz da manhã para fotografar e as pilhas da máquina estavam quase no fim. Ao longo do caminho que fui pensando no jovem de Candoso que dias antes ali tinha perdido a vida. Foi neste caminho que há alguns anos fotografei o mais bonito pôr-do-sol das minhas viagens pelos caminhos do concelho. Quando se morre é a luz que se vai aos poucos, mas, assim, tão jovem, é uma coisa que nos custa a aceitar e damos connosco a questionar o próprio Deus. Talvez isto só aconteça porque nos convencemos que somos eternos, que temos todo o tempo do mundo para sermos felizes e não nos damos conta que não somos diferentes das árvores, das flores e dos diferentes animais. Um dia vem um clarão, uma dor intensa, uma célula maligna, e ... apagamo-nos. Valeu a pena?
Enquanto estes pensamentos me assaltavam, como por acaso, a respostas vinham-me pelos auscultadores na voz de Chris de Burgh:
There is an answer, some day we will know,
And you will ask her, why she had to go,
We live and die, we laugh and we cry,
And you must take away the pain,
Before you can begin to live again.
Desde uma caminhada que fiz em  Fevereiro, em Vilas Boas, que levo comigo um leitor de MP3. Nem sempre o ligo, mas a música seleccionada combina sempre com os ambientes que percorro.
Depois de cruzar de novo o ribeiro do Vimieiro, ainda seco, comecei a subida para Samões, atingindo a estrada pelo Carvalhal, entre Samões e Carvalho de Egas. Não foi fácil atravessar as obras do IC5 e fiz alguns quilómetros desnecessários. O restante do caminho não tem história. A preocupação era chegar o mais rapidamente a casa, porque a hora de almoço já ia longe.

Percurso feito:
GPSies - VilaFlor_Candoso_VilaFlor

24 setembro 2010

Única imagem

No dia 18 de Setembro, integrada na homenagem ao Dr. Cabal Adão, foi descerrada uma placa no escadório do Cabeço de Nossa Senhora da Assunção, em Vilas Boas. Essa placa contém um soneto de sua autoria, publicado em livro em 1966, "Vila Flor" (Versos).
Eis o poema:

Imagem, das formosas, mais formosa:
Senhora d'Assunção, no pico agreste,
Vestido cor de pétalas de rosa,
Manto volátil de cetim celeste!

Única imagem, esta que assim veste
E numa nuvem se ergue, vaporosa,
Braços ao alto, olhos como em teste
De em si conter centelha milagrosa!

Transfigurada estátua que eu venero
Desde menino, e a que tanto quero
Por me rasgar de luz a densa treva:

Em ser's da Virgem Mãe cópia fiel,
Volve pra mim teus olhos d'ouro e mel,
Dá-me um lugar na nuvem que te leva!

Já me tinha questionado qual seria o poema escolhido e, confesso, que não contava que fosse este. Mas faz todo o sentido. É um belo poema a Nossa Senhora, bem ilustrativo da religiosidade do seu autor.

22 setembro 2010

Homenagem ao Dr. Cabral Adão

No fim-de-semana passado decorreu, em Vila Flor, uma homenagem ao vilaflorense Dr. Cabral Adão. Nascido em Vila Flor a 24 de Junho de 1910, partiu para Setúbal em 1938. Formado em medicina, com especialidade em estomatologia, distinguiu-se como médico publicando vários livros na área. Para além da sua actividade profissional nutria uma paixão pela natureza, pelas caminhadas, e uma sensibilidade impar que transparece na sua escrita, quer na prosa, quer na poesia. Publicou vários livros (ver lista aqui) alguns deles dedicados ao seu torrão natal, Vila Flor. Foi na qualidade de homem, vilaflorense, médico e escritor que foi homenageado.

Na sexta-feira realizou-se no centro cultural um espectáculo musical com a banda cubana Son Havanero. O espectáculo esteve previsto para ser realizado em frente ao edifício dos Paços do Concelho, mas, devido ao mau tempo, foi transferido para o auditório do Centro Cultural.
A população aderiu de forma significativa mas não chegou para encher o auditório. O espectáculo teve momentos muito bons, com os músicos a exibirem grandes capacidades de execução. Eu gosto de salsa, boleros, rumba, etc. e adorei o concerto. O som estava demasiado alto e não é música para se ouvir sentado, apetece abanar o corpo, mas penso que ninguém se arrependeu de ter estado presente.
Na Sábado, dia 18 estavam programados três acontecimentos. Pela manhã realizou-se uma pequena cerimónia no auditório do Santuário de Nossa Senhora da Assunção, em Vilas Boas. A mesa foi constituída pelo Dr. Artur Pimentel, Presidente da Câmara Municipal de Vila Flor, João Cabral Adão, filho do homenageado, pároco Delfim Jorge e o presidente da Junta de Freguesia de Vilas Boas, Dr. Abílio Evaristo. Foram relembradas as qualidades humanas de Cabral Adão quer pelo sr. Presidente da Câmara, que com ele privou, quer pelo filho do autor, que se emocionou bastante.
De seguida, em plena escadaria do cabeço, foi descerrada uma placa comemorativa com um soneto de Cabral Adão dedicado a Nossa Senhora da Assunção. Esta placa está colocada ao lado de um bonito painel em azulejo que A representa.
Às 18 horas, já em Vila Flor, foi aberta uma Exposição do Centenário da Vida e Obra do Dr. Cabral Adão. Nesta exposição, que conto visitar de novo, podem ser vistas algumas fotografias da família Cabral Adão, recortes de jornais com artigos escritos pelo autor, os livros que publicou e alguns objectos com ele relacionados.
À noite realizou-se um serão dramático-musical a partir de textos do autor, levado a cabo pela companhia de teatro Filandorra, no Centro Cultural. Foram lidos alguns poemas e dramatizados alguns textos, tudo com fundo musical (música mirandesa) e com projecção simultânea de fotografias (muitas delas de minha autoria). Não fui consultado par a cedência das fotografias, mas até fiquei contente pela sua utilização neste contexto. Foi uma forma indirecta de eu também participar na homenagem do autor que me cativou para a leitura de muitos livros sobre Vila Flor, e/ou escritos por vilaflorenses.
Após o espectáculo usaram da palavra o Dr. Pimentel, Aida Cabral Adão, filha mais nova do homenageado e o Dr. João de Sá, vilaflorense, escritor, amigo do homenageado. Em todos os discursos foram realçadas as qualidades humanas de Cabral Adão e o seu apego a Vila Flor. Apesar de ter sido uma pessoa, marcante, querida, nas terras onde trabalhou e viveu, foi em Vila Flor que quis ser sepultado, desejo que foi respeitado.

Para além de me sentir muito bem a homenagear uma pessoa, que não conheci, mas que transborda dos seus escritos como uma pessoa fantástica, com um coração do tamanho do mundo, uma sensibilidade apurada e uma surpreendente simplicidade, foi também uma oportunidade única para conhecer familiares e os filhos do autor com quem já tinha trocado algumas mensagens. Nos momentos de conversa que mantivemos deu para perceber que herdaram do pai (e penso que também da mãe) as qualidades que os fazem Homens e Mulheres singulares.
Agradeço a sua simpatia mas também a fotografia e os livros que me ofereceram. Um deles vou desfolhá-lo com especial carinho. Trata-se do livro Riquezas e Encantos de Trás-os-Montes, escrito pelo vilaflorense Cristiano de Morais e oferecido (com dedicatória) ao Dr. Cabral Adão por Armindo Morais, irmão do autor, em Junho de 1963.

Os vídeos foram realizados para a LocalVisão e cedidos pela jornalista Carla Dias.

21 setembro 2010

Peregrinações - Santa Cecília

A segunda caminhada da série “Peregrinações” aconteceu no dia 12 de Setembro. Nesta caminhada, houve uma novidade, não fui sozinho.
À hora combinada juntámo-nos junto à Quinta da Pereira, para daí seguirmos até ao santuário da S. Cecília, em Seixo de Manhoses.
Acordar cedo, e ainda por cima ao Domingo, não é um acontecimento muito agradável, mas a manhã risonha que nos acolheu facilitou as coisas. Os caminhos percorridos são sempre mais ou menos os mesmos, havendo alternância, para a viagem não se tornar repetitiva. Monótona nunca é, porque a natureza consegue sempre surpreender-nos com alguma coisa.
Caminhar com companhia tem os seus aspectos positivos. A conversa faz esquecer o tempo e, curiosamente, as fotografias. Também é benéfico para chamar a atenção para aspectos em que não tenho reparado. Nesta caminhada, influência dos meus companheiros de viagem, falámos muito sobre rochas. Achamos até um quartzo, cor de café, bastante curioso.
Às nove horas da manhã estávamos a contornar a barragem Camilo Mendonça, no lugar do Peneireiro, o que abria boas perspectivas para a caminhada. É preciso cuidado para se andar nestas paragens, há obras por todo o lado.
Sem pressas, chegámos ao santuário de Santa Cecília às dez horas da manhã. Os mais novos não apreciaram muito o passeio pelo recinto, fazendo o reconhecimento de todo o santuário, mas não disseram não a uma bebida fresca no restaurante ali ao lado, onde já se preparavam os almoços. Este restaurante, quer pela sua situação geográfica, quer pela qualidade dos seus pratos, é bastante procurado e esperavam casa cheia no almoço de Domingo.
Tivemos o privilégio de visitar o interior da capela. Em termos de talha ou valor das imagens, esta capela não é dos melhores exemplos a nível do concelho. O que traz muita gente a este santuário é a fé, e, é claro, a festa. Também eu estive no Santuário no dia 21 de Agosto, dia maior dos festejos.
Na imagem existente na capela Santa Cecília segura uma lira, instrumento também esculpido na base do altar. Noutras imagens a santa aparece segurando uma arpa, um violino, um órgão ou outro instrumento musical. Ela é a padroeira dos músicos. Não percebo bem a relação que existe entre a virgem mártir e a música. Diz-se que viveu em Roma no Séc. III e assistia todos os dias à missa celebrada pelo papa Urbano nas catacumbas da via Ápia. Teve uma morte horrível. Depois de suportar e sair ilesa da condenação à morte por asfixia em vapor de água, foi condenada à decapitação. Sofreu três golpes de machado no pescoço, mas a cabeça continuou ligada ao corpo, vindo a morrer 3 dias mais tarde, depois de enorme sofrimento.
Também na Fonte de Santa Cecília existe uma imagem num painel em azulejo policromático representando Santa Cecília com a sua lira. Nesta fonte accionámos a bomba manual e repusemos as nossas reservas em água.
Num dos parques de estacionamento do santuário encontrámos uma pequena macieira carregadinha de maçãs bastante saborosas. Às onze da manhã já havia um ratito a passear por algumas barrigas.
No percurso de regresso a Vila Flor apreciámos um conjunto de alminhas que existem ao longo do caminho e subimos ao alto do marco geodésico do Concieiro de onde se têm uma vista magnífica. Também passámos próximo das fragas dos Mal Casados, curiosidade natural bastante conhecida em Carvalho de Egas.
Chegámos a casa pouco depois do meio dia, a precisar de um banho e de uma boa refeição. Os acompanhantes mostraram estar dispostos para novas “Peregrinações”, mas, nisso, sou como S. Tomé.

O percurso realizado tem pouco mais de 14 km e é bastante adequado para fazer a pé ou em BTT.
GPSies - VilaFlor_SabtaCecilia_VilaFlor

18 setembro 2010

Vigília pela Linha do Tua

Decorre, neste momento, no Largo Luís de Camões, em Lisboa, uma vigília a favor da Linha do Tua. Sempre fui, e continuo a ser, favorável à manutenção da centenária linha com os necessários melhoramentos para a tornarem rentável. Isso poderia passar pela sua modernização, reabertura da via até Bragança e posterior prolongamento até Espanha, com ligação a Puebla de Sanabria. Um corredor ferroviário entre o Douro (património da humanidade) e a Sanabria seria, tenho a certeza, procurado e utilizado quer por turistas, quer por residentes. Seria também necessário o envolvimento de agentes económicos e das autarquias, que pouco mais têm feito do que esperar que o património natural e a linha sejam destruídos, para poderem beneficiar das contrapartidas.
Não estou fisicamente no Largo Luís de Camões em Lisboa, mas estou com aqueles que se mobilizaram e disseram presente. Partiram autocarros de Mirandela e de Carrazeda de Ansiães. Pela primeira vez as populações locais vão a Lisboa dizer que preferem a linha e que a barragem (incompatível com a linha) não é bem-vinda. Estarei presente numa mensagem que enviei para que seja lida durante a vigília e nas fotografias da linha e do vale do rio Tua que vão estar expostas.
A LINHA É TUA, É NOSSA, VAMOS LUTAR POR ELA.

fotografia: linha do Tua, um pouco a montante da estação de Abreiro.

15 setembro 2010

Homenagem ao Dr. Cabral Adão

A Câmara Municipal de Vila Flor vai homenagear, no próximo fim de semana, o Dr. Luís Cabral Adão, nascido em Vila Flor no ano de 1910. Médico de profissão, a exercer longe da sua terra natal, nunca a tirou do seu coração, dedicando-lhe especial atenção e carinho em muitos poemas e textos que escreveu e publicou.
A homenagem inicia-se no dia 17 de Setembro, às 21 horas, com a actuação da banda Son Havanero, e prolonga-se até 17 de Outubro, altura em que encerra a Exposição do Centenário da sua vida e obra, que vai estar patente no Centro Cultural de Vila Flor.

14 setembro 2010

No Jardim da Saudade

Já rolam os ventos brandos do Outono pela Natureza sonolenta além. Descem aos vales, perseguindo os ribeirinhos, brincando com os salpicos irisados de pequenas cachoeiras, penetrando as frinchas das azenhas, que recomeçaram o trabalho de moer pão e de bucolizar os quadros campestres no chiar mansinho dos rodízios; e abanam as copas desfalcadas dos choupos das margens desprendendo-lhes as folhas, agora uma, logo outra, mais outra, e mais... e mais. .. que vão caindo, esmaecidas, mortas, nas ondulações da corrente, como lágrimas num rosto, a deslizar suavemente; ou poisando em espasmos nos tapetes relvados, esboços dos novos prados para os cordeirinhos pastarem plas tardinhas.
Correm as encostas como um sopro fugidio, arejando a terra revolvida pelas charruas do lavrador, que a prepararam para a sementeira do centeio, seguidas por bandos de contentes alvéloas, que empinam o rabo ao vento, enquanto debicam os vermezitos que a relha traz à tona.
Embalam os sinos das igrejinhas modestas, dispersas pelos povoados das quebradas, tornando-lhes as badaladas plangentes, escoadas nos crepúsculos pelas veigas fora, até aos ouvidos dos trabalhadores da terra, que se descobrem, se inclinam e se edificam na oração das Ave-Marias.
E sobem às cumiadas dos montes para mover os moinhos que os esperam de traquete ou de velache, assobiando lugubremente nas bilhas das varas e travado iras, produzindo a farinha, despenteando, por pirraça, as pombas irrequietas que aproveitam os grãos desperdiçados na soleira da porta, umas brancas de neve, outras prateadas, outras trigueiras, de pescoço azul, um azul impressionante, nacarado...
O sol, nos dias em que se mostra, envolve tudo num manto diáfano de luz morna, parece que adormentando os seres, bafejando os ramos nus, impondo silêncio, uma espécie de luto oficial pela morte aparente dos verdes!
No Outono, nem toda a Natureza dorme.
(...)

Continua em: No Jardim da Saudade (02)

Excerto do livro Paisagens do Norte, escrito pelo Dr. Cabral Adão e publicado em 1954. Este livro teve uma segunda edição pela Câmara Municipal de Vila Flor em 1998 (Minerva Trasmontana, Vila Real). Pode ser encontrado no Museu Berta Cabral, na sala dedicada a Vila Flor.

Fotografia: Castanheiro, em Benlhevai



Outros textos e poemas da autoria do Dr. Cabral Adão já publicados no Blogue.

11 setembro 2010

Peregrinações - Nossa Senhora dos Remédios

Com os primeiros dias de Setembro operam-se grandes mudanças no ambiente, na paisagem e na vida das pessoas. São as primeiras trovoadas, a sementeira das nabiças, a vindima, o fim das férias … o regresso ao trabalho.
É nesta época de mudança que o blogue faz anos. Também ele resultou de uma mudança e espera todos os Setembros pela festa, da continuidade, ou do final. Este Setembro a festa foi de continuidade.
Para iniciar um novo ano do Blogue quis fazer algo de diferente, que possa ter continuidade ao longo do ano. Assim surgiu esta rubrica a que chamei Peregrinações.
Peregrinar e peregrinação são palavras que podem ter diversas interpretações: viajar por longas terras; ir em romaria a lugares santos; divagar; visita feita na intenção de homenagear um lugar onde viveu alguém que se venera. No meu caso, peregrinações vão ser caminhadas a locais de culto espalhados pelo concelho. Não lhe atribuo um cariz marcadamente religioso, apesar de eu ser católico. O objectivo não é chegar ao local, mas fazer o caminho. O verdadeiro lugar de culto é a natureza.
A primeira “peregrinação” aconteceu no Domingo passado, ao cabeço de Nossa Senhora dos Remédios, em Vilarinho das Azenhas. Outras caminhadas se seguirão de forma a percorrer diferentes santuários do concelho, mas também outros locais religiosos que possam ser enquadrados neste espírito de Peregrinação.

Escolhi como primeiro destino o cabeço de Nossa Senhora dos Remédios. Em primeiro lugar porque no dia 5 se realizava na aldeia a festa em honra de Nossa Senhora dos Remédios, em segundo porque pretendia fazer um percurso que nunca tinha feito.
Levantei-me um pouco antes do nascer do sol. Embora não sinta muita vontade para me levantar cedo (também porque me deito tarde), sei que é durante a manhã que acontecem os melhores momentos para a fotografia. A prová-lo está o facto de ter demorado mais de uma hora a percorrer o espaço entre Vila Flor e o Barracão.
O objectivo era fazer a pé o percurso (só de ida), utilizando preferivelmente caminhos rurais. Para isso contava com o meu conhecimento de alguns caminhos e o meu sentido de orientação. A hora prevista para chegar à capela era o meio-dia.
Os primeiros raios de sol apanharam-me à saída de Vila Flor, através de um caminho praticamente paralelo à estrada N215 que conduz à zona industrial de Vila Flor. As ervas secas, e os frutos silvestres iluminados pela luz dourada da manhã não me deixaram progredir rapidamente.
Depois de passar o Barracão continuei por caminhos rurais paralelamente à estrada N314 em direcção à pedreira. Segui, depois, por outro caminho em direcção à quinta do Reboredo até Vilas Boas. Pelo caminho encontrei dois pastores com quem troquei alguns dedos de conversa (enquanto tirava algumas fotografias).
Cheguei ao centro da aldeia de Vilas Boas às 10 horas da manhã. Nem os pastores com quem falei, nem outra pessoa que encontrei junto ao cruzeiro, já à saída para o Vilarinho, me souberam (ou quiseram) indicar um caminho para eu seguir. As pessoas não estão à espera que lhes perguntem caminhos. Indicam sempre o melhor caminho, ou seja, a estrada. Nos dias que correm toda a gente quer chegar rapidamente, e, só se aventura por caminhos, quem não tem outra alternativa quando se dirigem aos terrenos agrícolas.
Não satisfeito com as indicações que me deram, mal deixei as últimas casas de Vilas Boas, meti à esquerda por um caminho que descia com grande inclinação em direcção à Quinta da Peça. Há muito tempo que tinha intenções de conhecer esse caminho. Na encosta do lado esquerdo há uma mata de medronheiros fantástica. Os medronheiros não são simples arbustos, mas sim árvores com bastantes metros de altura. Este bocadinho de mata devia ser protegida, pois não conheço nenhuma semelhante no concelho.
Ao longo de todo o caminho há imenso sumagre. Não sei se as pessoas ainda se recordam da sua utilização, mas seria interessante investigar. Debaixo das figueiras, o chão está repleto de figos que caíram de maduros. Também as videiras têm uma surpreendente quantidade de uvas. Adivinha-se um ano excelente de vinho.
O caminho continuava a descer em direcção ao rio Tua e eu tinha a certeza que, pelo menos aí, tomaria o caminho certo para o Vilarinho. Não foi necessário chegar tão longe. O caminho contorna os Serros Amarelos, pelo poente, e desce directamente em direcção à aldeia. Passei numa ribeira (ainda com água!) que deve ter a nascente bem no alto do cabeço de S. Cristóvão.
Há nestas redondezas uma área com a designação de Castelo Velho. Não sei se essa designação tem algo a ver com algum castro, mas nunca ouvi falar, nem li, nada sobre essa hipótese.
O declive do caminho é acentuado, mas o piso está bom. Progredi rapidamente porque me encontrava um pouco atrasado. Sabia que a parte mais complicada seria o final: subir da aldeia à capela de Nossa Senhora.
Cheguei à igreja do Vilarinho das Azenhas às 11 horas e 40 minutos. Estava bastante cansado porque percorri alguns quilómetros quase a correr. Fazia muito calor e eu transpirava imenso. Felizmente tinha comigo bastante água (e algum alimento).
Não havia tempo para pausas. Entrei na igreja, onde se encontravam algumas pessoas e dois andores. Um deles era o andor de Nossa Senhora dos Remédios, o outro o da padroeira, Santa Justa.
O meu propósito era subir ao alto do cabeço onde está a capela e foi para onde me dirigi. O caminho tem menos pó do que tinha o ano passado quando aí subi acompanhando a procissão.
Com bastante esforço atingi a capela ao meio dia e um quarto. Infelizmente estava fechada, mas eu já a visitei algumas vezes.
Dei um passeio pelo recinto para recuperar um pouco enquanto tirava algumas fotografias. Já me esperavam junto à estrada para fazer o caminho de regresso a casa de automóvel. Fiz o percurso de volta à estrada por outro trajecto, utilizando um caminho mais antigo e desconhecido das minhas caminhadas.
Apesar do tempo seco e quente, foi muito agradável fazer esta caminhada. Percorri perto de 20 quilómetros, sem grandes dificuldades, utilizando quase na totalidade caminhos (muitos deles percorridos por mim pela primeira vez).
Foi uma caminhada que abre expectativas para outras semelhantes que se vão seguir.
Levei comigo duas máquinas fotográficas: uma Panasonic DMC-TZ2, que rapidamente ficou sem bateria, e uma HP Photosmart E327 que não usava há muito tempo. Não seria a mesma coisa com uma máquina fotográfica melhor mas também foi um bom desafio utilizar este material mais antigo e básico.
Amanhã haverá uma nova caminhada.

Percurso:
GPSies - VilaFlor_SRemedios