26 novembro 2009

Alminhas, Padrões de Portugal Cristão


Encontrei no museu Berta Cabral, em Vila Flor, um pequeno livro de 1955, escrito por P.e Francisco de Babo, “Alminhas” Padrões de Portugal Cristão, (3.ª edição). Interessei-me imediatamente, pois há muito tempo que não lia nada sobre o tema Alminhas que, em tempos, comecei a publicar no Blogue. O livro não correspondeu às minhas expectativas. É basicamente um incentivo à construção e recuperação das alminhas mas permite saber qual o espírito da época a respeito deste peculiar devoção do purgatório. Este culto das alminhas faz pleno sentido em conjugação com outros rituais como o Dia dos Fieis Defuntos, as missas do de saimento e sétimo dia. Também existiu em grande parte das paróquias a confraria das Almas, ainda subsistindo algumas pelo país.
A respeito das Alminhas, diz:
“Eram estas, em tempos que foram, nota benta e espiritual da paisagem e polvilhavam o solo de Portugal de lés a lés, postadas humildemente à beira dos caminhos das aldeias, vilas e povoados, gritando de contínuo aquelas labaredas vermelhas rusticamente pintadas, no contraste do verde, do escuro ou do branco ambiente.
E as almas simples dos que passavam, com fé viva e alma amiserada a crepitar no peito, rezavam baixo um pai-nosso e uma ave-maria, parando a contemplar a Senhora meiga do Carmo ou do Alívio, e as chamas ardentes e rubras onde as almas se esbraseavam em sofrimento e dor. Tiravam do bolso ou da algibeira, quase desprovida, pequeninas moedas da sua penúria, óbulo da viúva precioso e rico dos olhos de Deus e lançavam-no pela greta da caixinha de ferro ou da soleira furada de granito, adrede ali dispostas.
E, ao cabo, de tantos grãozinhos se faria o pão gostoso para a fome, quero dizer, as pequeninas oferendas haviam de juntar-se e converter-se, os pequeninos sacrifícios, na riqueza imensa do Santo Sacrifício do Altar, grandioso sufrágio das pobres Detidas e individadas. Serão o seu resgate do cárcere do Fogo”.

 As alminhas lembravam aos vivos o purgatório, mas destinavam-se também à recolha de esmolas, com as quais se celebravam missas pelas almas. Os mealheiros da altura ou eram metálicos de madeira ou de barro, sendo necessário parti-los para retirar as dádivas.

“Que belos que são e como pincelam a paisagem esses nichos esparsos por aldeias, vilas e cidades, de Norte a Sul do país, à beira de caminhos, estradas, ruas e praças!
Quantos deles esperam alma pia e carinhosa para uma restauração em forma, avivando-lhes a pintura ou substituindo-a por um painel azulejado, limpando-lhes o rebordo de pedra ou reaformoseando-lhes a arquitectura! Quanta vez será necessário dar maior solidez à caixa das esmolas embutida na base imunizando-a da cupidez sacrílega de vulgares ratoneiros! Mas a frequente inspecção e recolha das esmolas ali acumuladas será sempre de recomendar às pessoas encarregadas de velar por tão santa tarefa e a maneira mais eficaz de evitar furtos do sagrado pecúlio.”
Percebe-se ao longo de todo o livro um forte apelo à construção de nichos, cruzeiros e disseminação de mealheiros.  Um grande movimento nacional para que em cada aldeia, em cada bairro, o solo seja sacralizado com a presença de “Alminhas”. O movimento tem tal poder que começam a ser enviados painéis para a construção de alminhas noutros pontos do antigo império.


Em 1955 o Ministro das Obras Públicas determina que a Junta Autónoma das Estradas promovesse a conservação dos nichos existentes junto às estradas nacionais em conjunto com a reparação destas. A conservação das restantes competia às Autarquias Locais e Juntas Fabriqueiras, podendo o estado comparticipar através do Fundo de Desemprego.

1.ª Fotografia - Alminhas junto à estrado do Seixo de Manhoses.
2.ª Fotografia - Alminhas em Lodões.
3.º Fotografia - Alminhas na base de um cruzeiro em Vilas Boas.

1 comentário:

euroluso disse...

"Podendo o estado comparticipar através do Fundo de Desemprego" para a conservação das alminhas.
Essa está boa! Mas, se calhar, era assim, nos anos cinquenta do século passado, que se fomentava o emprego e se combatia a vaga emigratória!Os mandantes de hoje, como são laicos e modernaços,é que não vão nessa; ordenam que se retire crucifixos das escolas e arranjam empregos precários com barragens, como a do Tua, que não interessam nem ao Menino Jesus. Que comandita, valha-nos Deus!