22 maio 2007

Trovoadas - Cristiano de Morais

Depois de ter publicado ontem o soneto Trovoada, de Cabral Adão, pensei que não haveria melhor poema para descrever o ambiente e os sentimentos que envolviam estes acontecimentos há alguns anos atrás (e em parte, ainda hoje). Descobri, entretanto, estes versos de Cristiano de Morais (outro vilaflorense). Vale a pena lê-los até ao fim. Transportam-nos, momento a momento, chegamos a sentir o vento, o trovão, a respiração temerosa.

Que dia sufocante, d'abafadiço calor!
Pesa no ar parado, um suplício de dor
Que nos oprime, tortura e alanceia
Como se fora feito, de fogueira alheia!
E lançasse no ar, do brazido espaço
Chispas invisíveis, da cor do aço!
Caldeando gamas e tons auriluzentes
D'efeitos lucinantes, assás surpreendentes!
A atmosfera, está brunida de linda e loura luz
Refulge e cintila, como deadema na Cruz!
E é tal a combustão das partículas no ar
Que o oxigénio é pouco, para a gente respirar!
Vendo-se no espaço grandes fumaradas
Como s'ali estivesse, o fumo de queimadas!
Não se mexe uma folha, escaldam as pedras o ar
É um ar de forno, que nos está a escaldar!
Há um zunido infinito, n'aquele sossego silente
Como se fora latejo, na própria alma da gente!
A natureza está suspensa, as plantas a murchar
O coração adivinha, que algo se vai passar!
Desesperam os animais, mordem fundo as moscas
Abrem o bico as aves, em suas visagens toscas!
O calor, é infernal, já se não pode suportar
E de repente, negras nuvens vêm toldar
O céu escaldante, feito de cor de aço!
Tornando num estante, aquele ambiente baço!
Que se dilui e resfria, como um banho salutar
E que só se respira, na proximidade do mar!
E vai ficando negro o céu e sem luz e sol
Como se fora crepúsculo, ou névoa d'arrebol!
Sentindo-se já a brisa, a encrespar as árvores
Como se foram leques, d'aquelas abafadas tardes!
Balouçando-se no ar, n'aquele estranho rumor
Que só têm os regatos de intenso estridor!
E o céu é mais escuro, e maior a cerração
Rola já ao longe, o roncar do trovão!
E nisto salta o raio, e ilumina-se o céu
Ficando logo em seguida, tudo da cor do breu!
Caindo grandes pingas, com cheiro a ozone
Como presságios funestos, d'ir começar a fome!
E novo deslumbramento, num dilúvio de luar
Um alustre fulgurante, perto de nós a riscar!
Unindo de ponta a ponta, duas serras altaneiras
Como s'ambas se beijassem, num clarão de fogueiras!
Enquanto os corações, estremecem a soluçar
Orando, à Virgem, a Deus que nos venha salvar!
Santa Bárbara! S. Jerónimo! Toda a corte celestial!
Vinde em nosso socorro, nesta hora final!
Ruge de novo o trovão e açouta a ventania
A noite procelosa e escura, substitui o dia!
E sente-se novo esterrinco, a seguir novo luzeiro
Supondo todos, que o seu momento é derradeiro!
Caem, vindas do céu, grandes cordas de chuva
E com ela granizos, como bagos d'uva!
Descem do alto das serras, cascatas em fragor
Em enxurradas e turbação, como no peito a dor!
Pelos caminhos, vêm crianças encharcadas de lodo
Tremendo e soluçando, no seu corpinho todo!
Nos montes, os pastores, ajoelham junto ao gado
Pedindo a Deus que leve, este tempo irado!
Nas povoações salvam-se pessoas e animais aos gritos
Da enchente colossal, em esgares aflitos!
Enquanto que na montanha, debaixo d'árvores copadas
Ficam em negros carvões, almas electrocutadas!
Ao procurarem abrigo, para tão grande ansiedade
Que vai deixar a miséria e gerar a orfandade!
......................................................................................
E volta de novo o estampido, de rugidos medonhos
Já estão bentos às janelas e ramos, em sonhos!
Reza-se alto, em fervor e está a alma aos ais
Repetindo-se os estrondos, como de monstros infernais!
E naquele tétrico ambiente, de corações assustados
Vagueiam de lado a lado, olhares espantados!
Como à espera que os ilumine, ou assombre o raio
Nesta horrenda tempestade, do mês de Maio!
Mas graças ao Criador, este inferno está a passar
E a procela vai seguindo para os lados do mar!
Desoprimindo os corações, trazendo de novo o alento
Como o fresco e a brisa, são trazidos pelo vento!
E agora os alustes, os raios e os coriscos
Não são mais do que desmaios verdes, como troviscos!
E com a atmosfera aligeirada, e o espaço a clarear
Torna-se de novo alegre e confiante, o nosso olhar!
Regressando à vida, lançando a vista pelos campos
Cobertos d'água e lodo, como se foram mantos!
Num cemitério de culturas, árvores e produtos
Como o melhor do nossa trabalho e doces frutos!
Vendo-se as terras, abertas e regateadas
Como se por monstros, fossem lancetadas!
E mostrassem, nas suas chagas em sangue
A miséria, a dor, o pus da terra, em ponto grande!
Da humanidade toda, feita de barro vil
Embora às vezes pareça ser, uma manhã d'Abril!...

Cristiano de Morais, Riquezas e Encantos de Trás-os-Montes, 1950.
A fotografia foi tirada no Santuário da Senhora da Lapa, numa trovoada, ao fim da tarde.

1 comentário:

Li Malheiro disse...

Olá.
Belissimo poema, descreve de tal maneira, que lhe sentimos o peso e o desassossego das tardes suspensas num nada grande que se adivinha a aproximar sem saber quando vai ribombar. Reportou-me a uma trovoada que vivi, contigo, a caminho de Miranda.
Não conhecia o poeta, mas que ele sentiu esse sentir como quem sente que estar lá é descrever o que se ousa adivinhar que as gentes sentem.
Um abraço.
Li Malheiro