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10 março 2014

Talefe Fiolho - Lodões

Durante quase dois anos o À Descoberta de Vila Flor andou pelos Pontos Altos, percorrendo caminhos que conduziam a marcos geodésicos, espalhados um pouco por todo o concelho. A altitude, ser ou não um ponto alto, é tudo uma questão de referência e há marcos geodésicos no meio do Vale da Vilariça, bem longe da altitude de um Faro, ou Freixiel.
 Na senda destes pontos, havia um que foi ficando para trás. Situa-se entre os termos de Lodões  e Vale Frechoso, nos limites da Quinta do Prado e conhecido como o marco geodésico do Fiolho. Nunca foram agradáveis as caminhadas entre Roios e Vale Frechoso, ali para os lados da Quinta de S. Estevão e a Quinta do Prado. O terreno é difícil, as estevas são altíssimas, há áreas vedadas por arame farpado e caminhos sem saída. Por isso, a solução foi fazer uma volta maior, mas contornar os obstáculos, seguindo, se necessário, pela estrada.
 Essa caminhada teve lugar no início de novembro, portanto com um clima e uma vegetação bem diferente da que temos agora. Em novembro estávamos em plena época dos cogumelos e foi um dos atrativos da caminhada.
O percurso planeado foi: sair de Vila Flor em direção a Roios, pelas capelinhas; seguir até Vale Frechoso passando junto do marco geodésico do Maragôto;  seguir pela estrada até à Quinta do Prado; contornar a quinta até ao marco geodésico.  Como tínhamos que deslocar-nos para um ponto em que pudéssemos ser “apanhados” pelo “carro de apoio”, optámos por descer até à aldeia de Lodões. Contas feitas por alto… esperavam-nos 16 quilómetros.
 
Apesar do sol que invadia a vila logo pela manhã, o nevoeiro espreitava junto à Quinta da Conceição, a oportunidade de tomar de a tomar de frio. Este cenário é muito habitual, com o nevoeiro junto às primeiras casas de Vila Flor, vindo do vale da Vilariça, hesitando se deve a deve cobrir até ao Barracão ou se deve regressar à sua cama habitual, os vales mais profundos.
O nevoeiro decidiu avançar, mas foi desintegrado mal atingiu a Quinta de S. Domingos, deixando no ar gotículas da sua passagem. Quando começámos a descer atrás da serra ainda se viam alguns “farrapos” que subiam de Vilares de Vilariça em direção ao topo de Bornes. Encontrámos cogumelos, castanhas, medronheiros em flor e uma raposa morta vencida pelos cães de algum pastor.
Em Roios as chaminés ainda fumegavam. Certamente aquecia-se o café da manhã, quem sabe se acompanhado por boas torradas! Mas não havia tempo para grandes paragens. Nos cantos da aldeia cresciam crisântemos. Flores tão belas, que na maior parte das vezes alegram de cor os cemitérios, nesta época do ano.
No que toca a folhagem, as cores do outono estavam bem patentes na vinha virgem que sempre decora a casa dos Barosos, em Roios, nas folhas das videiras, dos diospireiros e nos ouriços dos castanheiros, que ainda apresentavam algumas línguas-de-vaca.
O caminho para atingir Vale Frechoso passa entre o monte do Maragôto e o Monte Pelado.
Chegámos próximo do cemitério de Vale Frechoso ao meio dia! Havia ainda muito caminho para andar, quase outro tanto como o que já tínhamos feito! Ainda parámos para nos refrescarmos na fonte e admirarmos um monumento com Nossa Senhora de Fátima e os Pastorinhos. Ainda “cheirava” a novo!
Seguimos pela estrada, sem paragem na Quinta da Preguiça, em direção a Assares. Passámos muito próximo de uns dos mais antigos marco geodésicos do concelho, Penha dos Abutres, mas com o atraso que levávamos não nos aventurámos a subir ao sítio onde se encontra. Também ali alguns caminhos estão barrados.
Encontrámos a placa indicadora da Quinta do Prado, mas não seguimos o caminho da quinta. Continuámos pela estrada no intuito de contornarmos a quinta, seguindo pela mata de eucaliptos. Nesta mata encontrámos muito lixo, uma verdadeira vergonha. Alguém devia tomar alguma posição.
Entrámos nos limites da quinta e contornámo-la até atingirmos o marco geodésico, o que só aconteceu perto das duas da tarde.
O cansaço já era muito, mas este é mais um dos excelentes miradouros do vale da Vilariça. É pena é que seja tão difícil chegar aqui. Também o cenário da Quinta do Prado, repleta de oliveiras, é algo de extraordinário. As árvores ainda são muito jovens, mas quando crescerem vai ser belo de se ver.
Junto do marco geodésico comemos as já tão desejosas maçãs que levávamos na mochila.  A fome também já apertava.
Já cheios de dores nos pés, o terreno é muito inclinado e perigoso, descemos até à aldeia de Lodões, passando por debaixo do IC5.
Foi uma longa caminhada, só possível porque o tempo estava fresco. Foram muitas as fotografias tiradas a motivos interessantes e outros deplorais, como os depósitos de lixo.
 Esta foi a última caminhada do conjunto Pontos Altos. Haverá que encontrar um motivo (ou uma desculpa) para continuar a percorrer os caminhos do concelho, sempre os mesmos, mas sempre diferentes.
GPSies - VilaFlor_Fiolho

03 fevereiro 2014

e de repente é noite (XXXIV)

 Não é sono nem desmaio nem esquecimento.
Talvez a transmutação adiada da pedra.
Uma palidez que já não lembra
coisas deste mundo.
O pouco que de cá levou
só se adivinha no afilado dos dedos
extenuados de tanto voo
contra os portais da adversidade.
O resto é o que dela em nós ficou:
a paciência dos seus rumos solitários,
o som das suas fontes interiores.
O que se apaga deixa um espaço
para a fatalidade de outros gestos.
Por isso tudo em volta se concentra
numa harmonia apenas intuída,
porque já não ressoa nos sentidos.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Cabeço de S. Pedro, Lodões.

06 janeiro 2014

Peregrinações - Síntese

Caminho no termo de Vale Frechoso
 A terminar mais um ano dei comigo a pensar nos caminhos feitos na tentativa, de descobrir novos a percorrer, mantendo o mesmo entusiasmo.
Durante os anos de  2010, 2011 e 2012 foram palmilhados muitos caminhos, agrupados com o nome de Peregrinações. Desde que terminaram que pensava agrupar os vários percursos de forma a ter uma ideia mais global do que foi feito.
Altar-mor da igreja matriz de Freixiel, após o restauro.
Vista a lista, até eu fico surpreendido! Foram muitas passadas, muitas fotografias e muitas emoções. Alguns percursos foram mais divertidos, com melhor tempo, outros mais rigorosos, com chuva, nevoeiro e mesmo alguma neve, mas foram todos feito por prazer e "Quem corre por gosto não cansa".
A caminho de Meireles, perdido algures no meio do nevoeiro.
Sem ser muito rigoroso direi que foram percorridos mais de 600 km! Praticamente todas as caminhadas tiveram como ponto de partida Vila Flor e terminaram na capela ou igreja que servia de destino. Como disse no início, não houve um objetivo religioso nestas peregrinações. Os edifícios religiosos são um importante património do concelho e te-los como destino foi mais um incentivo para partir. Por vezes não foi possível entrar nas capelas, mas ficou registado o percurso e "peregrinação" significa viagem, não tanto chegada.
Capela de Santa Marinha, em Meireles
 Esta série foi dada por encerrada em maio de 2012 dado lugar a outra série chamada Pontos Altos, que também já foi dada por terminada. Havia ainda muitas monumentos religiosos para visitar, capelas e igrejas, cruzeiros ou alminhas, mas os caminhos seriam sempre repetidos e já não teriam a mesma piada.
Capela de Nossa Senhora do Rosário, em Lodões.
Esta é a listagem de todas as caminhadas integradas nas Peregrinações. No final da descrição dos percursos, em muitos deles, há uma ligação para outro sítio web onde pode ser descarregado o percurso feito, de forma a que qualquer pessoa também o possa fazer, com a ,ajuda de um aparelho de GPS, mesmo sem conhecer o terreno.
Igreja matriz de Valtorno (Nossa Senhora do Castanheiro)
Ainda não encontrei um tema para novas caminhadas, por isso aceito sugestões. A ideia é continuar a palmilhar o concelho, arejando a mente, fazendo bem ao corpo, descobrindo os locais, os seres e as coisas como só quem anda de vagar consegue.

28 setembro 2012

e de repente é noite (XXX)

Latada com belos cachos de uvas (Vila Flor)
Ardem pássaros nos olhos dum rapaz.
O tempo torna-se a montanha
suspensa sobre o vale.
A toada das vides oculta-se
na imobilidade dos bagos maduros.
Já não se ouve o tropel de Agosto
ao longo da púrpura dos ermos.
O ar sabe às húmidas meditações
das naves sem vitrais.
Um tear oculto urde cintilações
em torno do rapaz.
Torna-se fogo
tudo o que nele é corpo.
E os pássaros renascem nos seus olhos.
Cabeço de São Pedro, também conhecido como Cabeço de Santa Cruz (Lodões)
 Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.

19 março 2012

Peregrinações - Capela de Nossa Senhora do Rosário (Lodões)

Pelourinho de Vila Flor
Na continuação da volta às aldeias que ainda não tinham sido alvo de uma "peregrinação" seguiu-se Lodões. O facto de estar mais próxima levou a que fosse deixada para os últimas etapas.
Como quase sempre aproveitei a luz da manhã para fazer algumas fotografias em Vila Flor. Não é só o facto de a luz ser diferente e mais favorável, mas também porque há pouco movimento e a tranquilidade é inspiradora.
Caminho cortado pelo IC5
O percurso a seguir para chagar a Lodões não oferecia dificuldades (em princípio) até porque, para variar, desta vez não havia qualquer vestígio de nevoeiro, antes pelo contrário, o céu oferecia um azul tão intenso que parecia pintado de fresco.
Seguimos pela estrada até à Valonquinta, antiga Quinta de S. Gonçalo. Logo a seguir à quinta havia uma caminho vicinal que utilizei em tempos, mas o IC5 cortou-o e não ficou nenhuma alternativa.
Ponte sobre a Ribeira de Roios
O caminho seguinte está algumas centenas de metros mais à frente, e dava acesso a algumas quintas situados em Vale de Cal. Estranhamente, também este caminho foi cortado, não sendo deixada nenhuma alternativa. Não sei quem negociou o traçado do IC5, mas aqui deveria ter ficado uma passagem subterrânea ou aérea. Desde a Quinta da Barquinha (estrada para M601 Vila Flor- Sampaio), até Roios, não conheço nenhuma passam pública para ultrapassar o IC5! São muitos quilómetros!
Lodões, no vale da Vilariça
Para evitar termos que ir à freguesia de Roios e descermos ao longo da estrada (M601-1), fizemos "rapel" na escarpa que vai da estrada até à ribeira de Roios, a uma quota inferior de mais de 200 metros. É uma descida arriscada e não é recomendável. Esta manobra permitiu-nos ganhar algum tempo, o suficiente para nos aventurar-mos a subir ao monte de S. Pedro, ou cabeço da Santa Cruz, onde está uma enorme cruz de madeira que já mostrei noutras ocasiões. Além da curiosidade da cruz, e do facto de ter existirem vestígios de um castro no local, é um miradouro fantástico, um dos muitos que se estendem ao longo do vale da Vilariça.
Cabeço de Santa Cruz
O acesso ao cabeço é fácil, por caminho, bastando depois percorrer duas centenas de metros pelo meio da vegetação.
Foi um excelente momento para saborear uma peça de fruta e apreciar a paisagem em redor, antes de descermos ao vale e atravessarmos a ribeira da Laça.
Caminho próximo de Lodões
A o contrários de todas as outras aldeias vizinhas, Lodões está implantado em pleno vale. isto não contribuiu muito para o seu desenvolvimento atual, uma vez que é uma das mais pequenas freguesias do concelho. O cruzamento em Lodões do IC5 e do IP2 vieram dirigir o olhar para esta pequena aldeia que poucos conheceriam. Falou-se mesmo de um polo industrial em Lodões, mas possivelmente isso não passará de uma miragem. Santa Comba da Vilariça está ali perto e Sampaio tem já uma das maiores industrias do concelho, as águas Frize.
Capela de Nossa Senhora do Rosário
A capela de Nossa Senhora do Rosário está sitiada no meio da aldeia, sem despertar muito a atenção. A sua construção é anterior à da igreja, possivelmente no Séc. XVI. Exteriormente pode-se admirar o arco da porta, do estilo românico. A torre sineira lateral também é em granito, tal como devem ter sido as pares que agora já se apresentam revestidas e caiadas. O pequeno adro em frente da capela deve ter sido outrora  coberto, ou seja, um cabido, tal como o que existe na capela de Nossa Senhora do Carrasco, no Nabo ou na capela de Nossa Senhora do Rosário, em Samões (há mais exemplares no concelho).
Fonte Romana, em Lodões
Se pensarmos que Lodões tem como padroeiro S. Tiago, que festeja a 25 de Julho, não fica posta de parte a hipótese desta capela ter sido utilizada pelos peregrinos a S. Tiago de Compostela. As peregrinações começaram no Séc. IX mas no Séc XVII ainda estavam no auge em Portugal, nessa altura a capela já existia.
Não foi possível entrar na capela. Estava em obras e afirmaram-nos que não havia nada no interior, por isso não nos esforçámos em encontrar a chave. Haverá que voltar mais tarde, quando as obras tiverem terminado.
A caminhada terminou junto à igreja matriz, mais propriamente na fonte Romana. Este é um dos monumentos mais interessantes da aldeia. Tem gravada a data de 1680 e está num espaço agradável, mas só quando as glicínias estiverem com folhas e flores.
A caminhada não foi muito longa, ultrapassando pouco os 9 quilómetros, mas o tempo impecável fez com que todo o percurso fosse feito com muita calma apreciando a paisagem que nesta zona do concelho proporciona vistas fantásticas do vale da Vilariça.

18 fevereiro 2012

Flores sem medo

Apesar da vaga de frio que assola a região e grande parte da Europa, a natureza consegue surpreendermos com sinais de sobrevivência verdadeiramente fascinantes. Na caminhada que realizei em novembro entre Vila Flor e Lodões fotografei estas flores num olival jovem.

16 fevereiro 2012

Por caminhos pouco definidos

Depois de mais de ano em "Peregrinações" ficaram para o fim aquelas não as mais distantes, mas aquelas em que o percurso a fazer era mais difícil de planear. Não é muito evidente, mas a zona mais difícil do concelho para percorrer a pé (e em BTT) fica na freguesia de Vale Frechoso. Isso deve-se ao facto de haver extensas áreas vedadas com arame farpado. Para piorar as coisas, os caminhos terminam abruptamente, ou então de encontro ao arame farpado, sendo difícil planear um percurso a fazer. Foi devido a este facto que Assares e Santa Comba da Vilariça foram ficando adiadas na rota das caminhadas.
Mesmo assim, no dia 26 de novembro saí de Vila Flor em com destino a Santa Comba. O percurso estava minimamente planeado, uma vez que não uso qualquer dispositivo de GPS que me durante a caminhada. O estudo é feito no computador, mas nem sequer uso uma folha impressa, confiando na minha memória no meu sentido de orientação.
O percurso incluía uma passagem por Roios, seguir até à Quinta do Prado, passar a montante de Assares e, com sorte, atingir Santa Comba da Vilariça. Vistas as coisas assim, até parece fácil, visto que é quase como traçar uma linha reta entre Vila Flor e Santa Comba.
O dia estava bonito, com o céu limpo e azul, a convidar à fotografia. Atravessar a serra a caminho de Roios é sempre um momento fascinante. No meio do silêncio as formas ganham mistério e as cores vida. As cores outonais ainda estavam bastante presentes e os medronhos pendiam maduros dos arbustos. Já na aldeia de Roios eram os crisântemos espalhados por vários espaços da aldeia que emprestaram beleza à paisagem. Nos campos apanhava-se a azeitona. Grupos de azeitoneiros trabalhavam afincadamente na apanha dos parcos frutos que as oliveiras deram. Mesmo assim, não regateavam um sorriso para a câmara, porque o À Descoberta já tem fama.
E foi quando percorria os caminhos de Roios que chegou o nevoeiro. A principio achei piada, aproveitei-o par dar um ar misterioso às fotografias, mas não demorei a ver os seus inconvenientes. Perdi-me no meio do nada e rapidamente fiquei encharcado. Caminhar no meio da vegetação toda molhada é muito desagradável. Já por vezes "saboreei" a agressividade das estevas nesta zona do concelho. Pretendia atravessar a ribeira de Laça mas a nas poucas vezes que por aí passei sempre tive dificuldade e agora, no meio do nevoeiro, ainda pior. Procurei não me aventurar pelas zonas mais escarpadas, que por ali abundam.
Quase sem dar conta esbarrei com o IC5!  Na altura ainda não estava aberta ao trânsito, mas já tinha rede, o que me impediu de a atravessar. A solução foi caminhar ao longo dela até encontrar uma passagem. Lembrei-me das anedotas que alguns contam sobre as passagens sobre IP e autoestradas para lobos e outros animais selvagens. Só quem não conhece o meio natural é que se pode rir com uma coisa dessas. Estas estradas são um verdadeiro problema para a deslocação dos animais, embora aqui, região montanhosa, tenha necessariamente de haver mais pontes sobre os cursos de água facilitando, a passagem dos animais por debaixo delas. Foi o que eu fiz. Senti-me um animal selvagem.
Ao atingir a ribeira da Laça a o IC5 passa a muitos metros de altitude, suportado em enormes pilares de cimento! Consegui finalmente localizar-me. Estava muito mais a jusante da ribeira do que o que pretendia, não me restando outra alternativa senão iniciar de novo a subida em direção ao Alto da Fenanqueira e à ribeira das Quintas. Há aqui uma pequena albufeira que visitei na já longínqua data - maio de 2007. Quanto a encontrei senti-me de novo orientado.
O nevoeiro ia e vinha ora cobrindo o alto dos montes, ora espalhando-se por áreas mais extensas e limitando a visibilidade. Segui diretamente para a Quinta do Prado. Com o objetivo de passar o mais longe possível das casas da quinta, desviei-me o mais cedo que pude para sul. Este espaço é algo de extraordinário! Na última vez que por aqui passei esta quinta estava cheia de eucaliptos e agora deparei com uma área gigantesca cheia de jovens oliveiras. A surpresa foi grande porque quando vista à distância fiquei com a impressão que estava a ser repovoada de eucaliptos. São mais de 300 ha de olival, cerca de 80 mil(!) oliveiras que produzem um azeite biológico de elevada qualidade, a maior parte do qual vendido para Itália. A marca comercializada é Acushla. Claro que estas coisas só vim a sabe-las mais tarde!
Pretendia atingir o marco geodésico do Fiolho, a mais de 500 m de altitude próximo de Assares. Perdido de novo do meio do nevoeiro e sem um caminho definido para seguir, calculo que andei às voltas quase sem sair do sítio. Encontrei o declive para o vale da Vilariça e decidi segui-lo. Mais tarde ou mais cedo encontraria a estrada N-102 (E802), algures entre Assares e Santa Comba. As contas saíram-me furadas. Não encontrei a estrada esperada, mas sim a novíssima IP2 que está situada a uma cota superior à da que esperava encontrar.
Não me foi difícil encontrar uma passagem inferior e estava no coração do vale. Do meio do nevoeiro apareceu uma placa que dizia - Ponto de Encontro - Lodões! Tratava-se de uma placa das obras nas estradas IP2 e C5, mas serviu perfeitamente para perceber que estava em Lodões, muito distante do local onde pensava estar e para onde pretendia ir. As duas da tarde já há muito que tinham acontecido e pouco havia a fazer. Dirigi-me para o centro da aldeia e telefonei para casa para me irem buscar.
Enquanto esperava, refleti na minha aventura com final tão improvável. Não consegui atingir o meu objetivo, mas sentia-me muito satisfeito com o percurso que tinha feito. Houve momentos de pura magia, com paisagens dignas de serem fotografadas e eu até estava munido de um equipamento razoável (coisa pouca habitual nas "Peregrinações"). Estava absorto nos meus pensamento enquanto saboreava uma apetecida maçã quando parou uma carrinha. Tratava-se de um senhor de Assares que ia para Vila Flor e ofereceu-me boleia, também coisa pouco habitual nas minhas andanças. Aproveitei.
Não considerei o tempo desperdiçado. Além das fotografias, a experiência acumulada veio a ser útil nas caminhadas seguintes, que tiveram como destino Assares, Santa Comba da Vilariça e Lodões.

26 novembro 2009

Alminhas, Padrões de Portugal Cristão


Encontrei no museu Berta Cabral, em Vila Flor, um pequeno livro de 1955, escrito por P.e Francisco de Babo, “Alminhas” Padrões de Portugal Cristão, (3.ª edição). Interessei-me imediatamente, pois há muito tempo que não lia nada sobre o tema Alminhas que, em tempos, comecei a publicar no Blogue. O livro não correspondeu às minhas expectativas. É basicamente um incentivo à construção e recuperação das alminhas mas permite saber qual o espírito da época a respeito deste peculiar devoção do purgatório. Este culto das alminhas faz pleno sentido em conjugação com outros rituais como o Dia dos Fieis Defuntos, as missas do de saimento e sétimo dia. Também existiu em grande parte das paróquias a confraria das Almas, ainda subsistindo algumas pelo país.
A respeito das Alminhas, diz:
“Eram estas, em tempos que foram, nota benta e espiritual da paisagem e polvilhavam o solo de Portugal de lés a lés, postadas humildemente à beira dos caminhos das aldeias, vilas e povoados, gritando de contínuo aquelas labaredas vermelhas rusticamente pintadas, no contraste do verde, do escuro ou do branco ambiente.
E as almas simples dos que passavam, com fé viva e alma amiserada a crepitar no peito, rezavam baixo um pai-nosso e uma ave-maria, parando a contemplar a Senhora meiga do Carmo ou do Alívio, e as chamas ardentes e rubras onde as almas se esbraseavam em sofrimento e dor. Tiravam do bolso ou da algibeira, quase desprovida, pequeninas moedas da sua penúria, óbulo da viúva precioso e rico dos olhos de Deus e lançavam-no pela greta da caixinha de ferro ou da soleira furada de granito, adrede ali dispostas.
E, ao cabo, de tantos grãozinhos se faria o pão gostoso para a fome, quero dizer, as pequeninas oferendas haviam de juntar-se e converter-se, os pequeninos sacrifícios, na riqueza imensa do Santo Sacrifício do Altar, grandioso sufrágio das pobres Detidas e individadas. Serão o seu resgate do cárcere do Fogo”.

 As alminhas lembravam aos vivos o purgatório, mas destinavam-se também à recolha de esmolas, com as quais se celebravam missas pelas almas. Os mealheiros da altura ou eram metálicos de madeira ou de barro, sendo necessário parti-los para retirar as dádivas.

“Que belos que são e como pincelam a paisagem esses nichos esparsos por aldeias, vilas e cidades, de Norte a Sul do país, à beira de caminhos, estradas, ruas e praças!
Quantos deles esperam alma pia e carinhosa para uma restauração em forma, avivando-lhes a pintura ou substituindo-a por um painel azulejado, limpando-lhes o rebordo de pedra ou reaformoseando-lhes a arquitectura! Quanta vez será necessário dar maior solidez à caixa das esmolas embutida na base imunizando-a da cupidez sacrílega de vulgares ratoneiros! Mas a frequente inspecção e recolha das esmolas ali acumuladas será sempre de recomendar às pessoas encarregadas de velar por tão santa tarefa e a maneira mais eficaz de evitar furtos do sagrado pecúlio.”
Percebe-se ao longo de todo o livro um forte apelo à construção de nichos, cruzeiros e disseminação de mealheiros.  Um grande movimento nacional para que em cada aldeia, em cada bairro, o solo seja sacralizado com a presença de “Alminhas”. O movimento tem tal poder que começam a ser enviados painéis para a construção de alminhas noutros pontos do antigo império.


Em 1955 o Ministro das Obras Públicas determina que a Junta Autónoma das Estradas promovesse a conservação dos nichos existentes junto às estradas nacionais em conjunto com a reparação destas. A conservação das restantes competia às Autarquias Locais e Juntas Fabriqueiras, podendo o estado comparticipar através do Fundo de Desemprego.

1.ª Fotografia - Alminhas junto à estrado do Seixo de Manhoses.
2.ª Fotografia - Alminhas em Lodões.
3.º Fotografia - Alminhas na base de um cruzeiro em Vilas Boas.