10 junho 2012

e de repente é noite (XXXVI)


Que o gume das colinas
não rasgue o tegumento do tempo,
semente grávida de mistério.
Ignoremos as cartas
que nos anoitecem as mãos.
Os enigmas só ecoam nos vergéis
onde a luz não chega.
Tenho um corpo para a tua alma,
sob a memória fresca do feno
acabado de segar, tão verdadeiro
como este sol a escavar
silêncios fulvos
nas encostas da tarde.

Poemas de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: alto do Faro, em Vilarinho das Azenhas.

09 junho 2012

Festa do Corpo de Deus em Seixo de Manhoses (2)

 Mais algumas fotografias com o aspeto das ruas de Seixo de Manhoses para a procissão do Corpo de Deus celebrado no dia 7 de Junho de 2012.
 Rua Principal
 Senhor dos Aflitos.
Porta da Igreja Matriz.

08 junho 2012

Festa do Corpo de Deus em Seixo de Manhoses

Apesar da continuidade da manutenção do dia santo no dia da celebração do Corpo de Deus não estar assegurada, sendo possivelmente este o último ano em que tal se verifica, esta festa tem profundas raízes nas celebrações católicas e um grande significado. Embora chamada do Corpo de Deus, a designação mais correta seria Corpo de Cristo, derivada de Corpus Christi. As celebrações tiveram início no séc. XIII, na Bélgica, espalhando-se depois por toda a Europa e mundo Católico. Esta festa está ligada à Páscoa, mais concretamente à Quinta-Feira Santa, daí a festa do Corpo de Deus se celebrar sempre numa quinta-feira. Acontece sempre 60 dias após a Páscoa.
Esta exaltação da presença real do corpo de Cristo na Eucaristia tem como ponto alto a realização de uma procissão, tendo a primeira sido realizada em 1264. Com o corpo de Cristo a ser transportado ao longo das ruas surgiu em Portugal (tendo-se espalhado depois para o Brasil) o hábito de fazer tapetes de flores ao longo das ruas por onde passa a Custódia, com a hóstia consagrada.
Guardo muitas recordações desta prática dos meus tempos de criança, e foi com bastante satisfação que a vim encontrar ainda viva em grande parte das aldeias do concelho de Vila Flor. Já em anos anteriores fiz referência às aldeias de Vilas Boas, Valtorno e Samões e, este ano, desloquei-me a Seixo de Manhoses para acompanhar estas celebrações.
A celebração seguida da procissão teve lugar ao fim da tarde. O dia esteve ventoso o que dificultou a tarefa de fazer o tapete de flores que percorria a maior parte da aldeia. Mesmo assim, as roas apresentavam um colorido admirável, elaborado com um misto de fé e de vaidade, porque há um certo despique para que a sua rua se distinga das restantes pela qualidade das flores e pelo arranjo das mesmas.
Parece que, em tempos, a Comissão Fabriqueira chegou mesmo a distribuir prémios pelas ruas que se distinguissem, mas tal não acorre atualmente, e acho bem, porque poderia desvirtuar o significado do gesto de fazer essas passadeias.
Os materiais para fazer as passadeiras podem ter algumas variações dependendo se a Páscoa ocorre mais cedo ou mais tarde, coincidindo ou não com a época de floração de algumas espécies. Originalmente a força das flores era de origem silvestre, com destaque para as flores das giestas (maias), amarelas, abundantes nas zonas mais frias do concelho. Este ano foi mesmo necessário procurarem-nas em zonas de maior altitude, perto do Mogo de Malta, porque é praticamente o último lugar onde ainda existem em abundância (por ser uma zona mais fria). Reparei que no Seixo não foram usadas as flores das arçâs (rosmaninho), mas noutras localidades são muito utilizadas.
Com algumas nuances de bairro para bairro, são usadas flores, pétalas e uma grande quantidade de verdes: rosas, maias, margaridas, sabugueiro, fetos, heras, funcho, serrim, etc. Em determinados locais foram "desenhados" cálices, custódias ou cruzes, em cores vivas e feitos com muito rigor.
A procissão saiu da igreja Matriz, seguiu pela Rua do Castelo, desceu ao largo de Santo António, Capela de Nossa Senhora do Rosário, Jardim de Infância, virando depois à esquerda para o largo do Senhor dos Aflitos. No cruzeiro que existe nesse local foi feita uma paragem para oração. A procissão regressou à igreja pela rua Principal e depois pela rua da Igreja.
Terminada a celebração é de louvar a mobilização das pessoas que rapidamente procederam à limpeza das ruas impedindo que o vento espalhasse os arranjos, dificultando depois a limpeza.
Esta bonita tradição ainda se mantém bem vida na aldeia de Seixo de Manhoses. Vamos esperar para ver como é que ela vai evoluir com o desaparecimento do Dia Santo.

05 junho 2012

Dia Mundial do Ambiente

Hoje é o Dia Mundial do Ambiente. Num concelho rural como o de Vila Flor podemos pensar que o ambiente não corre perigo, mas não se deixem iludir. Basta percorrer os caminhos rurais, espreitar os ribeiros apos a sua passagem pelas aldeias, verificar o que ainda fazem os lagares de azeite, para chegarmos à triste conclusão de que as pessoas ainda pensam de que o Homem é o centro do universo e de que todas as coisas foram criadas para o servirem.
Estamos em crise e toda a gente parece aflita. O ambiente está em morte lenta e poucos se preocupam.

30 maio 2012

Freguesia Mistério n.59

No mês de abril decorreu o desafio Freguesia Mistério n.º 58. Em tempo de quaresma escolhi um motivo adequado representado por um cruzeiro, ricamente ilustrado com Cristo crucificado. Até a cor envolvente é pascal com as delicadas flores de glicínia ajudando a dar ambiente.
Participaram neste desafio 11 pessoas. Os seus palpites ficaram distribuídos desta forma:
Carvalho de Egas (1) 9%
Lodões (1) 9%
Samões (5) 45% 
Vale Frechoso (1) 9%
Valtorno (2) 18%
Vilarinho das Azenhas (1) 9%
 Uma obra assim chama à atenção e não há muito semelhantes pelo concelho. Há um igualmente bonito, em Valtorno, que foi o motivo para a Freguesia Mistério n.º 39.  Este que constra na fotografia do desafio de abril pode ser admirado em Samões e é conhecido pelo nome de Cruzeiro do Senhor dos Aflitos. Está situado muito próximo da igreja matriz e também do cemitério, precisamente na Rua do Cruzeiro, nas traseiras da sede da Junta de  Freguesia. É visível e de fácil acesso da EN 21, bastando estar com atenção.
É um cruzeiro em granito, pintado e decorado com vários motivos todos eles relacionados com a morte de Cristo. Na face frontal apresenta o próprio Cristo e a seus pés a imagem de Nossa Senhora das Dores. Espalhados pela cruz há desenhos de objetos relacionados com a crucificação: escadas, martelos, turquês, etc. As pinturas são recentes e bem marcadas.
O desafio para o mês de maio já está a decorrer a algum tempo! O que se pretende é desvendar a freguesia em que podem ser encontradas duas rochas das quais uma é apresentada na fotografia. Não se trata de duas rochas "anónimas" mas rochas com "história", muitas vezes referenciadas em lendas e descrições de curiosidades sobre o concelho. Eu também já falei delas, várias vezes, no blogue. Estou em crer que as fotografias que apresentei na altura não estariam 100% certas, mas esse é o enigma que eu próprio tenho que desvendar.
Não custa nada, apresentem os vossos palpites.

27 maio 2012

Ribeirinha, estação

Edifício da estação da Ribeirinha, um dos poucos espaços da Linha do Tua que ainda se encontra com vida.

26 maio 2012

Igreja Matriz de Vila Flor

Estilo renascentista. Data dos princípios de 1700.
É um dos mais belos Monumentos de Trás-os-Montes, considerada uma das melhores construções do seu género, sumptuosa e de elegante frontaria, sendo classificada como a terceira do Distrito de Bragança.
Em torno do edifício as paredes são apoiadas por fortes gigantes.
Tem duas elegantes torres, de 25 metros cada, a do norte com dois sinos , o maior pesando 25 arrobas (430 kg), colocado em 16-XI-1914 e a do sul possui um belo relógio de horas, adquirido em 1895, pela Câmara, custando 23 205 Reis.
 
Interiormente não desmerece se Sumptuosidade exterior. Tem 42 m de Comprimento, 14 m de largura e 15 m de altura. Tem seis altares, dois deles com belos retábulos, que foram do convento de Falperra, Braga, uma rica capela que era dos Condes de Sampayo (donatários de Vila Flor) com brasão.
Tem rico tecto em castanho apainelado e belas imagens de madeira, assim como paramentos, de muita valia, como se vê da cópia do Cadastro, feito em 1940 existente no Arquivo do Museu Municipal.
O painel do Altar-Mor a óleo, é de autoria do Pintor Vilaflorense Manuel de Moura, feito em 1880.

Texto de Raul de Sá Correia, escrito por solicitação do Presidente da Câmara, para ser enviado à Direcção-Geral de Educação Permanente.

Não consegui saber a data em que foi escrito o texto mas a referida Direcção-Geral apenas existiu com esta designação entre1972 e 1979.

24 maio 2012

Pendão - Valtorno/Mourão

Após alguns passeios de preparação para a série de caminhadas a que decidi chamar Pontos Altos, de que falei no dia 17 de abril foi já no mês de março que foi feita a primeira caminhada a sério, tendo como objetivo o marco geodésico Pendão, situado na fronteira das freguesias de Valtorno e Mourão. Entretanto andei a ler algumas coisas sobre o assunto de forma a aprender alguma coisa e a não cometer muitas calinadas no que disser sobre os marcos. Embora nós lhe chamemos talefes ou marcos, encontrei a designação vértices geodésicos, que decidi adotar, uma vez que me parece mais ligada à função para que foram criados.
Não foi a primeira vez que estive no local, mas procurei traçar um percurso com alguma novidade. Entre Samões e Carvalho de Egas há uma caminho rural que acompanha o IC5. Infelizmente não começa junto à estrada que vai de Samões para a Barragem do Peneireiro, o que dava bastante jeito, começando algumas centenas de metros mais à frente e acompanhando o IC5 durante alguns quilómetros. Está asfaltada e tem um perfil muito engraçado com subidas e descidas constantes, pelo Urreiro e Serra de Candoso, mais parecendo uma montanha russa.
Encontrada a estrada EM609 (Carvalho de Egas - Santa Cecília) virámos à esquerda para depois apanharmos um caminho que vai pela crista da montanha até ao Ribeiro dos Moinhos, em Valtorno, perto da igreja de Nossa Senhora do Castanheiro.

Decorria por essa altura a iniciativa "Let's do It! World Cleanup 2012", semelhante à Limpar Portugal, de 2010, mas agora à escala mundial. Aproveitámos para verificar alguns dos locais que foram limpos em 2010 e verificámos que alguns ainda se mantêm limpos noutros já que acumula uma montanha de monstros. Tenho-me cansado de dizer que é muito feito, mas algumas pessoas só aprenderiam se o lixo fosse carregado e despejado à porta de casa de quem ali o foi deitar. E não era difícil saber a proveniência, acreditem.
Perto da igreja ainda havia algumas amendoeiras em flor! Valtorno e Candoso  são das últimas aldeias a gozarem deste espetáculo.
Contornada a igreja, onde um jovem castanheiro desponta timidamente junto ao seu avô centenário, voltámos à estrada EM626 (Valtorno - Mourão) para nos aproximarmos mais do marco geodésico.
No fundo do vale a barragem Mourão/Valtorno mostrada as suas margem de terra ressequida, saudosa das águas de inverno que não chegaram a vir. Junto do caminho algum podador esqueceu uma garrafa de tinto encostada ao tronco de uma amendoeira. Saberia que nós viríamos?!! Não creio, não nos atrevemos a provar.
A distância da estrada ao marco geodésico é pouca, mas sempre a subir. 
Do alto dos mais de 700 metros de altitude domina-se a paisagem em redor, principalmente em direção ao Vale da Vilariça. è um bom miradouro para Valtorno, mas o Mourão não é visível na totalidade. Para poente eleva-se ainda mais alto o cabeço com a capela de Nossa Senhora de Lurdes, em Alagoa, com 852 metros de altitude, e, mais distante o pinocro de Fontelonga, vértice geodésico de 1.ª Categoria, a uma altitude de 883 metros.
Depois de alguns momentos de repouso, o suficiente para rilharmos uma maçã, descemos a Valtorno onde nos foram buscar de automóvel.

23 maio 2012

Largo da Lamela, Vilas Boas

Largo da Lamela, em Vilas Boas, Vila Flor, aquando da comemoração dos 500 anos do foral atribuído por D. Manuel I. De frente está a capela de S. Sebastião.

19 maio 2012

e de repente é noite (VII)

Nos vasos do coração
depositas o sangue das rosas,
num jardim de apreensivos deuses.
Um acordeão de estrelas
percorre-te a garganta,
menos veloz que a minha dor.
Um sorriso magoado nos fustes do porvir.
Silenciosos, trocamos sinais
para nos encontrarmos na praça deserta,
entre as árvores que povoam as noites
da fulgurante nudez dos seus diálogos.
Não quebremos, com as palavras,
a inocência de nossas idades
levedando
sob as pálpebras da minha nostalgia.
Só tu és a exacta medida do invisível,
a transparência que completa o dia.
Passas e não fazes sombra,
porque és luz atravessando a luz.


Poemas de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Vila Flor, alto do Facho.

18 maio 2012

18 de Maio - Dia Internacional dos Museus

No dia 18 de Maio - Dia Internacional dos Museus não deixe de fazer uma visita ao Museu Berta Cabral, em Vila Flor fundado em 1957. Espaço museológico instalado no Solar setecentista de Aguillares (primeiros donatários de Vila Flor (esta informação não é unanimemente aceite), um exemplar raro de habitação senhorial que apresenta as Arnas Reais na fachada principal e a Flor de Lis na fachada poente.
Apresenta um valioso espólio, com coleções de pintura, de arqueologia e etnografia, bem como artesanato africano, arte sacra, numismática e medalhística. Tem uma grande coleção de livros pois aqui funcionou a Biblioteca Municipal  e ainda guarda vários manuscritos raros.
A fotografia é de 1910. Este edifício do séc XII/ XIII foi tribunal, cadeia, Paços do Concelho, biblioteca e mantém-se hoje como museu.