É dorido o canto
estrangulado na garganta da tarde
acentuando a irrealidade do real.
Nascem sobressaltos
dos estalidos das madeiras velhas.
Debruçamo-nos no poço
e só a nós ouvimos,
do sorriso das guardas
ao soluço dos fundos.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Pôr do sol - Facho/Vila Flor
04 junho 2014
29 maio 2014
e de repente é noite (XXVI)
Ficar em paz com as coisas.
Redescobrir-me no rumorejar
branco das amendoeiras.
Inscrever na cortiça dos anos
a leveza das primeiras verdades.
Atingir a serenidade
das pedras aguçadas
pelos crepúsculos longos.
Saber que cada cidade
é uma falha humana irreparável
e que esta sede
só a sede a dessedenta.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Flores de amendoeira.
Redescobrir-me no rumorejar
branco das amendoeiras.
Inscrever na cortiça dos anos
a leveza das primeiras verdades.
Atingir a serenidade
das pedras aguçadas
pelos crepúsculos longos.
Saber que cada cidade
é uma falha humana irreparável
e que esta sede
só a sede a dessedenta.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Flores de amendoeira.
23 maio 2014
Vila Flor - Caminhada Solidária
Dia 8 de junho, às 19h30 horas, participe na Caminhada Solidária.
A inscrição reverte na totalidade para a Liga Portuguesa Contra o Cancro - Núcleo Regional do Norte.
Inscrição: 5€, no Centro Cultural de Vila Flor
Oferta de Mochila, T-Shirt e Água.
e de repente é noite (XXV)
Os ventos afinam
os violinos dos choupos
com o diapasão dos rios.
E o mesmo abalo
que emudeceu a floresta
silenciou os seus lábios,
por excesso de claridade
em todo o corpo.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Vila Flor
os violinos dos choupos
com o diapasão dos rios.
E o mesmo abalo
que emudeceu a floresta
silenciou os seus lábios,
por excesso de claridade
em todo o corpo.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Vila Flor
16 maio 2014
e de repente é noite (XXIV)
A charneca de yorkshire aberta
até ao campanário do presbitério.
As nortadas fendendo os muros da herdade.
E a minha esperança que um alto poder
me devolva a sua figura branca
no escuro da cancela. O lenço de seda
flutuando nos pêndulos de luz
dos seus cabelos. A finura dos lábios.
As violetas em redor dos olhos.
Onde estarão, na primavera,
os ventos uivantes no grafismo da neve?
Onde estarei eu de há cinquenta anos
colhendo, até ao fim da noite,
as rosas pressagas do seu jardim
transfigurado em livro?
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Castanheiros em Benlhevai.
até ao campanário do presbitério.
As nortadas fendendo os muros da herdade.
E a minha esperança que um alto poder
me devolva a sua figura branca
no escuro da cancela. O lenço de seda
flutuando nos pêndulos de luz
dos seus cabelos. A finura dos lábios.
As violetas em redor dos olhos.
Onde estarão, na primavera,
os ventos uivantes no grafismo da neve?
Onde estarei eu de há cinquenta anos
colhendo, até ao fim da noite,
as rosas pressagas do seu jardim
transfigurado em livro?
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Castanheiros em Benlhevai.
09 maio 2014
e de repente é noite (XXIII)
Sei que o corredor me levava
ao nicho da imagem
que de luar cristalizado
se fizera.
Ali findavam
meus ardentes périplos
alvorejando, na glicínia,
arcos de invisíveis primaveras.
Era tudo mais distante
que as palavras.
Onde recordo incendeiam-se grutas
diante de quase nada:
um queixume num recesso de tédio;
o aroma, o rumor
de um fruto sobre a terra.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
ao nicho da imagem
que de luar cristalizado
se fizera.
Ali findavam
meus ardentes périplos
alvorejando, na glicínia,
arcos de invisíveis primaveras.
Era tudo mais distante
que as palavras.
Onde recordo incendeiam-se grutas
diante de quase nada:
um queixume num recesso de tédio;
o aroma, o rumor
de um fruto sobre a terra.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
02 maio 2014
e de repente é noite (XXII)
Todos desapareceram.
Já ninguém à porta me recebe,
neste instante de cardos.
Só um cortejo de espectros
se move, lento, nas mais densas trevas.
O olhar mudo das paredes.
Sua estranha forma de gritar o silêncio.
A cal esboroada ainda com vestígios
de tantos olhares mortos.
Minha mágoa nos ombros,
porque pressinto neles um vaguear de mãos
encaminhando-me seguramente
através do velho casarão.
Quero culpar alguém deste vazio,
medir minha revolta com qualquer ira divina,
mas só o vento me responde outras perguntas
que mais queimam e ferem,
de uma distância de nuvens.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Vila Flor
Já ninguém à porta me recebe,
neste instante de cardos.
Só um cortejo de espectros
se move, lento, nas mais densas trevas.
O olhar mudo das paredes.
Sua estranha forma de gritar o silêncio.
A cal esboroada ainda com vestígios
de tantos olhares mortos.
Minha mágoa nos ombros,
porque pressinto neles um vaguear de mãos
encaminhando-me seguramente
através do velho casarão.
Quero culpar alguém deste vazio,
medir minha revolta com qualquer ira divina,
mas só o vento me responde outras perguntas
que mais queimam e ferem,
de uma distância de nuvens.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Vila Flor
Via crucis (02)
Segundo conjunto de fotografias que ilustram a Via Sacra que teve lugar no dia 13 de abril em Vila Flor.
26 abril 2014
e de repente é noite (XXI)
Havia um poço
de água muito fria
e seus perenes avisos
de obscuridade.
Havia uma bica de bronze
onde pousava a boca
sem ter sede,
só por nela teres bebido.
O dia anunciado
nas fendas da janela.
Fragrâncias matutinas
no voo dos primeiros pombos
a branquear o dia.
E um súbito encantamento
em nossos peitos:
um vulcão de sonhos
mais alto que a manhã.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Albufeira do Peneireiro
de água muito fria
e seus perenes avisos
de obscuridade.
Havia uma bica de bronze
onde pousava a boca
sem ter sede,
só por nela teres bebido.
O dia anunciado
nas fendas da janela.
Fragrâncias matutinas
no voo dos primeiros pombos
a branquear o dia.
E um súbito encantamento
em nossos peitos:
um vulcão de sonhos
mais alto que a manhã.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Albufeira do Peneireiro
22 abril 2014
e de repente é noite (XIX)
Em Maio os campos acendiam-se
e o céu, límpido, era mais alto e lento.
A horizonte tornava-se um veleiro
afastando-se num tremular de lenço
em que não cabia nenhuma dor de exílio.
Pela tarde vinham as trovoadas,
seu peito metálico oprimindo
a nossa vigília de medo,
por não reconhecermos a sua voz.
Pouco ou nada sabíamos
do malogro das esperanças
pelos outros sonhadas para nós,
mãos pousadas no vapor das vidraças,
como no extremo de uma comoção enternecida.
E o que se erguia dos novelos de trovões
falava-nos vagamente de uma história antiga
em nada semelhante à vida.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Pôr do sol - Vila Flor
e o céu, límpido, era mais alto e lento.
A horizonte tornava-se um veleiro
afastando-se num tremular de lenço
em que não cabia nenhuma dor de exílio.
Pela tarde vinham as trovoadas,
seu peito metálico oprimindo
a nossa vigília de medo,
por não reconhecermos a sua voz.
Pouco ou nada sabíamos
do malogro das esperanças
pelos outros sonhadas para nós,
mãos pousadas no vapor das vidraças,
como no extremo de uma comoção enternecida.
E o que se erguia dos novelos de trovões
falava-nos vagamente de uma história antiga
em nada semelhante à vida.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Pôr do sol - Vila Flor
19 abril 2014
e de repente é noite (XVIII)
Saber como são breves
as manhãs sem sombras.
Ir do latejo da luz
ao ondear da seara
desenhando cotovias
com o ritmo dos ventos.
Dar uma cor a este canto
de distraída cigarra:
talvez um Junho de cerejas
a escalar o branco do linho.
E um divino poder nos conceda
que aprendamos a arte do sol.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
as manhãs sem sombras.
Ir do latejo da luz
ao ondear da seara
desenhando cotovias
com o ritmo dos ventos.
Dar uma cor a este canto
de distraída cigarra:
talvez um Junho de cerejas
a escalar o branco do linho.
E um divino poder nos conceda
que aprendamos a arte do sol.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
16 abril 2014
e de repente é noite (XV)
A impetuosa deambulação do álcool da escrita atravessando
este apego às pausas nocturnas.
Fumegam as montanhas de tanto tédio expelido
de seus profundos alvéolos
preenchidos com minha ansiedade de toupeira
ante os segredos últimos da terra.
É de noite que as aranhas dos sonhos
segregam mais translúcidas teias
e dúctil é o âmbar das eiras sob as escamas fosforescentes
do luar de Agosto.
Nos solares abandonados, meus herméticos olhos
só repousam no escuro dos corredores
como se descobrissem, de repente,
a substância de que foram feitos.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Pôr do sol - Candoso.
este apego às pausas nocturnas.
Fumegam as montanhas de tanto tédio expelido
de seus profundos alvéolos
preenchidos com minha ansiedade de toupeira
ante os segredos últimos da terra.
É de noite que as aranhas dos sonhos
segregam mais translúcidas teias
e dúctil é o âmbar das eiras sob as escamas fosforescentes
do luar de Agosto.
Nos solares abandonados, meus herméticos olhos
só repousam no escuro dos corredores
como se descobrissem, de repente,
a substância de que foram feitos.
Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Pôr do sol - Candoso.
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