21 fevereiro 2013

e de repente é noite (III)

Dizer os ventos que atravessaram
exíguas paisagens, iluminadas as têmporas
de incêndios difundidos
por suas longínquas combustões.
Dizer os sentimentos rebuscados
nos restolhos de ser difícil resistir
sem lhes perdoar não terem inscrito no elmo
o alarme dos nomes proibidos.
Dizer os grânulos de orvalho
que capitularam de cegueira a escoar-se
nas fachadas dos sobressaltos para
a navegação da lava à geometria
das sementes de todos os animais.
Omitir as palavras erguidas no inverno,
pendões esfarrapados, frágeis armas brancas
em nosso infindo combate com a morte.

Poemas de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Oliveira junto ao Rio Tua, em Ribeirinha, Vilas Boas.  

20 fevereiro 2013

e de repente é noite (II)

É para reavivar
as oblíquas luzes da memória
que escrevo este rio de destinos,
este enleio de lugares que se abrem
onde os abismos fecham suas arcas
repletas de deuses visíveis e carnais.
A fronte no cimento dos punhos
sobrevoando o gráfico da febre,
insensível ao nível do mercúrio
no padecimento das insolações.
Já envelheci todos os futuros,
sei que nenhum suplício se modera
antes do seu horóscopo cumprido.
Agora como descobrir virtuosos filtros
para esta descrença que se enreda
em nossos passos nos retratos das paredes
rasurando de tempo a eternidade?
Dizer é o estertor da luz
à beira de um circulo de silêncio
onde as sombras movem a engrenagem da noite,
num vagar oculto de sirgo,
a fim de não sabermos
que turvas solidões é preciso destruir
para que nasça uma alvorada verdadeira.

Poemas de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Rio Tua, em Ribeirinha, Vilas Boas.

19 fevereiro 2013

e de repente é noite (I)

Faço isto em nome de um fogo distante.
Uma cadeira lenta para nova estação
contra o inverno.
O frio são os membros mutilados
de um corpo sem espaço
para implantar audaciosas acústicas.
Talvez os verbos se inflamem
ao mais leve estremecimento dos nomes
e tudo regresse ao início,
à postura estática das coisas.
Cerro os lábios, por precaução,
na periferia do vazio. A língua
no vértice do sal destilado
sobre outroras de celestes mansões.
Só a matéria partilha fulgores
com os náufragos tangenciando o ócio
das habitações da noite,
onde a vida não é mais que transitório
olvido da morte.

 Poemas de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Serra do Facho, em manhã de inverno - Vila Flor.  

15 fevereiro 2013

Desfile de Carnaval

No dia 8 de fevereiro realizou-se em Vila Flor o tradicional desfile de Carnaval com a participação de crianças do pré-escolar, do 1.º e 2.ºciclos das escolas do concelho. Este evento resulta de uma parceria entre o Agrupamento de Escolas de Vila Flor, do município de Vila Flor e da Santa Casa de Misericórdia.
O tema do desfile tem sempre uma intenção educativa girando à volta da ecologia e da saúde, tendo em 2013 o lema Saude e Sustentabilidade.
O cortejo percorre as principais ruas da vila exibindo-se aos habitantes da vila e a muitos que se deslocam das aldeias para admirarem/apoiarem as suas crianças que são um bem cada vez mais raro por estas paragens.
O final acontece em frente ao edifício da Câmara Municipal, com a queima de um boneco feito para o efeito o "Entrudo" e com a distribuição de um lanche às crianças participantes.

12 fevereiro 2013

Pessegueiro - Freixiel/Vilas Boas

Não tenho atualizado o Blogue com as reportagens das minhas últimas caminhadas , mas elas têm acontecido, não com a frequência desejada mas com alguma regularidade.
O ano tem estado anormalmente frio e húmido, pelo menos quando comparado com os últimos anos de Descoberta do concelho. A chuva, o frio e alguma falta de coragem têm sido os principais causas da diminuição da frequência das caminhadas. Isto a somar a um "desastre" informático que me limpou as fotografias de alguns meses de 2012.
Marco Geodésico do Pessegueiro (622 metros de altitude)
A série de caminhadas Pontos Altos, tendo como destino os marcos geodésicos teve mais alguns desenvolvimentos.
No dia quinze de dezembro parti para mais uma etapa. O destino era mais um marco geodésico próximo de Freixiel. No dia anterior tinha chovido copiosamente e foi com satisfação que verifiquei que o dia estava agradável, com algumas nuvens, mas bastante sol.

Estrada de Vieiro (N214) enfim composta
 Decidi explorar um percurso novo, nunca percorrido, mesmo sem saber se existiria um caminho. Das traseiras do edifício da Cooperativa Agrícola dos Olivicultores de Vila Flor e Ansiães C.R.L. procurei um caminho para chegar às Olgas. de perto da pedreira sai um caminho que acompanha de perto o ribeiro dos Brunhais, e segui por ele. Tudo corria bem, apesar do muito lixo que existe por todo o lado. É impressionante mas a cada ano que passa a quantidade de lixo espalhado ao longo dos caminhos é maior.
Vale com Freixiel à esquerda e a serra à direita
O caminho que segui não tinha continuação e fiquei no meio de nada, sem grande vontade de voltar para trás. felizmente só foi necessário percorrer algumas dezenas de metros para encontrar alguns lameiros e descer por eles até encontrar um caminho no fundo do vale, ali pelo Borralho.
Carvalhos ainda com as cores outonais
A água corria abundantemente pelo meio do lameiros e entretive-me a fotografá-la. Pouco depois encontrei um caminho, e um ribeiro ao lado dele. Acompanhei o curso de água até que, a certo momento a água desapareceu! Pareciam artes mágicas, uma enorme quantidade de água desaparecia como que por magia! Voltei para trás para investigar o que se passava e decifrei o enigma: o ribeiro estava seco para jusante, a água estava agora a chegar, preenchendo, pouco a pouco o leito do ribeiro fazendo-o correr. Nunca tinha apreciado este fenómeno.
Cogumelo num sobreiro
No fundo do vale o ribeiro dos Brunhais encontra-se com outro que passa junto à aldeia de Samões, e um pouco mais abaixo com um terceiro, que começa a formar-se junto a Carvalho de Egas, com o nome de Ribeira do Vimieiro. Os três cursos de água formam a Ribeira da Redonda que ainda recebe mais um curso de água vindo do Pelão, já mais próximo da Aldeia de Freixiel.
Não eram os cursos de água que me interessavam. Encontrei alguns cogumelos, uns desconhecidos outros comestíveis, mas já bastante deteriorados pelas águas da chuva.
Ribeira dos Brunhais a começar a correr
Subi à estrada N314, perto do cruzamento de Freixiel. Para subir ao cume do monte à direita (622 metros de altitude), tinha três hipóteses: contornar o monte e subir por norte; percorrer a estrada até à pedreira e subir ao longo dos seus limites vedados ou tentar a subida direta, procurando aproveitar algum acesso a algumas oliveiras que se veem a meio da encosta. Claro que escolhi a terceira alternativa. Tratou-se de mais um percurso novo para mim, sem saber se me levaria ao cume do monte ou não. Sei que existe perto da estrada um conjunto de insculturas rupestres, mas não conheço a sua localização, sendo muito difícil encontrá-las nestas condições.
Estrada do Vieiro, impecável, mas com uma lixeira à esquerda
O caminho de acesso às oliveiras sobe terrivelmente, mas era isso que eu pretendia. Já perto do topo o caminho acabou num espaço ocupado com oliveiras e vinha. Estava próximo do topo e segui pelo meio das giestas, encontrando algumas formações rochosas dignas de serem fotografadas.
No topo do monte caminha-se facilmente. O local já era meu conhecido. Uma das vezes que por ali passei foi em fevereiro de 2007, nessa altura em BTT.
Mais uma rocha curiosa das muitas que encontrei
O marco geodésico  do Pessegueiro está partido a dois terços. Em 2007 parecia pintado de fresco, embora já partido, mas agora tinha um completo aspeto de abandono (tal como todos os outros). Estes vértices deixaram de ser utilizados e, por isso, vão acabar por ser todos abandonados não sendo mais do que recordações, dentro de uns anos. 
É complicado subir à rocha que serve de base ao marco, tanto mais que está rodeada de silvas. A paisagem em redor é admirável, conseguindo avistar-se termo de vários concelhos vizinhos a norte do rio Tua. Mais próximo é a aldeia de Freixiel que chama a atenção, aninhada no fundo do vale que se estende em várias direções.
Charco numa rocha, com a aldeia de Freixiel ao fundo
A manhã já ia longa e estava na altura de pensar no regresso. Não dispunha de tempo para regressar a pé a Vila Flor. Pedi pelo telefone que me viessem buscar  junto da entrada pedreira, que é também o início do caminho que dá acesso à Quinta do Reboredo, unidade de turismo rural.  Enquanto me deslocava para o local de encontro "esbarrei" com uma cobra na berma do caminho! Estava frio, mas o tímido sol foi suficiente para fazer com o que o animal de sangue frio se arrastasse para fora do seu buraco na ânsia de aproveitar o pouco calor que dele irradiava.  Parecia bastante "dormente" mas também não a importunei muito.
Cobra a apanhar banhos de sol
Este percurso teve extensão de perto de 11 km. Foi interessante por que deu para verificar in loco o estado da natureza em pleno inverno. Os cogumelos, as pastagens, os cursos de água, a vegetação, todo um conjunto de elementos que ganham características bem diferentes ao longo das estações.Não avistei o melro-azul, ave que sei que habita o terreno rochoso por onde passei. Foi também um percurso que bastante exploração porque segui um trajeto nunca por mim explorado (talvez 50% do trajeto).





18 janeiro 2013

Gala Cantar os Reis 2013 (4)

Gala Cantar os Reis 2013 em Vila Flor.
Grupos de Seixo de Manhoses e Grupo de Música Tradicional da Associação Cultural e Recreativa de Vila Flor.

12 janeiro 2013

Gala Cantar os Reis 2013 (3)

Pequeno vídeo com excertos da atuação do grupo representante de Vale Frechoso.

11 janeiro 2013

Gala Cantar os Reis 2013 (2)

Pequeno vídeo com excertos das atuações da Carvalho de Egas (Alegre Atitude) e do Freixiel (Os Pelões).

09 janeiro 2013

Gala Cantar os Reis 2013 (1)

Pequeno vídeo com excertos das atuações da Escola de Música Zecthoven e do Grupo de Danças e Cantares de Vila Flor. O vídeo pode ser alargado a todo o ecrã. 

07 janeiro 2013

XIX Gala de Cantar dos Reis em Vila Flor

No dia 6 de Janeiro o Centro cultural encheu-se para receber mais uma gala dos Reis, desta vez a edição 19ª.
Apesar da crise (parece-me que ela já é evidente em tudo) não faltou a alegria e as bonitas canções alusivas ao Reis e às Janeiras.
O número de participações esteve à quem do que já se verificou em anos anteriores. Tenho pena que porque nos habituaram com a sua presença e com a sua alegria, mas compreendo que é difícil manter as aldeias entusiasmadas quando faltam, sobretudo, cada vez mais, as pessoas.
Certo é que não houve lugar para toda a gente se sentar. O Sr. Presidente da Câmara disse no final do espetáculo que as Galas dos Reis sempre foram o momento alto do Auditório. Acredito que sim, juntamente com alguns espetáculos de fados, a que assisti.  Só os participantes devem ter sido algumas dezenas, embora a maior parte dos grupos até se tenha apresentado este ano com menos elementos.
Sem querer tomar partido, uma vez que nem sequer se tratou de um concurso, apontarei aquilo que mais me agradou: gostei do conjunto vocal e instrumental de Freixiel; apreciei as canções de Vale Frechoso, gostei do tradicional do Seixo de Manhoses, apreciei a execução instrumental dos dois grupos séniores de Vila Flor; gostei de ver que o grupo de Carvalho de Egas continua a crescer (este ano também com o primeiro prémio no concurso de Presépios); apreciei a participação dos jovens, sobretudo no grupo da escola de música e do Centro Paroquial.
A apresentação esteve a cargo das mesmas pessoas que o têm feito nos últimos anos. Têm presença e experiência mas o público pareceu-me mais irrequieto e barulhento, parecendo-me pouco atento ao que diziam, foi pena.
Quanto à entrega dos prémios de Montras e Presépios, continuo a não gostar da "receita". Com os recursos multimédia que existem hoje, parece-me impensável que não consigam um a simples fotografia dos vencedores , para mostrar ao público. Aliás acho mesmo que os concorrentes deviam ser dados a conhecer com a antecedência possível, porque quem tem trabalho gosta de receber os prémios, mas já somos tão poucos, se admirarmos as "obras" uns dos outros, já não será mau.
Este ano fiz poucas fotografias. Optei por tentar fazer alguns filmes, sem grandes pretensões, apenas por como experiência. As imagens têm qualidade mas são ficheiros gigantescos! Estou a ter algum trabalho com elas de forma a conseguir colocar alguns trechos on line. À medida que conseguir subi-los, ficaram também disponíveis aqui, no blogue.

25 dezembro 2012

Prece de Natal

Presépio em Candoso
 Senhor, falo-te da tua noite
desta noite maior
- rumores de instantes efémeros e vários
a tomarem o tangível
a abstrata  noção do infinito.

Desta noite solene e fria.
Longa de mais a tua noite, Senhor!
Longa de mais
para a nossa mística sede
de ser dia!

Do negrume do espaço. Mais distante,
sempre, o sentido de Sagrado.
E as perguntas decisivas que fazemos,
sem respostas que nos pacifiquem.

Mas, nesta noite,
uma gota de grandeza do invisível
escorre
na candeia do barro do visível.

Presépio no Jardim de Infância de Samões
Não quero importunar-Te, sobretudo no instante
em que estás tão próximo de nós
que divinos sinais se anunciam
na nossa humana imperfeição.

Venho pedir-Te pelas crianças
que o tempo tornou homens,
sem terem aconchegado ao peito
a forma colorida de um brinquedo
que não passou do sonho de uma vida inteira.
Presépio em minha casa

Pelos que se rebelam
contra a tirania e a opressão,
e, mesmo ofendidos e humilhados,
quebram as algemas e sabem dizer "Não!"

Pelos que erguem palácios
com o supremo esforço da alma e carne em sangue
e, uma vez depostos
o escopro e o cinzel,
acabam por dormir sempre ao relento.

Misericórdia para os loucos,
os famintos, os assolados
de infindável solidão,
a quem voltámos as costas
porque falam uma língua
que fizemos por não compreender.

Presépio em Carvalho de Egas
para os que perderam tudo
e continuam a jogar
na roleta da vida,
à espera de ganharem madrugadas
ou, simplesmente, um sopro de vento
que imite o mar.

Para os que nada sabem de amor
e fazem da existência
uma ardósia preenchida
com contas de multiplicar,
Sim, clemência também para estes,
Senhor,
porque estão desatentos
e desconhecem as nobres operações de
dividir.

Presépio no quartel dos Bombeiros Voluntários de Vila Flor
Para os que não têm luz, água, lar, alegria e
paz
sem dinheiro sequer
para o bilhete do autocarro,
percorrendo distâncias
que lhes deixam os pés em ferida.


Para os artistas falhados
que passaram o tempo
a contorcer a imaginação criadora,
na vã perseguição
do sulco luminoso de um cometa.

Presépio em Vila Flor
Para os corações
que muito quiseram,
fechados para se abrasarem
no mesmo feixe de luz,
e dos quais só ficou
uma lágrima pungente
pousada numa fímbria de aurora
que nunca chegou a ser dia!

Um pedido mais. O último Senhor!
Só tu podes alterar
o ritmo cósmico das estações.
Faz com que o Natal seja em Maio
(jamais em Dezembro!)
para que, em consonância com a terra,
o milagre possa acontecer:
as crianças deixem de ter frio
e as suas mãos solares se elevem
no futuro gesto de colher um fruto!
Presépio em Valtorno (com mensagem de Natal do Dr. João de Sá (2011)).

Natal 2011, João de Sá

Poema que o Dr. João de Sá me enviou para o Natal de 2011.

22 dezembro 2012

Vila Flor - Tradição de linho

Localizada no sul do distrito de Bragança - «o meu distrito pobre», como lhe chamou o imortal Trindade Coelho, (pobre, sinónimo de abandonado).
Vila pequena. Airosa, concordo. Sempre uma brisa perpassa, um ciciar de aragem, qual leque misterioso que refresca benfazejo.
Tradicionalmente  foi centro de industria judaica, nos ramos de ourivesaria e curtumes - características cinzeladas em vestígios da sua etnia, com vielas apertadas na parte velha, casario concentrado, e, quanto a curtumes, lá está o sítio do pelame, quem vai para Róios.
 Arqueològicamente, lá tem a sua Porta de Entrada e muralhas mortas, a Fonte Romana, a valorosa Matriz restaurada, os arcos esculpidos em casas e fachadas, os brasões heráldicos, além do que se encontra no concelho. No cimo do morro que a culmina, as Capelinhas, pombas brancas a saudar quem anda naqueles caminhos, numa bênção que nos deitaram de geração em geração...
Já óleo bastante aplicaram na sua tela, ao longo da história, filhos e amigos que a conheceram. Já se ergueram muitas casas modernas, surgiu a Avenida, abriram-se outras artérias. A Praça,
estabelecimentos de ensino, urbanização geral de muito agrado, tudo isto constitui a parte jovem desta vila transmontana. Já homens se fizeram e cresceram, filhos honrosos que a distinguem. Dirigentes administrativos esculpiram em «pedras que falam» o valor e o interesse carinhoso que lhe devotaram.
E é com admiração  e orgulho que vejo subir um Museu-Biblioteca Municipal, de acesso público, bem recheados. Sendo dos melhores de vilas nortenhas , aumenta dia-a-dia a sua preciosidade - doação de beneméritos  inesquecíveis, merecedores de reparo elogioso.
Com satisfação vejo nascer o Externato de Santa Luzia, moderníssimo no corpo, fonte de plasma educativo a emanar para a juventude local e concelhia, sedenta de cultivar-se!
Eu, hoje, vou falar mais de Vila Flor. Vou contar um sonho que tive («sonhar é fácil»), numa noite próxima, lá longe, muito distante em terras portuguesíssimas do Ultramar, onde ali sentimos melhor o bafo do berço que nos embalou, e nos aquece mais o calor das plumas do ninho onde nascemos - algures no concelho de Vila Flor.
Passaram muitos anos de ausência. Regressava... aquela Vila que eu pisei a vez primeira, guiado por mão materna.
De boné na cabecita, os olhos giravam mais, ao ver mais cor, mais gente, ruas grandes e casas novinhas bem caiadas, muitos brinquedos no soto da Emilinha, e na feira, homens bem vestidos a falar muito alto, mulheres que guardavam cebolas, batatas e mais coisas nos sacos das criadas, ou pesavam com a mão uma galinha presa com baraços nas patas e nas asas. Na minha aldeia não se fazia assim. Os homens falavam menos e não havia multidões como aqueles formigueiros. Batatas havia muitas na tulha, e galinhas pelas ruas, eram de toda a gente...
Puxava pela mão de minha mãe para não perdê-la. Diziam que era feira, a feira dos 28. E palavras como a praça, farmácia, cambra, soto, registo cebil, e demais, eram guardadas por mim num sentido parabólico.
Na vinda, todo egoísta por levar um carrinho, admirava a estrada larga e lisinha que dava à minha aldeia e apetecia-me correr e fugir. Mas tinha receio de a estrada acabar nas curvas, o que surpreendido verificava não ser.
Fui crescendo. Recordo o exame da quarta, na Vila, que via de outra maneira. A vida desabrochava a meus olhos, entrando no coração toda a natureza que me tocava.
Um dia, porém, parti. Para longe...
 «... Ai, ah quantos anos eu parti chorando
Desse meu velho ... carinhoso lar...»

Como dissera, sonhara com Vila Flor...
«Vi aquela Avenida limpa, bem limpinha. Junto à Avenida, à parte esquerda de quem sobre da Praça à Domus Municipalis, um jardim enorme. Que jardim! Dantes era a cortinha grande e estéril de não sei de quem. Agora, era a sala de visitas, tapete de ouro a quem batesse à porta. Um escadario duplo e simétrico descia da Avenida para esse jardim, o qual se ligava à Praça e à rua da Casa Sil por um muro de granito rendado.
Nesse jardim, havia canteiros de flores garridas. Sebes enormes de roseiras, com rosas que mais despertavam a luxúria de beijá-las por tão formosas. Havia um lago, onde vi peixes em concursos de natação. Árvores gigantescas deixavam pender os seus braços em amplexos paternais a quem desejasse repousar nos bancos de pedra muito aparada, em extase de frescura. Carreiros de areia fina faziam de estrada naquele mundo. E, passeando, vi um velho ciumento da juventude, estudantes conversando entusiasmados, miúdos de fisgas em punho em mira de pardais, borboletas volitando aqui, parando além. E, nas copas frondosas, o gorgeio da passarada num hino à Primavera.
Subi as escadas para a Avenida. Vi a Casa do Povo, com duas palmeiras lutando pela subsistência no meio da relva desenhada. Ali estava o busto de benemérito, vila-florense ilustre. Soube que nessa casa havia reuniões sãs de formação geral do povo, cujo contacto notei de melhorado nível.
Depois continuei em frente.
Junto à Casa Verde, um grande casario modernista. Lí: «Cine-Lis». Perguntei e responderam-me ser uma casa de espectáculos «bem preparada», com duas sessões semanais de cinema.
Mais uma volta. Um hospital de construção recente tendo à frente uma bacia jorrando água em repuxo. Perto, uma figura de bronze escurecido. Tez de homem austero a pronunciar distinto: «Caridade - límpida fonte onde muitos desprotegidos da sorte vêm matar a sua sede de amor e justiça». Por ali vi a abundância de Vila Flor, negando a míngua de outrora da linfa cristalina tão necessária a todo o mundo...
Após relancear a vista pela nova artéria, vim embora. Nisto, meus olhos deslumbram: um campo de futebol. Mais abaixo, em direcção quase rectilínea à Fonte Romana, máquinas barulhentas rasgavam o seio da terra sem piedade, pisando e destruindo leiras férteis. Indaguei: «...é uma auto-avenida, com jardim pelo meio, bancos e muitas flores, que se vai fazer. Ao fundo, naquela eira, perto da Fonte, diz que vão fazer o Palácio da Justiça...». Havia tabuletas semeadas «vende-se», «terreno, vende-se». Para construção de casas novas, novinhas mesmo, com o estilo do nosso século.
E imaginei ao longo dessa Avenida majestosa a minha casa, essa casa que todos sonham fazer construir quando puderem.
Apeteceu-me, então, antevisionar a vila do futuro. Para isso subi às Capelinhas, respirando o hálito do rosmaninho e o sabor campestre, enchendo a alma com a beleza de Vila Flor - estendida em mantos de púrpura com dobras de verdura.
Em primeiro plano, um pinheiro manso coava a luz do sol marinheiro.
Eram vinhedos, de um verde carregado prometendo-se fecundos, olivais cinzentos, searas louras brincando com o vento que as gingava, amendoeiras e figueiras a sorrir de onde em onde, parte do vale extenso da Vilariça, serras e serras... puras como quando virgens foram...
O Astro amigo chamou-me com um adeus, cheio de pena por deixar aquela imagem viva do seu dia. Levava na boca o suco dos beijos húmidos que dera com sua luz terna.
Desci. Os grilos encetavam sua cantiga monótona. Singela sinfonia de tão grande espírito! Era tão sentida que tive medo de mim próprio por ouvi-la.
As luzes da vila acenderam-se. Altivos candeeiros modernos, por toda a parte, vitrinas luminosas, alguns reclamos que me pareciam pirilampos gigantes bulilando as trevas.
Mas..., um ruído... um sobressalto... e acordei.»
- Estou na realidade em Vila Flor? Custa-me a crer! Não posso estar!
Vila Flor não era, agora, como eu a vira. Já fora bela, mais linda! Já fora! Eu não cria...
Mas... Vamos querer que o sonho seja realidade, com uma vontade indómita de arrancar montanhas. Homens são os que se realizam nesta vida humanitàriamente e preparam o Futuro.
«Homo est voluntas» - disse um filósofo! Quero - uma palavra mágica , raio que fulmina a indolência e a anorexia. Digamos todos em uníssono: - «quero», porque até para os mais pobres existe a divisa «querer é poder».

Texto de Nascimento Fonseca, publicada no jornal Notícia de Mirandela, a 11-06-1967.