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07 janeiro 2023

Vento (João de Sá)



Ó este vento que me torce a alma,
Olhando as chamas, no espaldar do escano,
Tecendo o tempo em fios de ano e ano,
Voraz caruncho que ninguém acalma.

Volúvel, este vento amanhecendo...
Corte de longe em coração cigano.
Breve pausa de engano e desengano,
Clamor que me estrutura, corroendo...

Fecho o livro que lia. O impossível
Avantaja-se e torna-se audível,
Mas nada se aproxima que transgrida:

O bater duma porta, uma telha
Partida, vozes, passos numa quelha,
Seja o que for que arremede a vida!

Poema de João de Sá, do livro "Vila à Flor dos Montes", 2008.
Fotografia: A caminho da Ribeirinha, na Quinta da Peça.


21 fevereiro 2013

e de repente é noite (III)

Dizer os ventos que atravessaram
exíguas paisagens, iluminadas as têmporas
de incêndios difundidos
por suas longínquas combustões.
Dizer os sentimentos rebuscados
nos restolhos de ser difícil resistir
sem lhes perdoar não terem inscrito no elmo
o alarme dos nomes proibidos.
Dizer os grânulos de orvalho
que capitularam de cegueira a escoar-se
nas fachadas dos sobressaltos para
a navegação da lava à geometria
das sementes de todos os animais.
Omitir as palavras erguidas no inverno,
pendões esfarrapados, frágeis armas brancas
em nosso infindo combate com a morte.

Poemas de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Oliveira junto ao Rio Tua, em Ribeirinha, Vilas Boas.  

17 julho 2012

e de repente é noite (XLVI)

Que realidade procuram surpreender
os cautelosos geólogos ao fotografarem
as paisagens
amputando-lhes quiméricas dimensões?
É agitando luzeiros nas escarpas da utopia
que as redes se enchem com o fascínio das sereias.
E há manhãs de natal sem dezembros dentro
que transfiguram em estames de bruma
um revérbero de sol
e transformam as nossas saudades
em dolorosas estátuas de gelo.

Poemas de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Rio Tua, em Ribeirinha, Vilas Boas.  

12 junho 2012

e de repente é noite (VIII)

Não tem nome a barca.
Também o rio é só confusa lembrança.
Há um iodo endurecido, nas margens,
e um vento de cinza dissolvendo as folhas
até uma espessura de hóstia.
Ninguém conhece a extensão da ilha
pois os corvos, espantados,
sempre a ocultam
sob o negro do seu voo.
Só sabemos que vamos a caminho.
E uma vez lá, conheceremos tudo?

Poemas de João de Sá, do livro "E de repente é noite", 2008.
Fotografia: Quinta da Peça, a caminho da Ribeirinha

27 maio 2012

Ribeirinha, estação

Edifício da estação da Ribeirinha, um dos poucos espaços da Linha do Tua que ainda se encontra com vida.

09 janeiro 2012

Peregrinações - Capela de Sto António (Ribeirinha)

Quando em Setembro de 2011 fiz o balanço do 5.ºano À Descoberta do Concelho de Vila Flor, deixei no ar a promessa de completar a volta por todas as aldeias do concelho, com pelo menos uma Peregrinação.
Depois disso não fui dando muitas notícias, mas, na verdade, as caminhadas nunca pararam. Certo é que houve uma diminuição na sua frequência, quer motivada pelo facto de aos Domingos ser dia de caça, o que causa alguns constrangimentos, quer pelas condições atmosféricas, mesmo não havendo muita chuva, o nevoeiro é um forte condicionante, limitando a orientação e mesmo as condições desejáveis a quem quer fazer fotografias. Mas, durante os meses de novembro e dezembro realizei algumas caminhadas que, mesmo não sendo muito longas, proporcionaram momentos fotográficos assinaláveis que terei muito gosto em partilhar.
Foi já no longínquo dia 1.º Outubro que fiz, juntamente com o meu colega de Peregrinações, uma caminhada que nos levou de Vila Flor à Ribeirinha, na freguesia de Vilas Boas. Seguimos um percurso em parte já mostrado, em parte novo, mas que há muito que desejava conhecer. Nas vezes em que me desloquei entre Vilas Boas e o Vieiro, ou mesmo na linha do Tua, entre Ribeirinha e Abreiro, ficava por conhecer uma área bastante agreste, nas encostas do rio Tua. Confesso que tinha bastante vontade de percorrer essas paragens a pé.
Na primeira metade do percurso seguimos mais ou menos o trajeto da Peregrinação do dia 24 de Setembro, à capela de S. Domingos, no Vieiro. O dia estava muito quente a ainda se fazia a vindima das últimas uvas.
O nosso destino era a capela de Stº. António, na Ribeirinha, onde chegámos perto do meio dia. Embora o percurso seja na sua maioria descendente, passámos junto à pedreira de Freixiel ( ou de Vilas Boas), ponto mais alto de onde se vislumbram terras de além-Tua. Também podem ser encontrados muitos antigos fornos de figos.
Tal como previa, as aldeias do Vieiro e da Ribeirinha, não estão tão afastadas entre si, como pode parecer. O caminho existe, é muito antigo, mas cada vez é menos percorrido. À exceção de alguns veículos todo-o-terreno, já ninguém se aventura por estas paragens com animais de carga e os carros de tração animal não são mais de que uma imagem na memória de muitos de nós.
Há entrada do povoado há um nicho recente, penso que seja dedicado a Nossa Senhora dos Bons Caminhos. Um pouco mais abaixo fica um dos espaços mais conhecidos do "pobo", o café Luke Luke, onde se podem comer alguns petiscos.
A capela de Stº António, segundo consta uma ermida do Séc. XVII, já foi por mim visitada há alguns anos atrás. O seu interior é simples e agora até o Stº António abandonou o seu lugar cimeiro, após uma queda que danificou bastante a imagem. Embora a Ribeirinha disponha de outro local de culto, uma capela nova também dedicada a Stº António, este espaço não está esquecido, antes pelo contrário. Todos os espaços possíveis estavam cheios de flores naturais (na sua maior parte sécias).
Embora o cansaço fosse bastante e o tempo escasso, houve ainda tempo para fazer um curto percurso pelo povoado. De salientar a existência de uma fonte de mergulho, arcada, que me passou despercebida em visitas anteriores. O espaço onde se encontra foi arranjado, mas a fonte apresentava-se cheia de ervas e suja, com ar de abandono. Acredito que pouca gente passe pelo local para admirar este património, mas espero encontra-lo mais apresentável da próxima vez que lá voltar.
A nossa viagem terminou junto ao apeadeiro da Ribeirinha, da Linha do Tua. Não sequer houve tempo para visitar o sr. Abílio, grande conversador e último guardião desta linha centenária que todos os autarcas anseiam por afogar.
O regresso a Vila Flor foi feito de carro. Foi mais uma Peregrinação a um dos locais mais remotos do concelho, onde poucos vão só pelo prazer de descobrir. Mas vale a pena, porque aqui até parece que o tempo corre mais devagar!

Percurso:
Diferenças de Altitudes 422 Meter (Altitude desde 194 Meter para 616 Meter)
Subida acumulada 112 Meter
Descida acumulada 486 Meter

08 novembro 2010

Cantos da Montanha ( IV - 6)


Oliveiras, minhas árvores serenas
em jeito de prece aprisionada
onde o tempo esfriou
esquecido do nome dos lugares,
até se tornar fio invisível de luz,
possível aceno de uma brisa
que passou longe
e nem sequer nos bafejou a fronte.

Árvores firmes na terra ardente
da cor da minha infância,
ansiando gotas de água
de uma nuvem distante.
Tuas mãos líquidas deslizando
na ardência do meu corpo,
devagar, tão devagar
como a aragem da tarde
tocando o silêncio dos nossos lábios,
sem interrogarem
o sentido dos caminhos percorridos.

Clarões extintos, porque nenhum olhar
foi digno de reter o brilho intenso.
Rostos do avesso da terra.
Poemas do indizível.
Concedei-me a vossa intimidade,
esse sacro mutismo de séculos.
Tornai-me vizinho dos deuses!

Em vossos troncos me reclino.
Rugosos mapas onde os meus sentimentos
circulam como rios.
Eis-me a caminho do que fui,
a ouvir-me numa estranha língua
que não me lembro de ter aprendido.
Ramos vergados de tanto retesarem
a linha dolente, quase triste
(e tudo se apaga e deixa de existir)
entre o amor e a morte.

Poema do mais recente livro do Dr. João de Sá, Cantos da Montanha (Canto IV, 6).

Fotografia: Oliveira entre a Ribeirinha e Vilarinho das Azenhas.

28 julho 2010

A linha (que era nossa)

A minha posição a respeito da barragem que pretendem construir em Foz Tua é conhecida: sou incondicionalmente contra a destruição da linha do Tua e do vale único que ela percorre. Não me venham acenar com a bandeira do desenvolvimento ou com a bandeira das reservas de água. É apenas o interesse do grande capital mascarado de solidariedade para com o interior.
Não seria mais fácil e rentável dedicarmos alguma atenção ao que temos e que muitas vezes está ao abandono? Claro que quando as coisas estão abandonadas não dão lucro e foi isso que aconteceu à linha do Tua. Em Vila Flor todas as atenções vão para o Vale da Vilariça e o Vale do Tua está esquecido.
Há pouco tempo fiz um passeio na Linha do Tua, entre Abreiro e a Ribeirinha. Esta fotografia é uma das que tirei nessa tarde.

Para mais informações sobre a Linha do Tua podem consultar o blogue que criei e mantenho dedicado exclusivamente à Linha do Tua - A Linha é TUA.

30 agosto 2009

Meu Tua, minha saudade

Solto de paixão
Desliza o Tua determinado a …amar
As flores, o campo a natureza
As águas doces deste rio de …acalmar
Que por vezes, corre lentamente vazio
Confiando na minha chegada.
Este mar de beleza, avolumada
Intensamente apaixonado,
Num misto de esperança e enternecido
Corre o Tua de mansinho e engalanado.
A leveza da sua água é contagiante
Vai depois, entregar-se ao Douro
Oferecendo o seu mais valioso… tesouro
A natureza pura desta paisagem
Num combinado de ternura e nostalgia
Mesmo o mais rebelde dos seres… ele contagia
Até para quem o vê de …passagem.
Enquanto admiro a sua liberdade
Por entre salgueiros e olmos de …saudade

Poema: Fernando Silva
Fotografia: Rio Tua, na Ribeirinha.

27 junho 2009

Rio Tua

Agora que o dias quentes vão chegar em força, quem pode, procura lugares mais frescos e mais calmos para retemperar as forças e a paz de interior tão necessária à saúde. No concelho de Vila Flor, um dos locais onde me sinto melhor é junto ao Rio Tua. São vários os locais com boas sombras para repousar ou comer uma bela merenda ouvindo a sinfonia dos pássaros e das águas.
Na Ribeirinha, com Barcel à vista podemos encontrar todos os ingredientes necessários para uma excelente tarde à beira-rio.

19 junho 2009

Venderam o rio

Publiquei ontem algumas linhas no blogue A Linha é Tua que vou transcrever com todo o gosto para este Blogue. Ao contrário de muitos (anónimos e pessoas influentes), sempre mostrei claramente qual era a minha posição a respeito do Rio Tua e da Linha do Tua. Muita água ainda vai passar pelo que resta da Ponte do Diabo, muita vontade e muita pessoa mudar.

"Receitas extraordinárias voltaram a salvar o défice de 2008
O défice público de 2008 de 2,6% do PIB teve um contributo de 1,1% de receitas extraordinárias, o mais elevado desde que Santana Lopes foi primeiro-ministro em 2004. Sem estas "medidas temporárias", o défice orçamental português teria sido de 3,7% no ano passado, segundo se conclui do relatório anual do Banco de Portugal."

Notícia completa - Jornal de Negócios

Para aqueles que ainda tinham algumas dúvidas sobre os projectos que pretende trazer grande desenvolvimento à região, entre eles a tão badalada barragem do Tua, hoje podem esfregar os olhos e ler bem notícias como esta. O governo "fez" dinheiro com tudo o que podia para cumprir as metas do défice público. Nem que para isso tenha iludir as populações, destruir o património histórico e natural e ir contra as próprias regulamentações que tinha criado (veja-se o que se passa no Sabor, integrado na rede Natura 2000).
Os milhões eram necessários e por isso "venderam" o nosso rio, pretendem afogar a nossa linha e continuarão a lapidar o nosso património acenando aos autarcas com algumas verbas. Pudera, eles nunca olharam para o rio!

A fotografia mostra o Rio Tua, na Ribeirinha.

18 abril 2009

O rio Tua na Ribeirinha

Hoje fui visitar o Rio Tua à Ribeirinha. O dia não estava muito bom, mas a fotografia até nem ficou mal.
Está a decorrer este fim de semana o 1.º Festival de Canoagem da Terra Quente e o rio está cheio de animação e cor. Foi pena que não vi nenhuma representação do concelho (onde até há clubes a praticarem canoagem). Amanhã, domingo as actividades decorrem mais a jusante já nos concelhos de Carrazeda de Ansiães e Alijó.

15 abril 2009

Papel de Parede (em azul)

Depois de uns dias de pausa, À Descoberta nos concelhos de Miranda do Douro, Mogadouro e Carrazeda de Ansiães, estamos de volta ao ritmo normal dos dias em Vila Flor. Eu começo os dias com a cor azul, quando saio de casa e olho o Facho. "Pintei" o Blogue em tons de azul e deixo uma bonita fotografia para usar como papel de parede, enquanto não chega outro mais colorido com as tonalidades da Primavera.
A fotografia foi tirada em Fevereiro quando voltava da Ribeirinha, já muito próximo de Vilas Boas.

25 março 2009

Alminhas (2) - Ribeirinha

Já foi há algum tempo que prometi fazer um levantamento das alminhas existentes no concelho de Vila Flor. Apesar de não ter voltado a falar no assunto, o levantamento fotográfico tem continuado e este tempo de espera levou-me a pensar melhor nalguns aspectos.
As alminhas que mostro hoje estão na Ribeirinha, freguesia de Vilas Boas. Situam-se na confluência de vários caminhos (4), no ponto onde seria a entrada para aglomerado populacional. Apesar de terem aspecto de ali terem sido colocadas recentemente, possuem a simplicidade do que terão sido a grande maioria das alminhas. O nicho tem o aspecto de uma pequena cabana, é feita em cimento, pintada de branco com o telhado em castanho, construída sobre um bloco de granito, numa parede feita em xisto. Apresentam um painel pintado à mão (não sei qual é o suporte). O painel é suportado por uma estrutura e um caixilho metálico. Por baixo do caixilho há alguns adornos em ferro forjado do mesmo género que se vê por cima, que terminam numa cruz.
O painel representa Nossa Senhora com o Menino ao colo. No meio da chamas estão 6 pessoas. Algumas seguram a cabeça com as mãos talvez mostrando dor ou arrependimento. Tradicionalmente não são representadas crianças, uma vez que eram consideradas puras, com passagem directa para o céu.
É bem possível que estas alminhas aqui estejam há muitos anos, embora a cobertura seja muito recente. O painel é muito frágil para resistir às intempéries sem nenhuma protecção (apesar de estar voltado para poente). Será curioso questionar os residentes sobre a sua memória no que respeita a estas alminhas.
O painel está assinado. Não percebi o primeiro nome mas o segundo é Garcia.

27 janeiro 2009

Barragem de Foz-Tua - Avaliação de Impacte Ambiental


A Avaliação de Impacte Ambiental (AIA) do Aproveitamento Hidroeléctrico de Foz Tua encontra-se em consulta pública até 18 de Fevereiro.
O estudo apresenta 3 cenários consoante a cota que se pretende atingir com a água da barragem.
Este estudo está disponível para consulta nas câmaras municipais e juntas de freguesia dos concelhos afectados pela construção da futura barragem, nomeadamente Alijó, Murça, Carrazeda de Ansiães, Mirandela e Vila Flor, assim como na Agência Portuguesa do Ambiente e na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte.
Pode ser consultado também na página web da EDP (aqui). Está dividido em vários ficheiros PDF totalizando quase 90 MB. Recomendo o Resumo Não Técnico que tal como o nome indica é um resumo, escrito em linguagem mais acessível para poder ser consultado pelo grande público.
O Resumo Técnico tem mais de 800 páginas!


A apresentação com fundo musical mostra uma "viagem" de Foz Tua a Mirandela durante os meses de Verão.

13 setembro 2008

de novo, pela Linha do Tua

Tinha marcado o reencontro com a Linha do Tua no próximo Outono, mas, fiz-lhe uma visita no Domingo passado, e hoje voltei, para um passeio, juntamente com os meus filhos.
Escolhi um percurso curto, mas com elementos suficientes para motivar os jovens na caminhada: da estação de Abreiro ao apeadeiro da Ribeirinha. São 4,6 quilómetros, sem pontes nem túneis, que incluiu os dois tipos de paisagem mais marcantes que se podem encontrar ao longo da linha: escarpas rochosas com a linha “talhada” a pulso, terminando na Ribeirinha com a linha entre olival e vinhas.

Chegámos à estação de Abreiro às dez e trinta da manhã. O tempo estava bom. O céu apresentava-se sem nuvens, mas o dia estava fresco, permitindo uma caminhada agradável. Depois de algumas recomendações, seguimos caminho.
O sol batia nas rochas criando grandes contrastes de luminosidade. As ruínas da “ponte do diabo” e a lenda que lhe está associada, cativaram a atenção dos mais novos e ajudaram na motivação.

Depois de uma zona rochosa, onde a água tem dificuldade em passar, estão os restos de um açude, junto à foz da Ribeira do Carneiro. A partir daqui as águas estão calmas, criando um espelho de água natural, que, de certos ângulos, reflectia o azul do céu.
O quilómetro trinta e um é o meu preferido deste percurso. As formações rochosas da margem direita do rio parecem castelos esculpidos em granito onde reina o melro azul. Os espinheiros cobriram-se de drupas, de um vermelho vivo, que apetece trincar. Na verdade estes pequenos frutos são comestíveis! A sua cor viva é um desafio à fotografia, neste período em que não abundam as flores, que tanto gosto de fotografar.

Escalámos uma formação rochosa entre a linha e o rio, que nos permitia uma boa perspectiva. É um local onde subo habitualmente. É um “miradouro” fantástico. Tal como junto à estação de Abreiro, havia pelo menos três pescadores à linha, espalhados pela margem, nesta zona onde as águas já estão de novo agitadas.
A fonte onde me reabastecia de água (aos 31,4 Km), está quase seco, só pinga.
Depois do quilómetro trinta e dois a linha separa-se do rio. Vêm-se ao longe as casas de Barcel. Cheira a uvas maduras e ao longo da linha há muitas oliveiras. Também há uma planta mais estranha, em que muito poucos repararão, é o sumagre. Neste momento está com as sementes cheias e as folhas verdes. Em breve se vão pintar de laranja e vermelho, que eu tanto gosto.

Ao aproximar-nos do apeadeiro da Ribeirinha, questionei a equipa, se queriam fazer o caminho de regresso a Abreiro, ou se telefonávamos ao “carro de apoio”. Era quase uma da tarde e a fome já se fazia sentir. Contente por os ter feito esquecer a televisão e o computador durante uma manhã, acedi a terminar ali o nosso passeio colectivo.
Encontrámos o sr. Abílio, que nos recebeu com alegria. Já se habituou às minhas andanças pela linha e não me deixa sair dali sem umas garrafinhas de água fresca, um saquinho de verduras da horta ou de frutos da época. É um exemplo de bondade.

Deixei os filhos à espera de transporte e regressei sozinho, pela linha, a Abreiro. Como sempre acontece, perdi a noção do tempo, a sensação de fome, a necessidade de chegar. Passava das três da tarde quando cheguei à estação e regressei a Vila Flor.

14 julho 2008

De volta à Linha do Tua

Esta é a continuação do passeio que fiz, a pé, no dia 12 de Julho. Começou em Freixel, continuou pela Ribeira da Cabreira até à foz, no Rio Tua.

Cheguei ao Rio Tua às duas horas da tarde. Fiz questão de descer junto à margem e ir ao exacto local onde as águas da ribeira se diluem no ainda grande caudal do rio. Espreitei a ponte do comboio - que salta a ribeira - e preparei-me para a segunda etapa, agora já em terreno meu conhecido.
Aproveitei para calar o estômago, enquanto caminhava. Já podia seguir tranquilamente.
As primeiras observações levaram-me a comparar a paisagem com aquela que encontrei em Abril de 2008. A erva seca substituiu o manto de flores que ladeava a linha, mas o rio continua igual, vigoroso e barulhento. Este troço da linha foi objecto de uma intervenção, mesmo até ao Cachão. Parece-me que aproveitaram a movimentação das máquinas para o enterramento de uma estrutura de mangas de plástico (com o objectivo de receberem redes de fibra óptica), para limparem as valetas, ajeitarem a gravilha, substituírem algumas travessas, colocarem novos sinais, etc. Tantos melhoramentos numa linha a abater?!

Até à estação de Abreiro, foi um passeio. A estação está transformada em estaleiro, mas não encontrei água, nem casas de banho.
Aborreceu-me o facto de não passar nenhuma automotora. É mais agradável fotografar a linha, quando esta está ocupada.
Aproveitei a paz ambiente para fazer uma viagem no tempo. Imaginei a que velocidade seguiria a composição que transportou El-Rei Dom Luís e a rainha D. Maria Pia, que se deslocavam a Mirandela para a inauguração da linha, a 27 de Setembro de 1887. Imaginei-me a registar o momento com a minha moderna câmara digital (imaginação fértil). Imaginação também não faltava a Rafael Bordalo Pinheiro, que esteve presente na cerimónia, na estação de Mirandela.
Parti para a etapa seguinte, Ribeirinha. Gosto muito deste troço. As águas encolhem-se por entre rochas gigantescas, fazendo muito barulho; na margem oposta há formações graníticas interessantes; começa a aparecer o cume da Serra do Faro, meu vigilante de muitos passeios. No quilómetro 31 encontrei uma nascente de água. Era saborosa e aproveitei para repor as reservas que transportava.

Um pouco mais à frente há um rochedo elevado, entre a linha e o rio. Aproveito sempre para fazer fotografias doutro ângulo, subindo ao rochedo. De repente, saindo das curvas da Ribeirinha, apareceu um grupo de pessoas que caminhava pela linha. Eram mais de uma dezena. Ainda pensei que se tratava do grupo com quem pensara encontrar-me, mas não. Continuaram em direcção a Abreiro e eu à Ribeirinha. Ao vê-los afastarem-se, em linha, pela linha, lembrei-me: porque é que ainda ninguém se lembrou de criar um passeio ao lado da linha? Um passeio com pouco mais de 50 cm de largura, seria suficiente para que os caminhantes pudessem percorrer, facilmente, toda a extensão da linha. Não teria sido difícil fazer esse passeio, em cimento, à medida que formam enterrando a estrutura para a fibra óptica.
Quando cheguei à estação da Ribeirinha, estava na hora de passar a automotora, no sentido Mirandela-Tua. O senhor Abílio, “guarda” sempre atento da estação, prontamente me abasteceu de água fresca. Trocámos algumas palavras enquanto a automotora não chegava. Chegou, e parou. Também na automotora viajava um grupo de amigos, meus, da fotografia e da Linha do Tua! Ainda tive tempo para os cumprimentar, a automotora fica sempre alguns minutos na Ribeirinha. Seguiu em direcção ao Tua, e eu, em direcção a Vilarinho das Azenhas. Neste troço, mal se avista o rio. Às vezes sigo pelo caminho, que é paralelo à linha, mas decidi manter-me na linha. Nas oliveiras em redor vêem-se muitos rebentos novos! Parecem estar a recuperar da doença que as afectou e que matou bastantes, nestas zonas baixas.
Não fiz nenhuma pausa no Vilarinho. O cansaço já era muito, doíam-me os pés. Caminhar pela linha, pisando de travessa em travessa, não é rápido e maça muito a base dos pés. Na maior parte do percurso não há outra alternativa, mas nalguns locais há uma pequena faixa de terra, que se deve aproveitar.

Já passava das seis da tarde, o sol dava alguns sinais de querer descansar. Nos rochedos escarpados sobre o rio já se notava o alaranjado do entardecer. Passou mais uma automotora, esta só até Abreiro.
Perto do Cachão encontrei, junto à linha, uma planta que nunca tinha visto. Trata-se de uma espécie de feto, mas muito grande e lenhoso! Nunca o vi em lugar algum, ao longo de toda a linha, só encontrei aqui pequenas manchas, em locais escarpados e sombrios, como é típico dos fetos. Vou procurar saber mais desta planta.
Já muito devagar, fui-me aproximando do fim do meu passeio. E devo dizer que não terminei no melhor local. O aspecto do Complexo do Cachão, para quem passa na linha, é tudo menos bonito e o cheiro ainda é pior.
Foi um longo passeio, cheio de emoções e magníficas paisagens.