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11 março 2012

A história do dia

A história do dia decorrido foi contada pelo homem sentado à mesa do café. O papel aceitou as palavras e o cigarro apagou-se. Calma sem mentiras invadiu o recinto e não houve quem dissesse miséria.
Chegou o cão e quis carícias. O homem baixou a mão esquerda e passou-a pelo focinho e pelos olhos e pelo corpo daquele ser que chegava atraído pela solitária figura do homem ali sentado, que viera de longe, daquele lugar que fica para lá das montanhas e parece diferente; deixou tudo o que escutava e dizia palavras eloquentes e veio sem saber por entre nuvens; o Sol rompeu finalmente e nos rostos dos companheiros de viagem nada se modificou: estavam mortos.
Agora, o cão adormeceu debaixo da mesa. Todos se vão embora e ficam os dois, esquecidos, dormindo.
A história está escrita e só necessita de ser apreendida para que um grito soe, longínquo.
As conversas são finalidades implicadoras com a hora de adormecer e no cinema muita gente boceja. A fita é pouco divertida, embora lhe tivessem dado os prémios que os cartazes anunciam.
Há quem tenha remorsos, mas continue a encarar a vinda do Sol como uma passagem diária. Então, a Lua fica escondida, tão envergonhada e triste que pede caridade às nuvens. E elas sentem o dever de não lhe descobrirem as lágrimas e vão por caminhos indirectos até ao fim da noite, sempre cuidadosas e macias. Descobrem, por fim, que já não existem faces cavadas pelo sofrimento alheio, e choram.
A história espera. O cão dorme. E o homem também...

Do livro Libelo Acusatório, da autoria de Modesto Navarro.
A primeira edição deste livro aconteceu em 1968, pela Prelo Editora, e a segunda em 1999 pela Caminho.
Fotografia: Oliveiras, em Roios.

26 dezembro 2011

Na vila


Na vila, os fumos grandes sobem das chaminés. Para além do choro silencioso de Eduardo, mais uma vez a sentir quanto perdera o filho, quanto se perdera, há essa memória crescente, de envelhecimento, ou de maturidade, primeiro. Há as casas, as velhas casas que eram conhecidas de madrugada e à noite, na amplitude do tempo que não corria, tão sólido se mostrava; nas horas de trabalho, na tarde que caía e deixava esse torpor do cansaço.

Extrato do Livro Mulher desaparecida a Sul, da autoria de Modesto Navarro. Este romance foi publicado em 2008, pela Edições Cosmos.

08 dezembro 2011

A forja

O ruído da oficina cresce. A vila está sob uma furiosa tempestade de neve e os homens desocupados vêm meter-se na forja. Está calor, dentro das paredes de madeira. Mário deita mais uma pá de carvão e aviva o fogo com a escopeta.
- Sei fazer isto - diz, tossindo. É um velho marinheiro que estoirou os pulmões a provar que era capaz de ficar tempo imenso debaixo da água, nos poços. Vem de casa, na curva do Moutinho, até à oficina. Entra na forja e toma conta do fole. Tem setenta anos e só espera um caldo e mais qualquer coisa, à hora do almoço. Substitui Francisco, que aproveita para ir estudar. O martelo de forjar continua a dança, no fino som do cavalete. O malho entra, Eduardo sabe como há-de acompanhar o mestre. Este canta. Está ali para dirigir o trabalho e tudo corre bem. Portanto canta, durante a manhã de neve violenta. Os homens acumulam-se à porta, são agora quatro, e olham gulosos para o lugar que o velho Marinheiro ocupa. Este não dá descanso ao pau do fole, que sobe e desce com rapidez estonteante. O ferro aquece,
quando sai do fogo da forja parece ir desfazer-se.
- Mais devagar - diz o mestre -, senão, não acompanhamos o ritmo.
Marinheiro deixa descer o fole, uma massa de couro e madeira, tudo preto do pó do carvão, atrás da parede da forja e do fogo.
Mestre usa a talhadeira e os ponteiros, faz os cortes e os buracos devidos. Eduardo aprende e olha para longe, para o céu escuro e brutal, sem ver a tempestade que se abate. É apenas o desenho do sonho, o romance que se escreve lá longe, algures, num mundo de mais sofrimento e dor.
Mas os homens, cá fora, não entendem o seu olhar. Nem o adivinham. Sabem apenas que o mau tempo torna mais difícil ganharem a jeira. O dia está perdido, a somar-se a outros. Nem se atrevem a regressar a casa, ao fundo da vila, à Portela grande,
de ruas estreitas e calor nas vozes das mulheres que gritam, já não às crianças, mas ao seu desespero duradouro. É isso que Eduardo entende, finalmente, cá de longe, quando escreve cartas ao filho e volta a memorizar o passado, esse doce regresso de uma noite à porta de casa, quando as mulheres inventavam histórias para as crianças, até elas adormecerem e deixarem de ter medo do escuro.

Extrato do Livro Mulher desaparecida a Sul, da autoria de Modesto Navarro. Este romance foi publicado em 2008, pela Edições Cosmos.
A fotografia da forja é em Pinhal do Norte, concelho de Carrazeda de Ansiães.
A da Travessa da Portela é na Portela, em Vila Flor.

12 outubro 2011

Libelo Acusatório - XXXII

 "O pisar as uvas queria dizer novas emoções. Os rapazes bebiam um copo pequeno da aguardente a fazer no alambique e pisavam, pisavam, cantando e rindo.
Uma noite, o Roberto chegou com a sua perna aleijada e quis pisar uvas com eles. O médico dissera que fazia bem à paralisia e ele queria curar, até perder a vergonha de passar na praça, manquejando e vendo risos nos rostos dos que estavam parados.
Entrou para o lagar e pisou as uvas com gana, esquecendo que era aleijado, que os rapazes riam, pensando no dia em que jogaria futebol como os outros, correria atrás de ilusões e deixaria de chorar às escondidas.
E toda a noite pisou uvas, cantando como sua mãe lhe ensinara, canções que ficaram marcadas nos ouvidos do homem que fazia aguardente e que sentiu tanta amargura a ponto de beber o líquido adocicado para ouvir melhor aquela voz trazida pela angústia do dia que nasce e não é para todos, das sombras nos pensamentos, da ventura egoísta dos outros. E do desprezo que o Roberto começava a sentir por quem não o merecia sequer.
Só não desprezou as uvas que se esmagavam debaixo do seu pé torcido e lhe diziam que haveria de curar e, mais ainda, que ele não era aleijado mas sim os outros, os que riam quando ele passava manquejando.
E, quando de madrugada saiu do vinho mosto, sentiu que estava curado."

Excerto do livro Libelo Acusatório, da autoria de Modesto Navarro, Publicado em  1999 pela Caminho. A primeira edição desta obra foi em 1968, pela Prelo Editora.

A fotografia foi tirada em Seixo de Manhoses, numa manhã de vindima, na Quinta de Valtorinho.

13 outubro 2009

Ir à Terra

Outro dos livros que me acompanhou este Verão foi "Ir à Terra",  de Modesto Navarro. Trata-se de um livro de poesia, com 105 páginas, que se lê rapidamente. É necessário voltar ao início e reler tudo com calma. Este escritor tem uma forma própria de escrever. Fala da pobreza, do trabalho, das mulheres que se vendem para viver, sem rodeios, com uma linguagem que pode chocar. Os poemas retratam essencialmente situações do dia a dia, algumas em Vila Flor, outras noutros locais. 
O livro foi editado pelo autor em 1972 e distribuído pela Dina Livro, Lda.

Transcrevo um dos poemas que mais me agradou, chamado Ida e Volta.

Quem abandona o deserto
por certo
que não é desertor

Quem abandona o deserto
e sente
esta dor

Este campo abandonado
este destino incerto
e o patrão cercado

Quem abandona este deserto
parte certo
para o incerto

Quem abandona este deserto

Quem abandona este deserto

Quem abandona este deserto

Volta ao deserto
gosta do deserto
ama o deserto

Quer ter o deserto transformado
em troca do destino
incerto
As fotografias foram tiradas em Freixiel, uma no vale do Pelão e a outra perto da forca, em Setembro de 2009.

16 agosto 2009

Descrição


Assim, com as mãos na água, as mulheres lavavam roupa, e discutiam;

Tratava-se da tarde, ainda tarde, o sol descia para os lados da vila. Ninguém podia objectar que a noite caía sem o conhecimento de milhares de outras; eles regressando da terra, aí por baixo, pela volta dos tristes, pela estrada
de Sampaio, e de Roios;

Tratava-se da vinda do campo, depois do dia de trabalho; as charruas com terra, as mãos
habituadas;

Entretanto, juntava-se gente na praça; quem estivesse no Rossio, ou mais para o fundo da vila, sabia-o; juntava-se gente às portas, alargava-se
o falar;

E a noite caía. Era mais uma. Cai assim, ensombrando as pedras escuras, as vestes
os homens, as mulheres. Uma e outra, mulheres vergadas depois da carga
do dia;

À porta do café, na praça, um dos patrões da vila;
tal como há dez anos, apenas um pouco mais velho;

À porta de casa, cada emigrante
os que chegaram a casa.

De Modesto Navaro, "Ir à Terra"; Edição do autor, 1972.

18 janeiro 2009

Missa d'alva

"Levanto-me muito cedo e venho sempre à missa d'alva. Visto o casaco e por aí caminho eu, desde a quinta lá para os lados de Sampaio, e venho a pé, que remédio!, pois não se ganha para trazer um machito do meu genro, vai todos os domingos trabalhar com eles, só quando precisam de ferraduras é que trago um, mas gosto de vir por aí acima, olhar para as oliveiras em flor ou com o fruto já, ou então na época das colheitas, é um regalo ver o trigo e o centeio curvarem-se no ar da manhã, a darem os bons-dias, parece até que as espigas se conhecem e se debruçam umas para as outras a falar das vizinhas, e os pardais já começam a chilrear, deixá-los governar a vida, também precisam de comer, oxalá se fiquem por estas searas que são de quem pode com o desgaste e não vão para as nossas, que têm de dar para o ano inteiro e já é um pau se houver pão à fartura.
Hoje é que me esqueci de me levantar cedo, mas a verdade é outra, o reumático aperta comigo e as manhãs estão frias de mais, embora seja bonito ver as azeitonas tão pretas que é um regalo, a geada também é linda, põe tudo branco, tal qual os cabelos dos velhos como eu, mas é fria e o vento atravessa os ossos, de maneira que me levantei tarde, comi pão com queijo, bebi um copo de vinho e vim por aí acima, devagar e com os joelhos aos estalos, mas vim. Não queria faltar à missa e havia outra às onze horas, mas cheguei cedo e meti-me na taberna do Albino, onde encontrei o Daniel, e copo puxa copo, palavra puxa mais conversa, ali me entretive até quando só faltava um quarto para as onze.
Quando saí para o largo da igreja, vi muitos carros parados e outros que chegavam e senhoras a saírem todas embonecadas, e outras ainda, a passarem muito bem vestidas, algumas de chapéu, muito pintadas!, e mal podiam andar nos sapatos de tacão alto, e vi mais aquela rapaziada, de gravata à porta da igreja, a ver passar as mulheres, toda a gente fidalga!, e eu fiquei embasbacado com tanta vaidade, porque os conheço a todos e sei que muitos não ganham para aquilo, onde irão buscar o dinheiro?, pensei cá para os meus botões, e fugi, esqueci os joelhos que estalavam com o reumático e vim para a quinta, pois aquela missa não era para mim, Deus me perdoe!, para o domingo que vem levanto-me cedo e vou à missa d'alva, essa sim, é para os pobres."

Texto retirado do livro "O Coração da Terra"(Caminho, 2006), da autoria de António Modesto Navarro. Mais um escritor vilaflorense que este blogue divulga com muito gosto.