
Foi um passeio familiar, ao início da tarde. Já todos conheciam Vilarinho das Azenhas, mas nunca tinham subido ao morro onde se situa o santuário. São 398 metros de altitude, nada que se compare com a imponência do Faro, mas, mesmo assim, posso afirmar que é um excelente miradouro. Quando subi ao santuário pela primeira vez, em Janeiro de 2007, imaginei a procissão ao longo do percurso, desde a aldeia, até à pequena capela no topo do monte. Este ano quis ver com os meus próprios olhos.
Quando descia, de carro, em direcção ao Vilarinho, pensei ter-me enganado no dia. A Agenda Cultural, de Vila Flor anunciava a festa de Nossa Senhora dos Remédios, no seu santuário! Não havia movimento, não se via ninguém. Arrisquei seguir de carro até ao santuário. O caminho não está mau, mesmo para um carro ligeiro.
Junto à capela estavam três mulheres que esperavam que alguém chegasse com a chave, para colocarem flores no altar de Nossa Senhora. Fiquei a saber que a missa e a procissão tinham acontecido de manhã, na aldeia, e que não haveria procissão até ao santuário.Decidimos esperar também.

Mesmo com calor, o lugar remete para a introspecção. A visão que se tem de toda a cordilheira coroada pelo Faro é algo de esmagador, faz-nos sentir pequenos. Os monstros rochosos cativam o nosso olhar e assustam-nos, forçando-nos a tentarmos a fuga, rio abaixo, planando sobre a calma do rio amansado por azenhas, onde as rodas já não se ouvem. Da pequena aldeia, a nossos pés, só chegava paz. Nem o estrondo dos foguetes, nem a marcha da banda, nem o ladrar dos cães ou o cacarejar das galinhas. Dos açudes do rio não chegava nenhum som ao santuário. Apenas o reflexo do sol, que não conseguia penetrar nas águas, se multiplicava e subia à montanha, fazendo-nos semicerrar os olhos, não nos deixando ver além da Ribeirinha.
Procurámos a sombra da capela, encostados a uma parede que algum pagão não se importou de manchar, com promessas de amor.

Por fim chegou a chave. Entrámos todos na pequena capela. O interior é muito sóbrio. Destacam-se três altares, com aspecto de terem sido recuperados, possivelmente da igreja. Apenas o central estava ocupado pela imagem de Nossa Senhora dos Remédios. Quer a imagem, quer os altares (e também um púlpito), apresentam um aspecto impecável, fruto de um restauro recente.
Mantive-me afastado, deixando as pessoas fazer as suas orações a que se seguiu o trabalho de decoração da capela. Foram colocados vários arranjos de flores brancas, retiradas dos andores. Esta foi a homenagem possível, no santuário que parece mais distante, numa aldeia que tem pouca gente e onde a fé se alimenta cada vez mais à superfície.
Três carros deixaram o local. Nossa Senhora gozou, durante uma hora, da nossa companhia e ficou na capela perfumada, aquecida pelo sol da tarde, que, por pouco, não derruba a porta, com a vontade de beijar o altar.

Descemos à aldeia, passámos pela igreja e seguimos para o rio. Não imagino ir ao Vilarinho sem fazer uma visita ao rio. As frondosas árvores ostentam os seus frutos. Prestes a terminarem mais uma etapa, bebem a luz do sol, preparando-se para largarem as suas folhas, embaladas rio abaixo, nas águas ainda livres de barragens.
A Linha parecia triste. Abandonada, estendia os seus braços que quase abraçam o céu, num silêncio de enterro. Estará a linha destinada a receber algumas flores apenas em momentos de festa?
1 comentário:
Mesmo sem festa, a descrição é maravilhosa e os postais muito bonitos!!! Continue, Aníbal...
Cumprimentos
Anita
Enviar um comentário