
Quando eu nasci, as Alminhas já existiam, devo pensar que são tão antigas como o cristianismo? Tudo leva a crer que não. Embora alguns estudiosos ponham a hipótese das Alminhas serem a evolução de pequenos altares que os romanos construíam aos deuses nas encruzilhadas, essa não parece ser a teoria mais aceite. Não há dúvida de que as Alminhas estão relacionadas com o facto de se acreditar que a alma dos justos, após a morte do corpo, terá que suportar algum sofrimento para que se purifique dos pequenos pecados (não capitais) num lugar intermédio, entre a terra e o Paraíso, ou seja, no Purgatório. A existência do Purgatório foi posta em causa por teólogos durante o século XIII e mais tarde por Lutero e Calvino.
A igreja, com sede em Roma, esforçou-se por dar resposta a essa questão em vários concílios, afirmando como verdade a existência do Purgatório e a validação da oração, no Concílio de Trento, no século XVI. Este dogma (o Purgatório existe), despertou nos cristãos uma séria de manifestações de fé com vista à salvação das almas dos seus ante queridos em sofrimento: orações, missas, esmolas, etc. Para ajudar a divulgação da mensagem, não acessível a todos em texto, começaram a ser produzidas gravuras de fácil entendimento, com pinturas apelativas, que tocavam as pessoas com grande facilidade. As tabuinhas com as representações do Purgatório pregadas nas portas das cidades e noutros lugares públicos, espalharam-se durante o século XVIII, a todos os caminhos encruzilhadas e montanhas.

“ó vós que ides passando, lembrai-vos dos que estão penando”
ou com outra mensagem ainda mais forte, apelando à solidariedade:
"Nós penamos e vós zombareis, mas lembrai-vos que como Nós sereis”
Estes humildes monumentos, tão enraizados na tradição portuguesa, têm uma forte implantação em todo o Norte e Beiras de Portugal e na Galiza. Espalhados pelas praças, pelos caminhos, nas encruzilhadas, nas pontes e em todas as saídas e entradas das povoações, as Alminhas eram respeitadas e veneradas por todos, que se descobriam quando por elas passavam, rezavam, colocavam flores, velas e também uma esmola, em caixas metálicas colocadas para o efeito, cravadas nas rochas, com uma grossa chave à guarda de um mordomo.
Com o tempo, o cuidado com as Alminhas foi diminuindo e a sua frágil construção levou à sua deterioração e até destruição. Foi já no século XX, durante a época de 50 que as Alminhas voltaram a ser alvo de uma grande devoção. Os painéis pintados sobre o zinco, a madeira ou a cal, deram lugar a um suporte mais duradouro, o azulejo, policromado ou de uma só cor (azul). Como muitas vezes acontece, a ânsia do novo e brilhante leva à substituição de exemplares representativos por trabalhos mais modernos, vistosos e duradouros, mas de fraco valor artístico e histórico. Entretanto, alguns foram caindo no esquecimento, até aos nossos dias.

As fotografias representam alminhas em Assares, Vila Flor (perto da barragem Camilo Mendonça) e Macedinho.
7 comentários:
Muito esclarecedor o trabalho sobre a origem das Alminhas que são manifestações de fé do nosso povo!!!
Gostei muito!
Cumprimentos
Anita
Parabéns Aníbal primeiro pela ideia e depois pela interessantíssima proposta que é essa de inventariar as alminhas do concelho, manifestações de pé-de-estrada de um ancestral culto dos mortos encriptado na representação do purgatório e no sufrágio das almas . Ficamos todos em dívida consigo por mais este trabalho e votos de que o leve até ao fim . Abraço do
Daniel de Sousa
Olá Aníbal,
gostei do que escreves-te pois também me
interesso sobre o tema.
Podes saber mais sobre este tema no livro:
Ribeiro, A.A., 2004.As gentes do douro vinhateiro: tradições e manifestações religiosas. Universidade do Minho. na página 137.
O livro está disponivel no formato electronico no site
http://repositorium.sdum.uminho.pt/
Cumprimentos
Obrigado Valentim, pela dica. Já dei uma espreitadela e descarreguei toda a Tese para uma análise mais profunda mais tarde. Até porque trata também outros temas muito interessantes, do minho, mas que não são muito diferentes em trás-os-montes.
Olá sr. Daniel, vejo que se tornou um visitante assíduo de vários À Descoberta. Tenho muito gosto em receber a sua visita neste humilde Blogue.
A Trasmontana, "cliente" primeira das minhas escritas pelas noites longas, saiba que, quando não me visita, sinto muito a falta do seu sinal.
Ó Aníbal, fiquei tão emocionada com as suas palavras!!!
Logo que me levanto, venho ao computador, ver o "À descoberta..."
Se não escrevo sempre, é porque tenho medo de me tornar aborrecida...
Mas não passa nada que eu não veja!!!
Este blog já é um pouco do oxigénio que respiro...
Faz-me muito bem.
Obrigada por tudo.
Cumprimentos
Anita
Gostei desta aula sobre as "Alminhas"
Gosto muito das suas histórias, obrigada por me esclarecer dúvidas das quais eu tinha em relação a minha terra natal.
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