Há quase 2 meses que a minha actividade física pelos caminhos do concelho está praticamente parada. Viajar de carro não é a mesma coisa, e, no regresso a casa, há sempre aquela sensação de pouco ter visto. Interessante é viajar a pé ou de bicicleta.

A queda de bicicleta que tive em Abril têm-me levado a descobrir outras coisas, como o sistema de saúde que não existe ou o indiferente atendimento prestado nos hospitais públicos. Não interessa muito falar disso, porque daria um (triste) romance. No
Centro de Saúde de Vila Flor fui sempre bem atendido, enquanto andei a fazer curativos ao ombro, o mesmo já não se passou com a médica de família. Depois de esperar um mês e meio pela consulta, quando me atendeu, limitou-se a dizer que o caso não lhe dizia respeito, que consultasse o médico do seguro. Se eu quisesse conselhos jurídicos não ia ao médico! Perece-me que a existência do médico de família pretendia humanizar as relações entre as famílias e os centros de saúde, mas isso não acontece com os médicos que se preocupam demasiado com os seus objectivos estatísticos.
Lamentações à parte, hoje pretendo falar, e mostrar, uma caminhada que realizei no dia 22 do mês passado. Apeteceu-me andar bastante. Algumas horas a ouvir os próprios passos cansa o corpo mas descansa a mente.

Tracei mentalmente o percurso, longo, para durar à volta de seis horas: ir até
Samões; descer a
Freixiel; passar a serra para o
Vieiro; subir a
Vilas Boas e regressar a
Vila Flor.
Abasteci a mochila com bastante água e alguma fruta e pus-me a caminhar. De início senti algum desânimo, perdi os momentos mais bonitos da Primavera. O que se vê pelos campos é mais um Verão antecipado, com muita, muita falta de água. Aqui, e além, as plantas levam as suas energias ao limite para completarem o ciclo e produzirem as suas sementes.

O caminho é conhecido. Partindo de
Vila Flor pela rua do Loureiro atinge-se
Samões em poucos minutos entrando na aldeia pela Rua do Cruzeiro, atrás da igreja. Desci ao fundo do povo pela Rua do Salgueiral e segui pelo caminho já tantas vezes percorrido até
Freixiel. Os ribeiros estavam secos, os caminhos cheios de pó que mais parecia cinza! Já em
Freixiel procurei um bar para me reabastecer de água, mas não antes de mais uma visita à Forca. Estava um calor abrasador. Com a mochila cheia de garrafas de água fresquinha preparei-me para percorrer um troço novo para mim, subir a serra em direcção ao
Vieiro. Já estive várias vezes no alto da serra da Feiteira, mas nunca subindo pela vertente virada a
Freixiel.

Passei a ribeira da na Ponte do Vieiro. Este nome vem-lhe precisamente por ser a antiga ligação a este lugar, agora praticamente abandonada. Depois de passar o campo de futebol de 11, que não é usado há muito tempo, comecei a compreender a razão porque são poucos os que por aqui passam. A subida é íngreme e esgotante. Valeu-me a sombra de algumas árvores e a água fresca que levava, caso contrário não teria conseguido chegar ao alto da montanha. O caminho pode ser utilizado por tractores ou outros veículos todo o terreno, para bicicleta será um grande desafio. Não é fácil passar dos 340 metros de altitude a mais de 600.

O cansaço não me fez esquecer a razão de estar ali, apreciar a paisagem de
Freixiel e e sua evolvente. Não tive coragem de
subir ao ponto mais alto, onde se encontra o marco geodésico, mas, mesmo assim, é fantástico tudo o que se avista. São montes e vales cheios de desafios, para outras caminhadas, um nunca acabar de locais interessantes para descobrir.
Do cume a vista alarga-se também para Norte, alcançando outros locais de desafio desde o Faro, o
Rio Tua e o olhar perde-se pelo concelho de
Mirandela,
Macedo quase se conseguindo ver terras de Castela. Mas, mais próximo, quase dormindo de num ninho de giestas e granito está
Vieiro. A minha vontade era descer, encosta abaixo, em sua direcção, mas o tempo começava a escassear. Fiz um desvio para Nascente, em direcção à Palhona e à estrada que desce para o
Vieiro. Desta forma consegui cortar alguns quilómetros ao percurso e ganhar tempo.

Comecei junto ao enorme cruzeiro que se encontra perto da estrada, um novo troço para mim desconhecido. O objectivo era chegar a Vilas Boas. Não acertei à primeira com o caminho, mas depois de saltar algumas paredes, encontrei finalmente o rumo certo e progredi com facilidade. A certa altura encontrei
uma cruz gravada numa pedra. Tenho encontrado vários semelhantes no concelho de
Vila Flor e
Torre de Moncorvo, mas só dentro das localidades, nas paredes das casas. Despertou-me a curiosidade ver este num local tão descampado. A minha primeira ideia é que tenha algo a ver com o caminho seguido pelos romeiros para o Cabeço. É uma possibilidade. Segui todo o caminho com atenção, mas não consegui encontrar mais nada semelhante.

Eram quase 20 horas quando cheguei a
Vilas Boas. Tinha esgotado as minhas reservas de água e de energia. Encontrei um comércio aberto e repus as da água. Lentamente segui pelo caminho que conduz à
Fonte de Nossa Senhora. Estavam duas idosas sentadas nos degraus da fonte a repousarem da sua caminhada. Sentei-me junto delas e fiquei a ouvi-las contar recordações de outros tempos, duma época em que a fonte era um dos pontos fulcrais do santuário. A
fonte está agora melhor cuidada do que da última vez que ali estive. Incentivado pelas idosas bebi da água milagrosa na esperança que regenerasse as forças para chegar a casa. Já não subi ao santuário. O horizonte já se pintava de ouro quando subi a calçada de granito que nos leva de
Vilas Boas. O frontispício da pequena capela parecia ganhar imponência à medida que o sol descia banhando-o com a sua luz cálida.

Guardei a máquina na mochila e concentrei-me no caminho. Já não havia mais luz para fotografias. Junto ao campo de futebol de
Vilas Boas encontrei companhia para regressar a
Vila Flor. São muitos os que se passeiam de entre
Vila Flor e o
Barracão, mas alguns chegam mesmo ao
Cabeço! Não consegui cumprir todo o percurso que tinha planeado, mas que importa? Foi uma longa tarde de sol.

Percurso: