Não é sono nem desmaio nem esquecimento.
Talvez a transmutação adiada da pedra.
Uma palidez que já não lembra
coisas deste mundo.
O pouco que de cá levou
só se adivinha no afilado dos dedos
extenuados de tanto voo
contra os portais da adversidade.
O resto é o que dela em nós ficou:
a paciência dos seus rumos solitários,
o som das suas fontes interiores.
O que se apaga deixa um espaço
para a fatalidade de outros gestos.
Por isso tudo em volta se concentra
numa harmonia apenas intuída,
porque já não ressoa nos sentidos.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Cabeço de S. Pedro, Lodões.
03 fevereiro 2014
09 janeiro 2014
08 janeiro 2014
e de repente é noite (XX)
Sabíamos a alba uma tela branca
a ser pintada pelas emoções
em desequilíbrio.
Fazíamos o sol
da casca das maçãs maduras,
segundo o molde de uma ventura
a escorrer-nos dos lábios.
E partilhávamos o espaço
do lugar certo dos ecos da manhã,
sobre as metamorfoses
dos degraus recém-acordados.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Vilas Boas, desde o alto do Cabeço.
a ser pintada pelas emoções
em desequilíbrio.
Fazíamos o sol
da casca das maçãs maduras,
segundo o molde de uma ventura
a escorrer-nos dos lábios.
E partilhávamos o espaço
do lugar certo dos ecos da manhã,
sobre as metamorfoses
dos degraus recém-acordados.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Vilas Boas, desde o alto do Cabeço.
06 janeiro 2014
Peregrinações - Síntese
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| Caminho no termo de Vale Frechoso |
Durante os anos de 2010, 2011 e 2012 foram palmilhados muitos caminhos, agrupados com o nome de Peregrinações. Desde que terminaram que pensava agrupar os vários percursos de forma a ter uma ideia mais global do que foi feito.
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| Altar-mor da igreja matriz de Freixiel, após o restauro. |
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| A caminho de Meireles, perdido algures no meio do nevoeiro. |
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| Capela de Santa Marinha, em Meireles |
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| Capela de Nossa Senhora do Rosário, em Lodões. |
- Capelas de Vila Flor (Vila Flor)
- Capela de S. Lourenço (Arco)
- Capela de Santa Marinha (Meireles)
- Capela de N. Sra do Rosário (Lodões)
- Capela de S. Sebastião (S.ta Comba da Vilariça)
- Capela do Santíssimo Sacramento (Assares)
- Capela de S. Gregório (Valbom)
- Capela de S. Luís (Folgares)
- Capela de S.to António (Ribeirinha)
- Ruínas da capela de S. Domingos (Vieiro)
- Capela de S.to António (Vilas Boas)
- Capela de N.Sra. da Assunção (Candoso)
- Capela de N. S. do Carrasco (Benlhevai)
- Capela de S. Plácido (Mourão)
- Capela de Santa Marinha (Sampaio)
- Capela de Santa Maria Madalena (Macedinho)
- Capela de N. Senhora do Rosário (Samões)
- Capela de N. Senhora do Carrasco (Nabo)
- Capela de N. Senhora das Graças (Roios)
- Igreja da Santíssima Trindade (Trindade)
- Capela de N. Senhora da Esperança (Benlhevai)
- Igreja Matriz de Santa Catarina (Carvalho de Egas)
- Ruínas da Capela de S. Cristóvão (Vilas Boas)
- Capela de N. S. de Fátima (Alagoa)
- Capela de Santa Cruz (Nabo)
- Capela de N. Senhora do Rosário (Seixo de Manhoses)
- Capela de N. Senhora de Lurdes (Vale Frechoso)
- Capela de N. Senhora da Assunção (Vilas Boas)
- Capela de N. Senhora da Rosa (Sampaio)
- Capela de N. Senhora do Rosário (Freixiel)
- Igreja de Nossa Senhora do Castanheiro (Valtorno)
- Santuário de N. Senhora da Assunção (Candoso)
- Santuário de Santa Cecília (Seixo de Manhoses)
- Santuário de N. Senhora dos Remédios (Vilarinho das Azenhas)
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| Igreja matriz de Valtorno (Nossa Senhora do Castanheiro) |
04 janeiro 2014
e de repente é noite (XLII)
XLII
Sentemo-nos na soleira da porta.
Há canções que atravessam a rua
acima do tempo, como se as horas
sobrassem do sempre deste instante.
A serra, vista daqui,
é serena parede de hera.
Paisagem para emoldurar
e pôr no quarto, contra os malefícios.
Tudo parece construído
sobre colunas eternas negando a natureza.
Como foi possível, neste espaço,
que todos tivessem morrido?
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
03 janeiro 2014
Na serra do Vieiro
O mau tempo que se tem feito sentir nos últimos dias proporcionou a oportunidade para rever com mais calma algumas das "viagens" realizadas durante 2013 pelos caminhos do concelho. Foram muitas caminhadas, algumas viagens de automóvel e outras de bicicleta, mas em todas há uma máquina fotográfica, com mais ou menos pixels, que fixa o momento para mais tarde recordar.
No início de outubro de 2013 fiz uma caminhada à serra de Vieiro, com o objetivo de estudar o terreno para aí colocar uma pequena brincadeira do passatempo Geocaching. Não pensava demorar muito porque fui de carro até perto das ruínas da capela de São Domingos, fazendo depois a subida à serra a pé.
Estávamos em plena época da vindima, mas pensei que naquela zona já não houvesse uvas por vindimar, mas enganei-me. Logo na Palhona me apercebi que poderia ter sorte e conseguir alguns cenários fotográficos com que não estava a contar.
Independentemente da vindimas, o cenário visto do alto da serra é quase divino, beneficiado pela luz mágica de final de tarde. Apesar da caminhada se ter iniciado logo depois de almoço foi tão interessante que a noite caiu quando ainda me encontrava no ponto mais distante da serra, perto de uma zona chamada Serra Tinta, tendo que fazer o percurso de regresso já de noite.
O rio Tua corre a pouca distância, logo depois da aldeia do Vieiro, traçando uma fronteira natural entre os concelhos de Vila Flor e Mirandela. Conheço cada monte, cada caminho, no concelho de Vila Flor e percorrer com o olhar o Cabeço, o Faro, descer ao Vilarinho e regressar ao Vieiro trás-me à memória, caminhadas já distantes e cores de muitas estações. Pelo contrário, do lado de lá do Tua, praticamente tudo é desconhecido. À exceção de algumas visitas a Abreiro, Navalho e Barcel, o desconhecido atrai-me e sinto muita vontade de percorrer o horizonte até onde a vista chega, ao alto da serra dos Passos a mais de 900 metros de altitude.
Olhando para o lado voltado a sul, o cenário também costuma ser magnífico. Digo costuma porque praticamente toda a área que se avista ardeu no verão passado. As chamas consumiram tudo desde Samões, vale do Pelão, vale da Cabreira, Folgares, perdendo-se lá para a aldeia escondida de Pereiros, no concelho de Carrazeda de Ansiães. Doí o coração. É a zona mais recôndita do concelho, mas a mais tranquila, aquela onde os regatos ainda percorrem áreas onde o homem poucas marcas deixou e onde só passa quem tem mesmo uma forte razão para por ali passar. Grandes caminhadas (e cansativas) já fiz naqueles vales! E que triste me pareceu agora o vale das Mós!
Depois de "sentir" tudo o que se avista do alto da Sapinha (primeiro dos 3 cumes a percorrer) parti para a segunda etapa. Foi então que encontrei um rancho de vindimadores em plena vindima. Ao contrário dos podadores que ali encontrei em janeiro de 2013 que não apreciaram ser fotografados, os vindimadores não se sentiram incomodados e pude fazer algumas fotografias.
Entusiasmei-me e dei comigo a fotografar a preto e branco, tentando captar algo mais do que as cores, que já por si eram fantásticas. Não quis perturbar os trabalhos e segui o meu caminho em direção ao segundo cume, o marco geodésico de Freixiel (618 metros de altitude). Na caminhada que fizemos em fevereiro tínhamos como objetivo alcançar este marco geodésico, mas, por não haver um acesso marcado, acabámos por passar ao lado sem o encontrarmos. Ele é visível de longas distâncias, mas depois de estarmos perto, não o vemos. Desta vez consegui alcança-lo sem grande dificuldade.
Em redor do marco geodésico está sinalizada a existência de um castro. São visíveis algumas paredes, mas parecem-me muito recentes para serem atribuídas à idade do ferro.
Atingido o segundo pico regressei ao caminho voltando algumas centenas de metros para trás. Foi mais seguro do que seguir em corta-mato em direção ao terceiro. Não é fácil andar pelo meio das estevas e das carquejas, elas rasgam qualquer tecido e penetram na carne, se não tivermos cuidado.
Já na segurança do caminho passa-se junto ao retransmissor de televisão. Servia as povoações de Freixiel de Vieiro, mas não sei se ainda se encontra em atividade. Há também uma antena de rede wireless, mas o sinal é muito fraco. Consegui colocar algumas fotografias no Facebook! Continuei pelo caminho passando pela Fraga Amarela até encontrar um antena gigantesca da TMN. Esse local chama-se Feiteira, foi o terceiro pico da minha caminhada e o meu destino final. Curiosamente algumas aves fizeram ninho no alto da enorme antena! Seriam corvos, águias ou falcões? Gostaria de saber.
Posicionei-me no ponto mais elevado do monte e registei as coordenadas com a ajuda do GPS. Precisava das coordenadas para conseguir incluir este lugar num roteiro de locais a visitar no âmbito da prática do Geocaching.
E foi quando me encontrava neste local e fui surpreendido com a luz quente do sol em despedida. A constatação do fim do dia não me fez acelerar o passo, enfeitiçou-me continuei a tentar captar a magia da luz que fugia deixando o horizonte com tons rosa muito subtis.
Só quando já não via nada para fotografar, me convenci de que tinha que regressar. Felizmente bastava-me seguir o caminho inverso, sem qualquer possibilidade de me perder.
A certa altura, pareceu-me ver uma sombra junto dos meus pés. Disparei o flash e consegui captar uma pequena cobra que fugiu assustada (tanto quanto eu fiquei).
Depois desta minha caminhada, já outras pessoas visitaram o marco geodésico e a Feiteira, graças às minhas coordenadas.
Foi a quarta ou quinta vez que percorri aquela serra e gostei como se fosse a primeira. A natureza está sempre a surpreender-nos e caminhar sem relógio é das coisas mais "saborosas" que se podem fazer na vida.
No início de outubro de 2013 fiz uma caminhada à serra de Vieiro, com o objetivo de estudar o terreno para aí colocar uma pequena brincadeira do passatempo Geocaching. Não pensava demorar muito porque fui de carro até perto das ruínas da capela de São Domingos, fazendo depois a subida à serra a pé.
Estávamos em plena época da vindima, mas pensei que naquela zona já não houvesse uvas por vindimar, mas enganei-me. Logo na Palhona me apercebi que poderia ter sorte e conseguir alguns cenários fotográficos com que não estava a contar.
Independentemente da vindimas, o cenário visto do alto da serra é quase divino, beneficiado pela luz mágica de final de tarde. Apesar da caminhada se ter iniciado logo depois de almoço foi tão interessante que a noite caiu quando ainda me encontrava no ponto mais distante da serra, perto de uma zona chamada Serra Tinta, tendo que fazer o percurso de regresso já de noite.
O rio Tua corre a pouca distância, logo depois da aldeia do Vieiro, traçando uma fronteira natural entre os concelhos de Vila Flor e Mirandela. Conheço cada monte, cada caminho, no concelho de Vila Flor e percorrer com o olhar o Cabeço, o Faro, descer ao Vilarinho e regressar ao Vieiro trás-me à memória, caminhadas já distantes e cores de muitas estações. Pelo contrário, do lado de lá do Tua, praticamente tudo é desconhecido. À exceção de algumas visitas a Abreiro, Navalho e Barcel, o desconhecido atrai-me e sinto muita vontade de percorrer o horizonte até onde a vista chega, ao alto da serra dos Passos a mais de 900 metros de altitude.
Olhando para o lado voltado a sul, o cenário também costuma ser magnífico. Digo costuma porque praticamente toda a área que se avista ardeu no verão passado. As chamas consumiram tudo desde Samões, vale do Pelão, vale da Cabreira, Folgares, perdendo-se lá para a aldeia escondida de Pereiros, no concelho de Carrazeda de Ansiães. Doí o coração. É a zona mais recôndita do concelho, mas a mais tranquila, aquela onde os regatos ainda percorrem áreas onde o homem poucas marcas deixou e onde só passa quem tem mesmo uma forte razão para por ali passar. Grandes caminhadas (e cansativas) já fiz naqueles vales! E que triste me pareceu agora o vale das Mós!
Depois de "sentir" tudo o que se avista do alto da Sapinha (primeiro dos 3 cumes a percorrer) parti para a segunda etapa. Foi então que encontrei um rancho de vindimadores em plena vindima. Ao contrário dos podadores que ali encontrei em janeiro de 2013 que não apreciaram ser fotografados, os vindimadores não se sentiram incomodados e pude fazer algumas fotografias.
Entusiasmei-me e dei comigo a fotografar a preto e branco, tentando captar algo mais do que as cores, que já por si eram fantásticas. Não quis perturbar os trabalhos e segui o meu caminho em direção ao segundo cume, o marco geodésico de Freixiel (618 metros de altitude). Na caminhada que fizemos em fevereiro tínhamos como objetivo alcançar este marco geodésico, mas, por não haver um acesso marcado, acabámos por passar ao lado sem o encontrarmos. Ele é visível de longas distâncias, mas depois de estarmos perto, não o vemos. Desta vez consegui alcança-lo sem grande dificuldade.
Em redor do marco geodésico está sinalizada a existência de um castro. São visíveis algumas paredes, mas parecem-me muito recentes para serem atribuídas à idade do ferro.
Atingido o segundo pico regressei ao caminho voltando algumas centenas de metros para trás. Foi mais seguro do que seguir em corta-mato em direção ao terceiro. Não é fácil andar pelo meio das estevas e das carquejas, elas rasgam qualquer tecido e penetram na carne, se não tivermos cuidado.
Já na segurança do caminho passa-se junto ao retransmissor de televisão. Servia as povoações de Freixiel de Vieiro, mas não sei se ainda se encontra em atividade. Há também uma antena de rede wireless, mas o sinal é muito fraco. Consegui colocar algumas fotografias no Facebook! Continuei pelo caminho passando pela Fraga Amarela até encontrar um antena gigantesca da TMN. Esse local chama-se Feiteira, foi o terceiro pico da minha caminhada e o meu destino final. Curiosamente algumas aves fizeram ninho no alto da enorme antena! Seriam corvos, águias ou falcões? Gostaria de saber.
Posicionei-me no ponto mais elevado do monte e registei as coordenadas com a ajuda do GPS. Precisava das coordenadas para conseguir incluir este lugar num roteiro de locais a visitar no âmbito da prática do Geocaching.
E foi quando me encontrava neste local e fui surpreendido com a luz quente do sol em despedida. A constatação do fim do dia não me fez acelerar o passo, enfeitiçou-me continuei a tentar captar a magia da luz que fugia deixando o horizonte com tons rosa muito subtis.
Só quando já não via nada para fotografar, me convenci de que tinha que regressar. Felizmente bastava-me seguir o caminho inverso, sem qualquer possibilidade de me perder.
A certa altura, pareceu-me ver uma sombra junto dos meus pés. Disparei o flash e consegui captar uma pequena cobra que fugiu assustada (tanto quanto eu fiquei).
Depois desta minha caminhada, já outras pessoas visitaram o marco geodésico e a Feiteira, graças às minhas coordenadas.
Foi a quarta ou quinta vez que percorri aquela serra e gostei como se fosse a primeira. A natureza está sempre a surpreender-nos e caminhar sem relógio é das coisas mais "saborosas" que se podem fazer na vida.
22 dezembro 2013
Êxodo
- Sabes a última? O Antonho Botija, a esta hora, já lá está! Mandou-o ir o João da Fonte.
- Isso é que é vida, hein?
- Não fica cá ninguém. Espanha, Inglamanha, França, Canadá.
A mulher chorou e os filhos desconfiaram.
Disse que ia à feira dos três, a Mirandela. Mas não voltou.
Na esquina, um tipo manco, bigode de agulha, esperou-lhe os dez contos.
- Garantido?
- Garantidinho. Não se esqueça do homem com lenço vermelho no pulso!
Faça o que lhe disse, quando avistar o camião da carne!
Lá longe, o Antonho há-de aprender a fazer o caldo e duas batatas com borrego. Dormir, por favor, de meias com o Augusto, na mesma cama de pau, armada rente ao fogão.
As horas extraordinárias engordam-lhe os cheques dilatados os câmbios.
A mulher parte para ele. Os filhos andam a estuda e pouco dão, tirante a Alice que tem mais, caco.
- Mas estudar para quê, mulher? Não vês que ser-se funcionária para ganhar dois réis de mel coado não compensa?
- Não é bem assim. A posição é oitra.
- Não, não; não vou fintado em lonas.
No seu pais, na lavoura - palavra que não cresceu.
Ali, numa fábrica de sobressalentes para veículos.
- Um carro com F grande?
- Traz um espadinha, o tipo!
- Vês, há dos anos que foi e olha o que tem!
- Bem haja ele, que bem poupado é.
- Só lá boto mais cinco anos de contrata! Quero vir morrer às palhas em que me pariu a minha velha, Deus lhe perdoe!
Oxalá que sim.
Quando tal for, o carro aos franceses.
E compra um arado!
Artigo de José Nascimento Fonseca, nascido no Nabo em 22-12-1940.
Publicado no jornal Ènié, a 22-10-1975
Do mesmo autor:
- Isso é que é vida, hein?
- Não fica cá ninguém. Espanha, Inglamanha, França, Canadá.
A mulher chorou e os filhos desconfiaram.
Disse que ia à feira dos três, a Mirandela. Mas não voltou.
Na esquina, um tipo manco, bigode de agulha, esperou-lhe os dez contos.
- Garantido?
- Garantidinho. Não se esqueça do homem com lenço vermelho no pulso!
Faça o que lhe disse, quando avistar o camião da carne!
Lá longe, o Antonho há-de aprender a fazer o caldo e duas batatas com borrego. Dormir, por favor, de meias com o Augusto, na mesma cama de pau, armada rente ao fogão.
As horas extraordinárias engordam-lhe os cheques dilatados os câmbios.
A mulher parte para ele. Os filhos andam a estuda e pouco dão, tirante a Alice que tem mais, caco.
- Mas estudar para quê, mulher? Não vês que ser-se funcionária para ganhar dois réis de mel coado não compensa?
- Não é bem assim. A posição é oitra.
- Não, não; não vou fintado em lonas.
No seu pais, na lavoura - palavra que não cresceu.
Ali, numa fábrica de sobressalentes para veículos.
- Um carro com F grande?
- Traz um espadinha, o tipo!
- Vês, há dos anos que foi e olha o que tem!
- Bem haja ele, que bem poupado é.
- Só lá boto mais cinco anos de contrata! Quero vir morrer às palhas em que me pariu a minha velha, Deus lhe perdoe!
Oxalá que sim.
Quando tal for, o carro aos franceses.
E compra um arado!
Artigo de José Nascimento Fonseca, nascido no Nabo em 22-12-1940.
Publicado no jornal Ènié, a 22-10-1975
Do mesmo autor:
- Bênção (Poesia, 1961)
- Bênção (Poesia, 1961)
- Depois aquele homem vem para a rua... (Prosa, 1975)
- Salvé, Vila Flor (Poesia, 1960)
- A tua trança (Poesia, 1962)
- Fragas (Poesia, 1975)
- Crianças de hoje (Poesia, 1961)
- Chuva (Poesia, 1961)
- Conto - Aninhas (Prosa, 1961)
- Frio (Poesia, 1975)
- Esfinge (Poesia, 1969)
- Tradição do linho (Prosa, 1967)
- Pão sem côdea (Prosa, 1975)
- Só tu (Poesia, 1970)
- Retratos a Vila Flor - VIII Santa Comba da Vilariça (Prosa, 1971)
17 dezembro 2013
The Lost Village (Gavião)
A segunda caminhada da temporada aconteceu em setembro e e teve como destino a abandonada aldeia do Gavião no termo de Seixo de Manhoses.
Não seguiu o norma, tendo como destino um marco geodésico, por o mais próximo do Gavião é o vértice geodésico da Cheira, por mim visitado pela última vez em julho de 2012. O objetivo foi mesmo caminhar e aproveitar a viagem para procurar uma caixinha (Geocache) escondida algures entre as ruínas das casas.
O tempo estava espetacular, com um sol brilhante e nos campos ainda abundavam os frutos, em especial as uvas que se dão muito bem nas encostas do ribeiro grande. è mesmo uma doas zonas onde se produzem alguns dos melhores vinhos do concelho.
A primeira paragem do percurso aconteceu na Fonte do Olmo, junto ao Estádio Municipal. O espaço não estava propriamente apresentável, tal como o não está agora, porque ainda lá estive há poucos dias. Estes locais com algum interesse para serem visitados deveriam ser mais cuidados. É assim que se constrói uma imagem e se podem atrair pessoas.
No percurso ao lugar do Arco já avistámos muitas videiras carregadas de uvas. Este ano não foi um mau ano, tal como pude comprovar mais tarde participando na vindima na quinta Valtorinho.
A pequena aldeia do Arco parecia adormecida. Estendais de figos secavam ao sol. Aproveitámos para nos refrescar-mos com a água do fontanário da aldeia. Apesar de ter uma placa a indicar que é Imprópria para consumo, alguns habitantes insistem em bebe-la e a nós também não nos fez mal. Pareceu-me bem saborosa e fresquinha.
Nas hortas do fundo da aldeia ainda havia abóboras, nada mais.
O percurso do Arco ao Gavião é bastante interessante, com uma vista excelente para o Nabo e Vale da Vilariça e com vegetação rica em medronheiros e outras espécies vegetais que não são muito frequentes. Há mais do que uma alternativa de percurso; arriscarei a dizer que há pelo menos três, mais ou menos com o mesmo grau de dificuldade e a chegarem todas ao Gavião. Como as ruínas se veem ao longe, recortadas no horizonte, não há perigo de engano no caminho.
A sensação quando se chega ao Gavião é a de se estar numa aldeia fantasma, num cenário de um filme. A tristeza das paredes caídas é facilmente ultrapassada quando se olha a paisagem. As encostas estão, em grande parte, aproveitadas para a agricultura. Crescem aqui com grade facilidade as oliveiras, as videiras e as amendoeiras. E produzem também com abundância e qualidade. Os campos não sofreram o mesmo destino da aldeia e apresentam-se bastante cuidados. Direi até que com carinho, que se manifesta no cuidado na manutenção dos muros, na orientação e poda das árvores, na limpeza das silvas ou na abertura de novos e melhores acessos.
A procura da dita caixa, não muito maior do que um maço de tabaco, exige a utilização de um aparelho com GPS. Com alguma insistência e mais alguma atenção às pistas, ela acabou por aparecer, onde realmente deveríamos ter começado a procurar.
Ainda tentámos explorar alguns recantos, por entre as ruínas, mas as silvas vão tomando conta do espaço, servindo de consolo as amoras negras que ostentavam de forma quase provocadora.
Procurámos um bom miradouro para o vale. A barragem do Nabo/Ribeiro Grande é bem visível perto de Godeiros, onde está a famosa Pala do Conde.
Começámos o percurso de regresso. Dado o adiantado da hora não foi possível regressar a Vila Flor a pé, um carro de apoio foi buscar-nos à aldeia de Seixo de Manhoses.
O percurso entre o Gavião e o Seixo faz-se muito bem a pé, pode até ser feito de carro ligeiro, com algum cuidado. Há poucos anos falou-se que foi arranjado para poderem ser gravadas algumas cenas da telenovela "A Outra" no Gavião, mas a produção desistiu. Tinha sido um momento único para a Lost Village e muito agradaria às pessoas que ainda se recordam do tempo em que ali viveram.
O percurso feito a pé, com passagem pela Fonte do Olmo, Arco, Gavião e final em Seixo de Manhoses, perfaz 7,5 km, sempre por caminhos (e um pouco por estrada). É um bonito passeio que pode continuar pela barragem do Peneireiro e regresso à Vila, por isso não admira que possa ser repetido no futuro.
Não seguiu o norma, tendo como destino um marco geodésico, por o mais próximo do Gavião é o vértice geodésico da Cheira, por mim visitado pela última vez em julho de 2012. O objetivo foi mesmo caminhar e aproveitar a viagem para procurar uma caixinha (Geocache) escondida algures entre as ruínas das casas.
O tempo estava espetacular, com um sol brilhante e nos campos ainda abundavam os frutos, em especial as uvas que se dão muito bem nas encostas do ribeiro grande. è mesmo uma doas zonas onde se produzem alguns dos melhores vinhos do concelho.
A primeira paragem do percurso aconteceu na Fonte do Olmo, junto ao Estádio Municipal. O espaço não estava propriamente apresentável, tal como o não está agora, porque ainda lá estive há poucos dias. Estes locais com algum interesse para serem visitados deveriam ser mais cuidados. É assim que se constrói uma imagem e se podem atrair pessoas.
No percurso ao lugar do Arco já avistámos muitas videiras carregadas de uvas. Este ano não foi um mau ano, tal como pude comprovar mais tarde participando na vindima na quinta Valtorinho.
A pequena aldeia do Arco parecia adormecida. Estendais de figos secavam ao sol. Aproveitámos para nos refrescar-mos com a água do fontanário da aldeia. Apesar de ter uma placa a indicar que é Imprópria para consumo, alguns habitantes insistem em bebe-la e a nós também não nos fez mal. Pareceu-me bem saborosa e fresquinha.
Nas hortas do fundo da aldeia ainda havia abóboras, nada mais.
O percurso do Arco ao Gavião é bastante interessante, com uma vista excelente para o Nabo e Vale da Vilariça e com vegetação rica em medronheiros e outras espécies vegetais que não são muito frequentes. Há mais do que uma alternativa de percurso; arriscarei a dizer que há pelo menos três, mais ou menos com o mesmo grau de dificuldade e a chegarem todas ao Gavião. Como as ruínas se veem ao longe, recortadas no horizonte, não há perigo de engano no caminho.
A sensação quando se chega ao Gavião é a de se estar numa aldeia fantasma, num cenário de um filme. A tristeza das paredes caídas é facilmente ultrapassada quando se olha a paisagem. As encostas estão, em grande parte, aproveitadas para a agricultura. Crescem aqui com grade facilidade as oliveiras, as videiras e as amendoeiras. E produzem também com abundância e qualidade. Os campos não sofreram o mesmo destino da aldeia e apresentam-se bastante cuidados. Direi até que com carinho, que se manifesta no cuidado na manutenção dos muros, na orientação e poda das árvores, na limpeza das silvas ou na abertura de novos e melhores acessos.
A procura da dita caixa, não muito maior do que um maço de tabaco, exige a utilização de um aparelho com GPS. Com alguma insistência e mais alguma atenção às pistas, ela acabou por aparecer, onde realmente deveríamos ter começado a procurar.
Ainda tentámos explorar alguns recantos, por entre as ruínas, mas as silvas vão tomando conta do espaço, servindo de consolo as amoras negras que ostentavam de forma quase provocadora.
Procurámos um bom miradouro para o vale. A barragem do Nabo/Ribeiro Grande é bem visível perto de Godeiros, onde está a famosa Pala do Conde.
Começámos o percurso de regresso. Dado o adiantado da hora não foi possível regressar a Vila Flor a pé, um carro de apoio foi buscar-nos à aldeia de Seixo de Manhoses.
O percurso entre o Gavião e o Seixo faz-se muito bem a pé, pode até ser feito de carro ligeiro, com algum cuidado. Há poucos anos falou-se que foi arranjado para poderem ser gravadas algumas cenas da telenovela "A Outra" no Gavião, mas a produção desistiu. Tinha sido um momento único para a Lost Village e muito agradaria às pessoas que ainda se recordam do tempo em que ali viveram.
O percurso feito a pé, com passagem pela Fonte do Olmo, Arco, Gavião e final em Seixo de Manhoses, perfaz 7,5 km, sempre por caminhos (e um pouco por estrada). É um bonito passeio que pode continuar pela barragem do Peneireiro e regresso à Vila, por isso não admira que possa ser repetido no futuro.
03 dezembro 2013
Vila Flor - Cabeço
Quase um mês sem escrever neste blogue pode dar a ideia que emigrei. Ainda não aconteceu, mas não significa que não tenha pensado nisso. Entretanto, e como a terra não para, não podemos nós ficar parados, sob pena de cairmos na monotonia dos dias iguais e cinzentos.
As caminhadas têm-se realizado, a menor ritmo, mas sempre entusiasmantes e cheias de cores diferentes consoante a estação do ano.
A 15 de setembro, ainda com os dias de calor bem presentes, e talvez para ganhar coragem para mais um ano de trabalho, a caminhada foi ao Santuário de Nossa Senhora da Assunção, em Vilas Boas.
O percurso foi o mesmo já tantas vezes seguido. A estrada pode ser o caminho mais rápido e reto, para quem se dirige ao Santuário, mas eu gosto de passar pela aldeia e depois subir o escadório, mais de 400 escadas, até chegar ao cume do cabeço.
O caminho que seguimos foi: Vila Flor - Barracão - Cooperativa de Olivicultores - Pedreira de Freixiel - Quinta do Reboredo - Vilas Boas - Santuário. Este percurso soma perto de 9 km.
No santuário celebrava-se Santa Eufêmia, com bastantes pessoas à volta da capela, na eucaristia ou mesmo a comerem à sombra das muitas árvores existentes.
De regresso a casa ainda pudemos ver uma área ardida junto ao santuário, onde ocorreu um início de incêndio no dia anterior.
As caminhadas têm-se realizado, a menor ritmo, mas sempre entusiasmantes e cheias de cores diferentes consoante a estação do ano.
A 15 de setembro, ainda com os dias de calor bem presentes, e talvez para ganhar coragem para mais um ano de trabalho, a caminhada foi ao Santuário de Nossa Senhora da Assunção, em Vilas Boas.
O percurso foi o mesmo já tantas vezes seguido. A estrada pode ser o caminho mais rápido e reto, para quem se dirige ao Santuário, mas eu gosto de passar pela aldeia e depois subir o escadório, mais de 400 escadas, até chegar ao cume do cabeço.
O caminho que seguimos foi: Vila Flor - Barracão - Cooperativa de Olivicultores - Pedreira de Freixiel - Quinta do Reboredo - Vilas Boas - Santuário. Este percurso soma perto de 9 km.
No santuário celebrava-se Santa Eufêmia, com bastantes pessoas à volta da capela, na eucaristia ou mesmo a comerem à sombra das muitas árvores existentes.
De regresso a casa ainda pudemos ver uma área ardida junto ao santuário, onde ocorreu um início de incêndio no dia anterior.
07 novembro 2013
Em louvor da Terra e da Gente Transmontanas
Se o poeta João de Sá fosse vivo completaria hoje 85 anos. Apenas o conheci nos últimos anos de vida, depois de conhecer a sua escrita, que me fascinou e me fez gostar de forma quase incompreensível de Vila Flor.
O poeta vagueia algures entre o Facho e o Frade acompanhando com o olhar as pombas da igreja e suspirando pelo aroma da glicínia de sua casa.
Publico hoje um poema de 1962, poema com que João de Sá alcançou o 1.º Prémio nos Jogos Florais Transmontanos do Clube de Vila Real.
Esta ligação à terra, à serra, aos horizontes largos que a vista alcança, acompanharam-no toda a vida. Nos seus últimos poemas, 50 anos mais tarde, a serra, continua presente, com a mesma força, com tonalidades várias mas sempre com sentimentos intensos.
E, no dia de hoje, talvez ganhe coragem para subir à serra. É apaziguador admirar as cores das videiras pintadas de outono e é uma justa homenagem declamar baixinho o poema cravado na rocha no alto da serra.
Granito e altura!
Firmeza e ânsia de se ir mais além,
Meta que se desloca e não se alcança
E mais alinda o gesto da procura...
Vento em correria,
Parecendo ultrapassar o céu e a terra
E o gémeo de Van Gogh
Vertendo novas cores por sobre a serra.
Se uma canção perturba
A solidão do monte, de tão pura
E sentida ergue-se tanto,
Que o azul transborda no cristal da taça
E tomba sobre as notas desse canto.
Manhãs de neve, em que a paisagem
É um bailado fantástico de cisnes!
Silêncios brancos sobre velha fonte.
Dádiva do mistério ao nosso sonho
Perdido na distância do horizonte...
Tudo se passa muito além de nós
Mas tudo é simples, puro, sem tamanho:
Um perfume indivisível, uma flor,
Um vôo de ave, a fimbria dum rebanho,
Uma canção, dorida, de pastor...
Sentimos ânsias de abrir com jeito
O coração
E introduzir nele uma semente.
Duma matéria embora bem diferente
Casa-se com a terra o nosso peito!
Olhos volvidos para além do mar...
Lábios de encantamento primitivo...
O ar salgado não os fez gretar,
Sabem a frutos e a grãos de trigo.
Inatingível, no azul da altura,
Quanto mais perto dela mais distantes...
O sagrado padece da lonjura.
Por isso temos que nos ausentar
Se quisermos que ela nos pertença
E nos caiba, inteira, no olhar!
A tua gente tem a alma de granito!
Rasga as mãos, a sorrir;
Sucumbe, sem um grito:
Lábios que tem sede e chamam pelo sol!
Olhos de abismo
- Duas aves, pousadas sobre a alma
A sondar-lhe as lonjuras...
Olhos de espaço, onde se projecta
O mistério sagrado das alturas.
Perfis morenos
Que o escopro do vento alevantou
Num recanto do espaço.
E as raízes vão beber mais fundo
A seiva que lhes há-de erguer o braço!
Homem de ontem. Homem de amanhã.
Perto ou longe, sempre o mesmo homem.
Uma fé viva onde ele estiver presente,
Pois ele é como que um prolongamento
Da vastidão da serra-mãe ausente!
Homem da serra, afeito a ver subir
As águias e os milhafres
Que depois se diluem na lonjura.
Homem do monte - símbolo da terra,
Mas ânsia estranha de maior altura!
Homem do longe!
Há um rito de amor
No gesto com que lanças sobre a terra
Uma simples semente.
E o milagre é sempre uma flor,
Um diadema a ornamentar-lhe o ventre.
Volúpia de criar!
Fechar as mão e abri-las, incendidas,
Num gesto natural,
Sobre a palpitação de novas vidas.
Conceber, é dar forma a alguma coisa.
E toda a criação exige esforço
E todo o esforço é dor!
Mas, sem o sofrimento a retalhar o peito,
O que seria o amor?
Não basta desbravar a terra,
É preciso regá-la com suor,
Encaminhar os caules que tombaram,
Sentir bater o coração da flor...
Em cada pedra há um epitáfio e um berço.
Só tem valor a luta em que não há quebranto.
A serra continua a desventrar-se em pão,
Muda de espanto!
É o olhar que exprime
Os mais secretos sentimentos da alma:
As nódoas recônditas do mal,
As luminosas pétalas do bem.
Trás-os-Montes - olhar de Portugal!
TRANSMONTANO (João de Sá)
O poeta vagueia algures entre o Facho e o Frade acompanhando com o olhar as pombas da igreja e suspirando pelo aroma da glicínia de sua casa.
Publico hoje um poema de 1962, poema com que João de Sá alcançou o 1.º Prémio nos Jogos Florais Transmontanos do Clube de Vila Real.
Esta ligação à terra, à serra, aos horizontes largos que a vista alcança, acompanharam-no toda a vida. Nos seus últimos poemas, 50 anos mais tarde, a serra, continua presente, com a mesma força, com tonalidades várias mas sempre com sentimentos intensos.
E, no dia de hoje, talvez ganhe coragem para subir à serra. É apaziguador admirar as cores das videiras pintadas de outono e é uma justa homenagem declamar baixinho o poema cravado na rocha no alto da serra.
Granito e altura!
Firmeza e ânsia de se ir mais além,
Meta que se desloca e não se alcança
E mais alinda o gesto da procura...
Vento em correria,
Parecendo ultrapassar o céu e a terra
E o gémeo de Van Gogh
Vertendo novas cores por sobre a serra.
Se uma canção perturba
A solidão do monte, de tão pura
E sentida ergue-se tanto,
Que o azul transborda no cristal da taça
E tomba sobre as notas desse canto.
Manhãs de neve, em que a paisagem
É um bailado fantástico de cisnes!
Silêncios brancos sobre velha fonte.
Dádiva do mistério ao nosso sonho
Perdido na distância do horizonte...
Tudo se passa muito além de nós
Mas tudo é simples, puro, sem tamanho:
Um perfume indivisível, uma flor,
Um vôo de ave, a fimbria dum rebanho,
Uma canção, dorida, de pastor...
Sentimos ânsias de abrir com jeito
O coração
E introduzir nele uma semente.
Duma matéria embora bem diferente
Casa-se com a terra o nosso peito!
Olhos volvidos para além do mar...
Lábios de encantamento primitivo...
O ar salgado não os fez gretar,
Sabem a frutos e a grãos de trigo.
Inatingível, no azul da altura,
Quanto mais perto dela mais distantes...
O sagrado padece da lonjura.
Por isso temos que nos ausentar
Se quisermos que ela nos pertença
E nos caiba, inteira, no olhar!
A tua gente tem a alma de granito!
Rasga as mãos, a sorrir;
Sucumbe, sem um grito:
Lábios que tem sede e chamam pelo sol!
Olhos de abismo
- Duas aves, pousadas sobre a alma
A sondar-lhe as lonjuras...
Olhos de espaço, onde se projecta
O mistério sagrado das alturas.
Perfis morenos
Que o escopro do vento alevantou
Num recanto do espaço.
E as raízes vão beber mais fundo
A seiva que lhes há-de erguer o braço!
Homem de ontem. Homem de amanhã.
Perto ou longe, sempre o mesmo homem.
Uma fé viva onde ele estiver presente,
Pois ele é como que um prolongamento
Da vastidão da serra-mãe ausente!
Homem da serra, afeito a ver subir
As águias e os milhafres
Que depois se diluem na lonjura.
Homem do monte - símbolo da terra,
Mas ânsia estranha de maior altura!
Homem do longe!
Há um rito de amor
No gesto com que lanças sobre a terra
Uma simples semente.
E o milagre é sempre uma flor,
Um diadema a ornamentar-lhe o ventre.
Volúpia de criar!
Fechar as mão e abri-las, incendidas,
Num gesto natural,
Sobre a palpitação de novas vidas.
Conceber, é dar forma a alguma coisa.
E toda a criação exige esforço
E todo o esforço é dor!
Mas, sem o sofrimento a retalhar o peito,
O que seria o amor?
Não basta desbravar a terra,
É preciso regá-la com suor,
Encaminhar os caules que tombaram,
Sentir bater o coração da flor...
Em cada pedra há um epitáfio e um berço.
Só tem valor a luta em que não há quebranto.
A serra continua a desventrar-se em pão,
Muda de espanto!
É o olhar que exprime
Os mais secretos sentimentos da alma:
As nódoas recônditas do mal,
As luminosas pétalas do bem.
Trás-os-Montes - olhar de Portugal!
TRANSMONTANO (João de Sá)
19 outubro 2013
Vila Flor, concelho - no Facebook
A Página Vila Flor, concelho atingiu no dia 29de Setembro 1000 gostos! Criada a 26 de Maio de 2012 com o intuito de chamar as pessoas a visitarem o Blogue À Descoberta de Vila Flor, que nasceu em 2006, foi-se assumindo como uma plataforma alternativa de promoção do concelho, como montra, como centro de distribuição de notícias e local de encontro.
A plataforma Facebook tem as suas vantagens, como a facilidade de utilização e democratização e os seus defeitos, como a rapidez com que a informação fica esquecida ou a falta de respeito pelos direitos de autor, mas leva a informação onde outras plataformas não chegavam e em segundos.
Aos poucos a Página foi assumindo "personalidade" própria, autónoma do Blogue, no entanto, como criador e administrador dos dois, não os consigo ver separados. O Blogue é a base, o repositório das imagens e do texto, um baú onde se guardam "tesouros" descobertos por todo o concelho, segredos e emoções sentidas a desvendar esses segredos. A página no Facebook são pinceladas rápidas, flashes de beleza e algumas notícias tristes. O Blogue é um caminho pessoal, na página são publicadas contribuições de toda a gente, principalmente fotografias, que podem ser comentadas e partilhadas contribuindo, em rede, para a divulgação do concelho.
Os GOSTOS não são só bons para o ego de quem administra a página são também um indicador de que a informação chega mais longe, tornando-se mais eficiente e uma melhor montra. As fotografias são organizadas em Álbuns, tendo por base as diferentes freguesias e respetivas anexas. Desta forma é possível encontrá-las facilmente e divulgá-las repetidas vezes.
Agradeço a todos os que vistam a página e partilham os seus conteúdos. Está aberta à contribuição de toda a gente, desde que as contribuições se destinem a divulgar o concelho, as atividades que aqui têm lugar, publicitar serviços ou produtos que aqui são produzidos.
Vamos continuar a encontrar-nos todos os dias.
Endereço da página no Facebook
https://www.facebook.com/vilaflor.pt
Nota: Não é necessário ter uma conta no Facebook para ver a página.
A plataforma Facebook tem as suas vantagens, como a facilidade de utilização e democratização e os seus defeitos, como a rapidez com que a informação fica esquecida ou a falta de respeito pelos direitos de autor, mas leva a informação onde outras plataformas não chegavam e em segundos.
Aos poucos a Página foi assumindo "personalidade" própria, autónoma do Blogue, no entanto, como criador e administrador dos dois, não os consigo ver separados. O Blogue é a base, o repositório das imagens e do texto, um baú onde se guardam "tesouros" descobertos por todo o concelho, segredos e emoções sentidas a desvendar esses segredos. A página no Facebook são pinceladas rápidas, flashes de beleza e algumas notícias tristes. O Blogue é um caminho pessoal, na página são publicadas contribuições de toda a gente, principalmente fotografias, que podem ser comentadas e partilhadas contribuindo, em rede, para a divulgação do concelho.
Os GOSTOS não são só bons para o ego de quem administra a página são também um indicador de que a informação chega mais longe, tornando-se mais eficiente e uma melhor montra. As fotografias são organizadas em Álbuns, tendo por base as diferentes freguesias e respetivas anexas. Desta forma é possível encontrá-las facilmente e divulgá-las repetidas vezes.
Agradeço a todos os que vistam a página e partilham os seus conteúdos. Está aberta à contribuição de toda a gente, desde que as contribuições se destinem a divulgar o concelho, as atividades que aqui têm lugar, publicitar serviços ou produtos que aqui são produzidos.
Vamos continuar a encontrar-nos todos os dias.
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