28 março 2012

Amendoeiras em flor - Despedida

A primavera chegou e a natureza vai-se transformado, seguindo o ritmo da vida. As amendoeiras, que fizeram as delícias de milhares de visitantes que por aqui passaram, também perdem o seu alvor; Mas ainda há algumas flores, para alguém que esteja atrasado.
No fim de semana passado o passeio foi ao Mourão e em Valtorno e Mourão ainda havia bonitas amendoeiras em flor.
Com estas fotografias me despeço. Adeus até p'ró ano.

27 março 2012

Flor do Mês - Março de 2012

Procurei para Março de 2012 uma flor à altura de representar um concelho com o nome de Flor. A maior representante de Março é, sem dúvida, a flor da amendoeira, mas essa já foi escolhida par Flor do Mês de Fevereiro de 2008. Mas, Março é já um mês florido e as candidatas são mais do que os dedos das mãos.
Decidi escolher uma que penso que foge ao conhecimento geral. Apostei mais na raridade do que na representatividade em termos de área. A flor do mês é um narciso, mais conhecidos entre nós como campainhas. O seu nome científico é Narcissus rupicola. Descobri os primeiros exemplares no concelho de Carrazeda de Ansiães, há alguns anos atrás. Encontrei depois alguns pés em Miranda do Douro e fiquei eufórico quando os vi pela primeira vez no termo de Samões. Em todos os locais em que os encontrei a população resumia-se a uma mancha no topo de uma formação rochosa. Por mais que tenha procurado em redor, não encontrei mais exemplares!
No dia onze de Março desloquei-me ao termo de Samões, de propósito para fotografar esta flor. Não o fiz ao acaso, uma vez que, desde 2007 que tenho alguns pés numa vaso, em casa. Nunca consegui uma flor, nem para a amostra, mas este ano foi a exceção. Floriram em força, com as suas flores amarelo-canário, para meu contentamento. Pensei que a floração no meio natural aconteceria alguns dias mais tarde, mas por pouco não apanhava nada. Não sei se pela seca, se pelo calor, a floração aconteceu cedo, mas ainda consegui alguns exemplares no auge da floração.
A planta pertence à ordem das Iridales, família Alliaceae. É natural da Península Ibérica e do Norte de África (principalmente Marrocos). Inicialmente pensei tratar-se da espécie Narcissus calcicola, mas, tal como o nome indica, esta é típica do calcário, ao contrário da rupícola, que prefere a altitude acima dos 600 metros. Até agora tenho seguido a notação do Jardim Botânico da UTAD, mas, foi recentemente posto on-line um sítio web puramente espetacular, cheio de ilustrações que é dirigido a pessoas com poucos conhecimentos (O endereço é http://www.flora-on.pt). A classificação agora atribuída é: Ordem: Asparagales; Família: Amaryllidaceae; Género: narcissus. Várias espécies de narcisos abundam pelos campos e pelos jardins, nesta época. Também lhe chamamos junquilhos. Existiam no canteiro em meia-lua em frente à Câmara, quem desce para a Praça da República, mas foram arrancados há poucos dias. A maior parte dos narcisos são de cor amarela-choque, inconfundíveis.
A sua reprodução faz-se por bolbos, quer nas espécies de jardim, quer nas espécies selvagens. Na espécie que representa este mês, os pedúnculos raras vezes atingem os 10 cm de altura, uma vez que crescem nas frestas ou em cima das fragas, com escassos centímetros de terra.
Ao contrário de outras espécies que tenho escolhido, não encontrei nenhuma referência à utilização do narciso para fins medicinais ou culinários. A sua utilização é só ornamental sendo comercializados bolbos de muitas espécies, entre as quais esta, que faz um vaso lindíssimo. A sua beleza é tal que convém lembrar um pouco da origem do termo narciso e narcisista. Narciso era um belo jovem (na mitologia Grega) que se apaixonou pela sua imagem refletida nas águas. Ainda hoje os narcisos têm a sua flor virada para o solo, como que a admirarem a sua imagem refletida. Narcisista é a pessoa que tem paixão por si próprio. É um conceito muito conhecido da psicologia e da psicanálise, sendo apontado como uma característica comum a todos, principalmente nos adolescentes, mas que vai desaparecendo com a passagem para a vida adulta. Psicologia à parte... os narcisos são muito bonitos e dão mais cor ao mês de Março.

Outras flores de março:

26 março 2012

Peregrinações - Capela de Santa Marinha (Meireles)

Já vai longa a lista de Peregrinações, restando apenas uma das inicialmente previstas. Trata-se da capela de Santa Marinha, na aldeia de Meireles, freguesia de Vilas Boas.
Apesar desta aldeia estar situada a poucos quilómetros de Vila Flor, o acesso a Meireles, por caminhos rurais, é complicado, para não dizer impossível. Todas as vezes que tentei fazer Vila Flor-Meireles ou Meireles-Vila Flor, quer a pé, quer de bicicleta, nunca o consegui. Não conheço nada a que se possa chamar um caminho que faça a ligação da estrada N214 (Samões - Trindade) a Meireles. Por várias vezes foram feitas provas de todo-terreno que abriram alguns trilhos, mas, com o passar do tempo, acabam por ser cobertos pela vegetação espontânea. Não seria preciso muito para abrir uma ligação, faltando abrir talvez menos de dois quilómetros.
Com tanta facilidade, até pode parecer que seria um curto passeio até Meireles, mas, para o melhor e para o pior, o nevoeiro decidiu marcar presença, proporcionando boas fotografias e alguma dificuldade em encontrar Meireles, não muito longe,  mas escondida no nevoeiro. O elemento mais emocionante foi mesmo o nevoeiro, porque a falta de chuva faz com que os campos tenham um aspeto bastante triste.
O percurso tinha alguns desvios para o tornar mais longo e acabou por proporcionar bonitas paisagens, vistas de locais com alguma altitude.
À saída de Vila Flor já havia algum nevoeiro. Não cobria toda a vila, aproximando-se timidamente vindo do Nabo. É uma paisagem bastante habitual, com o nevoeiro a chegar às Portas da Vila, às vezes cobrindo metade dela, mas não conseguindo fazer frente a outras correntes que sopram do Barracão.
Subimos às Capelinhas, e depois ao miradouro. Embora Vila Flor seja sempre bonita quando vista daqui, pela manhã, a luz entra pelas Portas do Sol e é ainda mais esplendorosa. O nevoeiro não a deixava romper, mas, mesmo assim o cenário era digno de admiração.
Pela crista da montanha  chega-se ao marco geodésico do Facho, bem no alto da Quinta das Escarbas. Depois, o caminho chega ao fim. Há alguns anos atrás o Clube de Ciclismo de Vila Flor abriu um trilho para por ali passar a Rota da Liberdade e tenho-o utilizado desde então. Não é fácil segui-lo porque as silvas estão a tomar conta dele, mas é de grande ajuda. Passámos depois pelo lugar onde existia o aterro, entretanto selado. A cenário é sempre muito triste. Como não têm  acesso ao aterro, despejam o lixo em qualquer parte da serra.
Atingimos a estrada e seguimo-la durante algum tempo. O nevoeiro espreitava, vindo do Cachão, cobrindo Meireles. Deixámos a estrada por algum tempo para subirmos ao Cabeço dos Gaviões, perto da Fonte de Seixas. Não podíamos escolher melhor miradouro! A visão encheu-nos a alma. Quando pensei nesta série de caminhas/peregrinações não pensei sentir tantas emoções a percorrer os caminhos, que até já conhecia.
Já perto do cruzamento para Vale Frechoso deixámos a estrada em direção à Fraga Amarela. Mais uma vez o cenário ficou admirável.
Quando nos aproximámos do local onde precisamente termina o caminho, entrámos no nevoeiro. Eu aprecio o nevoeiro, em termos fotográficos, mas deixou-nos completamente "às aranhas". Neste caso, havia a topografia do terreno que não deixava dúvidas - para chegar a Meireles seria necessário descer. O local onde nos deslocávamos ardeu no verão passado. A vegetação não causava problemas, mas havia muitas rochas, quartzíticas afiadas que descemos com todo o cuidado. Orientámo-nos pelo canal de uma ribeira temporária que estava completamente seca. Passámos num local, penso que se chama Feteira, com enormes sobreiros, que no meio do nevoeiro pareciam monstros gigantescos.
Quando chegámos a terreno mais seguro, o nevoeiro não se via, estava por cima. Encontrámos alguns aldeãos que ficam muito surpreendidos quando nos viram sair do nevoeiro. Encontrámos a Ribeira de Meireles, já minha conhecida de outras viagens que fiz a Meireles.
Eram quase duas da tarde e ainda não tínhamos chegado a Meireles! Não foi pela distância, nem pelas dificuldades do percurso, foi sim pela beleza das paisagens. Por várias vezes subimos ao alto das fragas e ficámos durante muitos minutos a admirar a distância. Que bom é poder saborear estes momentos...
Entrámos em Meireles pelo fundo do povo, exatamente onde se encontra a capela.
A construção é simples, caiada de branco, possivelmente da segunda metade do Séc. XIX. O estilo é barroco. Em granito apenas a torre sineira, central, muito simples, com dois pináculos e uma cruz em trevo. Não foi possível entrar na capela. Ainda andámos quase meia hora pela aldeia e não encontrámos um único habitante! A fotografia que mostro foi tirada em 2008 e mostra como o interior é simples mas muito luminoso e bonito. Na falta de altar, a cruz de Cristo está em lugar de destaque. Tenho dificuldade em identificar a imagem de Santa Marinha, sem os seus elementos característicos. A história da vida desta santa é fantástica, embora seja difícil saber até onde vai a verdade e onde começa a lenda. Ainda há poucos dias que fotografei uma pintura de Santa Marinha, ao lado das suas oito irmãs, na bonita igreja de Lavandeira, concelho de Carrazeda de Ansiães.
Caminhámos pela aldeia para nos aproximarmos da estrada, onde nos foram buscar de carro. A fome, o cansaço e o adiantado da hora, não permitiram olhar a aldeia como ela merece. Terei que voltar a Meireles.

GPSies - VilaFlor_Meireles

19 março 2012

Peregrinações - Capela de Nossa Senhora do Rosário (Lodões)

Pelourinho de Vila Flor
Na continuação da volta às aldeias que ainda não tinham sido alvo de uma "peregrinação" seguiu-se Lodões. O facto de estar mais próxima levou a que fosse deixada para os últimas etapas.
Como quase sempre aproveitei a luz da manhã para fazer algumas fotografias em Vila Flor. Não é só o facto de a luz ser diferente e mais favorável, mas também porque há pouco movimento e a tranquilidade é inspiradora.
Caminho cortado pelo IC5
O percurso a seguir para chagar a Lodões não oferecia dificuldades (em princípio) até porque, para variar, desta vez não havia qualquer vestígio de nevoeiro, antes pelo contrário, o céu oferecia um azul tão intenso que parecia pintado de fresco.
Seguimos pela estrada até à Valonquinta, antiga Quinta de S. Gonçalo. Logo a seguir à quinta havia uma caminho vicinal que utilizei em tempos, mas o IC5 cortou-o e não ficou nenhuma alternativa.
Ponte sobre a Ribeira de Roios
O caminho seguinte está algumas centenas de metros mais à frente, e dava acesso a algumas quintas situados em Vale de Cal. Estranhamente, também este caminho foi cortado, não sendo deixada nenhuma alternativa. Não sei quem negociou o traçado do IC5, mas aqui deveria ter ficado uma passagem subterrânea ou aérea. Desde a Quinta da Barquinha (estrada para M601 Vila Flor- Sampaio), até Roios, não conheço nenhuma passam pública para ultrapassar o IC5! São muitos quilómetros!
Lodões, no vale da Vilariça
Para evitar termos que ir à freguesia de Roios e descermos ao longo da estrada (M601-1), fizemos "rapel" na escarpa que vai da estrada até à ribeira de Roios, a uma quota inferior de mais de 200 metros. É uma descida arriscada e não é recomendável. Esta manobra permitiu-nos ganhar algum tempo, o suficiente para nos aventurar-mos a subir ao monte de S. Pedro, ou cabeço da Santa Cruz, onde está uma enorme cruz de madeira que já mostrei noutras ocasiões. Além da curiosidade da cruz, e do facto de ter existirem vestígios de um castro no local, é um miradouro fantástico, um dos muitos que se estendem ao longo do vale da Vilariça.
Cabeço de Santa Cruz
O acesso ao cabeço é fácil, por caminho, bastando depois percorrer duas centenas de metros pelo meio da vegetação.
Foi um excelente momento para saborear uma peça de fruta e apreciar a paisagem em redor, antes de descermos ao vale e atravessarmos a ribeira da Laça.
Caminho próximo de Lodões
A o contrários de todas as outras aldeias vizinhas, Lodões está implantado em pleno vale. isto não contribuiu muito para o seu desenvolvimento atual, uma vez que é uma das mais pequenas freguesias do concelho. O cruzamento em Lodões do IC5 e do IP2 vieram dirigir o olhar para esta pequena aldeia que poucos conheceriam. Falou-se mesmo de um polo industrial em Lodões, mas possivelmente isso não passará de uma miragem. Santa Comba da Vilariça está ali perto e Sampaio tem já uma das maiores industrias do concelho, as águas Frize.
Capela de Nossa Senhora do Rosário
A capela de Nossa Senhora do Rosário está sitiada no meio da aldeia, sem despertar muito a atenção. A sua construção é anterior à da igreja, possivelmente no Séc. XVI. Exteriormente pode-se admirar o arco da porta, do estilo românico. A torre sineira lateral também é em granito, tal como devem ter sido as pares que agora já se apresentam revestidas e caiadas. O pequeno adro em frente da capela deve ter sido outrora  coberto, ou seja, um cabido, tal como o que existe na capela de Nossa Senhora do Carrasco, no Nabo ou na capela de Nossa Senhora do Rosário, em Samões (há mais exemplares no concelho).
Fonte Romana, em Lodões
Se pensarmos que Lodões tem como padroeiro S. Tiago, que festeja a 25 de Julho, não fica posta de parte a hipótese desta capela ter sido utilizada pelos peregrinos a S. Tiago de Compostela. As peregrinações começaram no Séc. IX mas no Séc XVII ainda estavam no auge em Portugal, nessa altura a capela já existia.
Não foi possível entrar na capela. Estava em obras e afirmaram-nos que não havia nada no interior, por isso não nos esforçámos em encontrar a chave. Haverá que voltar mais tarde, quando as obras tiverem terminado.
A caminhada terminou junto à igreja matriz, mais propriamente na fonte Romana. Este é um dos monumentos mais interessantes da aldeia. Tem gravada a data de 1680 e está num espaço agradável, mas só quando as glicínias estiverem com folhas e flores.
A caminhada não foi muito longa, ultrapassando pouco os 9 quilómetros, mas o tempo impecável fez com que todo o percurso fosse feito com muita calma apreciando a paisagem que nesta zona do concelho proporciona vistas fantásticas do vale da Vilariça.

18 março 2012

Foste-te gabar garoto

Foste- te gabar garoto
Que me tinhas dado um cravo
Nem foi cravo nem foi rosa
Foi um lençinho bordado

Numa ponta tinha a lua
Noutra o sol arraiado
No meio tinha o letreiro
Dos nossos tempos passados

Os nossos tempos passados
Ninguém os há-de saber
Temos a fonte romana
Que ainda se pode ver

As ruas de Vila Flor
A praça é um coração
Temos a Rua do Saco
E a de S. Sebastião

Ó Vila Flor ó vila
Das províncias és capital
És a vila mais bonita
Deste nosso Portugal

Canção cantada e dançada pelo Rancho de Vila Flor.

17 março 2012

Pelourinho de Freixiel

Trata-se de um pelourinho manuelino erguido sobre um soco quadrado de quatro degraus que compensam o desnível do terreno.
A coluna, de base quadrangular com os cantos chanfrados, tem, junto à base, uma argola esculpida. O fuste, de 6,42 m de altura, é hexagonal e tem no seu topo as arestas decoradas com florões, de modo a transformar o hexágono em quadrado.
O capitel, paralelepipédico com os cantos chanfrados, tem as faces parcialmente côncavas, decoradas com florões e outros motivos.
O remate é igualmente paralelepipédico, e ostenta numa face as armas nacionais e nas outras símbolos heráldicos, hoje pouco perceptíveis; é encimado por uma pequena pirâmide.

16 março 2012

A Casa

A casa é longe, só a angústia é perto.
E não se avista a hora de chegar!
E, de sobra, sabemos que um deserto
É feito de areias e luar.

São as areias o meu peito aberto.
E a lua a distância tutelar,
Onde a casa é um palor incerto
Tornado a própria acção de procurar.

E vamos de jornada. Só partidas
Espargem sal e fogo em nossas feridas
A florirem rosas, onde a onde...

O trem sempre em adeus. E, da janela,
A casa, longe, cada vez mais bela
Quando ao aceno já ninguém responde!

 Soneto de João de Sá, do livro "Vila à Flor dos Montes", 2008.
Fotografia: Praça da República, Vila Flor.

15 março 2012

Caminho, em Roios

Este é um caminho existente em Roios, interessante para caminhadas ou para BTT. Vai desde a aldeia até à Quinta do Galego, passando por Jomais, junto ao marco geodésico do Maragôto. No percurso descendente a entrada no caminho é junto à Fonte do Seixa.

14 março 2012

Assares (03)

Aspeto do Vale da Vilariça junto de Assares. A aldeia acabou por ficar no meio de duas estradas: a N103/E802 e a recente IP2 que é visível na fotografia.

13 março 2012

Carnaval 2012 (2)

Estas são mais duas fotografias do desfile de Carnaval que aconteceu no dia 17 de Fevereiro, em Vila Flor, com as crianças das escolas do concelho.

Outras 2 fotografias.

12 março 2012

Ainda há amendoeiras em flor

Estão a terminar as iniciativas dos municípios relacionados com a Amendoeira em Flor. Como habitualmente, foram muitos os que percorreram a região, principalmente em autocarros.
Se no início as minhas expectativas quanto ao espetáculo natural eram algumas, com o passar dos dias, e como nos locais onde vivo e onde trabalho há amendoeiras em redor, elas foram-se dissipando. A falta de chuva não diminuiu a beleza das amendoeiras, apenas a floração foi atrasada, mais pelo frio do que pela falta de chuva.
Longe de terminar, o espetáculo ainda vai a meio. Ontem foi a primeira vez que saí, máquina às costas, com o objetivo de fotografar as amendoeiras em flor. Fiquei realmente satisfeito. Há manchas muito bonitas, embora as pétalas já estejam a cair.
 Tal como sempre disse, a floração é escalonada em altitude e ainda vai haver amendoeiras em flor durante muitos dias. Neste momento o máximo de floração está ao nível de Vila Flor, mas nas zonas de maior altitude do concelho de Vila Flor e de Carrazeda de Ansiães a floração ainda se vai prolongar por mais uma semana.
Espero ter oportunidade de ainda me deslocar ao concelho de Carrazeda a ver como estão por lá as coisas, entretanto, deixo algumas das imagens de captei ontem, em Samões, Arco e Vila Flor.

11 março 2012

A história do dia

A história do dia decorrido foi contada pelo homem sentado à mesa do café. O papel aceitou as palavras e o cigarro apagou-se. Calma sem mentiras invadiu o recinto e não houve quem dissesse miséria.
Chegou o cão e quis carícias. O homem baixou a mão esquerda e passou-a pelo focinho e pelos olhos e pelo corpo daquele ser que chegava atraído pela solitária figura do homem ali sentado, que viera de longe, daquele lugar que fica para lá das montanhas e parece diferente; deixou tudo o que escutava e dizia palavras eloquentes e veio sem saber por entre nuvens; o Sol rompeu finalmente e nos rostos dos companheiros de viagem nada se modificou: estavam mortos.
Agora, o cão adormeceu debaixo da mesa. Todos se vão embora e ficam os dois, esquecidos, dormindo.
A história está escrita e só necessita de ser apreendida para que um grito soe, longínquo.
As conversas são finalidades implicadoras com a hora de adormecer e no cinema muita gente boceja. A fita é pouco divertida, embora lhe tivessem dado os prémios que os cartazes anunciam.
Há quem tenha remorsos, mas continue a encarar a vinda do Sol como uma passagem diária. Então, a Lua fica escondida, tão envergonhada e triste que pede caridade às nuvens. E elas sentem o dever de não lhe descobrirem as lágrimas e vão por caminhos indirectos até ao fim da noite, sempre cuidadosas e macias. Descobrem, por fim, que já não existem faces cavadas pelo sofrimento alheio, e choram.
A história espera. O cão dorme. E o homem também...

Do livro Libelo Acusatório, da autoria de Modesto Navarro.
A primeira edição deste livro aconteceu em 1968, pela Prelo Editora, e a segunda em 1999 pela Caminho.
Fotografia: Oliveiras, em Roios.