15 setembro 2015

Reencontro com os caminhos

A análise das distâncias percorridas no ano anterior mostram que caminhei muito pouco, pelo menos no  concelho de Vila Flor. Por isso, nada como recomeçar com mais força, testando o físico. O trajecto escolhido foi um já muitas vezes percorrido: Vila Flor - Santa Cecília, com ida e volta por caminhos distintos. São cerca de 15 km, com algumas paragens para apreciar a paisagem, é percurso para uma manhã inteira.
 Por sorte o dia estava bastante bom para caminhar. A manhã fresca mostrou um céu com algumas nuvens que se foram pintando de negro. Por várias vezes caíram pequenas gotas de chuva, refrescando o ar e fazendo-me recordar emoções de outras caminhadas.
Houve duas coisas que marcaram o passeio, uma boa e outra má. A boa foi a quantidade de frutos da época que permitiram algumas fotografias interessantes, a má foi o reencontro com bastante lixo espalhado pelos montes, que mostra que muito mudou na vida das pessoas, mas o civismo ainda está muito longe do desejável.
Os campos estão bastante despidos de verdura. O calor do verão matou todas as ervas e só as giestas e pinheiros se mantêm "vivos". Já nos terrenos agrícolas há muito para ver e fotografar: são as amêndoas prontas para serem apanhadas (muitas já o foram); as uvas estão maduras e este ano parece haver grande quantidade; há muitas pêras, maçãs, alguns pêssegos e figos a sustentarem bandos de estorninhos que parecem muito satisfeitos com a abundância. As silvas das bermas dos caminhos estão carregadas de amoras e nos castanheiros os ouriços começam a ganhar forma.
Apesar das ameaças de chuva, a paisagem estava muito bonita. O Cabeço, visível ao longo de metade da caminhada, por vezes iluminava-se parecendo um farol. De Samões avistava-se o vale de Freixiel, permitindo admirar a paisagem até mais longe, pelo concelho de Murça, Alijó, quem sabe até de Valpaços ou Vila Pouca de Aguiar.
 Acompanhei de perto o traçado do IC5. Os carros passavam rápido, apressados, fazendo-me sentir feliz, por poder andar devagar, saborear o vento e a chuva, sentir o chão, ouvir os sinos da igreja de Carvalho de Egas, sem mais preocupações do que a de chegar a casa entre o meio-dia e a uma, para não fazer a família esperar por mim para o almoço.
Fiz uma visita aos "mal casados". Para quem não sabe, são duas rochas de "costas" voltadas uma para a outra. Não sei se uma música romântica ajudaria a "quebrar o gelo", mas como ainda ninguém teve essa "brilhante" ideia, as rochas vão continuar de "costas" voltadas, merecendo plenamente o nome de "mal casados".
Num dos parques de estacionamento do santuário de Santa Cecília há uma pequena macieira, bravo de esmolfe, que costumo visitar nesta época do ano. Estava carregada de frutos, maduros, sumarentos, bastante maiores do que em anos anteriores. Não tive muito tempo para pausas, mas colhi algumas maçãs que fui mordendo ao longo do caminho.
Foi após deixar Santa Cecília para que encontrei  montes de lixo. Infelizmente o lixo vai aparecendo um pouco por todo lado. Um sofá, aqui, um televisor mais além, há um pouco de tudo e onde menos se espera. Mas havia carradas de lixo, muito vidro, coisas que não dignificam as pessoas e as instituições.
 Cheguei à barragem do Peneireiro perto do meio-dia. Algumas pessoas faziam os seus exercícios de manutenção. O Parque de Campismo já tem poucos campistas. A barragem tem um nível incrivelmente baixo de água. No local já se sente a calmaria típica da maior parte do ano. O verão é muito bom, e necessário, até economicamente, mas nós temos o privilégio de poder gozar estes espaços durante o resto do ano.
Caminhei sem parar até Vila Flor. Senti-me muito bem fisicamente. A pausa de verão e o aumento de peso não afetaram o meu gosto por caminhar. Senti-me livre, relaxado, satisfeito por fotografar de novo os montes que tão bem conheço.
A caminhada teve perto de 15 km, uma distância aceitável  para início de temporada.

11 setembro 2015

e de repente é noite (XLVII)

Não reduzas tudo a esquadria e pedra.
Há sempre uma criança
em nosso horizonte de altas velocidades,
um ninho vazio nas mãos,
delgado corpo de aldeia à hora da sesta.
E o carvão de uma imensa noite
subindo pelas fontes onde correm
nossos terrores de caudaloso magma,
ávidos do centro
de um círculo perdido.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Miradouro, em Vila Flor.

10 setembro 2015

Já passaram 9 anos!

Vindima perto do Gavião - Seixo de Manhoses
Foi há 9 anos que começou a aventura À Descoberta de Vila Flor. Tratou-se de muito mais de que a abertura de um Blogue, foi o início de uma nova etapa na vida de várias pessoas.  Muita coisa aconteceu em nove anos, alguns contratempos, mas, no global, foram 9 anos de muitas aventuras, muitas fotografias e momentos memoráveis, uns reportados, outros não.
Cesta de cogumelos silvestres  
O ano que agora termina (de setembro a setembro) foi aquele em que o blogue teve menos vida. As postagens foram muito poucas, menos de uma por mês e isso repercutiu-se no número de visitantes. Esta tem sido a tendência dos últimos anos, quer pela falta de novidades, quer pela migração para outras plataformas que se mostram mais atractivas e com maior numero de pessoas.
Fumeiro de Vila Flor numa das mostras TerraFlor
Os percursos pedestres foram poucos. Com alguma frequência fiz um passeio à barragem do Peneireiro, por caminhos diferentes, ao cair da tarde. Poucas vezes levei a máquina fotográfica. Os locais a visitar, pela primeira vez, no concelho são poucos. Os sítios arqueológicos, fontes, igrejas, capelas, marcos geodésicos, alminhas, etc. foram todos visitados e a maior parte deles mais de que uma vez. As festas e romarias também proporcionam alguns bons momentos fotográficos, mas começo a sentir algum cansaço. Têm muito pouco de genuíno e, por vezes, acho que deveria haver mais respeito, mesmo da parte de quem não é praticante.
Amendoeiras em Flor, uma das maiores atracções turísticas do nordeste transmontano
 Sem dúvida que os melhores momentos foram os iniciais, quando tudo era novo. Eu era totalmente anónimo e podia deslocar-me e escrever de forma completamente livre, sem receios do que outros pudessem pensar. Com o tempo a espontaneidade foi diminuindo e começaram a "requisitar" a minha presença. As coisas são mais saborosas quando são feitas por puro prazer e não por qualquer outra razão.
Festa do foral manuelino em Freixiel
Gostaria de ter mais contacto com a terra, acompanhar os trabalhos do campo, as sementeiras, as colheitas, o crescimento das culturas, saber os nomes das plantas, as histórias das aldeias, as tradições que se perdem, mas  tenho pouco tempo e não quero perder a minha liberdade de caminheiro, no concelho de Vila Flor, ou em qualquer outro. As saídas em BTT praticamente desapareceram.
Fruta da Vilariça - Feira TerraFlor
Mesmo sendo muito crítico em relação ao Facebook, acabo por dedicar muito tempo a administrar Páginas e Grupos dos quais dois dedicados ao concelho de Vila Flor: Página "Vila Flor, Concelho" e Grupo"Vila Flor - Portugal". Ambos têm tido um crescimento bastante bom, apesar de existirem alguns grupos e muitas Páginas sobre Vila Flor.
Rua de Santa Luzia, ao fim do dia
O que os torna diferentes são o rigor, o respeito pelos direitos de autor e os conteúdos interessantes (muitas vezes próprios). No fundo tento usar a Página e o Grupo com a mesma filosofia do Blogue. Chego a mais pessoas, mas faltam as palavras. As palavras são importantes assim como é importante para mim, investigar e fazer esforço para as escrever o melhor que sei e posso.
Vinho fino - Feira TerraFlor
Apesar de poucas actualizações no Blogue ao longo deste ano tirei mais fotografias do que o ano anterior. Foram mais de 17 mil. São mesmo muitas! Pode parecer um exagero, não há tanto assim para fotografar, mas por vezes faço uma dezena ou duas de fotografias sobre o mesmo assunto. Acredito muito pouco na sorte fotográfica, aposto mais no trabalho, na repetição  alterando os parâmetros da fotografia até conseguir um resultado satisfatório.
Festa de S. Bartolomeu 
A câmara Cyber-shot DSC-W610 que usava nas caminhadas "morreu". Por duas ou três vezes que embateu violentamente contra as fragas, até que a objectiva deixou de me obedecer. Comprei uma PowerShot SX700 HS. É uma câmara cheia de recursos, dos quais se destacam o funcionamento manual, semi-automático  à velocidade e ao diafragma, wireless e um zoom óptico 30X. Contudo, muitas das fotografias que faço, são feitas com um tablet iPad. A qualidade não é comparável ao de uma máquina fotográfica mas a facilidade de edição e de partilha na Internet são argumentos de peso.
Imagem de S. Bartolomeu 
O décimo ano já teve início. Tal como nos anos anteriores não há planos. Manter um Blogue "vivo" dá muito trabalho e não sei se há visitantes que justifiquem o esforço. Também é verdade que não criei e mantive o blogue para agradar a terceiros, mas sim pelo prazer de descobrir, conhecer e divulgar. Tentarei gerir o tempo o melhor possível, procurando novos motivos de interesse, quer para o blogue, quer para divulgação noutras plataformas.
Para já, desejo um bom ano a todos.

Bolo do 9.º  aniversário, partilhado com amigos

Números do 9.ºano:

Páginas vistas - 25.771
Visitantes - 16.292
Comentários - 10
Postagens - 8
Km percorridos em BTT - 15
Km percorridos a pé -  59
Fotografias tiradas - 17.225
Fotografias publicadas -  45
Alguns dados estatísticos da evolução do Blogue

Números totais (9 anos):

Páginas vistas - 751.379
Visitantes - 352.090
Comentários - 1 884
Postagens - 1 167
Km percorridos em BTT(9 anos) -  4.580
Km percorridos a pé (9 anos) -  1.748
Fotografias tiradas - 161.320

27 julho 2015

Rotunda

"Em tempos que não vão longe, descia do Gavião, bolsa atravessada. Do alto do povoado, com a corneta de local delido, juntava, pelo eirô, os interessados em notícias.
O acto rotineiro acertava a aldeia sem relógio de campanário.
- Co...rrei...o...o!
A penúltima sílaba era sempre longa, atirada com o fôlego de alegria cheia. Quer em dias de casa, aborrecido; quer em manhãs de primavera; ou na ventania agreste do outono esvaecido, ou pelo inverno triste com palmos de nevoeiro.
- Dê-me um de dez tostões!
- Vosselência não tem nada hoje!
- Hoje, não, não pode ser sempre. Remate ao sebastianismo ingénuo do seu faminto rebanho.
Vivia todo preso àquele seu mundo. De graça, dava boas novas, de graça, entregava notícias más.
Se ele soubesse o que oferecia , às vezes, dentro de um sobrescrito, não daria a ninguém novas de sofrimento.
- Espere aí, pegue lá um copito, é p'ró caminho!
- V, então, depressa e eu é que lhe agradeço.
- D'hoje a um ano!
- E o senhor que os conte...
Na horta do portão, naquela tarde dos pássaros não cantarem, pousou a cabeça, duas pedrinhas e, de borco, sorveu dois tragos fundos da fontela.
- Tu não vens bô, home!
- Que é que vocemecê tem, meu pai?
- São uns frios, isto não é nada!
- Vamos ainda pôr as batatas?
No outro dia, a corneta não se ouviu no povoado. Depois, e depois... e sempre, foi outro de semblante mais triste. O povo não gostou.
Já não se ouvia a corneta do alto da sua aldeia."

Poema de Nascimento Fonseca*, publicado no jornal Enié  a 15-10-1975.

Fotografias, pela ordem: Aldeia abandonada do Gavião; Vista parcial da aldeia do Nabo; paisagem em direção ao vale da Vilariça, a partir de Vila Flor; marco do correio existente na Praça da República em Vila Flor.

*José do Nascimento Fonseca nasceu no Nabo a 22-12-1940 e faleceu a 27-07-1983.

22 julho 2015

Freixiel - 500 anos do foral

No passado dia 19 Freixiel esteve em festa. Comemoraram-se os 500 anos da atribuição do foral por D. Manuel I com um conjunto de atividades variadas que encheram por completo o dia e que transportaram os locais e os visitantes para outra época, relembrando a importância de Freixiel como vila e sede de concelho.
Ao início da manhã a Banda Filarmónica de Vila Flor anunciou a festa. As pessoas foram-se concentrando no Largo do Pelourinho para o lançamento do livro "Forais de Freixiel", da autoria de um filho da terra, Cristiano Morais, com patrocínio da Câmara Municipal.
O salão utilizado foi pequeno para tanta gente, o que mostrou que a cultura também têm procura.
A mesa integrava o Presidente da Junta, João Garcia, o Presidente da Câmara, Eng. Fernando Barros e o autor, Cristiano Morais. Estiveram também presentes todos os vereadores da Câmara Municipal.
Na apresentação do livro o autor lembrou algumas datas e momentos marcantes na história da aldeia/vila de Freixiel. Em 1055 aldeia foi integrada em Ansiães mas em 1195 subiu a vila, sede de concelho a que pertenciam também Mogo de Malta, Folgares, Pereiros, Codeçais, Candoso, Vieiro e Sarzeda. A carta de foro foi-lhe atribuída por D. Sancho Fernandes, Prior do Hospital. O segundo foral foi dado por D. Manuel I em 1515. O concelho foi extinto em 1836, por Passos Manuel.
 Outro episódio marcante foi o incêndio que consumiu bastantes casas e que deixou algumas famílias na miséria. Não foram as tropas francesas que invadiram Freixiel, queimaram a rua e picaram os brasões do pelourinho (como reza a tradição). A história parece ter sido bastante diferente. Foram soldados castelhanos que desceram a Freixiel, vindos dos arredores de Samões, exigir vinho para os soldados. Como não viram cumpridas as sua exigências usaram a força, saqueando e incendiando.
Na opinião de Cristiano Morais não faz qualquer sentido continuar a designar Freixiel como vila. Só no actual concelho de Vila Flor estão nas mesmas circunstâncias Vilas Boas e Sampaio.
Também foram lembrados acontecimentos mais recentes, como o encerramento da escola de 1.ºCiclo no ano lectivo de 2014-2015. O futuro da aldeia em termos demográficos não é nada animador.
Se o futuro é incerto, o passado é rico e necessita de ser estudado, preservado e mostrado aos visitantes e às gerações futuras.
Cristiano Morais diz ter em seu poder um espólio considerável, com origem no "castelo" de Freixiel, que gostava de ver cuidado e exposto. Lançou à autarquia o desafio para a criação de um espaço, Casa de Memória, que poderia resultar do aproveitamento da antiga Escola Primária. O repto teve um bom acolhimento, pelo menos no que toca à ideia e ficamos expectantes quanto a desenvolvimentos futuros.
Depois de autografado o livro lançado foi oferecido a todos os presentes.
No edifício da Junta de freguesia foi descerrada uma placa evocativa da comemoração dos forais de Freixiel.
No programa segui-se uma cerimónia religiosa, com a celebração da missa dominical.
Ao início da tarde a aldeia começou a ganhar ambiente de festa com muitos visitantes a chegarem e a associarem-se às comemorações. Começou a sentir-se o cheiro a comida, com a sopa de pedra a ser confeccionada numa panela de ferro, na fogueira, destinada a aconchegar o estômago mais ao cair da noite.
As personagens do Desfile Medieval vestiram os seus trajes. O som da gaita de foles e respectiva percussão dos Gaiteiros das Terras de Miranda alegravam o ar.
A concentração aconteceu junto ao adro da Igreja Matriz. Organizaram-se os diferentes "quadros" representativos das várias classes sociais da época. O grupo Filandorra - Teatro do Nordeste  coordenava o processo e davam um toque de profissionalismo aos grupo de actores improvisados, habitantes de Freixiel que quiseram ter um papel mais activo nas comemorações. Ao cortejo juntaram-se também os elementos do Rancho Folclórico de S. Domingos (Gravelos -Vila Real), presença surpresa, mas bem-vinda, para dar mais brilho à festa.
A Rua Grande e a Rua do Concelho assistiram, surpresas, à passagem de soldados, nobres, clérigos, bobos e populaça, num cortejo longo e animado.
Depois de uma passagem pela Rua Nossa Senhora do Rosário e Rua do Moinho, o cortejo regressou ao Largo do Pelourinho. O povo queria espectáculo e foi isso que aconteceu. Os espectadores distribuíram-se em redor do largo do Pelourinho e a base deste serviu de palco para a leitura do foral pelo arauto e sua entrega aos homens bons.
O grupo de teatro apresentou alguns quadros medievais que despoletaram espontâneas e prolongadas gargalhadas a novos e a menos novos, a quem o sol quente da tarde não afastou. Tive pena de não ter visto a representação do "caldo de Pedra com pão, vinho e carne assada".
Actuaram, depois, dois ranchos folclóricos: O Rancho Folclórico de Freixiel teve uma actuação original, com os seus elementos envergando trajes medievais ("inovação" que não foi bem aceite por todos!); o calor não foi entrave para que o rancho folclórico visitante mostrasse as suas danças com muita genica e alegria. As danças terminaram ao fim da tarde com os dois ranchos a dançarem juntos com a população.
A festa mudou-se para o Largo das Fontes. O local foi bem escolhido. Já estava completamente à sombra, é um espaço verde, bonito, com duas fontes, uma delas muito antiga (fonte de mergulho).
Entradas com chouriço e queijo, seguidas de carne assada no churrasco e a tão famosa sopa de pedra, prato de raízes nada transmontanas mas que é muito apreciada. Mais do que a comida, foi o convívio, a música, a alegria, o encontro de gerações que tornou o momento num dos principais das comemorações.
Mais tarde, já com a barriguinha composta, a refeição foi terminada com belas e doces frutas da época, que só de ver apetece comer.
O programa terminou com  mais um momento musical, os Troika, um grupo jovem que animam arraiais com a sua música mexida bem portuguesa.
Foi um dia em cheio. Além do que aqui lembrei, ainda houve tempo para fazer algumas fotografias da aldeia, uma visita à capela de Nossa Senhora de Rosário, à forca e para apreciar a exposição de artefactos antigos, verdadeira viagem ao passado. Também estiveram expostas peças de artesanato de um artesão local.
Estão de parabéns todos os que se empenharam na planificação e a realização das diferentes atividades. Esta época de calor não é a mais agradável para algumas delas, como cozinhar ou vestir trajes quentes, mas todos deram o seu melhor para fazer uma bela comemoração. Acho que faltou um pouquinho de ambição, porque 500 anos só se festejam uma vez, mas para quem está de fora é muito fácil falar. Freixel e as suas gentes, estão de parabéns.

24 junho 2015

A Menina das Cravelinas e Bem-Me-Queres

«...Trepa-se a Vila Flor por estrada retorcida, de caracol... faz tonturas. Ao enfrentarmos o povoado, porém, que sensação de conforto! Aquilo não é um burgo alpestre - é um ramalhete de cravelinas e bem-me-queres no decote da serrania». 
Sousa Costa
É costume da Câmara Municipal da minha terra, por gentileza não sei se já imitada (ou já iniciada) por qualquer edilidade congénere, comunicar a todos os munícipes de mais aquela, apartados do berço pelos impulsos caprichosos do destino, os factos principais que respeitam ao seu grato efectivo de valorizações e encómios.
E não se julgue que a finalidade visada seja a propaganda da actuação dos presidentes, suas ideias, criações, méritos, realizações, como é de muito abuso por aí.
Não! O que eu sinto nos visos desse proceder simpático, é o carinho de manter unida a família vilaflorense, aconchegado ao lar, essa lareira que tem achas de pinho a arder eternamente sobre o trasfogueiro, inundando a cozinha de fumo, que faz bem aos pulmões e aos chouriços, largando choinas que nos caem sobre o capote, brandamente, estejamos nós lá ou no cabo do mundo.

É bom que não se esqueçam os nomes que mais fulgor puxaram à nossa «lis» doirada. Mas o que nos encanta, o que fica, é a resultante das forças que alindaram o nosso ninho  materno, tomando-o aprazível, donairoso, confortável, condicionando a beleza necessária a ouvirmos do Dr. Sousa Costa um elogio como o que encima este pequeno escrito e que nos foi transmitido pela vereação da Câmara da minha terra.


Com que então, o Sr. Dr. Sousa Costa foi a Vila Flor e, julgando encontrar um burgo alpestre, descobriu «um ramalhete de cravelinas e bem-me queres no decote da serrania»?!
Tocou-me Sua Ex.ª num dos meus queridos amores. Não sei se me zangue com ciumes, se me envaideça com orgulhos...
Dom Dinis teve a mesma agradável surpresa há 670 anos, e mudou-lhe o nome, transportando-o do sector das póvoas para o campo das flores. Dois artistas, dois sentimentais, dois poetas.
A minha terra, para ser bem tratada, só pela poesia. Ela é gaiata,. morena, dentinhos de cal, cabelos escudos, aroma de madressilva no colo de rosas brancas, menina do meu agrado, sempre jovem, com jóias ricas de família nos dedos afusados, adereços romanos, góticos, árabes, judaicos...
A serra, molosso de xisto e terra escura deitado entre o Facho e as Portas do Sol, abriga-a do norte, expõe-a abertamente às soalheiras do sul, tendo-a no regaço, como desvela da mãe.
Quem, há vinte anos, subisse às capelinhas, dispostas mesmo no alto, pela tenaz dedicação dum grande vilaflorense, que tem o nome indelevelmente ligado às graciosas ermidas - Manuel Álvares Pereira de Aragão - via o povoado, lá no fundo, começar na Santa Luzia, na «máquina» - nome consagrado da fábrica de moagem inaugurada pelo gigante João de Matos, da minha saudade de criança - na Rapadoira e por ali abaixo até à Portela.
Hoje, o passeante, quer se sente nos degraus da velha capela de N.ª S.ª da Lapa, fachada alvíssima, ponteaguda, seu portelo de mina à esquerda, encravada em ciclopes de rocha bronzeada; quer se encoste às capelas de Santo Antão e São Bernardino, de cúpula em pirâmide; quer se instale nos miradoiros do santuário hexagonal da Senhora dos Remédios, depois de refazer-se do esforço da ascensão, com um lenço que lhe enxugue a testa ou uma aba de chapéu que lhe desencalme o rosto congestionado, tem o grato prazer de verificar quanto a vilazinha subiu, como casas novas nasceram, num pululante renovar de gerações, vindo a fazer guarda de honra ao formoso edifício da «Domus Municipalis», padrão senhorial do concelho e da comarca, de costas no peito dos olivais da serra. A menina aconchegou-se melhor ao regaço da serra-mãe, como gata mimalha que se levanta para se acomodar mais consoladinha ao sol da graça. A menina enfeitou-se. Deitou fora os candeeiros mal cheirosos e fumarentos do seu «boudoir» e meteu electricidade; instalou lindas torneiras onde jorra água pura da serrania; tem um lindo telefone de plástico rosado e translúcido, sobre a mesa de cabeceira; e vem à janela admirar o recorte moderno de avenidas e pracetas recém-nadas, seus balaústres, suas copas redondinhas como hortênsias, seus canteiros de relva fresca, rampas, escadarias, globos de candeeiros, aqui e ali, num conjunto de apoteose surpreendente, embora um fundo suspiro lhe sacuda o peito, saudoso da sua velha praça, que era a mais bela iluminura do seu pergaminho, que era o seu coração, o seu carácter, agora fendida, imolada a um desalmado critério de urbanização!

 E a menina aparece no limiar da janelinha, mirando as lavadeiras nos tanques novos, entre olivedos e amendoais, onde cantam melros e rouxinóis, enfeitada com um ramalhete de cravelinhas e bem-me-queres entre os seios macios de adolescentes!
Quando, há anos, vim para o sul, proclamava com orgulho a minha naturalidade: VILA FLOR!
- Mas onde é que é isso?...
E a pergunta, quase constante, entrava-me como um punhal no peito apaixonado, entre estas costelas que se criaram com água da Fonte Romana e com pão borneiro da Párreas, trigo dessa terra feraz, humosa, florida, transmontana, cuja seiva me circula no sangue, como os caracteres do progenitor nas veias do filho que o não desmente.
Agora, vejo com esfuziante alegria que Vila Flor não é nome de qualquer Alguidares de Baixo, estranho na sabedoria comum dos nossos centros mais esclarecidos. Os jornais falam, a fama corre, percorre, e aponta-se o exemplo duma vila que em 20 anos se vestiu de novo, se toucou de graças,
se impõe, na escala do progresso, que afere os valores do país, de Norte a Sul.
Não conheço, por meu mal, o Senhor Dr. Sousa Costa. Mas o facto não me inibe de lhe deixar aqui o meu cartão de visita, agradecendo as palavras que dirigiu à «minha menina», cartão em que, sob o nome, apenas imprimo esta dignidade qualificativa: vilaflorense.

Excerto do livro Paisagens do Norte, escrito pelo Dr. Cabral Adão e publicado em 1954. Este livro teve uma segunda edição pela Câmara Municipal de Vila Flor em 1998 (Minerva Transmontana, Vila Real). Pode ser encontrado no Museu Berta Cabral, na sala dedicada a Vila Flor.

Luís Manuel Cabral Adão nasceu em Vila Flor a 24 de Junho de 1910 falecendo a 6 de Agosto de 1992, em  Almada, vitimado por paragem cardíaca, partiu, no dia seguinte, para Vila Flor, para jazigo de família.

23 fevereiro 2015

e de repente é noite (XL)


Uma vereda de desassossego
abrindo o vale onde, inesperadamente,
o ocaso se agitava
decalcando a cauda de um cometa
para lírios de lava
consagrados a futuras noites de insónia.
À luz avara da clarabóia
vadiavam dias de Fevereiro
por se sentirem sós no abandono
do sótão de que nunca demonstrámos
o embruxado teorema.
Fingíamos desconhecer os amanhãs de caliça
que desciam sobre as nossas cabeças
e nelas se instalavam.
E o crepúsculo tinha o dom de apurar
a trajectória dos projécteis
contaminados de melancolia.

João Baptista de Sá, nasceu em Vila Flor, a 7 de Novembro de 1928.
Faleceu a 23 de Fevereiro de 2012.


22 dezembro 2014

Cruz

A cruz
Será a Guarida
E a Luz
Da minha vida,
Eternamente...

Cruz:
Alfombra do mendigo,
Travesseiro
Que o caminheiro
Traz consigo...

Cruz:
Manto
Santo
Que alberga
Os pobres nus -
Corpos sem enxerga,
Almas de Jesus.

J. N. Fonseca*

Publicado em Esperança. Maio de 1962
* José do Nascimento Fonseca nasceu no Nabo a 22-12-1940