23 dezembro 2008

Universalidades


"Baixou a noite como um floco de algodão preto escorrendo pelas abas da serrania. Ao lusco-fusco recolheram os coelhos às luras, os insectos sobreviventes aos casulos, os morcegos aos ninhos, escondidos nas pedras velhas. Sob as pastas de musgo húmido e orvalhado, hibernam sardaniscas e lagartos ao calor das fermentações do folhiço morto.
Em galerias sinusoides, rosnam carunchos, nos troncos abatidos.
Requisitado pelas forças vivas da terra, aceitei a incumbência de elaborar uma reportagem da noite de Natal, essa noite lançada em ponte desde a tarde de 24 à madrugada de 25, desde o velho mundo ao novo mundo, desde a escuridão da descrença às claridades da Fé.
Mal as estrelas abriram os guichés, subi o caminho e meti-me ao mato. Não havia luar, mas a dois terços da escarpa uma manchazinha branca localizava a ermida de Nossa Senhora da Serra.
O mato é espesso, emaranhado de zimbreiros e verbascos, aroeiras, zambujeiros e silvas, folhagens tenras ou rijas, aqui picando as pernas, através do pano das calças - era a gilbardeira, mas como tinha as esferazinhas encarnadas, rainha do Natal, não me escandalizei; ali pegando-se às mãos, com resinas viscosas.
Em baixo, no descanso da várzea, corre o rio e amadornam as casas da aldeia, vivas nas múltiplas luzes que enchem as janelas.
O anoitecer veio calmo. Há sobre toda a Natureza uma bênção de pacificação que se sente com inteira verdade. Ela festeja, pelo aniversário do nascimento do Deus-Homem, a sua própria criação, concedida por Deus-Vida. Natural, portanto, que as folhas e as ervas, as rochas e os bichos festejem, como nós, a sublime Natividade de Belém.
Não se rasgou o reposteiro do templo; não se abalou o Céu com trovões dilacerantes e relâmpagos horríveis; não se abriram fendas na terra e não rebentaram os fraguedos - quando Jesus soltou o último suspiro no Calvário?
- Nada de admirar, por conseguinte, que desça uma bênção de paz e amor à bruta Natureza nos festivais o do aniversário do mesmo Jesus.
Meio perdido, amparando-me aos pinheiros, reparei numa cova onde um coelho me esperava. Se medo tinha, deitei-o para trás das costas e lá me enfiei pela cova dentro, a bisbilhotar a consoada dos láparos.
Vencido o corredor, escuro e comprido, surpreendi-me num antro espaçoso que duas pinhas de pirilampos alumiavam sofrivelmente.
Uns tantos coelhos roíam sossegadamente a ceia melhorada: rabanetes cenouras, talos de couves, que o hortelão da várzea lhes deixou à discrição quando foi apanhar as hortaliças para a ceia dos patrões.
Nada mais que sossego e confraternização, naquele matraquear contínuo de dentinhos, eu achei na toca dos roedores. Recuei, então, para não perturbar a familota com despedidas e cheguei ao ar livre, continuando as minhas visitas à bicheza da serra.
Dali a vinte passos estava a caminhar por uma galeria intrincada e extensa, onde me sentia como um metropolitano no seu túnel.
Não tardou que observasse um formigueiro completo circulando por ruas e largos duma autêntica vila subterrânea. À luz duns grãos de claridade que elas tinham amealhado durante os dias soalheiros de Outono, viam-se os banquetes de confraternização, puxados a montes de cereais e sementes doces, que as formigas devoravam cheiinhas de apetite.
Com dificuldade, lá dei com a saída, respirando fundo o ar livre, que as evaporações do mato tornavam balsâmico e aprazível. E nesse ar fresco do monte, abrigados pela ramagem duma urzeira branca, fui espreitar um casal de pintassilgos que no mais carinhoso enleio debicavam uma umbela de funcho e outra de alface espigada, saboreando as sementinhas com gula inocente de pássaros felizes.
A noite ia avançada. A fadiga e o frio obrigaram-me a dar por terminada a reportagem que os moradores da serra me pediram. Para quê, mais visitas? Em qualquer escaninho onde habite um ser vivo, aí a implícita festa do Natal, por instinto da própria criação, acreditam?

Todavia, na cabana do lenhador há já a solenidade consciente da Festa Alegre. Sobre as dificuldades do mester, e as incertezas da sua vida, e as sombras das suas necessidades, brilha naquela noite a centelha mágica do amor para todos os homens.
Todavia, na consoada lauta do banqueiro, entre as refulgências deslumbrantes dos lustres e candelabros, acantona-se a penumbra miudinha dum Menino que nasceu escondido, lá nos confins da Judeia.
Todavia, no cérebro do ímpio, do teimoso na incredulidade, do perjuro e do falhado, a marca do Natal punge como flecha em madeira mole.
O Natal é doce mão que afaga os três reinos do Universo inteiro!"

Artigo de Cabral Adão, publicado na Gazeta do Sul, a 23-12-1955

3 comentários:

Transmontana disse...

Bonito texto e lindas imagens a ilustrar!!!
Parabéns, Aníbal.
Cumprimentos e desejos de um Feliz e Santo Natal...
Anita

at ento disse...

Olá.
Passamos por aqui para deixar os votos de Boas Festas e Feliz Natal para toda a comunidade que faz deste espaço um sitio de estar, o que só revela bom gosto, e do qual nós somo fãs.
As nossas saudações com a nossa amizade,
At Ento

Anónimo disse...

olá professor!bem haja pelas belas reportagens,de que nos dá conta,há que continuar.aproveito para lhe desejar um santo natal,com saúde e paz,bem como para todos os seus.boas festas e um bom Ano.
atenciosamente
fátima rosinha
23dezembro 2008