15 julho 2009

Pelos caminhos da serra

Há quase 2 meses que a minha actividade física pelos caminhos do concelho está praticamente parada. Viajar de carro não é a mesma coisa, e, no regresso a casa, há sempre aquela sensação de pouco ter visto. Interessante é viajar a pé ou de bicicleta.
A queda de bicicleta que tive em Abril têm-me levado a descobrir outras coisas, como o sistema de saúde que não existe ou o indiferente atendimento prestado nos hospitais públicos. Não interessa muito falar disso, porque daria um (triste) romance. No Centro de Saúde de Vila Flor fui sempre bem atendido, enquanto andei a fazer curativos ao ombro, o mesmo já não se passou com a médica de família. Depois de esperar um mês e meio pela consulta, quando me atendeu, limitou-se a dizer que o caso não lhe dizia respeito, que consultasse o médico do seguro. Se eu quisesse conselhos jurídicos não ia ao médico! Perece-me que a existência do médico de família pretendia humanizar as relações entre as famílias e os centros de saúde, mas isso não acontece com os médicos que se preocupam demasiado com os seus objectivos estatísticos.
Lamentações à parte, hoje pretendo falar, e mostrar, uma caminhada que realizei no dia 22 do mês passado. Apeteceu-me andar bastante. Algumas horas a ouvir os próprios passos cansa o corpo mas descansa a mente.
Tracei mentalmente o percurso, longo, para durar à volta de seis horas: ir até Samões; descer a Freixiel; passar a serra para o Vieiro; subir a Vilas Boas e regressar a Vila Flor.
Abasteci a mochila com bastante água e alguma fruta e pus-me a caminhar. De início senti algum desânimo, perdi os momentos mais bonitos da Primavera. O que se vê pelos campos é mais um Verão antecipado, com muita, muita falta de água. Aqui, e além, as plantas levam as suas energias ao limite para completarem o ciclo e produzirem as suas sementes.
O caminho é conhecido. Partindo de Vila Flor pela rua do Loureiro atinge-se Samões em poucos minutos entrando na aldeia pela Rua do Cruzeiro, atrás da igreja. Desci ao fundo do povo pela Rua do Salgueiral e segui pelo caminho já tantas vezes percorrido até Freixiel. Os ribeiros estavam secos, os caminhos cheios de pó que mais parecia cinza! Já em Freixiel procurei um bar para me reabastecer de água, mas não antes de mais uma visita à Forca. Estava um calor abrasador. Com a mochila cheia de garrafas de água fresquinha preparei-me para percorrer um troço novo para mim, subir a serra em direcção ao Vieiro. Já estive várias vezes no alto da serra da Feiteira, mas nunca subindo pela vertente virada a Freixiel.
Passei a ribeira da na Ponte do Vieiro. Este nome vem-lhe precisamente por ser a antiga ligação a este lugar, agora praticamente abandonada. Depois de passar o campo de futebol de 11, que não é usado há muito tempo, comecei a compreender a razão porque são poucos os que por aqui passam. A subida é íngreme e esgotante. Valeu-me a sombra de algumas árvores e a água fresca que levava, caso contrário não teria conseguido chegar ao alto da montanha. O caminho pode ser utilizado por tractores ou outros veículos todo o terreno, para bicicleta será um grande desafio. Não é fácil passar dos 340 metros de altitude a mais de 600.
O cansaço não me fez esquecer a razão de estar ali, apreciar a paisagem de Freixiel e e sua evolvente. Não tive coragem de subir ao ponto mais alto, onde se encontra o marco geodésico, mas, mesmo assim, é fantástico tudo o que se avista. São montes e vales cheios de desafios, para outras caminhadas, um nunca acabar de locais interessantes para descobrir.
Do cume a vista alarga-se também para Norte, alcançando outros locais de desafio desde o Faro, o Rio Tua e o olhar perde-se pelo concelho de Mirandela, Macedo quase se conseguindo ver terras de Castela. Mas, mais próximo, quase dormindo de num ninho de giestas e granito está Vieiro. A minha vontade era descer, encosta abaixo, em sua direcção, mas o tempo começava a escassear. Fiz um desvio para Nascente, em direcção à Palhona e à estrada que desce para o Vieiro. Desta forma consegui cortar alguns quilómetros ao percurso e ganhar tempo.
Comecei junto ao enorme cruzeiro que se encontra perto da estrada, um novo troço para mim desconhecido. O objectivo era chegar a Vilas Boas. Não acertei à primeira com o caminho, mas depois de saltar algumas paredes, encontrei finalmente o rumo certo e progredi com facilidade. A certa altura encontrei uma cruz gravada numa pedra. Tenho encontrado vários semelhantes no concelho de Vila Flor e Torre de Moncorvo, mas só dentro das localidades, nas paredes das casas. Despertou-me a curiosidade ver este num local tão descampado. A minha primeira ideia é que tenha algo a ver com o caminho seguido pelos romeiros para o Cabeço. É uma possibilidade. Segui todo o caminho com atenção, mas não consegui encontrar mais nada semelhante.
Eram quase 20 horas quando cheguei a Vilas Boas. Tinha esgotado as minhas reservas de água e de energia. Encontrei um comércio aberto e repus as da água. Lentamente segui pelo caminho que conduz à Fonte de Nossa Senhora. Estavam duas idosas sentadas nos degraus da fonte a repousarem da sua caminhada. Sentei-me junto delas e fiquei a ouvi-las contar recordações de outros tempos, duma época em que a fonte era um dos pontos fulcrais do santuário. A fonte está agora melhor cuidada do que da última vez que ali estive. Incentivado pelas idosas bebi da água milagrosa na esperança que regenerasse as forças para chegar a casa. Já não subi ao santuário. O horizonte já se pintava de ouro quando subi a calçada de granito que nos leva de Vilas Boas. O frontispício da pequena capela parecia ganhar imponência à medida que o sol descia banhando-o com a sua luz cálida.
Guardei a máquina na mochila e concentrei-me no caminho. Já não havia mais luz para fotografias. Junto ao campo de futebol de Vilas Boas encontrei companhia para regressar a Vila Flor. São muitos os que se passeiam de entre Vila Flor e o Barracão, mas alguns chegam mesmo ao Cabeço! Não consegui cumprir todo o percurso que tinha planeado, mas que importa? Foi uma longa tarde de sol.
Percurso:
GPSies - Passeio_Samoes_Freixiel_Vieio_VilasBoas

7 comentários:

JORGE DELFIM disse...

Mas que caminhada!
Deve ser uma caminhada interessante esta que fizeste.
Pois não há dúvida que há muito para descobrir no concelho de Vila Flor, bem como nos restantes à sua volta.
Isto de subir ao cume de uma montanha fascina-me, adora fazer caminhadas do genero, trepar por entre o mato agreste, subir bem alto, perdendo a visão no horizonte.

Temos que combinar um passeio do gênero.

Cumprimentos

Jorge Delfim

Esmeralda disse...

Olá

...a esta hora e, e, neste dia...
repleto de tudo... apenas: MUITO OBRIGADA!!!
Grande abraço, Aníbal
Esmeralda

Valentim Coelho disse...

Tem por aqui umas belissimas fotos, parece que a viajem foi interessante.
Cumprimentos

Carlos Alexandre disse...

Amigo Aníbal!
Parabéns pelo seu excelente trabalho na divulgação do concelho de Vila Flôr.
Faz aquilo que quem de direito, não faz!!
Há já algum tempo que venho seguindo este blogue e, ultimamente não há dia que não venha dar uma espreitadela para ver as novidades. Sim novidades, infelizmente onde ia antes, ao sítio da Câmara Municipal, desapareceu!!!!
E interessa-me tudo que diga respeito ao concelho, porque sou seu "filho" também (do Arco). Só a falta de oportunidades me obrigou a sair, como tantos outros.
Quanto ao breve comentário que faz sobre a sua médica de saúde, que eu até advinho quem seja, pelas respostas que dá, no fundo iguais às que ainda à muito pouco tempo deu aos meus pais, mais concretamente ao meu pai, que felizmente ainda por aí estão. Não fosse eu prontamente aí buscá-lo e estaria com um grave problema de saúde irreversível. Penso que não são lamentações, estes casos devem ser denúnciados... nem que para isso se crie um blogue ou site onde se relate tudo.. eu estaria, ainda que a alguma distância, na linha da frente..
Uma Abraço

Transmontana disse...

Olá,
Acabada de chegar de Vila Flor, onde fui passar uns dias, vim logo à procura das novidades!
A serra de Freixiel para o Vieiro já eu a subi muitas vezes, quando era nova e tinha que ir para a estação de Abreiro, para apanhar o combóio para Mirandela, onde estudei até ao 5º ano. Sei bem o que custa chegar lá ao cimo!
O seu passeio foi bem bom, apesar do cansaço!
Quanto à médica de família, tenho uma história que dava uma boa conversa, e não foi em Vila Flor, foi aqui, em Vila Real...
Cumprimentos
Anita

Anónimo disse...

Caro Aníbal.
Só mesmo tu, fantástico em todos os sentidos.Querer é poder!
Obrigado por Vila Flor, nunca me cansarei de te agradecer, a tua dedicação o teu empenho em causas "limpas", verdadeira homenagem a estas terras e montes que nos viram nascer e crescer.
Ás vezes gostava imitar-te ,um pouquinho que fosse, me faria feliz, mas na verdade tenho ficado pelas intenções.
Resta-me a consolação,das idas ao teu blog, o que faço hoje depois de uma ausência em merecidas férias,sen net ou PC.
Desejo-te o restabelecimento completo.
Quanto á alusão sobre a saúde, resta-me dizer,não tenho boas recordações no que a um familiar recentemente falecido respeita, mas não quero pensar mais nisso.
Abraço amigo
Rui Guerra

Mario disse...

Passei uma semana de férias en Freixiel e eu levei a meu BTT de França. Então andei por estes caminhos descritos neste artigo na direiçao de FREIXIEL-SAMOES-VILAS BOAS-FREIXIEL. Obrigado ainda por este percurso no site GPSies.com !