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23 fevereiro 2026

João de Sá - 14 anos

Entre memória e presença

Sou como um rio que regressa à fonte
E se queda a narrar lendas das margens:
Os rápidos e a espuma das viagens, 
O que se esquece sem que alguém o conte.

Ninguém foge do cárcere da infância.
Conto e reconto, assim, a mesma história:
A do rapaz no cerco da memória,
Em espirais de som e de fragância...

Nada morreu, nem cal, nem a penumbra
Talvez porque maior do que a própria tarde.
Tudo passou nesse retrato grave
Onde o passado é canto que ressumbra...

Que lindo o odor do barro junto à mina.
Só no que permanece o grão germina.

Poema de João de Sá, do livro "Flores para Vila Flor", 1996.
João Baptista de Sá, nasceu em Vila Flor, a 7 de Novembro de 1928.
Faleceu a 23 de Fevereiro de 2012.

07 novembro 2023

Cartas de longe

Levantei voo à hora em que as estrelas 
Emergiam do escrutínio da lonjura...
Não medi, nem distâncias, nem altura,
Todo eu era olhar, a recebê-las.

Em mim brotou o êxtase de vê-las,
De sentir, bem cá dentro, a tessitura 
Dessas gotas de água alada e pura,
Movido pelo medo de perdê-las.

Vi-me vogar numa amplitude de opalas
De secreto fulgor, quase a tocá-las,
Fendendo o insondável do seu véu.

Mas para além, havia outros espaços,
Das minhas asas só ficaram braços,
E, do meu voo... só restou o céu!

Poema de João de Sá, do livro "Flores para Vila Flor", 1996.
João Baptista de Sá, nasceu em Vila Flor, a 7 de Novembro de 1928.
Faleceu a 23 de Fevereiro de 2012.

23 fevereiro 2023

A velha praça



A velha Praça começava
Onde findava
A nossa inquietação.
Varandas engalanadas
E janelas sempre acesas.
Harpejos de comoção
Libertados dum piano,
Na branda respiração
Das tílias quase apagadas
No crepúsculo de Verão.

E nós a vermos os outros.
Sobretudo a vermo-nos passar
Desde o começo do mundo,
Tentando dissimular
O abismo mais profundo,
Com um candil de luar.

Poema de João de Sá, do livro "Vila à Flor dos Montes", 2008.
Fotografia: Praça da República, em Vila Flor, antes do último arranjo urbanístico. 

João Baptista de Sá, nasceu em Vila Flor, a 7 de Novembro de 1928. Faleceu no dia 23 de Fevereiro de 2012, em Lisboa.


07 janeiro 2023

Vento (João de Sá)



Ó este vento que me torce a alma,
Olhando as chamas, no espaldar do escano,
Tecendo o tempo em fios de ano e ano,
Voraz caruncho que ninguém acalma.

Volúvel, este vento amanhecendo...
Corte de longe em coração cigano.
Breve pausa de engano e desengano,
Clamor que me estrutura, corroendo...

Fecho o livro que lia. O impossível
Avantaja-se e torna-se audível,
Mas nada se aproxima que transgrida:

O bater duma porta, uma telha
Partida, vozes, passos numa quelha,
Seja o que for que arremede a vida!

Poema de João de Sá, do livro "Vila à Flor dos Montes", 2008.
Fotografia: A caminho da Ribeirinha, na Quinta da Peça.


01 janeiro 2023

Caminhos (João de Sá)

Que todos os caminhos que descubro
Me descubram também, e neles encontre
Uma fimbria longínqua de horizonte
Desenhando, a névoa, um céu de Outubro.

Das auroras de Agosto o gesto rubro
Se torne voz, me acalente e conte
A odisseia dessa velha fonte
Que emudeceu e nunca disse tudo!

Buscai-me nos caminhos. Sou o monge
Que vem não sabe donde, mas de longe...
Trago textos no olhar, parai e lede.

Eu sou o viajante e a viagem,
Latejo de seara e a própria aragem,
A frescura da água e o ardor da sede!

Poema de João de Sá, do livro "Vila à Flor dos Montes", 2008.
Fotografia: Caminho para o Santuário da Nossa Senhora dos Remédios, em Vilarinho das Azenhas

26 janeiro 2021

e de repente é noite


Faz alguns anos que comecei a partilhar o livro  "E de repente é noite", do ilustre vilaflorense falecido em 2012, João de Sá. Nestes dias de confinamento, em que o tempo parece que nos sobra, chega-nos para fazermos viagens musicais, de imagens e palavras que preencheram os nossos dias, num passado mais ou menos longínquo. E, no quente da lareira, ao ritmo da chuva que ora quer cair, ora se envergonha, os sentimentos emergem e dão-nos alento. Saibamos aproveitar estes dias para nos (re)encontrarmos, porque a loucura em que vivemos dá-nos poucas hipóteses.




INDICE
Faço isto em nome de um fogo distante
É para reavivar as obliquas luzes da memória
Dizer os ventos que atravessaram
Por onde caminhamos é o dia
Quem deu nome a esses espaços
Fixa a mão o que Junho não foi
Nos vasos do coração
Não tem nome a barca
Demoro-me sob as romãzeiras
Não me despertes para o festim
A cidade rarefaz-se ao longe
Estão por lá, bem sei, todas as palavras
Que os instantes do dia
Deixai a criança sentada no granizo
A impetuosa deambulação do álcool da escrita
Acenas-me de longe
Onde estavas tu no início desse verão
Saber como são breves
Em Maio os campos acendiam-se
Sabíamos a alba uma tela branca
Havia um poço
Todos desapareceram
Sei que o corredor me levava
A charneca de yorkshire aberta
Os ventos afinam os violinos dos choupos
Ficar em paz com as coisas
O sol atravessado pelas sombras
Vou pelo assombramento de quartos e salas
É dorido o canto
Ardem pássaros nos olhos dum rapaz
Basta um caminho
Já ninguém lembra o que sobrou de nós
Os teus passos são ímpetos entardecidos
Não é sono nem desmaio nem esquecimento
Segredos de obscuros cristais
Que o gume das colinas
Não aceites a morte, mãe
Outra vez o serão
Nunca disseste que virias
Uma vereda de desassossego
Passei por ti como luz branda
Sentemo-nos na soleira da porta
Pousaram nenúfares na água do teu peito
Ergue as palmas de um saber feito
Que mãos sacodem velhas ferrugens
Que realidade procuram surpreender
Não reduzas tudo a esquadria e pedra
O tempo pousa-me nos dedos
Andei perdido por caminhos ínvios
Vou aparelhar as tábuas do barco

João Baptista de Sá, nasceu em Vila Flor, a 7 de Novembro de 1928.
Faleceu a 23 de Fevereiro de 2012.

07 novembro 2015

Deixa falar o silêncio

Foi para ti, quenquer que sejas, que se aformoseou este recinto.
Superaste até o atingires, o cansaço da subida.
Convido-te a um instante de recolhimento.
Bem mereces uma pausa de harmonia interior.
Não procures palavras, deixa falar o silêncio.
João de Sá

Completou-se mais um aniversário do nascimento do grande poeta vilaflorense João de Sá. Para lembrar a data subi ao miradouro. Deliciei-me com as suas palavras e com a paisagem vibrante numa hora de sol num dia de nevoeiro.
Vaguei pelas capelinhas e senti que João de Sá estava lá, no coloridos das folhas, nas gotas do orvalho da manhã, nos cogumelos que crescem no humus e no melro azul que guarda os rochedos. Quantas poemas João de Sá terá recitado a esta ave solitária?
Deixei que o vento me sussurrasse alguns versos ao ouvido e prometi voltar mais vezes para lhe fazer alguma companhia.

22 setembro 2015

e de repente é noite (XXXVII)

XXXVII
Não aceites a morte, mãe,
recusa-a em consonância
com o coração da terra.
sê a firmeza
daquela rocha lilás
onde o vento inutilmente
se esfacela.

XXXVIII
Outra vez o serão.
O piano perfurando
a densidade do tédio.
Estilhaços do temporal
da tarde
perseguindo o voltear
dos zilros.
Ah o perfume da serra
roendo-nos os zincos da alma.
É urgente uma jaula
de esquecimento
para este grito.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Trabalho com base num jovem sobreiro fotografado em Benlhevai.

18 setembro 2015

e de repente é noite (XLVIII)

O tempo pousa-me nos dedos,
sugerindo aquele esbelto pássaro,
à tarde, hirto em tuas espáduas nuas.
Uma maré de crisântemos ritma
a tua impaciência em desejares
que seja no teu peito
que os braços se encontrem com o mar.
Em Março, no adro da capela, minhas tristezas
florescem acácias amarelas
e perpetuam-se na vibração dos sinos.
Um estranho toque
vem despertar setembros
de cachos de uvas suspensos do tecto,
na frescura das salas,
listando o espaço de tons mansos
como quem tece casulos de calor
para vencer o inverno.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Cume do Facho, após um incêndio.

11 setembro 2015

e de repente é noite (XLVII)

Não reduzas tudo a esquadria e pedra.
Há sempre uma criança
em nosso horizonte de altas velocidades,
um ninho vazio nas mãos,
delgado corpo de aldeia à hora da sesta.
E o carvão de uma imensa noite
subindo pelas fontes onde correm
nossos terrores de caudaloso magma,
ávidos do centro
de um círculo perdido.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Miradouro, em Vila Flor.

23 fevereiro 2015

e de repente é noite (XL)


Uma vereda de desassossego
abrindo o vale onde, inesperadamente,
o ocaso se agitava
decalcando a cauda de um cometa
para lírios de lava
consagrados a futuras noites de insónia.
À luz avara da clarabóia
vadiavam dias de Fevereiro
por se sentirem sós no abandono
do sótão de que nunca demonstrámos
o embruxado teorema.
Fingíamos desconhecer os amanhãs de caliça
que desciam sobre as nossas cabeças
e nelas se instalavam.
E o crepúsculo tinha o dom de apurar
a trajectória dos projécteis
contaminados de melancolia.

João Baptista de Sá, nasceu em Vila Flor, a 7 de Novembro de 1928.
Faleceu a 23 de Fevereiro de 2012.


07 novembro 2014

e de repente é noite (XLV)

Faz hoje anos que nasceu em Vila Flor o escritor João de Sá. Como tem sido uma fonte de inspiração deste blogue quase desde o momento da sua criação, esta data não podia passar sem mais um pequeno poema de sua autoria.
Tenho andado a publicar excertos do livro "E de repente é noite". É uma escrita bastante triste, mas ao mesmo tempo bela e cheia de interrogações e sentimentos. Quando terminar de publicar o livro completo, prometo partilhar excertos de outros livros.

Que mãos sacodem velhas ferrugens
nos gonzos dos portões da quinta?
Será por ti o vento ou pelo que nós dois
ocultámos de contornos de medos
soletrados por inamovíveis angústias?
Uiva um cão dentro de uma noite
antiquíssima, tão antiga
que sua existência se nos afigura duvidosa.
E não há razões claras que absolvam
a solidão de nos ferir por tantos caminhos
que negámos à convergência dos nossos destinos.
Agora as rotas apontam aos umbrais da demência
e só a rotação dos teus olhos persiste
em desenhar o ciclo do trigo.
Tudo isto te digo embora experimente
uma fadiga expectante de tintas
em quadro concluído.
Se me ouvisses neste instante,
talvez nos absolvesses
e culpasses os ventos e a noite.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.

João Baptista de Sá, nasceu em Vila Flor, a 7 de Novembro de 1928, filho de D.ª Maria Vicentina de Sá Correia, natural de Vila Flor, e de João Baptista Lopes Monteiro, natural de Carrazeda de Ansiães.

12 junho 2014

e de repente é noite (XXXV)

Segredos de obscuros cristais
que as traves dos anos preservaram.
Voracidade das ondas nos bolsos
para, às braçadas,
nos acercarmos da alma.
A aparição de um precário abrigo
no aroma ressuscitando as tílias
na praça junto à escola
de giz e ardósia e fingidas palavras
por tudo mostrarem ocultando tudo.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia:  Escola Primária de Alagoa

04 junho 2014

e de repente é noite (XXIX)

É dorido o canto
estrangulado na garganta da tarde
acentuando a irrealidade do real.
Nascem sobressaltos
dos estalidos das madeiras velhas.
Debruçamo-nos no poço
e só a nós ouvimos,
do sorriso das guardas
ao soluço dos fundos.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Pôr do sol - Facho/Vila Flor

29 maio 2014

e de repente é noite (XXVI)

Ficar em paz com as coisas.
Redescobrir-me no rumorejar
branco das amendoeiras.
Inscrever na cortiça dos anos
a leveza das primeiras verdades.
Atingir a serenidade
das pedras aguçadas
pelos crepúsculos longos.
Saber que cada cidade
é uma falha humana irreparável
e que esta sede
só a sede a dessedenta.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Flores de amendoeira.

23 maio 2014

e de repente é noite (XXV)

Os ventos afinam
os violinos dos choupos
com o diapasão dos rios.
E o mesmo abalo
que emudeceu a floresta
silenciou os seus lábios,
por excesso de claridade
em todo o corpo.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Vila Flor

16 maio 2014

e de repente é noite (XXIV)

A charneca de yorkshire aberta
até ao campanário do presbitério.
As nortadas fendendo os muros da herdade.
E a minha esperança que um alto poder
me devolva a sua figura branca
no escuro da cancela. O lenço de seda
flutuando nos pêndulos de luz
dos seus cabelos. A finura dos lábios.
As violetas em redor dos olhos.
Onde estarão, na primavera,
os ventos uivantes no grafismo da neve?
Onde estarei eu de há cinquenta anos
colhendo, até ao fim da noite,
as rosas pressagas do seu jardim
transfigurado em livro?

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Castanheiros em Benlhevai.

09 maio 2014

e de repente é noite (XXIII)

Sei que o corredor me levava
ao nicho da imagem
que de luar cristalizado
se fizera.
Ali findavam
meus ardentes périplos
alvorejando, na glicínia,
arcos de invisíveis primaveras.
Era tudo mais distante
que as palavras.
Onde recordo incendeiam-se grutas
diante de quase nada:
um queixume num recesso de tédio;
o aroma, o rumor
de um fruto sobre a terra.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.

02 maio 2014

e de repente é noite (XXII)

Todos desapareceram.
Já ninguém à porta me recebe,
neste instante de cardos.
Só um cortejo de espectros
se move, lento, nas mais densas trevas.
O olhar mudo das paredes.
Sua estranha forma de gritar o silêncio.
A cal esboroada ainda com vestígios
de tantos olhares mortos.
Minha mágoa nos ombros,
porque pressinto neles um vaguear de mãos
encaminhando-me seguramente
através do velho casarão.
Quero culpar alguém deste vazio,
medir minha revolta com qualquer ira divina,
mas só o vento me responde outras perguntas
que mais queimam e ferem,
de uma distância de nuvens.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Vila Flor

26 abril 2014

e de repente é noite (XXI)

Havia um poço
de água muito fria
e seus perenes avisos
de obscuridade.
Havia uma bica de bronze
onde pousava a boca
sem ter sede,
só por nela teres bebido.
O dia anunciado
nas fendas da janela.
Fragrâncias matutinas
no voo dos primeiros pombos
a branquear o dia.
E um súbito encantamento
em nossos peitos:
um vulcão de sonhos
mais alto que a manhã.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Albufeira do Peneireiro