
O passeio do dia 24 de Novembro levou-me até
Candoso! Nada estava estudado. O
Outono causou alguns danos na minha “máquina” ao nível do sistema respiratório e bicicleta ainda não recuperou dos maus tratos que sofreu no
Passeio de S. Martinho, em
Carrazeda de Ansiães.
Saí sem destino, pelo trilho que liga
Vila Flor ao santuário de
S. Cecília. O sol estava quente mas o ar frio! Bastava olhar em direcção a
Bragança para descobrir porquê. Lá longe no

horizonte, já em terras de
nuestros hermanos, os cumes das montanhas estavam cobertos de neve! O céu estava como eu gosto, de um azul vibrante salpicado por
longas nuvens, penduradas de onde em onde.
Uma paragem aqui, outra paragem ali, fui aproveitando a
folhagem outonal que os castanheiros e os carvalhos proporcionam. Toda a zona de
Carvalho de Egas,
Valtorno,
Mourão,
Alagoa e
Candoso estão nestes dias vestidos de
Outono, com cores alaranjadas esperando ser fotografadas.
As “máquinas” estavam a portar-se bem, cheguei rapidamente ao santuário. Procurei um ponto alto. Veio-me à memória a prosa de
Cabral Adão: "os seus olhos pousaram naqueles montes ásperos, eriçados de penedias graníticas, carcomidas de líquenes seculares, donde brotam carrasqueiras secas, zimbreiros, troviscos, giestas e mato bravio. Povoações raras, como o
Gavião, com duas dezenas de fogos, alguma curriça de gado, diluída no tom cinzento da paisagem; e ao longe, como cortina verde parda, a serra do
Reboredo,
Moncorvo poisada a meio, tal ninho de peneireiros cheio de ovos brancos”.

Aproveitando o pouco tempo de sol que ainda restava, segui para
Carvalho de Egas, e daí para
Candoso. A
Fraga do Ovo é um símbolo do concelho. Rodeei-a à procura de um ângulo fotogénico menos gasto. Tenho fotografado inúmeras rochas deste género por quase toda a área granítica do concelho! Obras da natureza, no mínimo, bizarras.

Não perdi mais tempo. Comecei a descer para o centro de
Candoso. Quando levanto os olhos, avisto no cimo da colina a singela
capela de Nossa Senhora da Assunção, já pincelada dos tons laranja do fim da tarde. Estive ali no dia
29 de Janeiro, numa tarde fria. Subi de novo ao
santuário. As sombras já se estendiam pelos pontos mais baixos em redor. Mesmo assim, a paisagem estava bonita. Mais à frente estendia-se o
Vale Covo, que já conheço melhor, até ao
Mogo de Malta. Mais próximo, ainda reflectindo os raios do sol, estava o marco geodésico do
Pelão,
vigiando uma vasta área em redor. Centrei a minha a tenção mais longe, nas serras próximas de
Mirandela. Pouco a pouco cobriam-se com mantas de nuvens tecidas da mais fina lã, com cintilações douradas, misturando os tons quentes com os ares frios.
O tempo escoava-se, tinha que voltar para casa. Num ímpeto, desci à aldeia, que atravessei sem parar, continuando em direcção a Norte, à procura de um caminho desconhecido. Quando me encontrava a pouco mais de um quilómetro da aldeia, de novo num ponto elevado, a vegetação cobriu-se integralmente em tons de vermelho e ouro.

Enfeitiçado, parei e olhei para trás. Uma bola de fogo cobria o cume do
Pelão, espalhando fumo e lava por toda a imensidão do céu e da terra. Todas as coisas mudaram de cor! Só se via negro, amarelo, dourado, vermelho, tudo isto contra um céu que teimava em se manter de azul. Das casas de
Candoso saíam finas espirais de fumo que se espalhavam pelos telhados e invadiam as ruas. Em choque com
tanta beleza, qual estátua de sal, fui registando cada segundo do precioso instante. No pequeno ecrã da câmara digital todo o horizonte resultava num cone vulcânico despejando fumo e fogo, pelo céu e pelo chão, criando um
cenário irreal, assustador, belo e silencioso.
Despertei atordoado, como que de um sonho, pelo ar ainda mais fresco da noite que me ameaçava. Tinha que sair daí imediatamente. Entre voltar para trás, de novo para
Candoso e continuar pelo caminho desconhecido que seguía, decidi pelo mais arriscado, continuar em frente.

A lua já se mostrava por sobre o
Facho e foi ganhando brilho à medida que o sol morria. Via
Samões bem próximo mas, entre mim e a aldeia, estendia-se um longo e profundo vale onde corria a
Ribeira do Vimieiro. Seguindo já com algum nervosismo, encontrei um bonito pomar de macieiras literalmente plantando no meio das rochas. O caminho terminava ali! Voltei para trás, apressadamente e tomei outro caminho, mostrando menos utilização, mas que parecia dirigir-se pela encosta do vale. Senti que a noite chegava rapidamente e eu estava a ser castigado qual mulher de Ló, pelo tempo que passei olhando para trás, enfeitiçado pela beleza dos tons dourados. Quando alguns cães me ladraram, reconheci o local onde me encontrava.
Estava no local das
Olgas, onde há algumas cortes para as cabras. Respirei fundo, dali já me orientava bem. Segui por um trilho que me levou à estrada de
Freixiel, perto da
Redonda. O ar estava fresco, sentia-me bem fisicamente e estava no caminho certo. Encontrei a cadência adequada e deixei-me levar, estrada fora, revivendo a aventura, recordando as cores, “rabiscando” esta história. Só o meu corpo ia sobre a bicicleta, o meu espírito voava, satisfeito.
Quilómetros do percurso em BTT: 26
Total de quilómetros em bicicleta: 1660