11 outubro 2007

A Menina das Cravelinas e Bem-Me-Queres

"Ela é gaiata, morena, dentinho de cal, cabelos escuros, aroma de madressilva no colo de rosas brancas, menina do meu agrado, sempre jovem, com jóias ricas de família nos dedos afusados, adereços romanos, góticos, árabes, judaicos...
A serra, molosso de xisto e terra escura deitado entre o Facho e as Portas do Sol, abrigam-na do norte, expõe-a abertamente às soalheiras do sul, tendo-a no regaço, como desvelada mãe.
Quem, há vinte anos subisse às capelinhas, dispostas mesmo no alto, pela tenaz dedicação dum grande vilaflorense, que tem o nome indelevelmente ligado às graciosas ermidas - Manuel Álvares Pereira de Aragão - via o povoado, lá do fundo, começar na Santa Luzia, na «máquina» - nome consagrado da fábrica de moagem inaugurada pelo gigante João de Matos, na minha saudade de criança - na Rapadoira e por ali abaixo até à Portela.
Hoje, o passeante, quer se sente nos degrau da velha capela de N.ª S.ª da Lapa, fachada alvíssima, ponteaguda, seu portelo de mina à esquerda, encavada em ciclopes de rocha bronzeada; quer se encoste às capelas de Santo Antão e São Bernardino, de cúpula em pirâmide; quer se instale nos miradoiros do santuário hexagonal da Senhora dos Remédios, depois de refazer-se do esforço da ascensão, com um lenço que lhe enxugue a testa ou uma aba de chapéu que lhe desencalme o rosto congestionado, tem o grato prazer de verificar quanto a vilazinha subiu, como casas novas nasceram, num populante renovar de gerações, vindo a fazer guarda de honra ao formoso edifício da «Domus Municipalis», padrão senhorial do concelho e da comarca, de costas no peito dos olivais da serra. A menina aconchegou-se melhor ao regaço da serra mãe, como gata mimalha que se levanta para se acomodar mais consoladinha ao sol da graça. A menina enfeitou-se. Deitou fora os candeeiros mal cheirosos e fumarentos do seu «bondoir» e meteu electricidade; instalou lindas torneiras onde jorra água pura da serrania; tem um lindo telefone de plástico rosado e translúcido, sobre a mesa de cabeceira; e vem à janela admirar o recorte moderno das avenidas e pracetas recém-nadas, seus balaústres, suas copas redondinhas como hortêsias, seus canteiros de relva fresca, rampas, escadarias, globos de candeeiros, aqui e ali, num conjunto de apoteose surpreendente, embora um fundo suspiro lhe sacuda o peito, saudoso da sua praça velha, que era a mais bela iluminura do seu pergaminho, que era o seu coração, o seu carácter, agora fendida, imolada a um desalmado critério de urbanização!
E a menina aparece no limiar da janelinha, mirando as lavadeiras nos seus tanques novos, entre olivedos e amendoais, onde cantam melros e rouxinóis, enfeitada com um ramalhete de cravelinas e bem-me-queres entre os seios macios de adolescente. "

Excerto do livro Paisagens do Norte, escrito por Cabral Adão e publicado em 1954. Este livro teve uma segunda edição pela Câmara Municipal de Vila Flor em 1998 (Minerva Trasmontana, Vila Real). Pode ser encontrado no Museu Berta Cabral, na sala dedicada a Vila Flor.

Nota:O original da fotografia a preto e branco encontra-se no museu Berta Cabral. A apresentada foi retocada digitalmente para lhe apagar imperfeições resultantes do manuseamento. Não consegui data-la com exactidão. Talvez seja de 1936.

2 comentários:

Li Malheiro disse...

Olá. Se a "menina" cresceu ao ritmo do crescimento das árvores, deve hoje estar uma senhora...
Um abraço.
Li Malheiro

Xo_oX disse...

Claro que cresceu Li.
Mas como se lê quase no final do texto as árvores da Praça nem sempre tiveram vida fácil. De cada vez que se fazia um arranjo na praça, as árvores sofriam e muitas vezes vieram abaixo. Esta praça sempre foi o coração de Vila Flor, local de encontro, feiras, etc. Algumas alterações que lhe fizeram deixaram marcas em muitas pessoas (algumas ainda vivas) que choram com saudade a sua velha praça.
Em 1937 foi inaugurado o edifícios dos Paços do Concelho que levou à criação da Avenida Nova, deslocando um pouco a atenção. Mas se quiseres sentir Vila Flor, vem sentar-te num banco da praça saboreando o soneto de Carícia Real, de Cabral Adão, gravado, num dos jardins da mesma.