
Saí sem destino, pelo trilho que liga Vila Flor ao santuário de S. Cecília. O sol estava quente mas o ar frio! Bastava olhar em direcção a Bragança para descobrir porquê. Lá longe no

Uma paragem aqui, outra paragem ali, fui aproveitando a folhagem outonal que os castanheiros e os carvalhos proporcionam. Toda a zona de Carvalho de Egas, Valtorno, Mourão, Alagoa e Candoso estão nestes dias vestidos de Outono, com cores alaranjadas esperando ser fotografadas.
As “máquinas” estavam a portar-se bem, cheguei rapidamente ao santuário. Procurei um ponto alto. Veio-me à memória a prosa de Cabral Adão: "os seus olhos pousaram naqueles montes ásperos, eriçados de penedias graníticas, carcomidas de líquenes seculares, donde brotam carrasqueiras secas, zimbreiros, troviscos, giestas e mato bravio. Povoações raras, como o Gavião, com duas dezenas de fogos, alguma curriça de gado, diluída no tom cinzento da paisagem; e ao longe, como cortina verde parda, a serra do Reboredo, Moncorvo poisada a meio, tal ninho de peneireiros cheio de ovos brancos”.

Aproveitando o pouco tempo de sol que ainda restava, segui para Carvalho de Egas, e daí para Candoso. A Fraga do Ovo é um símbolo do concelho. Rodeei-a à procura de um ângulo fotogénico menos gasto. Tenho fotografado inúmeras rochas deste género por quase toda a área granítica do concelho! Obras da natureza, no mínimo, bizarras.

O tempo escoava-se, tinha que voltar para casa. Num ímpeto, desci à aldeia, que atravessei sem parar, continuando em direcção a Norte, à procura de um caminho desconhecido. Quando me encontrava a pouco mais de um quilómetro da aldeia, de novo num ponto elevado, a vegetação cobriu-se integralmente em tons de vermelho e ouro.

Enfeitiçado, parei e olhei para trás. Uma bola de fogo cobria o cume do Pelão, espalhando fumo e lava por toda a imensidão do céu e da terra. Todas as coisas mudaram de cor! Só se via negro, amarelo, dourado, vermelho, tudo isto contra um céu que teimava em se manter de azul. Das casas de Candoso saíam finas espirais de fumo que se espalhavam pelos telhados e invadiam as ruas. Em choque com tanta beleza, qual estátua de sal, fui registando cada segundo do precioso instante. No pequeno ecrã da câmara digital todo o horizonte resultava num cone vulcânico despejando fumo e fogo, pelo céu e pelo chão, criando um cenário irreal, assustador, belo e silencioso.
Despertei atordoado, como que de um sonho, pelo ar ainda mais fresco da noite que me ameaçava. Tinha que sair daí imediatamente. Entre voltar para trás, de novo para Candoso e continuar pelo caminho desconhecido que seguía, decidi pelo mais arriscado, continuar em frente.

Estava no local das Olgas, onde há algumas cortes para as cabras. Respirei fundo, dali já me orientava bem. Segui por um trilho que me levou à estrada de Freixiel, perto da Redonda. O ar estava fresco, sentia-me bem fisicamente e estava no caminho certo. Encontrei a cadência adequada e deixei-me levar, estrada fora, revivendo a aventura, recordando as cores, “rabiscando” esta história. Só o meu corpo ia sobre a bicicleta, o meu espírito voava, satisfeito.
Quilómetros do percurso em BTT: 26
Total de quilómetros em bicicleta: 1660
5 comentários:
Olá
...e eu a falar de bruxas. Quais bruxas, qual carapuça... Encantamento! Admiração! Beleza!
Abraço
Esmeralda
Olá,
Muito obrigada pela Beleza, Poesia,Sensibilidade, Generosidade...
Beijinhos de uma transmontana maravilhada.
Olá.
Dás cor ao Reino Maravilhoso de descoberto por Miguel Torga e as Viagens pela Nossa Terra ficam muito mais rica com a tua prosa e interessantes e nós, simples mortais, vivemos assim suspensos destas pérolas com que nos brindas.
Abraço.
Li Malheiro
Olá
Já li uma quantas vezes (e não me canso)!Esta "visão" do real em surreal também motivou grande impacto de escrita. Tens aqui passagens maravilhosas! As fotos são de encantar! Parabéns! Obrigada!
Obrigado, por todos os comentários.
Acontece que, à noite quando escrevo, com 200 ou 300 fotografias à frente, entro numa espécie de transe. Não sei se é mais "saborosa" a viagem se a escrita. Fico contente quando verifico que alguém lê.
Cumprimentos
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