Mostrar mensagens com a etiqueta Cabral Adão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cabral Adão. Mostrar todas as mensagens

30 setembro 2023

A confissão da Amélia (II)


Os domingos, na aldeia, são sempre dias do Senhor! Há uma alegria em todas as coisas, diferente da dos outros dias; umas harmonias de gorjeios e marulhares, mais termos que nos  dias de trabalho. As fatiotas dos trabalhadores são mais graves, as vestes das raparigas mais vistosas, as brancuras dos linhos mais impecáveis. E, ou esteja um domingo radioso de sol, ou o escureça um temporal de chuva e trovões, há sempre sinais flagrantes da sua soleníssima hierarquia, adentro da sociedade hebdomadária. São os toques dos sinos a chamar para a missa do dia, para a bênção, para a doutrina da miudagem; são acordes das violas e dos cavaquinhos, alfaias domingueiras que os jornaleiros usam para lhes adoçarem os calos; são os parzinhos ou idílios dispersos por toda a aldeia, nos caminhos, nos cobertos e nas salas.
É um destes parzinhos, um destes idílios, que vamos encontrar num maravilhoso e criador domingo de Setembro, manhã ainda, no quintalinho da Amélia. Adivinha-se já que é o Maximino, ao lado da sua estremecida conversada, presos dos olhares e dos sorrisos, um do outro.
Nessa manhã, a Amélia, já meio restabelecida, resolvera fazer-lhe a sua confissão. Enquanto a isso não se resolvesse, haveria sempre aquela dolorosa cena do beijo, como pedra de gelo, a arrefecer constantemente os seus mais ardentes arroubos.
Tinham-se sentado em cima do muro, tapetado de musgos e conchilros, que dava para o caminho. O quintal era extenso e descia em inclinação suave até um ribeirito, que corria muito precário para o rio; estava cheio de milho, tão crescido que havia lá pé que cobria um homem dos mais altos, não contando
com o «pendão». Nos intervalos, cresciam feijoeiros e num canto, ao pé da capoeira, subiam esgrouviadas couves galegas, as folhas muito enrugadas, de viçosas, guardando nos refoIhos, gotas de orvalho, que molhavam os pés a quem as abanasse. A capoeira, primitiva construção de alvenaria e tapumes, com a respectiva rede, os respectivos cestos para as galinhas porem os ovos, no fundo dos quais ficava sempre o «aninhador», e o respectivos poleiros, dava guarida a algumas dezenas de belos exemplares pedreses, castanhas, pretas, «carecas» e um garbosíssimo galo que atroava os ares, periodicamente, com o seu garboso cantar.
Do lado de lá do caminho, continuavam os tabuleiros de milho, alto em toda a parte, porque era regado, lá se vendo os regos condutores da água cortando as terras e até o caminho, em todas as direcções. E o cenário continuava em linhas quebradas até ao ribeiro, onde algumas lavadeiras ensaboavam peças de cor.
A Amélia encostava-se a um amieiro esguio, que dava «enforcado» a uma grossa e alta cepa, recamado de heras de folha pequenina.
- Não calculas, Maximino, quanto te estou grata por tudo quanto fizeste por mim! – ciciou-lhe com doçura.
- Não me fales nisso, Amélia! Nada fiz de especial. Faria isso por um qualquer, quanto mais por ti?!
- Eu sei que me queres muito e por isso... tem paciência, Maximino! Mas vais saber toda a verdade do que se passou como Júlio.
- Não fales nisso, que é melhor - intimou o rapaz, levantando-se e cortando um rebento de amieiro com que se pôs a bater numa perna, com nervosismo.
- Falo, sim! Nem descanso enquanto te não confessar a minha fraqueza. Sabes? Eu não via outra coisa senão a ti. Mas não me eram indiferentes os galanteios dos outros. Que lhe queres? Somos assim: fracas, fracas, talvez levianas! Umas mais, outras menos, ainda outras de maneira que não se percebe. Mas somos assim. Damos o cavaquinho por um dito, por um elogio, por uma dedicação de qualquer que não seja o que nós amamos. As vezes, estamos com o coração num, que é o verdadeiro, e o olhar noutro, que não conta nada para nós! Outras vezes julgamos que não nos deve impressionar o palavreado de qualquer engraçado e... não! gostamos até de os aturar, no fundo!
Foi por isso que eu ouvi mais de cem vezes o Júlio da Venda pedir-me namoro e o fitei com certo enleio e me ri com ele. Dizia-lhe sempre que não, é claro! Depois, esforçou-se por que eu lhe desse um beijo. Não me zanguei abertamente, como devia: ri-me, ainda por cima! E quando ele me garantiu que, se o beijasse, já não lhe poderia negar namoro, que o beijo é a assinatura da posse, e não sei que mais... eu animei-o a que experimentasse. - «Experimente e verá!»
- Oh, cala-te, por Deus, Amélia! Preferia mil vezes que nunca me contasses essas tontices!
- Ouve, Maximino, o resto! É a defesa da culpada que tens de ouvir. Agora... aqui vai a minha grande culpa: marquei-lhe entrevista aqui ao portão. Eu achava graça, andava alvoroçada com aquele encontro, mas não lhe punha fé nenhuma. No entanto... perdoa a esta cabeça louca!... não me importava de o
beijar, só para ver... Ele chegou, abraçou-me e quis entregar-me uma caixinha. - «Que é isto?» - perguntei, atrapalhada.
- «E uma pequena escrava de ouro, uma lembrança para si...» – Não pude ouvir mais. Fugi para cima, ao compreender as maquinações daquele maroto. Tive a desdita de tu assistires a esta maluqueira horrível... Pronto! O senhor Padre Miguel já me absolveu. Agora absolve-me tu, por Deus! suplicou a pobre rapariga, a chorar.
- Já estás perdoada há muito, Amélia! Não só agora, por te ver doente. Mas nunca mais falaremos nisso, valeu?
- Valeu! - concordou a Amélia, enxugando os olhos.
O Maximino expôs-lhe, em seguida, o seu desejo de casarem logo que o doutor consentisse, entretido, ao mesmo tempo, em tecer com braços de hera, uma espécie de coroa, que colocou na fronte da sua doentinha querida.
Nesta altura, apareceu a cabeça do Dr. Casimiro acima do muro, que passava no caminho, em visita aos doentes.
- Então, tu já aí estás, rapariga?! - perguntou, sorrindo.
- E verdade, senhor doutor! Parece que já estou boa para outra - respondeu-lhe a Amélia, também risonha.
- Tem muita cautela, rapariga! Olha que tu melhoraste, sim! Mas curar, não! Só se arranjasses um coração novo.
- Tenho aqui o do Maximino, que mo esteve a oferecer agora mesmo.
- Olha que isso de casares... não sei, rapariga! Pelo menos não podes ter filhos, se não arriscas-te a baquear. Adeus! Deus vos ajude!
- Adeus, senhor doutor! Muito obrigada!
Já o doutor Casimiro ia lá longe, quase a entrar na curva do ribeiro, quando o Maximino, esbarrigando-se no cimo do muro para ainda o enxergar, lhe gritou:
- Olhe, senhor doutor! Há-de sero que Deus quiser...

A primeira parte pode ser lida aqui:

Retirado do livro O Homem da Terra, da autoria de Luís Cabral Adão, publicado em 1986.

28 setembro 2023

O Terreiro


Ao; Francisco de Soveral Pastor

A Praça é dos cartolas, dos senhores
De gravata, de pose ou de dinheiro,
Onde passeiam leigos e doutores:
O médico, o juiz, o tesoureiro...

Mas o povo, os humildes servidores
Nas horas de lazer vão pra o Terreiro,
Ali tomam o sol, tomam amores,
Ali mostram o fato domingueiro.

O Terreiro é salão de baile, até,
Onde as moças da vila dão ao pé
Nesses jogos de roda tão castiços.

«Quero dar duas voltas a meu jeito!»
Cantam elas, forçando o rijo peito
A rodar contra o peito dos derriços!


Soneto retirado do livro “Versos – Vila Flor”, impresso em Novembro de 1966, da autoria do Dr. Luís Manuel Cabral Adão.

24 junho 2023

A Minha terra (Cabral Adão)


A MINHA terra é uma sede de comarca do distrito de Bragança, chamada, por mercê de vontade real, Vila Flor.
Se «quem o feio ama, bonito lhe parece», que acontecerá com quem ama o bonito? Excede tudo quanto se possa congeminar em alegria íntima, em plenitude de encanto, em sorrisos interiores de apaziguamento. Amar a minha terra é amar uma flor, o fulcro da mais bucólica poesia, o molde da beleza, a cor, a graça, a doçura!
Ainda me chegam a cada passo os perfumes da serra, aquela vertente do Facho que se avista logo do Alto de Espinho, no dorso do Marão, divisório e austero.
São estonteantes as emanações do mar amigo, à beira do qual me fiz enteado, por felicidade do destino. Eu já me acostumei a estas paisagens aliciantes, que o mar recorta em quebradas de capricho, cauda verde-clara a brincar permanentemente com os panos verde-escuros da nossa costa arrábida. Mas quando me extasio pelos altos de São Filipe ou de São Luís, gozando a delícia de panoramas duma nobreza sem par; quando me perco, como um ponto num todo, pelo areal imenso e miudinho da Troia, procurando nos conchais as peças mais bizarras; quando me embriago na alegria picante dos laranjais da beira-Sado, outros mares espumados de folhagem escura, onde as bolas de oiro sorriem aos olhos, pontuando a fortuna do apetite em haustos de cor e fragância; quando os crepúsculos de Outono me prostam numa adoração de hossanas, embebendo-me a alma com melancolias de ametista e oiro... – ah! então a voz do berço vem-me bater aos ouvidos, como um ressaibo de quem sofre ciúmes! E que faço eu meu Deus? Que faço?
Abro o coração e releio as colecções das minhas lembranças. É então que eu julgo sentir as tais nevralgias da alma a que nós somos atreitos. É então que eu julgo sentir - saudades!!!
Saudades da minha praça. Lembrai-vos, rapazes do meu tempo, da praça de Vila Flor? Era a sala de visitas, o palco, o estádio, o jardim, a praia, o «rendez-vous» da juventude de há anos. Quem havia de dizer que o coração da linda vila se imolaria em holocausto duma urbanização geométrica, mas cruel?!...
Estou a vê-la, nas noites de luar, o luar faiscante de Trás-os-Montes; grupos de rapazes, de raparıgas, passeando, passeando, dando voltas, os bancos repletos, as janelas de roda floridas de moradores, gargalhadas por um lado, correrias de crianças por outro... e o luar sempre a banhar a minha praça, num embalar de mistério que só de longe se vem a compreender!
Saudades da Fonte Romana, talvez donde brotou água para me fazer cristão. Saudades da minha serra, onde as capelinhas vigiam, como postos de fiscalização do céu, imperceptivelmente ungindo as almas duma bênção reconfortante, quando alvejam ao sol, ou murmuram à lua uns segredos de brancura que quase se adivinham nas percepções do sonho. Saudades dos vinhedos, dos pinhais, da visão esplendente das nossas madrugadas, surpreendido o viajante nas Portas do Sol ou na scanadas da Figueira Preta. Saudade do sino que repicou, festivo, na hora do meu baptizado, e também no do meu primeiro filho. Saudades das pombas que eu via sempre no céu, em revoada de branco sobre o azul, durante a procissão de Páscoa, ou na de Pascoela, quando se levava o Senhor aos presos da cadeia. Saudades da missa do senhor padre António, modelo de virtude e sacerdócio, para quem nunca foram penosas as cruezas do seu mester sagrado.


Saudades... dos tipos da minha terra.

Excerto do livro Paisagens do Norte, do Dr. Cabral Adão, publicado em 1954 e reeditado em 1998 pela Câmara Municipal de Vila Flor.
Luís Manuel Cabral Adão nasceu em Vila Flor a 24 de Junho de 1910, falecendo a 6 de Agosto de 1992, em  Almada, vitimado por paragem cardíaca, partiu, no dia seguinte, para Vila Flor, para jazigo de família.

24 junho 2022

Luís Cabral Adão, 112 anos


Completam-se hoje 112 anos desde o nascimento de Luís Cabral Adão. Nasceu em Vila Flor, Trás-os-Montes, no dia 24 de Junho de 1910, tendo falecido em Almada a 6 de Agosto de 1992. 
No dia 18 de Setembro, integrada na homenagem que lhe foi feita pelo município de Vila Flor, foi descerrada uma placa no escadório do Cabeço de Nossa Senhora da Assunção, em Vilas Boas. Essa placa contém um soneto de sua autoria, publicado em livro em 1966, "Vila Flor" (Versos).
Na fotografia podemos ver o presidente da Câmara nessa altura, Dr. Artur Pimentel, acompanhado dos filhos do homenageado.


Imagem, das formosas, mais formosa:
Senhora d'Assunção, no pico agreste,
Vestido cor de pétalas de rosa,
Manto volátil de cetim celeste!

Única imagem, esta que assim veste
E numa nuvem se ergue, vaporosa,
Braços ao alto, olhos como em teste
De em si conter centelha milagrosa!

Transfigurada estátua que eu venero
Desde menino, e a que tanto quero
Por me rasgar de luz a densa treva:

Em ser's da Virgem Mãe cópia fiel,
Volve pra mim teus olhos d'ouro e mel,
Dá-me um lugar na nuvem que te leva!

Soneto retirado do livro “Versos – Vila Flor”, impresso em Novembro de 1966, da autoria do Dr. Luís Cabral Adão.

24 junho 2020

No vale da Vilariça



- Bonito dia, Rosária!
- Bonito dia, Gonçalo!
Não eram os personagens do «Idílio Rústico», que Trindade Coelho tão finamente bordou, mas um casal de jovens e de trabalho que morava em Sampaio, lá para as bandas da Vilariça, entre Vila Flor e Moncorvo. Tinham-se acabado de erguer, estrelas ainda a brilhar no azul, mas já esmaecidas pela aproximação do sol. Era naquele Agosto ardente, tão ardente que até se assava uma sardinha posta na hora da sesta em cima duma fraga.
O dia ia a romper depressa e o Gonçalo entrou logo de aparelhar os burros e preparar os sachos para marchar direito à canameira, a meia légua de distância de sua casa.
A Rosária já tinha posto na mesa de castanho, preto de velho, os figuitos e a aguardente do mata-bicho e começava a apanhar no Cabanal alguns guiços bem sequinhos para adiantando o almoço que, por volta das onze horas, ia levar ao seu homem: e até o Zé, raparigo dos seus sete anos, filho do casal, dava os últimos amanhos às costelas e pescoceiras, untando de cuspo as tranquetas dos sedenhos daqueles  e experimentando as molas destas, e verificava se as formigas de ala estavam bem presas e vivas nas grileiras das armadilhas, cevadas de véspera, pois esperava fazer uma boa colheita de tralhões, rabitas, piscos e folecras. E lá vai ele com o pai, que já desce a ladeira, burricos à frente com angarelas, sachos e apetrechos vários sobre as albardas.
As margens do vale são alinhadas e bastante abruptas. Quer dos lados de Vila Flor, quer dos de Alfândega da Fé ou Moncorvo, desce-se muito para se lá chegar. Segue ao longo da Ribeira, desde os cerros de Bornes até ao rio Douro, onde estronca em esquadria.
A canameira do Gonçalo, herdança do seu falecido e bom pai, era uma larga faixa de terreno, começando no caminho marginal e acabando na Ribeira. ladeada pelas courelas dos vizinhos.
Quase ao centro, via-se uma nora de alcatruzes zincados que trazia à água de pequena profundidade até à altura de um metro, suficiente para chegar à todos os cantos do terreno.
Aquelas terras são de uma fertilidade extraordinária!
E este ano, especialmente, que houve «rebofa»!
Quem conheceria aquela extensa planura cobertinha de água que transborda, vale acima, do endemoinhado Douro, muito subido pelas chuvas torrenciais de muitos dias?
Aquela água toda, com um rico nateiro de naturais e fortes adubos, dava à Vilariça o grandioso aspecto dum lago, como outrora dizem que foi, e à ubérrima seiva que vicejará nos seus belos e afamados frutos.
Santa terrinha esta, em cujo seio exubera o sagrado mistério da germinação, no dizer de Campos Monteiro, que a cantou!
E o Gonçalo bem lhe conhecia o valor! Se era quase só dela e do trabalho aturado dele e da própria patroa que viviam!
E governaram-se regularmente, pois tinham um bem fornecido bragal, boa adega com salgadeira, a pipa do carrascão, as linguíças, embrulhadas em velhos envelopes. Numa caixa de madeira, a talha das azeitonas, a arca do azeite, o garrafão da aguardente, uma tulha de pão, um monte de batatas, cabos de cebolas e alhos ao dependuro; e lá no canto da arca, escondia-se uma boa maquia forra.
Muita fartura para os três, muita poupança, mas nada de luxos ou gulodices.
— Eh! burros! Xó!
Mal chegou. o Gonçalo atrelou um burro ao pau da nora, com um frondoso ramo de salgueiro escarranchado no cachaço, para o aliviar da mosca.
O outro iria pastar até chegar a sua vez.

O nosso Zé, com um pequeno sacho, ia fazendo terra fresca, aqui e além, em lugares adrede,  junto dos poisos certos da passarada. arrumado a uma árvore ou a um poste da vinha ou à um merouço com silvas, onde armava as costelas de maneira que o sol. logo ao nascer, fizesse rebrilhar bem às asas das formigas, isca muito apetecida e difícil de arranjar.
O pai, deixando o jerico sozinho a puxar à nora, foi para a horta, de sacho às costas, a guiar à água que, pelas augueirras, corria aos diversos talhos dispostos com simetria. Aqui um talho de cebolo, ali outro de tomates, além de pimentos, de feiões, de abóboras ou botelhas, de pepinos, de cenouras e tal e tal e, mais ao fundo, junto à Ribeira, uma grande extensão onde medrava o «fruto», melancias e melões que faziam boa figura nos mercados próximos.
Alfaces tentas e couves galegas estendiam-se ao longo das augueiras; e no entre-meio de alguns regos e nas pontas das rodeiras, até se aproveitavam os beldros, óptimos para o caldo, que ali cresciam ao Deus-dará.
E à rega ia-se fazendo lentamente, num abrir e fechar de regos que o sacho de Gonçalo operava numa roda viva.
Uma ou outra vez, à água nunca mais chegava ao fundo dum rego, pois se escoava pela buraca de alguma toupeira, à qual não tinha sido afuguentada pelo cadáver duma outra, morta na véspera e espetada numa rodriga a dois ou três pés do chão.
Tapada a buraca por meia dúzia de chuçadas com o olho do sacho, a regra continuava.
Por volta das onze, pela hora velha, quando o Gonçalo soltava o burro para o largar no pasto ao pé do outro e o Zé regressava com alguns pássaros da caçada, chegava a Rosária, de cesta à cabeça, coberta com uma taleiga vazia em que havia de levar, no regresso, alguns pimentos para a ceia.
Dirigira-se para a cabana de colmo, prantada na sombra duma grande nogueira.
O calor já era sufocante e todos limpavam o suor da cabeça e do tronco por entre os peitos das camisas largamente abertos.

Estendido o almoço no chão, sobre uma toalha de linho, alva retesada pelo cloreto, os três se abeiraram da comida, munquindo-lhe e bebendo-lhe assim como manda à lei! O caldo dos tais beldros, muito gostòzinho, o bacalhau com batatas, regados a azeite e vinagre vindos em garrafinhas, e a bela pinga da cabaça que refrescava as secas guelas (até o Zé bebia uma chícara dele!).
Depois... ficavam todos a fazer de jibóias, para ali deita- dos cada um a sua sombra.
Que calmaria durante aquelas horas de sesta! Muito calor, o zumbido das vespas em volta de alguma poça de água que ficou da rega, nem o pio dum pássaro, nem o cri-cri dum grilo!
Mais tarde, ainda com bastante calor, recomeça o trabalho.
Quando a camioneta da carreira subiu a estrada por altura dos Nuzelos, nas ladeiras em frente, o nosso bom Gonçalo já andava com os burros jungidos à charrua, a lavrar a restolha da trigueira. O Zézito, finda a caçada e levantadas as armadilhas, (a tarefa rendeu doze tralhões, três rabitas, e alguns centieiros) tinha ido à Junqueira, povoação na margem oposta do vale, junto à estrada, levar um recado ao seu padrinho Sá Lemos. Ao chegar lá a casa, ficou espantado de ver os filhos do padrinho muito bem postos, com andainas novinhas e gravatas de seda!
Perguntando a um deles os motivos de tanto luxo, foi-lhe respondido que o pai tinha encontrado uma panela de moedas romanas, ao surribar uma terra para bacelo e que o Senhor  Soveral Pastor, de Vila Flor, muito amigo de coisas antigas, lhas tinha comprado por bom preço! Intervindo, o padrinho do Zé deu-lhe a bênção e disse-lhe que já não era a primeira vez nem a segunda que por ali apareciam potes de barro a abarrotar de ricas peças do tempo dos romanos. E havia também muitas pedras de túmulos. Não, que toda a vizinhança era rica de coisas históricas!
Aquela estrada que passava no alto das Quintas do Zimbro e da Tarrincha, foi feita pelos romanos. E as ruínas daquele castelo, frente à Quinta da Silveira, sobre o cabeçozito que se eleva entre o sabor e a Ribeira? Esse não sabia de que data era, mas sabia que deu nome ao vale, pois foi sede dum povoado que se chamava Vila Rica de Santa Fé.

Cumprida a missão, o Zé voltou à canameira muito admirado do que tinha ouvido.
Quase ao toque das Trindades, carregadas as angarelas dos jumentos com algumas botelhas, bandeiras de milho e vagens de feijão, lá seguiram ladeira acima, a caminho de casa, o Gonçalo e o filho, pois a senhora Rosária já tinha abalado, para tratar da ceia.
Junto à fonte das águas minerais, de muita fama para as doenças de estômago, encontraram um grupo de pessoas lá do povo que comentavam um episódio muito engraçado, sucedido na véspera.
Foi o caso que o João Rendeiro, cuja mulher andava para toda a hora, ao despertar, de madrugada, sentiu com os pés uma coisa a mexer-se no fundo da cama; e, certificando-se do que era, deu uns empurrões à patroa gritando-lhe:
- Acorda, oh, Rosa! Olha que já te nasceu o raparigo!

Texto retirado livro Paisagens do Norte, da autoria de Luís Cabral Adão, publicado em 1954. Luís Cabral Adão nasceu em Vila Flor, Trás-os-Montes, no dia 24 de Junho de 1910, tendo falecido em Almada a 6 de Agosto de 1992. Os restos mortais foram sepultados no cemitério da terra natal, assim se concretizando um anseio que expressamente havia manifestado.

Cabral Adão - Síntese Biográfica


24 junho 2015

A Menina das Cravelinas e Bem-Me-Queres

«...Trepa-se a Vila Flor por estrada retorcida, de caracol... faz tonturas. Ao enfrentarmos o povoado, porém, que sensação de conforto! Aquilo não é um burgo alpestre - é um ramalhete de cravelinas e bem-me-queres no decote da serrania». 
Sousa Costa
É costume da Câmara Municipal da minha terra, por gentileza não sei se já imitada (ou já iniciada) por qualquer edilidade congénere, comunicar a todos os munícipes de mais aquela, apartados do berço pelos impulsos caprichosos do destino, os factos principais que respeitam ao seu grato efectivo de valorizações e encómios.
E não se julgue que a finalidade visada seja a propaganda da actuação dos presidentes, suas ideias, criações, méritos, realizações, como é de muito abuso por aí.
Não! O que eu sinto nos visos desse proceder simpático, é o carinho de manter unida a família vilaflorense, aconchegado ao lar, essa lareira que tem achas de pinho a arder eternamente sobre o trasfogueiro, inundando a cozinha de fumo, que faz bem aos pulmões e aos chouriços, largando choinas que nos caem sobre o capote, brandamente, estejamos nós lá ou no cabo do mundo.

É bom que não se esqueçam os nomes que mais fulgor puxaram à nossa «lis» doirada. Mas o que nos encanta, o que fica, é a resultante das forças que alindaram o nosso ninho  materno, tomando-o aprazível, donairoso, confortável, condicionando a beleza necessária a ouvirmos do Dr. Sousa Costa um elogio como o que encima este pequeno escrito e que nos foi transmitido pela vereação da Câmara da minha terra.


Com que então, o Sr. Dr. Sousa Costa foi a Vila Flor e, julgando encontrar um burgo alpestre, descobriu «um ramalhete de cravelinas e bem-me queres no decote da serrania»?!
Tocou-me Sua Ex.ª num dos meus queridos amores. Não sei se me zangue com ciumes, se me envaideça com orgulhos...
Dom Dinis teve a mesma agradável surpresa há 670 anos, e mudou-lhe o nome, transportando-o do sector das póvoas para o campo das flores. Dois artistas, dois sentimentais, dois poetas.
A minha terra, para ser bem tratada, só pela poesia. Ela é gaiata,. morena, dentinhos de cal, cabelos escudos, aroma de madressilva no colo de rosas brancas, menina do meu agrado, sempre jovem, com jóias ricas de família nos dedos afusados, adereços romanos, góticos, árabes, judaicos...
A serra, molosso de xisto e terra escura deitado entre o Facho e as Portas do Sol, abriga-a do norte, expõe-a abertamente às soalheiras do sul, tendo-a no regaço, como desvela da mãe.
Quem, há vinte anos, subisse às capelinhas, dispostas mesmo no alto, pela tenaz dedicação dum grande vilaflorense, que tem o nome indelevelmente ligado às graciosas ermidas - Manuel Álvares Pereira de Aragão - via o povoado, lá no fundo, começar na Santa Luzia, na «máquina» - nome consagrado da fábrica de moagem inaugurada pelo gigante João de Matos, da minha saudade de criança - na Rapadoira e por ali abaixo até à Portela.
Hoje, o passeante, quer se sente nos degraus da velha capela de N.ª S.ª da Lapa, fachada alvíssima, ponteaguda, seu portelo de mina à esquerda, encravada em ciclopes de rocha bronzeada; quer se encoste às capelas de Santo Antão e São Bernardino, de cúpula em pirâmide; quer se instale nos miradoiros do santuário hexagonal da Senhora dos Remédios, depois de refazer-se do esforço da ascensão, com um lenço que lhe enxugue a testa ou uma aba de chapéu que lhe desencalme o rosto congestionado, tem o grato prazer de verificar quanto a vilazinha subiu, como casas novas nasceram, num pululante renovar de gerações, vindo a fazer guarda de honra ao formoso edifício da «Domus Municipalis», padrão senhorial do concelho e da comarca, de costas no peito dos olivais da serra. A menina aconchegou-se melhor ao regaço da serra-mãe, como gata mimalha que se levanta para se acomodar mais consoladinha ao sol da graça. A menina enfeitou-se. Deitou fora os candeeiros mal cheirosos e fumarentos do seu «boudoir» e meteu electricidade; instalou lindas torneiras onde jorra água pura da serrania; tem um lindo telefone de plástico rosado e translúcido, sobre a mesa de cabeceira; e vem à janela admirar o recorte moderno de avenidas e pracetas recém-nadas, seus balaústres, suas copas redondinhas como hortênsias, seus canteiros de relva fresca, rampas, escadarias, globos de candeeiros, aqui e ali, num conjunto de apoteose surpreendente, embora um fundo suspiro lhe sacuda o peito, saudoso da sua velha praça, que era a mais bela iluminura do seu pergaminho, que era o seu coração, o seu carácter, agora fendida, imolada a um desalmado critério de urbanização!

 E a menina aparece no limiar da janelinha, mirando as lavadeiras nos tanques novos, entre olivedos e amendoais, onde cantam melros e rouxinóis, enfeitada com um ramalhete de cravelinhas e bem-me-queres entre os seios macios de adolescentes!
Quando, há anos, vim para o sul, proclamava com orgulho a minha naturalidade: VILA FLOR!
- Mas onde é que é isso?...
E a pergunta, quase constante, entrava-me como um punhal no peito apaixonado, entre estas costelas que se criaram com água da Fonte Romana e com pão borneiro da Párreas, trigo dessa terra feraz, humosa, florida, transmontana, cuja seiva me circula no sangue, como os caracteres do progenitor nas veias do filho que o não desmente.
Agora, vejo com esfuziante alegria que Vila Flor não é nome de qualquer Alguidares de Baixo, estranho na sabedoria comum dos nossos centros mais esclarecidos. Os jornais falam, a fama corre, percorre, e aponta-se o exemplo duma vila que em 20 anos se vestiu de novo, se toucou de graças,
se impõe, na escala do progresso, que afere os valores do país, de Norte a Sul.
Não conheço, por meu mal, o Senhor Dr. Sousa Costa. Mas o facto não me inibe de lhe deixar aqui o meu cartão de visita, agradecendo as palavras que dirigiu à «minha menina», cartão em que, sob o nome, apenas imprimo esta dignidade qualificativa: vilaflorense.

Excerto do livro Paisagens do Norte, escrito pelo Dr. Cabral Adão e publicado em 1954. Este livro teve uma segunda edição pela Câmara Municipal de Vila Flor em 1998 (Minerva Transmontana, Vila Real). Pode ser encontrado no Museu Berta Cabral, na sala dedicada a Vila Flor.

Luís Manuel Cabral Adão nasceu em Vila Flor a 24 de Junho de 1910 falecendo a 6 de Agosto de 1992, em  Almada, vitimado por paragem cardíaca, partiu, no dia seguinte, para Vila Flor, para jazigo de família.

24 junho 2014

As lendas de Orelhão - Cabral Adão

"Antes do jantar, eu, o Padre Francisco Reis e o Dr. Armando Guedes (que três!) contávamos coisas, estendidos pelas escadas do patim deste ilustre médico dos Passos.
O tempo estava incerto; os desejos de todo um clamor rural pareciam ter eco nos arraiais de São Pedro, pois grossos carriIhões de nuvens baças escorriam de Noroeste, esgaçando-se nos picos de Padrela e pelos montes longínquos.
Nós estávamos à vontade, para ali recostados, fruindo uns momentos felizes da mais íntima camaradagem, eu talvez um pouco mais observador dos pequenos nadas da aldeia, que para os outros dois eram banalidades, apagadas no contacto permanente.
Era o filhito do doutor - o galo da família, como o classificou um criado, em vista de ter aparecido depois de sete irmãs, todas vivinhas e graciosas, pela bondade de Deus - que subia e descia as grades da furgoneta, parada no curral, em riscos de cair e desnocar algum osso, folestrias a que o pai provia de vez em quando, com uma das tiradas do seu glossário de transmontano rijo e expressivo: - «Vai aço!!!». Era um cachorro a entrar de roldão pelo portal adentro e a afugentar as pitas, que se esgueiravam espavoridas para os recantos das dependências, cacarejando os alarmes do costume. Era uma criadita que ía à loja buscar cebolas ou batatas ou azeitonas, morena, vivaça, jeitosa. Era o chiar dos carros de bois pelas canelhas da aldeia. e as vozes dos lavradores a acompanhar as aguilhoadas nos quartos dos animais «Ei!».

Mas a conversa animava e eu, acordado desta contemplação bucólica, espevitava-a como podia.
O Padre Francisco (Francisco Abbas, à latina) falou da sua obra. Sente-se ali um sacerdote. Ali, é no Franco, a dez quilómetros a montante de Passos, onde o forasteiro pode ver o renascimento do Samaritano.
Não estou para mirar muitos outros eclesiásticos por lentes de miopia, o que teria de acontecer se lhes quisesse conhecer as «obras», numa sabatina com este. Basta-me bem examinar esta, no seu valor absoluto, para me sentir feliz e encantado.
Há, então, no Franco, o Lar da Paróquia erigido pelo povo, sim, mas com o sopro divino que do Padre Francisco dimana. Chegou, viu e venceu a batalha da freguesia que o respectivo Prelado pôs à sua guarda. Não há ali doirados nem espaventos de culto. Há caridade, há miolo social que ele foi buscar aos jpães do Evangelho. O Padre Américo se lesse isto havia de sorrir, com certeza! 
No lar da Paróquia doutrina-se, educa-se e dispensam-se socorros aos doentes. O homem-padre construiu um belo edifício de raiz, e esforça-se para o manter de pé.
Note-se que não o faz para subir a cónego, nem para granjear importância, nem para ser valido de importantes. Fê-lo porque tem dotes sacros e quer franqueá-los aos seus irmãos em Cristo. Fá-lo porque assim entende o seu dever. Aí está: simples e claro!
A mim encanta-me duplamente este rapaz, porque foi nascido na mesma terra que me viu nascer. E passo adiante, pois o Sol a pino deslumbra muito...
O jantar estava prestes a ser servido, a avaliar pelo movimento das criadinhas com avental gomado, de laço atrás. Descrever aquele frondoso ágape, especialmente preparado para honrar o colega dos bancos da Faculdade, que o Dr. Armando Guedes não via há talvez vinte anos, seria fastidioso e atentatório do apetite de quem me ler. Diga-se apenas que na véspera, o bondoso médico e lavrador se metera na furgoneta e fora ao Porto fazer as compras para o jantar especial. Trezentos e quarenta quilómetros, ida e volta! Somos assim, os transmontanos: montanhas de dedicação.
Aproveitando uns restos de tempo, já à tardinha, com o manto de nuvens a encapelar e a lançar um pasmo de sombras nos relevas montanhosos em derredor, entretive o cavaco com a Lenda dos Corações, respeitante à região em que estávamos, e que mal delineei com citações imprecisas, mas certa na essência da tradição.
Quem se delicia a subir ao Cabeça de Nossa Senhora da Assunção, de Vilas Boas e Vila Flor, voltando-se a Oeste, vê, entre os mamelões da serra fronteira, do Faro, na última faixa do horizonte, uma vertente de mato escuro, com dois corações a par, admiravelmente desenhados. Chamam-lhe a Serra dos Corações e a lenda explica a curiosidade desta forma:

Antigamente (tempo dos godos? tempo dos árabes?) a terra mais importante da região era Orelhão, que hoje se vê logo abaixo e se chama Lamas de Orelhão. Orelhão tinha Rei e o Rei uma filha que era a personificação duma gota de orvalho caída da mais bela bonina criada nas alfombras de por ali. Tinha-a, o pai, reservado para um alto enlace, com casa nobre doutro reino peninsular. Mas a aspiração da princesinha era outra, residia na esbelteza dum simples pajem, que a requestava às escondidas, por noites de luar. 

Ora o Rei, sabendo-o, quis cortar pela raiz essa paixão impetuosa que requeimava os peitos dos dois namorados, pensando exterminar o pajem de qualquer modo. Mas uma aia fidelíssima avisou a princesinha do intento do seu Real Senhor. Então, os ardentes apaixonados combinaram a fuga e internaram-se na floresta da serra, nessa altura muito espessa e muito poética.
Dado o alarme no palácio, ordenou o Rei aos seus homens de frechas e alabardas, que batessem montes e vales até lhe trazerem os foragidos, vivos ou mortos.
Tudo correram os homens de armas, mas apenas puderam apurar que a princesa e o pajem estavam refugiados na floresta do monte, onde seria impossível encontrá-los, dado o labirinto de ramos e frondes que a mata espessa ocultava no seio.
O Rei não hesitou na solução máxima e infalível: « - Pois deitai fogo à floresta e não retireis enquanto virdes árvores de pé!».
Foi um incêndio pavoroso, que durou semanas. Os dois amantes lá ficaram, desfeitos em cinza. Mas os seus corações recebeu-os a terra, e estão gravados com notável perfeição, para todo o sempre, na serra escalvada e triste.
O «Jornal de Notícias», pela pena de não sei que articulista, narrou esta lenda há muitos anos, que me lembra muito bem de a ter lido.
Enquanto as sopas arrefeciam e espargiam pelo ar um aroma de apetites, o Padre Francisco aproveitou os últimos instantes daquela cavaqueira, nas escadas do patim do Dr. Guedes, para me contar outra lenda, que eu reproduzo mais ou menos fielmente. 

Havia uma menina, que costumava pastorear ovelhas na companhia dum seu irmão, de nome Leonardo. Comba se chamava ela e era bela como uma alvorada de Maio, esbelta como uma andorinha, boa como um cristão antigo.
Um dia, o Rei de Orelhão, cavalgando pelo monte, encontrou a pastora; apeou-se da montada, assentou-se numa pedra e pediu-lhe que o catasse. O monarca reclinou a cabeça no seio da menina e sentiu uma tal blandícia que adormeceu, enquanto ela lhe ia separando os cabelos para a operação requerida.
Poucos momentos passados, a inocente pastorinha teve um palpite nebuloso e, desviando a cabeça do cavaleiro para o lado, desembaraçou-se dele e deitou a fugir.
O Rei tivera um sonho de volúpia, em que a figurinha da pequena serrana era a vítima do impulso escandaloso que lhe alvoroçava o sangue. Então, acordou. Quando se viu só, rangeu os dentes, montou a cavalo e partiu à desfilada, em busca da menina. Prestes a alcançá-la, eis que um grande fraguedo a que Comba se encostara, se fendeu para lhe dar passagem. O cavalo, num galão, ia avançar pela abertura, mas o rochedo fechou-se e as patas do cavalo real sulcaram a pedra e lá estão ainda as marcas das ferraduras, patentes a quem as quiser ver.
O Rei de Orelhão, furioso, viu o irmão de Comba ao longe e galopou como uma flecha, para o alcançar. Usando a lança, num rompante dementado, golpeou-lhe o ventre, pondo-lhe as tripas ao sol. Leonardo jazia como morto, sobre umas carrasqueiras secas. Reunindo as forças que lhe restavam, arrastou-se até um poço que havia próximo e lavou as vísceras na água pura que dele brotava. Por favor da Providência Divina, operou-se a cura sobrenatural e Leonardo pôde levantar-se e correr em socorro da irmã.
Não desanimando, o crapuloso Rei, dos seus intentos, voltou mais tarde ao monte, acompanhado de alguns soldados, para o ajudarem na batida. Mal a pastora o divisou ao longe, deixou o rebanho e correu; correu espavorida, implorando a protecção divina. O Rei, lançando-se-lhe na peugada, instigou os soldados a alcançá-la, gritando-lhes do alto do ginete: «Agarrai-a! Agarrai-a!» Mas a pastorinha tinha asas nos pés e não mais foi apanhada.

Termina a lenda dizendo que Comba morreu em Coimbra, sendo mais tarde beatificada - Santa Comba, bem como seu irmão - São Leonardo.
Ainda hoje se pode ver o poço em que São Leonardo lavou as vísceras esventradas. Ao monte, chama-se de Santa Comba: e a colina em que os soldados perseguiram a pastora é conhecida por - A GARRAIA, topónimo derivado do grito real.
A noite viera chegando, em pés de lã, e nós subimos para a sala, onde iniciámos a refrega, que havia de ficar memorável na história da hospitalidade transmontana."

Texto retirado livro O Homem da Terra, da autoria de Luís Cabral Adão, publicado em 1986.

Cabral Adão - Síntese Biográfica

21 março 2014

Chamada

Algarve não é só no baixo Sul,
Com a graça da flor de amendoeiras:
Cá nos montes também há céu azul
E sedas, linhas, cor's e bordadeiras...

Fev'reiro vai comprar o caracule
Para enfeitar d'encantos as fruteiras.
Corta agulhas nos juncas do paul
E veste de noivado estas ladeiras.

Oh viajantes! Vinde à minha terra,
Vinde descer ao vale, subir à serra,
Encher os olhos deste estranho amor.

Vede, gentes! que lindo que isto é,
Seja em redor de Alfândega da Fé,
Moncorvo, Mirandela ou Vila Flor!!!
Soneto retirado do livro “Versos – Vila Flor”, impresso em Novembro de 1966, da autoria do Dr. Luís Manuel Cabral Adão.

01 outubro 2013

No Jardim da Saudade (02)

"No Outono, nem toda a Natureza dorme. Enquanto campos se acalentam em sonhos de mistério, nos canteiros dos jardins velam crisântemos em plena exuberância, garbosos e emproados na sua inclinação sobre a haste! São manchas multicolores que nos maravilham o olhar e os lábios se os beijarmos. Mas ai da ilusão! Até os crisântemos são tristes, porque vão bem a acompanhar finados!
A florista da esquina tem-nos aos braçados. Os seus ramos são poemas melodiosos, em cada corola urna estância, em cada petalazinha um verso cândido. Poema... elegíaco! Elegias de saudade, que vão levar gemidos dos seres que ainda rastejam, aos restos desconjuntados dos seres que estão mais altos. Só uma flor podia ser veículo da saudade humana! Só uma flor podia traduzir no sepulcro, a mágoa dos que choram o passamento dum ente estremecido!
A florista faz negócio. É dia de fiéis defuntos. Um jovem bem parecido, correcto e enluvado, compra-lhe a provisão. E com os braços ajoujados de crisântemos, transpõe o portão do cemitério, verdadeiro prado do repouso ou jardim da saudade.
Ali, no limiar daquela porta, as crenças dividem-se. Uns têm-no como meta da vida, para lá da qual só há a escuridão do nada. Outros consideram-no como o local da última metamorfose humana, no qual as larvas, que todos nós somos, se libertam do casulo para, transformados em insectos perfeitos, lindas borboletas de asas brancas, voar ao Céu, onde as esperam as delícias da vida eterna. Larvas, sim, aquilo que nós somos, envoltas em casulos que cada um tece de sua maneira: com fios de honestidade, ou de valentia, ou de perfídia, ou de maldição, ou de santidade."

Excerto do livro Paisagens do Norte, escrito pelo Dr. Cabral Adão e publicado em 1954. Este livro teve uma segunda edição pela Câmara Municipal de Vila Flor em 1998 (Minerva Trasmontana, Vila Real). Pode ser encontrado no Museu Berta Cabral, na sala dedicada a Vila Flor.

Outro excerto do mesmo livro:  No Jardim da Saudade

06 agosto 2013

Ânsia

 Amanheceu. No píncaro do monte,
Saudava com amor a luz do dia.
Um véu azul, do val' se desprendia
Pra que um ninho de amor cedo desponte.

Um dentinho de sol, súbito, ria
Na diáfama linha do horizonte
Vindo louvar em cânticos de fonte
A minha terra - alvura e louçania!

Olho de cá do alto a vila, o ninho
De que me sinto ledo passarinho
Com ânsia de voar, sempre voar...

Dar volta ao mundo todo, aos quatro cantos,
E, fatigado dos maiores encantos,
Ao torrão que me deu, vir descansar!

 Soneto retirado do livro “Versos – Vila Flor”, impresso em Novembro de 1966, da autoria do Dr. Luís Manuel Cabral Adão.
 Notas: Luís Cabral Adão nasceu em Vila Flor, Trás-os-Montes, no dia 24 de Junho de 1910, tendo falecido em Almada a 6 de Agosto de 1992. Os restos mortais foram sepultados no cemitério da terra natal, assim se concretizando um anseio que expressamente havia manifestado.


24 junho 2013

Versos Vila Flor

"É este o título do novo livro que o nosso distinto colaborador, Sr. Dr. Cabral Adão, acaba de nos enviar e oferecer. Tamanha honra desvanece-nos e torna-nos credores eternos da sua gentileza e bondade.
Exclusivamente dedicado à sua linda Vila Flor, àquela bonita vila transmontana que lhe foi berço, e à qual, por achar tão bela, o nosso rei-trovador, D. Dinis, lhe pôs o adequado nome de Flor.
«Versos Vila Flor» veio avivar mais qualidades intrínsecas do seu autor, como aliás se nota em todos os seus artigos, poesias e contos.
O Sr. Dr. Cabral Adão, que a pedido de um antigo condiscípulo se dignou colaborar no nosso «CATASSOL», nome feito e muito considerado nas letras e nas ciências médicas, apesar dos seus múltiplos afazeres profissionais, tem mantido neste pequeno jornal uma colaboração regular altamente apreciada por todos os nossos leitores, pelo que bem merece o nosso maior reconhecimento.
Pedimos-lhe autorização para aqui transcrevermos um dos poemas deste seu livro, como amostra do poder descritivo da sua pena molhada na saudade e amor à sua terra mimosa, pelas imagens que lhe ficaram nos olhos e no coração.

Carícia Real
Desabrochou a sécia no regaço
Do monte, sobre um plaino de verdura
E logo o Céu Azul, num terno abraço,
Abençoou a flor, vermelha e pura.

Chamou-lhe Póvoa, o Homem deu-lhe um Paço
De abóbada e colunas, deu-lhe altura
Na Lusitânia antiga, deu-lhe espaço.
E a sécia em mil sécias se depura.

A jardineira lua, com luar
As rega, e o vergel, suma delícia,
Recrudesce de graça e de esplendor.

Até que um Rei, poeta singular,
Preso do encanto, fez-lhe uma carícia:
- «Bendita sejas flor das vilas… Flor!»"

Artigo publicado no Jornal Catassol, em Janeiro de 1967

Nota: Luís Cabral Adão nasceu em Vila Flor, Trás-os-Montes, no dia 24 de Junho de 1910, tendo falecido em Almada a 6 de Agosto de 1992. Os restos mortais foram sepultados no cemitério da terra natal, assim se concretizando um anseio que expressamente havia manifestado.

Síntese biográfica 

06 agosto 2012

É d'agora viva!!!

O acontecimento mais importante daqueles dias monótonos lá da terra, a quebrar a pasmaceira habitual das tardinhas mornas, era a chegada, à praça central, da camioneta da carreira. Logo que se ouvia ao longe aquele silvo roufenho da buzina, despontavam das portas meio fechadas das mercearias, pátios e farmácia, uns tantos pasmados que, de chapéu sobre os olhos, andar lento e dedos nas cavas do colete ou no cinto das calças, se chegavam para um dos topos do rectângulo, onde costumava parar o carro.
Aí, sob as tílias frondosas da borda, já esperavam as sardinheiras, de cócoras, lenços desapertados sobre as fartas cabeleiras, de tranças enroscadas em puxo, blusas de riscado desbotado, mais puído nos seios, saias de grande roda, com remendos quadrados na barra, descendo até aos pés descalços, a mostrar o calcanhar rachado. Conversavam sobre o negócio, dando que dando às rodilhas de trapo distraidamente suspensas das mãos.
- Mas tu esperas, ó Janota?
- Pois atão não havera de esperar? Se ele o meu fornecedor mandou-me uma parte, por telegrama, a dizer que vinham...
- A minha vem-me mais cara. Sessenta e tal mel reis o milheiro. Mas eu cá subo-lhe também ao preço. Olaré! Quem quiser que as plante! E ninguém gosta de trabalhar para aquecer.
- Lá isso é verdade - anuíu a Moga, a Esperança. - Vá que uma pessoa ganhe quinze mel reis. Vá lá mesmo, doze mel reis com uma coroa, em cada caixa. Mas menos, isso é que não!
- É! - reforçou a Maria da Júlia. - Vejam lá aquela paspalhona da Recha a vender a sardinha barata, a sete à coroa, por causa dum despique, e não chegou a tirar, forros, uma libra com um quartinho. Quem é que está por isso? Também se amolou, que a sardinha estava tão ardida que ninguém a podia «levar». Ora toma! E os fregueses olham agora para o peixe dela, desconfiados...
Com estas e com outras, parou ali mesmo a camioneta. Saíram alguns passageiros (três caixeiros viajantes e o pagador das Obras Públicas), abriu-se o rolo dos jornais que os assinantes, ávidos, reclamavam, para desandar depois, a ler os títulos da primeira página; e das coxias e de sob os bancos, o «chauffeur» tirava caixas de sardinha, com as tábuas húmidas, salgadas, espalhando no veículo um salitre e um fedor horríveis!
Distribuídas as caixas às suas destinatárias, as mulherzinhas abaixaram-se e despregavam-lhes as tábuas do cimo com um calhau, ou com qualquer escoprozito que levavam adrede no bolso da saia. Depois... caixas à cabeça, sobre as rodilhas, e elas aí vão a correr, divergindo para os quatro pontos cardeais do povoado.
- É d'agora viva!
- É vivinha!
- Quem merca a sardinha fresca?
- Quem n'a quer fresquinha?

O resto da história pode ser lida no livro O Homem da Terra, da autoria de Luís Cabral Adão, publicado em 1986.
1ª fotografia - Praça da República em 1921 (Arquivo do Museu Berta Cabral)
2.ªfotografia - Homenagem ao Dr. Cabral Adão, em Vila Flor, a 18-09-2010.

15 abril 2012

A confissão da Amélia

"Estava uma noite encantadora de Agosto. A lua cheia, já bastante elevada na cúpula sideral, muito redondinha, muito branca de prata, talvez risonha, a arbitrar-lhe uma face bonacheirona, como a imaginação dos pintores humorísticos a fantasia, derramava sobre as terras, as árvores e os casais, uma luz mortiça e fina, que tornava lúgubres os tons escuros e berrantes os tons claros.
Semelhava, este luar, um manto de melancolia, ténue, duma translucidez de neblinas, que se desdobrasse, profuso, dos ombros duma moira encantada, a tonalizar a paisagem, de mimos e sonolências.
Já poucos ruídos de vida se percebiam pela extensão da planície, além da camada de sons miúdos da bicharada noctâmbula. E o rio, que ia alquebrado e rarefeito, gemia brandamente a sua impotência nos pedregulhos da represa do moinho, que há algumas semanas jazia parado, por falta de corrente capaz de o mover.
As latadas dos caminhos faziam-lhes sombras caprichosas, de o luar penetrar os intervalos das folhas e dos cachos, desenhando-lhes os contornos rendilhados.
Não corria aragem. Não se via nenhuma luz, além das que se projectavam do firmamento. Seria, talvez, esta visão de sonho, uma expressão, na Natureza, daquela sensação que a nossa alma experimenta, sem a saber explicar: a saudade! Choupos e ulmeiros, videiras e árvores de fruto, flores e ervas pobrezinhas, saudosas do sol que lhes dá vida, mas que também as queima e resseca, por vezes! Águas do rio, orvalho das flores e até a ligeira neblina dos baixios, saudosos do mesmo astro-rei, que os torna resplendentes, os purifica, os irisa, mas que, ao mesmo tempo, os evapora e os dispersa! Os muros alvinitentes e a voluptuosidade das quebradas, a recordarem, saudosos, os gritos fortes dos boieiros e carreiros, os cantares das cachopas, as tagarelices das crianças, características das fainas do dia, para os reproduzirem em ecos sonoros, entorpecidos na doce ilusão de falas naturais, que não possuem!
Saudade nos pomares, nos pinhais, dolentes, nos povoados tristes, nas ermidas altivas, a perfurar o céu! Um manto de luz mortiça... um manto de sons tristonhos... um manto de espíritos de fadas...
Na curva dum caminho entre-muros, encoberto com a sombra duma cerejeira graúda, um homem aparecera. Àquela hora, com os receios com que se movia, o olhar estranho que as coisas dirigia, dir-se-ia que tentava qualquer marosca ou temia qualquer perigo. Nem uma coisa nem outra.
Ao fundo do caminho, que era todo coberto de ramadas e orlado por olmos, amieiros e fruteiras, destacava-se, no seu aspecto de mancha cinzenta, do porpianho de granito antigo, uma casa de lavradores, comprida, de bastantes janelas, com currais e quintal anexos. À porta principal, larga, com almofadas já esfoladas do roçar dos eixos dos carros, que às vezes calhava, estava preso pela rédea a uma mó, já gasta, um cavalo branco.
Quando o espião (chamemos-lhe assim) se apercebeu dessa presença, estacou em frente da casa e o coração bateu-lhe com mais força. Não era um bater de crime, de rancor, de maldição: era um misto de paixão e ressentimento, de orgulho que não esquece e de sensibilidade que perdoa; era uma bater de saudade, naquela noite já tão infiltrada de saudosos fluidos!!!
E ali ficou colado ao muro velho, olhando o cavalo branco e a casa, sem perceber o que lá dentro se estaria a passar. No entanto, a sua agitação íntima crescia. Súbito, abre-se a porta e aparece no vão a figura dum homem novo, muito alto, muito forte, bem trajado, que ajeitou o chapéu e se curvou sobre os joelhos para enfiar as esporas nas botas grossas. Neste homem hercúleo, logo o espião reconheceu o médico, o doutor Casimiro Teixeira. Tendo um pressentimento horrível, adiantou-se com passos lentos e disse, sossegando o clínico:
- Muito boa noite, senhor doutor Casimiro! Não me fazia agora aqui, pois não? Realmente, nem eu supunha, há dias, que tão depressa regressaria.
- Quem és tu? - perguntou o médico, pondo-se a jeito com as sombras da ramada para reconhecer o interpelador.
- Ai, tu és o Maximino? Então já te passaram os vapores? Eu bem sei por que andas a rondar esta casa, rapaz! Mas olha que se tens raiva à Amélia, desfá-la quanto antes, para depois não teres remorsos. Olha que ela está mais para morrer que para viver!"

O resto da história pode ser lida no livro O Homem da Terra, da autoria de Luís Cabral Adão, publicado em 1986.

29 novembro 2011

No Jardim da Saudade (1/2)

Já rolam os ventos brandos do Outono pela Natureza sonolenta além. Descem aos vales, perseguindo os ribeirinhos, brincando com os salpicos irisados de
pequenas cachoeiras, penetrando as frinchas das azenhas, que recomeçaram o trabalho de moer pão e de bucolizar os quadros campestres no chiar mansinho dos rodízios; e abanam as copas desfalcadas dos choupos das margens desprendendo-lhes as folhas, agora uma, logo outra, mais outra, e mais... e mais... que vão caindo, esmaecidas, mortas, nas ondulações da corrente, como lágrimas num rosto, a deslizar suavemente; ou poisando em espasmos nos tapetes relvados, esboços dos novos prados para os cordeirinhos pastarem plas tardinhas.
Correm as encostas como um sopro fugidio, arejando a terra revolvida pelas charruas do lavrador, que a prepararam para a sementeira do centeio, seguidas por bandos de contentes alvéloas, que empinam o rabo ao vento, enquanto debicam os vermezitos que a relha traz à tona.
Embalam os sinos das igrejinhas modestas, dispersas pelos povoados das quebradas, tomando-lhes as badaladas plangentes, escoadas nos crespúculos pelas veigas fora, até aos ouvidos dos trabalhadores da terra, que se descobrem, se inclinam e se edificam na oração das Ave-Marias.

Texto: Excerto do livro Paisagens do Norte, de Cabral Adão.
Fotografia: Por Traz da Serra (Roios)

11 julho 2011

A Eduarda, doceira

Ali, junto ao quintal do Doutor Azevedo, onde havia lilases, lírios e umas folhas lanceoladas muito aromáticas, que eu colhia para meter na minha Cartilha Maternal e, com elas, o perfume de perceber e desenhar as primeiras vogais; ali, no canto chamado das viúvas, por só viúvas lá morarem, é a casinha da senhora Eduarda, pequenina, de esquina redonda, com uma porta, apenas, e janelas que deitam para os telhados vizinhos, do antigo Tribunal.
Esta humilde saudosa casinha, além de residência da senhora Eduarda, era também fábrica de doces, uma espécie de precursora das grandes fábricas de pastelaria que hoje se vêem nas cidades, com muitos maquinismos e muitas operárias de bata azul e touca branca.
Mal despontava o dia, se eu abria a porta do quinteiro anexo à casa onde eu nasci, para ir aos pintassilgos com estrumalho, ou aos talhões e rabitas com pescoceiras e costelas (formigas d'ala no cabaço), logo via a doceira sair da loja da lenha, com grandes braçados de chamiça para o forno, caminhando às canchadas, para não pisar os pintainhos da galinha que botara.
- Bons dias, senhora Eduarda! Já tão cedo a trabalhar!
Isso é que ela é madrugadora!
- Tenha Vosselência muito bons dias. Há quanto tempo eu estou erguida! Tem que se aproveitar a manhê, que faz mais fresquinho. Logo, pela força do calor, quem podia estar à boca do forno?! Então vai aos pássaros?
- É verdade. Olhe: vou passar o tempo, entretido.
- Veja se quer uma suplicazinha! Dou-lha de boa mente.
- Muito agradecido. Já matei o bicho. Até logo!
- Então, até logo. E oxalá que traga uma boa coleira deis, para a Rita lhe fazer uma arrozada.
...

Excerto do livro Paisagens do Norte, de Cabral Adão.
Fotografia: Quinteiro em Carvalho de Egas.

07 junho 2011

Voz dos sinos

Como pastor atento dum rebanho
De mansas ovelhinhas, bom pastor,
Ergue-se a igreja matriz, dum tamanho
Que sobrepuja tudo ao seu redor,

Ali, na pia baptismal, um banho
Tomou a nossa alma, redentor;
E no sacrário brilha o Santo Lenho
E a Eucaristia, a dar-Se por amor.

Torres bem altas, azulejos finos,
Coruchéus e pilar's monumentais,
O templo é sentinela e oração

A tansmitir a'Deus pla voz dos sinos,
No repique festivo ou nos sinais,
As vibrações o nosso coração.

Soneto retirado do livro “Versos – Vila Flor”, impresso em Novembro de 1966, da autoria do Dr. Luís Manuel Cabral Adão.
Ouros poemas de Cabral Adão: Árvore em flor, Trovoada, Carícia real e Modelação