27 fevereiro 2012

João Baptista de Sá

João Baptista de Sá, nasceu em Vila Flor, a 7 de Novembro de 1928, filho de D.ª Maria Vicentina de Sá Correia, natural de Vila Flor, e de João Baptista Lopes Monteiro, natural de Carrazeda de Ansiães.
Partiu da sua terra natal, levando-a no coração, a 18 de Novembro de 1950, rumo à Capital, onde foi desempenhar funções no Ministério da Saúde e Assistência, chegando ao cargo de Chefe de Divisão no Hospital Miguel Bombarda. O seu desempenho foi objecto de louvor "pela competência, zelo e dedicação demonstradas no exercício das suas funções" (Diário do Governo, II série, de 28.6.1986).
Em Julho de 1963 licenciou.se em Filosofia pela Faculdade de Letras de Lisboa, dedicando-se ao ensino durante vários anos. Desde cedo abraçou a escrita, colaborando em diversas revistas e jornais diários de Lisboa e Porto, assim como em periódicos Regionais, onde marcou presença com a poesia e os contos, vindo posteriormente a publicar alguns trabalhos em livro. Cultivou o teatro, tendo uma boa parte sido objecto de adaptação radiofónica.
Como orador de alto nível, proferiu palestras em diversos actos de natureza cultural, salientando a realizada em 8 de Maio de 1955, por ocasião da homenagem prestada à grande Poetisa Florbela Espanca, intitulada "Evocação"; em 19 de Maio de 1957, "O Tejo na Poesia Portuguesa"; em 5 de Outubro de 1958, "O Poeta que Encontrou a Estrada de Damasco", sobre Bocage; em 1 de Fevereiro de 1972, foi orador nas "Conversas sobre Arte", com o tema "Dos Séculos XV e XVI, ao Barroco e ao Rococó"; em 30 de Abril de 1984, em homenagem ao Dr. Cabral Adão e a 12 Agosto de 1994, aquando da apresentação do livro "O Passado e o Presente" da autoria do Dr. Artur Guilherme Trigo Vaz.
Tomou parte, com os seus escritos, em vários certames literários pelo que recebeu prémios e menções honrosas como, por exemplo:
- 1°. Prémio em Soneto nos II Jogos Florais da Costa do Sol - 196l
- 1°, Prémio em Poesia Lírica nos Jogos Florais Transmontanos - 1962, do Clube de Vila Real, com o poema "Louvor à Terra e à Gente Transmontana".
- Prémio de Revelação Prosa, em 1973, na colectânea de contos "Concerto para a Vida e Esperança" atribuído pela Secretaria de Estado da Informação e Turismo.
Entre as diversas obras teatrais merece especial relevo, porque é um presente à terra que o viu nascer, a peça em 3 actos, um quadro e um epílogo "A Alma de Vila Frol".
Nos seus livros está em permanência a sua Vila Flor. Em 1996, publica "Flores para Vila Flor". No prefácio, Joaquim Cerqueira Gonçalves, afirma que "os poemas de João de Sá são uma incomparável incursão pela memória cultural de Vila Flor"; em 1997 um maravilhoso livro de contos, "Um caminho entre as oliveiras" é oferecido a todos os que amam o seu torrão natal; em 2003 vem a lume "Mãe - D'Água - Ficção e Memórias" uma viagem à Vila Flor dos anos 40; em 2006 "Assalto a Uma Cidade Feliz" assinala "a urgência de um regresso ao seu burgo nordestino, através de reminiscências da infância e juventude do autor".
Num permanente abraço à cultura foi, curiosamente, o primeiro visitante do Museu de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian.
Actualmente, João de Sá vive em Lisboa, continuando a escrever, quinzenalmente, as "Memórias de Vila Flor", no jornal regional "Terra Quente".

Transcrito da Agenda Cultural  de Vila Flor (Jan., Fev., Mar.e Abr. de 2008)
João de Sá, aquando da representação da sua peça "A Alma de Vila Frol", pelo Grupo de Teatro Amador de Valtorno/Alagoa

Nota: João Baptista de Sá morreu no dia 23 de Fevereiro de 2012, em Lisboa.

25 fevereiro 2012

Morreu o Dr João de Sá


XLIX
Andei perdido por caminhos ínvios,
procurando a palavra justa de espuma
para aplacar o ímpeto das torrentes.
Agora, aqui, meu débil discurso engrandece-se
amedrontado de tanta transparência,
próximo da divina perfeição emergindo
do luzente mar do fim dos nossos corpos.
Já não volto a perder-me, nem tu,
seguramente o sei, ninguém se
estrangula numa laranjeira,
ao romper do dia.
Em nenhum tempo regressaremos
animais a merecerem distinções e penas
em artificiosos firmamentos.
Nossos nomes irão deflagrar até se dissiparem
em incisões de névoa.
Ficaremos idênticos ao que éramos
antes de transpormos o pórtico da vida.

Poemas de Dr. João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: João de Sá (30-11-2008)

24 fevereiro 2012

Centro Cultural de Vila Flor

Inaugurado em Agosto de 2000, esta estrutura polivalente localizada no centro da vila de Vila Flor, é composta por várias salas de apoio ao Município, também cedidas às Associações/Instituições do Concelho, sempre que solicitadas. As Exposições têm lugar na Galeria criada para o efeito e no foyer. Neste espaço localiza-se o Espaço Público Internet e o Gabinete de Inserção Profissional. Um bar de apoio, concedido a particulares, integra o complexo.
Para além de um auditório pequeno, com capacidade para cerca de 60 pessoas, um outro maior, com capacidade para 300 pessoas, acolhe aos fins de semana as sessões de cinema e atividades culturais. O Auditório Adelina Campos, assim denominado em jeito de homenagem a uma grande atriz Vilaflorense, recebe também, ao longo do ano, Jornadas Técnicas e Congressos, debates e conferências, mas sobretudo espetáculos de música e teatro.

Fonte do texto: Município de Vila Flor

23 fevereiro 2012

Folgares - Grandras

Recordação da última caminhada a Folgares, quase prestes a atingir a aldeia. Ao longe vê-se Freixiel e um sem fim de montes e fraguedos já percorridos.

18 fevereiro 2012

Flores sem medo

Apesar da vaga de frio que assola a região e grande parte da Europa, a natureza consegue surpreendermos com sinais de sobrevivência verdadeiramente fascinantes. Na caminhada que realizei em novembro entre Vila Flor e Lodões fotografei estas flores num olival jovem.

16 fevereiro 2012

Por caminhos pouco definidos

Depois de mais de ano em "Peregrinações" ficaram para o fim aquelas não as mais distantes, mas aquelas em que o percurso a fazer era mais difícil de planear. Não é muito evidente, mas a zona mais difícil do concelho para percorrer a pé (e em BTT) fica na freguesia de Vale Frechoso. Isso deve-se ao facto de haver extensas áreas vedadas com arame farpado. Para piorar as coisas, os caminhos terminam abruptamente, ou então de encontro ao arame farpado, sendo difícil planear um percurso a fazer. Foi devido a este facto que Assares e Santa Comba da Vilariça foram ficando adiadas na rota das caminhadas.
Mesmo assim, no dia 26 de novembro saí de Vila Flor em com destino a Santa Comba. O percurso estava minimamente planeado, uma vez que não uso qualquer dispositivo de GPS que me durante a caminhada. O estudo é feito no computador, mas nem sequer uso uma folha impressa, confiando na minha memória no meu sentido de orientação.
O percurso incluía uma passagem por Roios, seguir até à Quinta do Prado, passar a montante de Assares e, com sorte, atingir Santa Comba da Vilariça. Vistas as coisas assim, até parece fácil, visto que é quase como traçar uma linha reta entre Vila Flor e Santa Comba.
O dia estava bonito, com o céu limpo e azul, a convidar à fotografia. Atravessar a serra a caminho de Roios é sempre um momento fascinante. No meio do silêncio as formas ganham mistério e as cores vida. As cores outonais ainda estavam bastante presentes e os medronhos pendiam maduros dos arbustos. Já na aldeia de Roios eram os crisântemos espalhados por vários espaços da aldeia que emprestaram beleza à paisagem. Nos campos apanhava-se a azeitona. Grupos de azeitoneiros trabalhavam afincadamente na apanha dos parcos frutos que as oliveiras deram. Mesmo assim, não regateavam um sorriso para a câmara, porque o À Descoberta já tem fama.
E foi quando percorria os caminhos de Roios que chegou o nevoeiro. A principio achei piada, aproveitei-o par dar um ar misterioso às fotografias, mas não demorei a ver os seus inconvenientes. Perdi-me no meio do nada e rapidamente fiquei encharcado. Caminhar no meio da vegetação toda molhada é muito desagradável. Já por vezes "saboreei" a agressividade das estevas nesta zona do concelho. Pretendia atravessar a ribeira de Laça mas a nas poucas vezes que por aí passei sempre tive dificuldade e agora, no meio do nevoeiro, ainda pior. Procurei não me aventurar pelas zonas mais escarpadas, que por ali abundam.
Quase sem dar conta esbarrei com o IC5!  Na altura ainda não estava aberta ao trânsito, mas já tinha rede, o que me impediu de a atravessar. A solução foi caminhar ao longo dela até encontrar uma passagem. Lembrei-me das anedotas que alguns contam sobre as passagens sobre IP e autoestradas para lobos e outros animais selvagens. Só quem não conhece o meio natural é que se pode rir com uma coisa dessas. Estas estradas são um verdadeiro problema para a deslocação dos animais, embora aqui, região montanhosa, tenha necessariamente de haver mais pontes sobre os cursos de água facilitando, a passagem dos animais por debaixo delas. Foi o que eu fiz. Senti-me um animal selvagem.
Ao atingir a ribeira da Laça a o IC5 passa a muitos metros de altitude, suportado em enormes pilares de cimento! Consegui finalmente localizar-me. Estava muito mais a jusante da ribeira do que o que pretendia, não me restando outra alternativa senão iniciar de novo a subida em direção ao Alto da Fenanqueira e à ribeira das Quintas. Há aqui uma pequena albufeira que visitei na já longínqua data - maio de 2007. Quanto a encontrei senti-me de novo orientado.
O nevoeiro ia e vinha ora cobrindo o alto dos montes, ora espalhando-se por áreas mais extensas e limitando a visibilidade. Segui diretamente para a Quinta do Prado. Com o objetivo de passar o mais longe possível das casas da quinta, desviei-me o mais cedo que pude para sul. Este espaço é algo de extraordinário! Na última vez que por aqui passei esta quinta estava cheia de eucaliptos e agora deparei com uma área gigantesca cheia de jovens oliveiras. A surpresa foi grande porque quando vista à distância fiquei com a impressão que estava a ser repovoada de eucaliptos. São mais de 300 ha de olival, cerca de 80 mil(!) oliveiras que produzem um azeite biológico de elevada qualidade, a maior parte do qual vendido para Itália. A marca comercializada é Acushla. Claro que estas coisas só vim a sabe-las mais tarde!
Pretendia atingir o marco geodésico do Fiolho, a mais de 500 m de altitude próximo de Assares. Perdido de novo do meio do nevoeiro e sem um caminho definido para seguir, calculo que andei às voltas quase sem sair do sítio. Encontrei o declive para o vale da Vilariça e decidi segui-lo. Mais tarde ou mais cedo encontraria a estrada N-102 (E802), algures entre Assares e Santa Comba. As contas saíram-me furadas. Não encontrei a estrada esperada, mas sim a novíssima IP2 que está situada a uma cota superior à da que esperava encontrar.
Não me foi difícil encontrar uma passagem inferior e estava no coração do vale. Do meio do nevoeiro apareceu uma placa que dizia - Ponto de Encontro - Lodões! Tratava-se de uma placa das obras nas estradas IP2 e C5, mas serviu perfeitamente para perceber que estava em Lodões, muito distante do local onde pensava estar e para onde pretendia ir. As duas da tarde já há muito que tinham acontecido e pouco havia a fazer. Dirigi-me para o centro da aldeia e telefonei para casa para me irem buscar.
Enquanto esperava, refleti na minha aventura com final tão improvável. Não consegui atingir o meu objetivo, mas sentia-me muito satisfeito com o percurso que tinha feito. Houve momentos de pura magia, com paisagens dignas de serem fotografadas e eu até estava munido de um equipamento razoável (coisa pouca habitual nas "Peregrinações"). Estava absorto nos meus pensamento enquanto saboreava uma apetecida maçã quando parou uma carrinha. Tratava-se de um senhor de Assares que ia para Vila Flor e ofereceu-me boleia, também coisa pouco habitual nas minhas andanças. Aproveitei.
Não considerei o tempo desperdiçado. Além das fotografias, a experiência acumulada veio a ser útil nas caminhadas seguintes, que tiveram como destino Assares, Santa Comba da Vilariça e Lodões.

14 fevereiro 2012

Freguesia Misterio n.56

Durante o mês de janeiro decorreu o desfio Freguesia Mistério número 55! Ao contrário do que seria de esperar, dado tratar-se de um desafio relativamente fácil de acertar, os participantes foram poucos. Compreendo que, face à facilidade com que se escreve (ou algo parecido) no Facebook, é bastante aborrecido estar a participar em Blogues, ou semelhantes, que saltitam por aí.
Participaram 6 pessoas que fizeram os seguintes palpites:
Candoso (1) 17%
Trindade (3) 50%
Vilas Boas (2) 33%
Um olhar atento permite descobrir pistas que podem dar uma ajuda na identificação da aldeia em questão. Pela posição elevada de onde foi tirada a fotografia só pode estar num vale, e as possibilidades de escolha já ficam mais reduzidas. Depois, há o olival circundante, que é bastante e talvez apontasse para uma aldeia do vale da Vilariça, ou Freixiel. Certo é que a aldeia em questão é Meireles. Quem sobe ao santuário de Nossa Senhora da Assunção, em Vilas Boas, e se debruça sobre o varandim em direção ao Cachão, ou Mirandela,  pode admirar mesmo ali no sopé a montanha a aldeia de Meireles, freguesia de Vilas Boas. A pequena albufeira junto do concentrado urbano não ajudará muito na identificação, uma vez que penso que pouca gente reparará nela. Na fotografia está o núcleo mais antigo da aldeia. As casas mais recentes estende-se mais para norte, perto da estrada nacional.
A resposta certa, era, portanto, Vilas Boas.
O desafio para fevereiro já está "no ar" há vários dias. É mais uma fonte arcada, de mergulho, mas, ao contrário de outras, esta não se encontra em nenhum povoado, estando situada na berma de uma estrada com alguma importância e embutida numa parede. A seca é muita ainda há poucos dias que passei por ela e estava praticamente sem água. A sua posição baixa e a sua localização fazem com que poucas pessoas reparem nela (penso eu).
A questão é: Em que freguesia podemos encontrar esta fonte? O palpite pode ser dado, como sempre, na margem direita do Blogue.

13 fevereiro 2012

Para lá do que se vê

"Para lá do que se vê" é uma expressão usada pelo Timon no filme da Disney Rei Leão. É um filme animado, muito divertido e que me faz lembrar determinado período do crescimento do meu filho mais velho. Esta expressão vem-me à memória quando subo aos locais mais elevados de onde se avista um grande espaço de horizonte. Para lá do que se vê, está o imaginável, o mistério, o desconhecido. Mas, para um bom caminheiro, o que não se vê pode ficar visível, depois de algumas horas de caminhada.
Terminou o ciclo de "Peregrinações" embora ainda me falte mostrar fotografias daquelas que já foram feitas este ano. Entretanto, para não se perder o entusiasmo, penso em iniciativas que incentivem À Descoberta, percorrendo algo que ainda falte percorrer, ou visitando algum ponto do concelho que ainda não foi desvendado. Já há algumas ideias, e no sábado passado já foram dados os primeiros passos.
Deixo duas fotografias. Uma do vale do Cachão, tirada na Fonte do Seixo, em direção a Meireles, freguesia de Vale Frechoso. A outra, também na mesma freguesia, foi tirada da estrada que desce para Santa Comba da Vilariça. Conseguem distinguir-se alguns terrenos da Quinta do Prado e imaginar-se, para lá do que se vê, o vale da Vilariça.

07 fevereiro 2012

Os caminhos do Cabeço


Se todos os caminhos do mundo vão dar a Roma e os da Europa a São Tiago, todos os caminhos de Trás-os-Montes vão dar ao Santuário de Nossa Senhora da Assunção. Fica a seis quilómetros de Vila Flor na ponta leste do planalto da Carrazeda. Mas há caminhos e caminhos. Ao longo dos tempos, os romeiros privilegiaram alguns. Um deles passava pela minha terra. Toda aquela gente que vinha dos concelhos de Mogadouro, de Vimioso e de Alfândega da Fé descia, nas vésperas do 15 de Agosto, ao Vale da Vilariça para pernoitar connosco.
Chegavam sempre com ar de quem ia para a festa. À noitinha, acomodavam as bestas no olival da igreja e no do castelo. Depois, vinham os romeiros acomodar-se no Terreiro da Fonte para se refrescarem e cearem. E logo que surgia no céu a primeira estrela, saía do bolso o primeiro realejo, depois outro e outro… E começava o animadíssimo baile dos realejos ao luar de Agosto.

Não há amor como o primeiro
Nem luar como o de Janeiro
Mas lá vem o de Agosto
Que lhe dá no rosto.
Era ali o primeiro arraial do Cabeço: dançavam novos e velhos; os de fora com os da terra; jogos de roda e agarradinhos. Também vinham os fadistas cantar fado ao desafio que é o fado típico na Vilariça. Bebia vinho quem gostava, com tremoços e azeitonas, e água da fonte romana, quem queria. Era o arraial mais lindo daquelas redondezas com inveja dos vizinhos.

Mas nunca a inveja medrou
Nem quem ao pé dela morou.

Depois da meia-noite, esmorecia o baile. Era preciso descansar as pernas para, na madrugada do dia seguinte, palmilhar as poucas léguas que ainda faltavam para chegar ao Cabeço.
Nós, os da terra, sempre partíamos lá para o meio da manhã. Só ficavam os tolos, os velhos e os aleijados com a obrigação de guardarem as casas e acomodarem as crias. Mas ficavam com a parte da merenda a que tinham direito.
Algumas mães dificultavam a ida às filhas. Mas bastava elas dizerem que tinham promessas a cumprir e logo as dificuldades se esvaneciam…

Ó minha mãe, deixe, deixe
Ó minha mãe deixe-m’ ir
Ó arraial do Cabeço.
Bou lá e torno a bir.
Bou lá e torno a bir,
Num sei se birei ó não…
Ó minha mãe deixe-m’ ir
À Senhora d’Assenção.

As filhas aldrabavam. Mas as mães já tinham feito o mesmo às suas… E por aí fora até à Idade Média. Assim rezam as Cantigas de Romaria em que as filhas se iam encontrar com os namorados garantindo às mães que iam pôr velas aos santos ou “candeas queimar”. As mães bem o sabiam como o revela um dos nossos Cancioneiros:

Pois nossas madres vam a Sam Simon
De Val de Prados candeas queimar,
nós, as meninhas, punhemos d’ andar
Com nossas madres, e elas enton
Queimen candeas por nós e por si
E nós, meninhas, bailaremos i.

Nossos amigos todos lá iran
por nos veer, e andaremos nós
bailando ant’eles, fremosas (en) cós,
e nossas madres, pois que alá van,
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.

Nesse tempo, Portugal e a Galiza, unidos como unha e carne, falavam e escreviam a mesma língua. Curiosamente Carolina Michaelis situa este santuário de San Simon em Trás-os-Montes. Já vem de longe este nosso gostinho pelas romarias.

Excerto do livro "A Romaria do Cabeço" da autoria do Sr. P.e. Joaquim Leite. Pode ser adquirido no Santuário de Nossa Senhora da Assunção, em Vilas Boas.

02 fevereiro 2012

Em Novembro

Durante o mês e novembro fiz algumas caminhadas pela serra, tendo como principal objetivo a procura de cogumelos. Tinha prometido a mim mesmo fazer algumas reportagens sobre esta iguaria, mas o ano não correu de feição. As chuvas que teimaram em não cair, foram adiando, adiando, aquela que seria a altura propícia para o desenvolvimento dos cogumelos (o que não significa que não se tenham desenvolvido mais tarde, uma vez que os tenho encontrado durante todo o mês de janeiro!).
Se a busca dos cogumelos foi, em parte infrutífera, limitando a pouco mais do que os exemplares que aparecem nas fotografias, as caminhadas serviram sobretudo para proporcionarem bons momentos fotográficos. Estávamos na altura ideal para fotografar o outono, com bonitas folhas de castanheiros e carvalhos, com os medronheiros carregados de frutos, bem como as oliveiras.
Nem sempre o que se encontra é inspirador e belo. Desde que a lixeira foi encerrada surgem cada vez mais montes de lixo, monstros e entulho espalhados pelos caminhos. Numa das vezes encontrei muito, muito lixo, que incluía muitas matrículas de automóveis e documentos, faturas e  documentos fiscais que permitiam facilmente identificar a sua proveniência. Caso estranho, numa das caminhadas de janeiro verifiquei que esse lixo tinha sido removido! O que se terá passado? Gostava de ver mais fiscalização e punição dos infratores.
Dá a impressão que o desenvolvimento não se está a manifestar em civismo, pelo menos por parte de um bom grupo de pessoas, entre os quais empresários de várias áreas, umas vez que os lixos, na maior parte das vezes, não são de origem doméstica.
Descer a serra até perto de Roios permite encontrar uma espécie de microclima que se estende ao longo de vários cursos se água que passam junto da povoação. Neles crescem cogumelos e fetos de várias espécies, protegidos por tojos e silvas que até os animais selvagens têm dificuldades em ultrapassar.
No regresso a casa ainda é o colorido das folhas das videiras que existem em volta de Vila Flor, que desperta à atenção.

01 fevereiro 2012

Fonte da Almoinha (Valbom)

Valbom é uma aldeia anexa à freguesia de Trindade que faz fronteira já com Vilares da Vilariça já de Alfândega da Fé, tendo a barragem de permeio.
Fica à direita da via que vem da Ponte do Sabor e segue para Macedo, perto da Ribeira da Vilariça.
Não sendo uma povoação muito grande, torna se aconchegada com o casario à volta da Capela de S. Gregório, numa leve encosta sobre o vale.
Valbom tem duas tabernas, um negociante e dois pastores com outros tantos rebanhos de ovelhas. Têm ainda um forno de cozer o pão. Moinhos havia dois, mas a construção da Barragem de Vilares da Vilariça fê los desaparecer.
O local mais frequentado pelos seus habitantes é o Largo da Cruz, ou então junto à Taberna.
Em Valbom existe uma Fraga que chamam dos Namorados e que tem várias letras e sinais cruciformes. Nos Arrodeios aparecem sepulturas antigas. E na povoação pode se visitar também o Solar, antiga Casa Paroquial dos vigários que residiam naquela aldeia, bem como a Fonte da Almoinha (que é medieval e tem arcada).
Fonte do texto: Virgílio Tavares, Conheça a Nossa Terra -Vila Flor, Editora Cidade Berço, 2001.

31 janeiro 2012

Flor do Mês - Janeiro 2012

 Demorei algum tempo a escolher a flor para representar este mês de janeiro, prestes a findar. Por um lado o leque de escolha é bastante reduzido, depois, as fotografias nem sempre saem como o desejado e não ia mostrar uma flor triste, sem cor. Até foi bom, porque a minha escolha acabou por recair numa espécie bastante bonita e interessante.
A calêndula (Calendula arvensis) tem um colorido que não passa despercebido durante os meses de inverno. Podemos encontrá-la nas encostas da berma da estrada e em terrenos incultos mas é nos terrenos cultivados, como olivais e vinha que ela está bastante presente durante o mês de janeiro. Em todo o vale da Vilariça rivaliza com as margaças (talvez a Chamaemelum fuscatum)e algumas Brassicaceas a alegrar os campos bastante despidos de folhas e de alegria.
A calêndula tem uma parente bastante próxima que quase toda a gente conhece, a calêndula officinalis, muito frequente nos jardins e já conhecida e utilizada como planta medicinal por gregos, romanos, árabes e outras civilizações do oriente. A calêndula escolhida para representar o mês de janeiro tem as flores mais pequenas do que a espécie usada nos jardins, mas partilha com ela a maior parte das características.
É frequente em todo a península Ibérica, nos Açores e Madeira, mas também em grande parte da Europa e África. Trata-se de uma planta anual, que pode atingir mais de 25 cm de altura, com flores alaranjadas ou amareladas. De acordo com os registos da UTAD, a floração ocorre de dezembro a maio. As características botânicas são complexas e por vezes aborrecidas para quem não se interessa por esta matéria, mas há algumas características que são facilmente identificáveis por um leigo. Uma delas é a flor em capítulo, ou seja com um vasto conjunto de flores num disco central, rodeado por um conjunto de flores periféricas que identificamos como "as pétalas". Esta "flor" é sobejamente conhecida nas margaridas, mal-me-queres, girassol ou gerbera.
Os romanos chamavam-lhe solsequium, que significa seguir o sol, uma vez que a calêndula tem um comportamento semelhante ao girassol, seguindo o sol de acordo com a rotação da terra. Ao cair da noite as flores fecham e só se abrem ao nascer do dia.
Toda a planta pode ser usada para fim medicinais, desde as flores às raízes. Na sua composição entram algumas substâncias com interesse medicinal, de entre os quais a calendulina. Tem uma lista enorme de utilizações: uso interno (fervendo flores ou folhas em água ou leite - funciona como regulador do fluxo menstrual, reduz inflamações, aumenta o número de glóbulos vermelhos no sangue e ativa a circulação, servindo ainda como remédio para o estômago, intestino, ulceras gástricas ou infeções causadas por bactérias; uso externo (sob a forma de pomada) - pode ser usada contra queimaduras, contorções, eczema, hemorroides, etc.
É incrível mas não conheço nenhuma utilização desta planta, no concelho!
Em Espanha esta planta tem alguns nomes curiosos, como erva vaqueira, erva do podador, erva lava-mãos, cu-de-velha, pata-de-galo, unha-de-gato, flor dos mortos, etc. Em Portugal a lista é mais curta: Calendula; Erva-vaqueira; Malmequer-dos-campos; Vaqueira.
Quando passar pelos campos nos próximos meses e vir esta planta. é bom lembrar que está ali um espécie vegetal cheia de potencial.

As fotografias foram tiradas durante o mês de Janeiro, entre Roios e Lodões.
Outras Flores do Mês de Janeiro: