22 janeiro 2007

À descoberta de Vilarinho das Azenhas

No dia 21 de Janeiro fui ao Vilarinho das Azenhas. De repente, este começou a ser o destino com mais pontos na votação no Blog e também sentia uma certa curiosidade em conhecer esta terra da qual não lembrava mesmo nada (já passei várias vezes na Linha do Tua de comboio).
O dia estava muito desagradável. Muito frio, muito nevoeiro e com ameaças de piorar ainda mais.
Saí a meio da manhã, carregando também algumas sandes e fruta para combater a fome, num percurso que se adivinhava mais longo. Ao chegar perto de Vilas Boas o nevoeiro diminuiu e comecei a ganhar esperança. Depois, já na estrada de Vilarinho das Azenhas, o nevoeiro desapareceu da estrada apesar de, durante todo o dia, ter ficado a rondar o Cabeço da S. da Assunção, o Cabeço de S. Cristóvão e a Serra do Faro.
Cedo pude ver a aldeia lá ao fundo, junto do Rio Tua, meia adormecida no manto de nuvens que não deixava o sol secar os toldes e sacos da azeitona estendidos, despedindo-se da faina. A descida foi rápida e a temperatura ambiente subiu um pouco. Ao longo da descida foi tomando forma o monte onde se ergue o Santuário da Senhora dos Remédios. O caminho para o santuário tem início nas primeiras casas da aldeia. Vacilei um pouco, a subida ia requerer muito esforço. Depois de uma luta interior comecei a subida, controlando as forças que ainda seriam muito necessárias. O esforço valeu a pena. Apesar do dia não estar como eu o desejava, a paisagem que se avista enquanto se sobe, ou depois de chegar ao santuário, é algo de muito belo.
Parei várias vezes, passando os olhos pela paisagem mais próxima ou mais afastada e deixei arrastá-los pelas águas do Rio Tua que correm fartas mas tranquilas, não fora alguma açude das antigas azenhas que deram o nome à povoação.
O santuário tem um largo bastante grande que imaginei repleto de gente, música, cor e alegria, na festa a Nossa Senhora dos Remédios, no primeiro domingo de Setembro. Quanto se deve agradecer uns goles de água depois de percorrer toda a subida em procissão!
No santuário há um coreto, uma casa dos milagres e a capela que apenas pude admirar no exterior (não resisti a puxar a corda e dar duas badaladas no sineta). O campanário é em granito, com desenhos gravados e encimado por uma cruz (já incompleta) com Cristo pregado. Pareceu-me estar em alto relevo nele o ano de 1715.
Junto ao coreto, muito rudimentar, há umas escadinhas que descem para uma zona de mato onde há um grande aglomerado de pedras soltas. Não sei se trata de algumas ruínas ou de paredes de terrenos agrícolas. A povoação é muito antiga talvez anterior ao século XII.
Desci calmamente e entrei na aldeia pela Rua das Alminhas. Passei por uma fonte onde três grandes peixes vermelhos e alguns escuros, passeavam meios adormecidos pela água fria. Ao lado havia dois tanques públicos para lavar a roupa. Seguia questionando-me do nome da rua quando encontrei umas alminhas muito singelas com os dizeres: “Ó vós que ides passando, olhai para nós e ide rezando”. Encontrei também uma casa com um bonito arranjo de antiguidades.
Virei à esquerda e subi um pouco a Rua Cimo do Povo. Depois de uma rápida visita desci em direcção à igreja. Pelo caminho passei na Casa das Azenhas, onde se faz Turismo Rural. Continuei e entrei na igreja. Era Domingo e a chave estava na porta, coisa pouco habitual nas localidades que tenho visitado. A igreja, dedicada a Santa Justa, é pequena mas muito bonita. Como em todas as igrejas, S. Bárbara tem lugar de destaque. S. Justa ocupa o lado direito do altar mor. Numa parede lateral, a meio da igreja está, Nossa Senhora dos Remédios. Há também imagens de Nossa Senhora de Fátima, S. José e o Menino, Cristo na Cruz, uma outra que não consegui identificar (será outra imagem de Nossa Senhora dos Remédios?) e mais duas pequenas imagens. Debaixo do altar estava um bonito presépio recordando as celebrações do Natal.
Continuei a descer a aldeia. Encontrei bonitas casas tradicionais, em ruínas, a cair aos bocados. Na Rua da Capela encontrei a capela do Espírito Santo, pequena, num largo bem cuidado.
À direita havia um café e à esquerda um nicho com a Sagrada Família. Apeteceu-me um café mas continuei. Desci até ao rio. Tem um grande caudal e deliciei-me a observar a açude de uma antiga azenha. À procura da ângulos favoráveis deparei com um curso de água que desaguava no Rio Tua. Foi a primeira tristeza da tarde. A água estava muito porca, muito poluída, apresentando mesmo grandes quantidades de gordura. Não vi em volta nenhum lagar de azeite, mas o aspecto da água revoltou-me. Decidi continuar até à estação dos comboios. O panorama também não era o melhor. Lixo, pinturas nas paredes, degradação e tristeza. Avancei até à ponte que permite a ligação a várias freguesias do concelho de Mirandela. O lugar é aprazível e aproveitei para comer o meu “almoço” ao som genuíno da orquestra do rio.
Ouvia os carros a passar mais acima mas não há nenhuma ligação a essa estrada, tinha que voltar à aldeia. Ali perto descobri um carreiro pelo monte que permitiu subir até à estrada N604 que me levou ao Cachão.
Esta estrada tem locais com lindas vistas sobre o rio com as escarpas rochosas à volta e a linha do comboio a acompanhar. Infelizmente também parece atrair muita gente sem respeito que despeja grandes quantidades de toda a espécie de lixos, incluindo muitos pneus e electrodomésticos. É incompreensível que pessoas que gostem da sua terra a cubram de lixo!
Chegado ao Cachão, no concelho de Mirandela, estava na hora de regressar. Ainda fiz algumas paragens para admirar Meireles, algumas rochas, medronheiros e a Quinta da Veiguinha. Cheguei a casa perto das cinco da tarde. Foi um grande passeio sempre rodeando aquele conjunto de montanhas que continuam a provocar-me para mais umas “descobertas”.

Quilómetros percorridos de bicicleta: 34
Total de quilómetros de bicicleta: 303
Total de fotografias: 5520

8 comentários:

Anónimo disse...

Pois é amigo Aníbal lá continuas tu com as tuas passeatas,obrigando-nos a visitar assiduamente a tua página para conhecermos mais um pouco deste "Reino Maravilhoso".Continua, pois estás a fazer um trabalho espectacular.
Um abraço
R.Salvador

frechas disse...

bem..., isso é que foi pedalar... subir por aí acima...já vi que tens muita preparação.
Um abraço.

Anónimo disse...

boas tarde
é com prazer num dia de trabalho estava na net á procura de coisas bonitas, e não é que encontro a aldeia dos meus avós numas fotografias altamentes e com uma historia fantastica. Pois fica a saber que a caminhada de bicicleta que fez, eu faço todos os anos para poder levar ao cabeço a Nossa Senhora dos Remedios. E sim é assim na festa tem muita cor muita alegria muita sede mas também muito sofrimento. Mas fiquei contente por saber que á pessoas que dão valor ás nossas aldeias de Portugal.
Com um beijinhos muito especial e de louvor
Sofia Magalhães

Amalia Jose Pinto de Sá disse...

Assisti neste ultimo fim de semana aos festejos da Srª. dos Remédios em Vilarinho. Já há uns anos que esta romaria festiva e de animação não se realizava, devidotalvez a ser sempre os mesmos a tomar a iniciativa do festejo. Por (infelicidade)ou felicidade, este ano lá se realizou a tão desejada festa para os da terra e para aqueles que tanto gostam de ir a Vilarinho. O empenho foi como sempre dos mesmos, mas valeu apena, houve grande diversão, animação e fé.Fé para aqueles que tão dolorosamente carregam nos andores ao longo do percurso difícil e debaixo de um calor escaldante, alimentam e esperam que Nª. Srª. dos Remédios os protejam, nos seus malificios. À Nª. SRª. dor Remédios, quero tambem daqui (já que o fiz aí) pedir graças a tdos aqueles que sofrem mas um muito especial para a Tia Alice que dentro de dias vai ser sujeita a uma intervenção cirurgica e tenho a certeza que com as preces de todos e a graça de N. Sª. Remédios, a Tia Alice vai voltar a estar com a sua ainda juventude no seio de todos nós.

À nª. SR. Remédios, a todos aqueles que se interessam pela saúde do próximo, o meu muito obreigado.

Lino - Porto

Anónimo disse...

Chamam.lhes montes, terrinhas sem nada, terriola, mas para mim é: a minha qerida ALDEIA !
Sem duvida que este ano a festa teve a altura da aldeia, como já não se via á muitissimo tempo. A procisão, foi lindissima, custou para toda a gente, mas sem duvida quem foi digna. Com esperas que se volte a repetir !


Digo desde de já que as suas fotos estão fantasticas. Parabens pelo trabalho.

S. disse...

A minha Aldeia.

Tenho enorme orgulho de pertencer a esta Aldeia. Que nossa senhora dos Remédois abençoe todos que nela têm raizes.

Um abraço para o sr, Anónio neves

Anónimo disse...

Bom... vou começar por felicitar o fotógrafo destas maravilhosas imagens,e agradecer ao mesmo tempo por ter tido a fabulosa ideia de "expor" a minha (a nossa)terra ao alcance de todo o mundo com um simples "click" desde este meio de t.i.c,muitos parabéns Anibal Gonçalves. excelente e apreciado trabalho.
Surgiu devido a uma "desgraça" ou "má fase" da sua vida, onde o mesmo, a sua família, amigos, uma aldeia, e até mesmo um concelho se vulcou para uma Fé do tamanho do Universo,contribuindo "condicionalmente e incondicionalmente" na celebração de uma romaria (em grande) LINDISSIMA como a da minha aldeia. Orgulhando-me assim de ser de Vilarinho e do Concelho de Vila Flôr. Agradecer também "atrevendo-me a chamar-lhe assim" Filho de Vilarinho; por ter escolhido a "nossa" terra para dar todo o seu empenho e dedicação por ela, levando-la ao ponto de ser o que é, OBRIGADO ANTONIO NEVES.

ass: Celso Teixeira.

Adelino Azevedo disse...

Quando me afastei de Vilarinho, havia em mim uma alegria indescritível e uma tristeza dolorosa. Alegria porque novos horizontes se abriam; a constituição de uma nova família leva-nos a pensar no alimento, na educação, formação etc. Tristeza, porque a minha avó, a pessoa que mais me tocou e a quem adorava de uma forma quase doentia, ficou um pouco afastada desta minha caminhada a que chamamos vida. Mas foi a minha nova família, que me ajudou a suportar a dor dilacerante da sua partida. No Vilarinho da minha infância, havia muita criança e alegria...
Adelino Azevedo