27 julho 2015

Rotunda

"Em tempos que não vão longe, descia do Gavião, bolsa atravessada. Do alto do povoado, com a corneta de local delido, juntava, pelo eirô, os interessados em notícias.
O acto rotineiro acertava a aldeia sem relógio de campanário.
- Co...rrei...o...o!
A penúltima sílaba era sempre longa, atirada com o fôlego de alegria cheia. Quer em dias de casa, aborrecido; quer em manhãs de primavera; ou na ventania agreste do outono esvaecido, ou pelo inverno triste com palmos de nevoeiro.
- Dê-me um de dez tostões!
- Vosselência não tem nada hoje!
- Hoje, não, não pode ser sempre. Remate ao sebastianismo ingénuo do seu faminto rebanho.
Vivia todo preso àquele seu mundo. De graça, dava boas novas, de graça, entregava notícias más.
Se ele soubesse o que oferecia , às vezes, dentro de um sobrescrito, não daria a ninguém novas de sofrimento.
- Espere aí, pegue lá um copito, é p'ró caminho!
- V, então, depressa e eu é que lhe agradeço.
- D'hoje a um ano!
- E o senhor que os conte...
Na horta do portão, naquela tarde dos pássaros não cantarem, pousou a cabeça, duas pedrinhas e, de borco, sorveu dois tragos fundos da fontela.
- Tu não vens bô, home!
- Que é que vocemecê tem, meu pai?
- São uns frios, isto não é nada!
- Vamos ainda pôr as batatas?
No outro dia, a corneta não se ouviu no povoado. Depois, e depois... e sempre, foi outro de semblante mais triste. O povo não gostou.
Já não se ouvia a corneta do alto da sua aldeia."

Poema de Nascimento Fonseca*, publicado no jornal Enié  a 15-10-1975.

Fotografias, pela ordem: Aldeia abandonada do Gavião; Vista parcial da aldeia do Nabo; paisagem em direção ao vale da Vilariça, a partir de Vila Flor; marco do correio existente na Praça da República em Vila Flor.

*José do Nascimento Fonseca nasceu no Nabo a 22-12-1940 e faleceu a 27-07-1983.

22 julho 2015

Freixiel - 500 anos do foral

No passado dia 19 Freixiel esteve em festa. Comemoraram-se os 500 anos da atribuição do foral por D. Manuel I com um conjunto de atividades variadas que encheram por completo o dia e que transportaram os locais e os visitantes para outra época, relembrando a importância de Freixiel como vila e sede de concelho.
Ao início da manhã a Banda Filarmónica de Vila Flor anunciou a festa. As pessoas foram-se concentrando no Largo do Pelourinho para o lançamento do livro "Forais de Freixiel", da autoria de um filho da terra, Cristiano Morais, com patrocínio da Câmara Municipal.
O salão utilizado foi pequeno para tanta gente, o que mostrou que a cultura também têm procura.
A mesa integrava o Presidente da Junta, João Garcia, o Presidente da Câmara, Eng. Fernando Barros e o autor, Cristiano Morais. Estiveram também presentes todos os vereadores da Câmara Municipal.
Na apresentação do livro o autor lembrou algumas datas e momentos marcantes na história da aldeia/vila de Freixiel. Em 1055 aldeia foi integrada em Ansiães mas em 1195 subiu a vila, sede de concelho a que pertenciam também Mogo de Malta, Folgares, Pereiros, Codeçais, Candoso, Vieiro e Sarzeda. A carta de foro foi-lhe atribuída por D. Sancho Fernandes, Prior do Hospital. O segundo foral foi dado por D. Manuel I em 1515. O concelho foi extinto em 1836, por Passos Manuel.
 Outro episódio marcante foi o incêndio que consumiu bastantes casas e que deixou algumas famílias na miséria. Não foram as tropas francesas que invadiram Freixiel, queimaram a rua e picaram os brasões do pelourinho (como reza a tradição). A história parece ter sido bastante diferente. Foram soldados castelhanos que desceram a Freixiel, vindos dos arredores de Samões, exigir vinho para os soldados. Como não viram cumpridas as sua exigências usaram a força, saqueando e incendiando.
Na opinião de Cristiano Morais não faz qualquer sentido continuar a designar Freixiel como vila. Só no actual concelho de Vila Flor estão nas mesmas circunstâncias Vilas Boas e Sampaio.
Também foram lembrados acontecimentos mais recentes, como o encerramento da escola de 1.ºCiclo no ano lectivo de 2014-2015. O futuro da aldeia em termos demográficos não é nada animador.
Se o futuro é incerto, o passado é rico e necessita de ser estudado, preservado e mostrado aos visitantes e às gerações futuras.
Cristiano Morais diz ter em seu poder um espólio considerável, com origem no "castelo" de Freixiel, que gostava de ver cuidado e exposto. Lançou à autarquia o desafio para a criação de um espaço, Casa de Memória, que poderia resultar do aproveitamento da antiga Escola Primária. O repto teve um bom acolhimento, pelo menos no que toca à ideia e ficamos expectantes quanto a desenvolvimentos futuros.
Depois de autografado o livro lançado foi oferecido a todos os presentes.
No edifício da Junta de freguesia foi descerrada uma placa evocativa da comemoração dos forais de Freixiel.
No programa segui-se uma cerimónia religiosa, com a celebração da missa dominical.
Ao início da tarde a aldeia começou a ganhar ambiente de festa com muitos visitantes a chegarem e a associarem-se às comemorações. Começou a sentir-se o cheiro a comida, com a sopa de pedra a ser confeccionada numa panela de ferro, na fogueira, destinada a aconchegar o estômago mais ao cair da noite.
As personagens do Desfile Medieval vestiram os seus trajes. O som da gaita de foles e respectiva percussão dos Gaiteiros das Terras de Miranda alegravam o ar.
A concentração aconteceu junto ao adro da Igreja Matriz. Organizaram-se os diferentes "quadros" representativos das várias classes sociais da época. O grupo Filandorra - Teatro do Nordeste  coordenava o processo e davam um toque de profissionalismo aos grupo de actores improvisados, habitantes de Freixiel que quiseram ter um papel mais activo nas comemorações. Ao cortejo juntaram-se também os elementos do Rancho Folclórico de S. Domingos (Gravelos -Vila Real), presença surpresa, mas bem-vinda, para dar mais brilho à festa.
A Rua Grande e a Rua do Concelho assistiram, surpresas, à passagem de soldados, nobres, clérigos, bobos e populaça, num cortejo longo e animado.
Depois de uma passagem pela Rua Nossa Senhora do Rosário e Rua do Moinho, o cortejo regressou ao Largo do Pelourinho. O povo queria espectáculo e foi isso que aconteceu. Os espectadores distribuíram-se em redor do largo do Pelourinho e a base deste serviu de palco para a leitura do foral pelo arauto e sua entrega aos homens bons.
O grupo de teatro apresentou alguns quadros medievais que despoletaram espontâneas e prolongadas gargalhadas a novos e a menos novos, a quem o sol quente da tarde não afastou. Tive pena de não ter visto a representação do "caldo de Pedra com pão, vinho e carne assada".
Actuaram, depois, dois ranchos folclóricos: O Rancho Folclórico de Freixiel teve uma actuação original, com os seus elementos envergando trajes medievais ("inovação" que não foi bem aceite por todos!); o calor não foi entrave para que o rancho folclórico visitante mostrasse as suas danças com muita genica e alegria. As danças terminaram ao fim da tarde com os dois ranchos a dançarem juntos com a população.
A festa mudou-se para o Largo das Fontes. O local foi bem escolhido. Já estava completamente à sombra, é um espaço verde, bonito, com duas fontes, uma delas muito antiga (fonte de mergulho).
Entradas com chouriço e queijo, seguidas de carne assada no churrasco e a tão famosa sopa de pedra, prato de raízes nada transmontanas mas que é muito apreciada. Mais do que a comida, foi o convívio, a música, a alegria, o encontro de gerações que tornou o momento num dos principais das comemorações.
Mais tarde, já com a barriguinha composta, a refeição foi terminada com belas e doces frutas da época, que só de ver apetece comer.
O programa terminou com  mais um momento musical, os Troika, um grupo jovem que animam arraiais com a sua música mexida bem portuguesa.
Foi um dia em cheio. Além do que aqui lembrei, ainda houve tempo para fazer algumas fotografias da aldeia, uma visita à capela de Nossa Senhora de Rosário, à forca e para apreciar a exposição de artefactos antigos, verdadeira viagem ao passado. Também estiveram expostas peças de artesanato de um artesão local.
Estão de parabéns todos os que se empenharam na planificação e a realização das diferentes atividades. Esta época de calor não é a mais agradável para algumas delas, como cozinhar ou vestir trajes quentes, mas todos deram o seu melhor para fazer uma bela comemoração. Acho que faltou um pouquinho de ambição, porque 500 anos só se festejam uma vez, mas para quem está de fora é muito fácil falar. Freixel e as suas gentes, estão de parabéns.

24 junho 2015

A Menina das Cravelinas e Bem-Me-Queres

«...Trepa-se a Vila Flor por estrada retorcida, de caracol... faz tonturas. Ao enfrentarmos o povoado, porém, que sensação de conforto! Aquilo não é um burgo alpestre - é um ramalhete de cravelinas e bem-me-queres no decote da serrania». 
Sousa Costa
É costume da Câmara Municipal da minha terra, por gentileza não sei se já imitada (ou já iniciada) por qualquer edilidade congénere, comunicar a todos os munícipes de mais aquela, apartados do berço pelos impulsos caprichosos do destino, os factos principais que respeitam ao seu grato efectivo de valorizações e encómios.
E não se julgue que a finalidade visada seja a propaganda da actuação dos presidentes, suas ideias, criações, méritos, realizações, como é de muito abuso por aí.
Não! O que eu sinto nos visos desse proceder simpático, é o carinho de manter unida a família vilaflorense, aconchegado ao lar, essa lareira que tem achas de pinho a arder eternamente sobre o trasfogueiro, inundando a cozinha de fumo, que faz bem aos pulmões e aos chouriços, largando choinas que nos caem sobre o capote, brandamente, estejamos nós lá ou no cabo do mundo.

É bom que não se esqueçam os nomes que mais fulgor puxaram à nossa «lis» doirada. Mas o que nos encanta, o que fica, é a resultante das forças que alindaram o nosso ninho  materno, tomando-o aprazível, donairoso, confortável, condicionando a beleza necessária a ouvirmos do Dr. Sousa Costa um elogio como o que encima este pequeno escrito e que nos foi transmitido pela vereação da Câmara da minha terra.


Com que então, o Sr. Dr. Sousa Costa foi a Vila Flor e, julgando encontrar um burgo alpestre, descobriu «um ramalhete de cravelinas e bem-me queres no decote da serrania»?!
Tocou-me Sua Ex.ª num dos meus queridos amores. Não sei se me zangue com ciumes, se me envaideça com orgulhos...
Dom Dinis teve a mesma agradável surpresa há 670 anos, e mudou-lhe o nome, transportando-o do sector das póvoas para o campo das flores. Dois artistas, dois sentimentais, dois poetas.
A minha terra, para ser bem tratada, só pela poesia. Ela é gaiata,. morena, dentinhos de cal, cabelos escudos, aroma de madressilva no colo de rosas brancas, menina do meu agrado, sempre jovem, com jóias ricas de família nos dedos afusados, adereços romanos, góticos, árabes, judaicos...
A serra, molosso de xisto e terra escura deitado entre o Facho e as Portas do Sol, abriga-a do norte, expõe-a abertamente às soalheiras do sul, tendo-a no regaço, como desvela da mãe.
Quem, há vinte anos, subisse às capelinhas, dispostas mesmo no alto, pela tenaz dedicação dum grande vilaflorense, que tem o nome indelevelmente ligado às graciosas ermidas - Manuel Álvares Pereira de Aragão - via o povoado, lá no fundo, começar na Santa Luzia, na «máquina» - nome consagrado da fábrica de moagem inaugurada pelo gigante João de Matos, da minha saudade de criança - na Rapadoira e por ali abaixo até à Portela.
Hoje, o passeante, quer se sente nos degraus da velha capela de N.ª S.ª da Lapa, fachada alvíssima, ponteaguda, seu portelo de mina à esquerda, encravada em ciclopes de rocha bronzeada; quer se encoste às capelas de Santo Antão e São Bernardino, de cúpula em pirâmide; quer se instale nos miradoiros do santuário hexagonal da Senhora dos Remédios, depois de refazer-se do esforço da ascensão, com um lenço que lhe enxugue a testa ou uma aba de chapéu que lhe desencalme o rosto congestionado, tem o grato prazer de verificar quanto a vilazinha subiu, como casas novas nasceram, num pululante renovar de gerações, vindo a fazer guarda de honra ao formoso edifício da «Domus Municipalis», padrão senhorial do concelho e da comarca, de costas no peito dos olivais da serra. A menina aconchegou-se melhor ao regaço da serra-mãe, como gata mimalha que se levanta para se acomodar mais consoladinha ao sol da graça. A menina enfeitou-se. Deitou fora os candeeiros mal cheirosos e fumarentos do seu «boudoir» e meteu electricidade; instalou lindas torneiras onde jorra água pura da serrania; tem um lindo telefone de plástico rosado e translúcido, sobre a mesa de cabeceira; e vem à janela admirar o recorte moderno de avenidas e pracetas recém-nadas, seus balaústres, suas copas redondinhas como hortênsias, seus canteiros de relva fresca, rampas, escadarias, globos de candeeiros, aqui e ali, num conjunto de apoteose surpreendente, embora um fundo suspiro lhe sacuda o peito, saudoso da sua velha praça, que era a mais bela iluminura do seu pergaminho, que era o seu coração, o seu carácter, agora fendida, imolada a um desalmado critério de urbanização!

 E a menina aparece no limiar da janelinha, mirando as lavadeiras nos tanques novos, entre olivedos e amendoais, onde cantam melros e rouxinóis, enfeitada com um ramalhete de cravelinhas e bem-me-queres entre os seios macios de adolescentes!
Quando, há anos, vim para o sul, proclamava com orgulho a minha naturalidade: VILA FLOR!
- Mas onde é que é isso?...
E a pergunta, quase constante, entrava-me como um punhal no peito apaixonado, entre estas costelas que se criaram com água da Fonte Romana e com pão borneiro da Párreas, trigo dessa terra feraz, humosa, florida, transmontana, cuja seiva me circula no sangue, como os caracteres do progenitor nas veias do filho que o não desmente.
Agora, vejo com esfuziante alegria que Vila Flor não é nome de qualquer Alguidares de Baixo, estranho na sabedoria comum dos nossos centros mais esclarecidos. Os jornais falam, a fama corre, percorre, e aponta-se o exemplo duma vila que em 20 anos se vestiu de novo, se toucou de graças,
se impõe, na escala do progresso, que afere os valores do país, de Norte a Sul.
Não conheço, por meu mal, o Senhor Dr. Sousa Costa. Mas o facto não me inibe de lhe deixar aqui o meu cartão de visita, agradecendo as palavras que dirigiu à «minha menina», cartão em que, sob o nome, apenas imprimo esta dignidade qualificativa: vilaflorense.

Excerto do livro Paisagens do Norte, escrito pelo Dr. Cabral Adão e publicado em 1954. Este livro teve uma segunda edição pela Câmara Municipal de Vila Flor em 1998 (Minerva Transmontana, Vila Real). Pode ser encontrado no Museu Berta Cabral, na sala dedicada a Vila Flor.

Luís Manuel Cabral Adão nasceu em Vila Flor a 24 de Junho de 1910 falecendo a 6 de Agosto de 1992, em  Almada, vitimado por paragem cardíaca, partiu, no dia seguinte, para Vila Flor, para jazigo de família.

23 fevereiro 2015

e de repente é noite (XL)


Uma vereda de desassossego
abrindo o vale onde, inesperadamente,
o ocaso se agitava
decalcando a cauda de um cometa
para lírios de lava
consagrados a futuras noites de insónia.
À luz avara da clarabóia
vadiavam dias de Fevereiro
por se sentirem sós no abandono
do sótão de que nunca demonstrámos
o embruxado teorema.
Fingíamos desconhecer os amanhãs de caliça
que desciam sobre as nossas cabeças
e nelas se instalavam.
E o crepúsculo tinha o dom de apurar
a trajectória dos projécteis
contaminados de melancolia.

João Baptista de Sá, nasceu em Vila Flor, a 7 de Novembro de 1928.
Faleceu a 23 de Fevereiro de 2012.


22 dezembro 2014

Cruz

A cruz
Será a Guarida
E a Luz
Da minha vida,
Eternamente...

Cruz:
Alfombra do mendigo,
Travesseiro
Que o caminheiro
Traz consigo...

Cruz:
Manto
Santo
Que alberga
Os pobres nus -
Corpos sem enxerga,
Almas de Jesus.

J. N. Fonseca*

Publicado em Esperança. Maio de 1962
* José do Nascimento Fonseca nasceu no Nabo a 22-12-1940

11 novembro 2014

Já chegou o outono

Estive ausente durante uns tempos do blogue, posso ter passado a mensagem que terminou a aventura de Descoberta do concelho de Vila Flor. Não, não terminou. Percorrer o concelho a pé, ou de bicicleta, proporciona bem estar e leva-me a conhecer, ou voltar a ver locais de rara beleza, contactar com pessoas simples mas acolhedoras e funciona como um retiro. Um retiro da vida apressada e cronometrada que quase todos somos obrigados a ter, que nos consome a vida e a paciência e da qual temos que nos libertar nem que seja de tempos em tempos.
Desde setembro muita coisa já mudou. Fizeram-se as vindimas, em que mais uma vez participei, colheram-se outros frutos e as folhas começaram a mudar de cor e a cair. Vieram as manhãs de nevoeiro a espreitar do vale da Vilariça ou ameaçando chegar a Quinta da Veiguinha  vindo dos lados da terra quente misturado com o fumo das poucas fábricas que existem mas que muito poluem. Os cogumelos este ano apareceram com força, a chuva foi muita e a albufeira do Peneireiro encheu, como há alguns anos que não enchia.
Fiz algumas saídas, sem grandes canseiras, para aproveitar os "frutos" do outono que a terra dá: os cogumelos. Não foi difícil encher uma cesta de sanchas, canários, alguns rocos e línguas de vaca. Não pode deixar de entristecer verificar que apesar de sermos cada vez menos e teoricamente mais letrados, continuamos a poluir os nossos pinhais, veredas e caminhos, despejando todo o tipo de lixo e entulho.
As últimas caminhadas, à espera de coragem para merecerem alguns parágrafos no blogue, proporcionaram mais algumas fotografias, que têm sido partilhadas no Fecebook, na página Vila Flor, concelho.

07 novembro 2014

e de repente é noite (XLV)

Faz hoje anos que nasceu em Vila Flor o escritor João de Sá. Como tem sido uma fonte de inspiração deste blogue quase desde o momento da sua criação, esta data não podia passar sem mais um pequeno poema de sua autoria.
Tenho andado a publicar excertos do livro "E de repente é noite". É uma escrita bastante triste, mas ao mesmo tempo bela e cheia de interrogações e sentimentos. Quando terminar de publicar o livro completo, prometo partilhar excertos de outros livros.

Que mãos sacodem velhas ferrugens
nos gonzos dos portões da quinta?
Será por ti o vento ou pelo que nós dois
ocultámos de contornos de medos
soletrados por inamovíveis angústias?
Uiva um cão dentro de uma noite
antiquíssima, tão antiga
que sua existência se nos afigura duvidosa.
E não há razões claras que absolvam
a solidão de nos ferir por tantos caminhos
que negámos à convergência dos nossos destinos.
Agora as rotas apontam aos umbrais da demência
e só a rotação dos teus olhos persiste
em desenhar o ciclo do trigo.
Tudo isto te digo embora experimente
uma fadiga expectante de tintas
em quadro concluído.
Se me ouvisses neste instante,
talvez nos absolvesses
e culpasses os ventos e a noite.

Poema de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.

João Baptista de Sá, nasceu em Vila Flor, a 7 de Novembro de 1928, filho de D.ª Maria Vicentina de Sá Correia, natural de Vila Flor, e de João Baptista Lopes Monteiro, natural de Carrazeda de Ansiães.

20 setembro 2014

Parabéns! Oito anos À Descoberta...

O Blogue À Descoberta de Vila Flor completou 8 anos no dia 5 de setembro. Estes anos não podem ser medidos em anos humanos, mas em em anos blogue, ilustrados pelos muitos quilómetros percorridos e infindáveis fotografia.
Não vale a pena fazer uma viagem aos primórdios dos passeios em BTT ou caminhadas pelo concelho. Está tudo aqui, basta percorrer os meses no menú da margem direita, esta é a principal riqueza do blogue... a história de oito anos À Descoberta de todo o concelho.
Vista parcial de Vila Flor desde o miradouro
Normalmente a reflexão que faço quando se completa mais um ano é ilustrada com número. Em oito anos o blogue nasceu, cresceu e regista agora um momento de declínio quer na minha dedicação à escrita, quer no número de visitantes que aqui passam alguns minutos vendo as fotografias ou lendo algumas palavras. Sinceramente, não me sinto muito satisfeito por as coisas estarem assim. O blogue é pessoal e quem mais partido dele tirou fui eu. A necessidade de mostrar as "coisas" na forma escrita, nem sempre fácil e agradável, enriqueceu-me e levou-me a aprofundar o meu conhecimento do concelho. Se não o continuar a fazer,será uma oportunidade de crescer que estou a perder.
Via Crucis - Páscoa de 2014
Apesar das reportagens menos frequentes, as caminhadas continuaram a ser feitas, intercaladas com muitas outras que fui fazendo nos concelhos vizinhos. Faltam pequenos "chamarizes" como uma nova capela a visitar, uma ponte a descobrir, uma montanha para escalar. Já estive em todos os lugares, em muitos estive repetidas vezes. O entusiasmo diminui.

Parte do tempo que despendia com a actualização do Blogue é agora gasto com a página Vila Flor, concelho no Facebook. Continuo a achar que o facebook é uma plataforma pobre, onde pouco ou nada se aprende e onde a iteração entre as pessoas pouco passa além dos "Gosto" nas fotografias. Mas é uma plataforma muito democrática, a que todos podem aceder e percorrer sem grande esforço ou aprendizagem necessária. Procurando juntar a participação de mais pessoas criei um o grupo Vila Flor - Portugal, que junta pouco mais de 600 pessoas e é já o maior dedicado ao concelho.
https://www.facebook.com/groups/vflor/
Por vezes questiono-me da utilidade ou do prazer de manter o blogue activo. O mais fácil é não fazer nada, mas nem sempre esse é o melhor caminho a seguir. Continuo a tirar muitas fotografias, a adorar percorrer o concelho, a falar com as pessoas e a apreciar tudo o que é natural, característico e tradicional, a maior dificuldade está mesmo em arranjar tempo (e coragem) para me sentar à frente do computador e ... escrever. Também me sinto um pouco incomodado quando as pessoas me cobram, "marcam-me falta", como se eu tivesse obrigação de estar em todo o lado em todos os momentos.
https://www.facebook.com/vilaflor.pt
Não estou comprometido com nada nem com ninguém. Não sei mesmo se ainda existe algum fiel seguidor do blogue, se ainda recordam o endereço ou se simplesmente cá vêm quando o motor de busca os encaminha. Por tudo isto o blogue foi e continua a ser um exercício de auto-motivação que pode terminar a qualquer momento. Enquanto isso não acontece, agradeço aos que me incentivam, aos que me convidam para os eventos que vão acontecendo pelo concelho, aos que comigo convivem e vivem, pela sua companhia, pela sua amizade e pela sua compreensão.
Ribeiro dos moinhos, Valtorno.
Este ano o aniversário também teve direita a bolo! Não só porque o dia 5 de setembro foi o arranque do blogue, mas porque marcou uma mudança radical na minha vida e na da minha família mais próxima. Queremos que cada ano seja melhor do que o anterior e começa-mo-lo em festa.
Quanto aos números, eles estão mais abaixo. Em oito anos foram mais de 350 mil visitantes! Lembro-me que fiz um vídeo para assinalar os 100 mil porque acreditei que foi um grande feito! Durante o último ano (desde setembro de 2013) tirei mais de 13 mil fotografias no concelho de Vila Flor, uma média de mais de 37 fotografias por dia! Sei que há muitos entusiastas da fotografia no concelho, mas este é um número difícil de alcançar.
Produtos da terra na Festa da Amendoeira em Flor

Números do 8.ºano:

Páginas vistas - 46 047
Visitantes - 25 995
Comentários - 26
Postagens - 50
Km percorridos em BTT - 35
Km percorridos a pé - 93
Fotografias tiradas - 13 790
Fotografias publicadas - 111
Bolo do 8.º aniversário 

Números totais (8 anos):

Páginas vistas - 724 965
Visitantes - 335 979
Comentários - 1 872
Postagens - 1 142
Km percorridos em BTT - 2 282
Km percorridos a pé (4 anos) -  845
Fotografias tiradas - 144 095

24 junho 2014

As lendas de Orelhão - Cabral Adão

"Antes do jantar, eu, o Padre Francisco Reis e o Dr. Armando Guedes (que três!) contávamos coisas, estendidos pelas escadas do patim deste ilustre médico dos Passos.
O tempo estava incerto; os desejos de todo um clamor rural pareciam ter eco nos arraiais de São Pedro, pois grossos carriIhões de nuvens baças escorriam de Noroeste, esgaçando-se nos picos de Padrela e pelos montes longínquos.
Nós estávamos à vontade, para ali recostados, fruindo uns momentos felizes da mais íntima camaradagem, eu talvez um pouco mais observador dos pequenos nadas da aldeia, que para os outros dois eram banalidades, apagadas no contacto permanente.
Era o filhito do doutor - o galo da família, como o classificou um criado, em vista de ter aparecido depois de sete irmãs, todas vivinhas e graciosas, pela bondade de Deus - que subia e descia as grades da furgoneta, parada no curral, em riscos de cair e desnocar algum osso, folestrias a que o pai provia de vez em quando, com uma das tiradas do seu glossário de transmontano rijo e expressivo: - «Vai aço!!!». Era um cachorro a entrar de roldão pelo portal adentro e a afugentar as pitas, que se esgueiravam espavoridas para os recantos das dependências, cacarejando os alarmes do costume. Era uma criadita que ía à loja buscar cebolas ou batatas ou azeitonas, morena, vivaça, jeitosa. Era o chiar dos carros de bois pelas canelhas da aldeia. e as vozes dos lavradores a acompanhar as aguilhoadas nos quartos dos animais «Ei!».

Mas a conversa animava e eu, acordado desta contemplação bucólica, espevitava-a como podia.
O Padre Francisco (Francisco Abbas, à latina) falou da sua obra. Sente-se ali um sacerdote. Ali, é no Franco, a dez quilómetros a montante de Passos, onde o forasteiro pode ver o renascimento do Samaritano.
Não estou para mirar muitos outros eclesiásticos por lentes de miopia, o que teria de acontecer se lhes quisesse conhecer as «obras», numa sabatina com este. Basta-me bem examinar esta, no seu valor absoluto, para me sentir feliz e encantado.
Há, então, no Franco, o Lar da Paróquia erigido pelo povo, sim, mas com o sopro divino que do Padre Francisco dimana. Chegou, viu e venceu a batalha da freguesia que o respectivo Prelado pôs à sua guarda. Não há ali doirados nem espaventos de culto. Há caridade, há miolo social que ele foi buscar aos jpães do Evangelho. O Padre Américo se lesse isto havia de sorrir, com certeza! 
No lar da Paróquia doutrina-se, educa-se e dispensam-se socorros aos doentes. O homem-padre construiu um belo edifício de raiz, e esforça-se para o manter de pé.
Note-se que não o faz para subir a cónego, nem para granjear importância, nem para ser valido de importantes. Fê-lo porque tem dotes sacros e quer franqueá-los aos seus irmãos em Cristo. Fá-lo porque assim entende o seu dever. Aí está: simples e claro!
A mim encanta-me duplamente este rapaz, porque foi nascido na mesma terra que me viu nascer. E passo adiante, pois o Sol a pino deslumbra muito...
O jantar estava prestes a ser servido, a avaliar pelo movimento das criadinhas com avental gomado, de laço atrás. Descrever aquele frondoso ágape, especialmente preparado para honrar o colega dos bancos da Faculdade, que o Dr. Armando Guedes não via há talvez vinte anos, seria fastidioso e atentatório do apetite de quem me ler. Diga-se apenas que na véspera, o bondoso médico e lavrador se metera na furgoneta e fora ao Porto fazer as compras para o jantar especial. Trezentos e quarenta quilómetros, ida e volta! Somos assim, os transmontanos: montanhas de dedicação.
Aproveitando uns restos de tempo, já à tardinha, com o manto de nuvens a encapelar e a lançar um pasmo de sombras nos relevas montanhosos em derredor, entretive o cavaco com a Lenda dos Corações, respeitante à região em que estávamos, e que mal delineei com citações imprecisas, mas certa na essência da tradição.
Quem se delicia a subir ao Cabeça de Nossa Senhora da Assunção, de Vilas Boas e Vila Flor, voltando-se a Oeste, vê, entre os mamelões da serra fronteira, do Faro, na última faixa do horizonte, uma vertente de mato escuro, com dois corações a par, admiravelmente desenhados. Chamam-lhe a Serra dos Corações e a lenda explica a curiosidade desta forma:

Antigamente (tempo dos godos? tempo dos árabes?) a terra mais importante da região era Orelhão, que hoje se vê logo abaixo e se chama Lamas de Orelhão. Orelhão tinha Rei e o Rei uma filha que era a personificação duma gota de orvalho caída da mais bela bonina criada nas alfombras de por ali. Tinha-a, o pai, reservado para um alto enlace, com casa nobre doutro reino peninsular. Mas a aspiração da princesinha era outra, residia na esbelteza dum simples pajem, que a requestava às escondidas, por noites de luar. 

Ora o Rei, sabendo-o, quis cortar pela raiz essa paixão impetuosa que requeimava os peitos dos dois namorados, pensando exterminar o pajem de qualquer modo. Mas uma aia fidelíssima avisou a princesinha do intento do seu Real Senhor. Então, os ardentes apaixonados combinaram a fuga e internaram-se na floresta da serra, nessa altura muito espessa e muito poética.
Dado o alarme no palácio, ordenou o Rei aos seus homens de frechas e alabardas, que batessem montes e vales até lhe trazerem os foragidos, vivos ou mortos.
Tudo correram os homens de armas, mas apenas puderam apurar que a princesa e o pajem estavam refugiados na floresta do monte, onde seria impossível encontrá-los, dado o labirinto de ramos e frondes que a mata espessa ocultava no seio.
O Rei não hesitou na solução máxima e infalível: « - Pois deitai fogo à floresta e não retireis enquanto virdes árvores de pé!».
Foi um incêndio pavoroso, que durou semanas. Os dois amantes lá ficaram, desfeitos em cinza. Mas os seus corações recebeu-os a terra, e estão gravados com notável perfeição, para todo o sempre, na serra escalvada e triste.
O «Jornal de Notícias», pela pena de não sei que articulista, narrou esta lenda há muitos anos, que me lembra muito bem de a ter lido.
Enquanto as sopas arrefeciam e espargiam pelo ar um aroma de apetites, o Padre Francisco aproveitou os últimos instantes daquela cavaqueira, nas escadas do patim do Dr. Guedes, para me contar outra lenda, que eu reproduzo mais ou menos fielmente. 

Havia uma menina, que costumava pastorear ovelhas na companhia dum seu irmão, de nome Leonardo. Comba se chamava ela e era bela como uma alvorada de Maio, esbelta como uma andorinha, boa como um cristão antigo.
Um dia, o Rei de Orelhão, cavalgando pelo monte, encontrou a pastora; apeou-se da montada, assentou-se numa pedra e pediu-lhe que o catasse. O monarca reclinou a cabeça no seio da menina e sentiu uma tal blandícia que adormeceu, enquanto ela lhe ia separando os cabelos para a operação requerida.
Poucos momentos passados, a inocente pastorinha teve um palpite nebuloso e, desviando a cabeça do cavaleiro para o lado, desembaraçou-se dele e deitou a fugir.
O Rei tivera um sonho de volúpia, em que a figurinha da pequena serrana era a vítima do impulso escandaloso que lhe alvoroçava o sangue. Então, acordou. Quando se viu só, rangeu os dentes, montou a cavalo e partiu à desfilada, em busca da menina. Prestes a alcançá-la, eis que um grande fraguedo a que Comba se encostara, se fendeu para lhe dar passagem. O cavalo, num galão, ia avançar pela abertura, mas o rochedo fechou-se e as patas do cavalo real sulcaram a pedra e lá estão ainda as marcas das ferraduras, patentes a quem as quiser ver.
O Rei de Orelhão, furioso, viu o irmão de Comba ao longe e galopou como uma flecha, para o alcançar. Usando a lança, num rompante dementado, golpeou-lhe o ventre, pondo-lhe as tripas ao sol. Leonardo jazia como morto, sobre umas carrasqueiras secas. Reunindo as forças que lhe restavam, arrastou-se até um poço que havia próximo e lavou as vísceras na água pura que dele brotava. Por favor da Providência Divina, operou-se a cura sobrenatural e Leonardo pôde levantar-se e correr em socorro da irmã.
Não desanimando, o crapuloso Rei, dos seus intentos, voltou mais tarde ao monte, acompanhado de alguns soldados, para o ajudarem na batida. Mal a pastora o divisou ao longe, deixou o rebanho e correu; correu espavorida, implorando a protecção divina. O Rei, lançando-se-lhe na peugada, instigou os soldados a alcançá-la, gritando-lhes do alto do ginete: «Agarrai-a! Agarrai-a!» Mas a pastorinha tinha asas nos pés e não mais foi apanhada.

Termina a lenda dizendo que Comba morreu em Coimbra, sendo mais tarde beatificada - Santa Comba, bem como seu irmão - São Leonardo.
Ainda hoje se pode ver o poço em que São Leonardo lavou as vísceras esventradas. Ao monte, chama-se de Santa Comba: e a colina em que os soldados perseguiram a pastora é conhecida por - A GARRAIA, topónimo derivado do grito real.
A noite viera chegando, em pés de lã, e nós subimos para a sala, onde iniciámos a refrega, que havia de ficar memorável na história da hospitalidade transmontana."

Texto retirado livro O Homem da Terra, da autoria de Luís Cabral Adão, publicado em 1986.

Cabral Adão - Síntese Biográfica